Em 2 de novembro de 1864, atendendo aos anseios da população, à legislação imperial e aos preceitos higiênicos vigentes, o Cemitério Municipal foi inaugurado. Como já discutido no capítulo 2, o campo santo alterou radicalmente as relações da população com a morte. Em meio a essas mudanças, surgem os marmoristas Joaquim José Pereira e Antônio Soares da Costa como os primeiros a se dedicarem à venda de arte funerária, um serviço até então inexistente na região.
Não conseguimos precisar exatamente o ano da abertura do negócio, mas sabemos que já existia desde pelo menos a década de 1870, quando anúncios a respeito do serviço destes marmoristas foram publicados no “Jornal Pharol”. Presume-se que Joaquim e Antonio, donos da marmoraria Pereira & Costa, não eram escultores, ou algo similar a isto, mas comerciantes de mármore com conhecimentos básicos de entalhamento e de corte de rochas. Eles eram capazes de executar trabalhos mais simples, que demandavam pouca aptidão artística ou treinamento especializado.
A hipótese dessa falta de especialização se sustenta no anúncio reproduzido a seguir, e também, se a partir dele, pensarmos que a obra funerária publicizada era relativamente simples, porém ainda assim, não foi confeccionada em sua marmoraria. Todos os sucessores de Joaquim e de Antônio no ramo seriam facilmente capazes de executá-la, mas o jazigo de Dona Francisca Angélica de Moura veio da corte ou da Itália, conforme divulgado em outubro de 1876 no “Jornal
Pharol”:
PEREIRA & COSTA COM OFFICINA DE MARMORES
encarregão-se de fazer todo trabalho, pertencente a sua arte; ou de mandar vir de fóra, da Côrte ou da Itália assim como já se mandou vir o monumento de D. Francisca Angelica de Moura, que está no cemiterio de Juiz de Fóra, e esperamos em breve um sortimento de marmore em bruto e trabalhos já feitos, e desenhos diversos trabalhos para quem quizer escolher; JUIZ DE FORA - RUA DO IMPERADOR.63
Ao observarmos a obra, vemos que se trata de uma representação de uma mãe com um bebê no colo e uma criança junto a ela, de pé, a representação é uma alegoria da caridade. Na base da obra temos inscrições em alto-relevo que trazem informações sobre data de nascimento e de falecimento de Francisca (Figura 10):
Figura 10 – Obra sobre o jazigo de Francisca Angélica de Moura, falecida em 1876; Cemitério Municipal de Juiz de Fora – Ala Velha.
Fonte: Foto do Autor – 2013.
Apesar da possível descaracterização que a sepultura sofreu, devido a posteriores inumações de familiares, como podemos observar, a rocha é um mármore de Carrara, o que por si só já demonstra que a matéria-prima foi importada da Itália, mas não sabemos se foi talhada neste país. Porém, é importante destacarmos que, em termos de arte funerária nacional, isso não lhe confere excepcionalidade, uma vez que o uso do mármore italiano era extremamente comum, compondo boa parte das sepulturas de cemitérios pelo Brasil neste período64.
Provavelmente, esta marmoraria se beneficiou da chegada da ferrovia a Juiz de Fora, o que aconteceu em 1875. Consideramos que, apesar da rodovia União & Indústria, ligando Juiz de Fora a Petrópolis, ter facilitado em grande medida
64 Chegou-se a essa conclusão após visitas presenciais ou virtuais entre os anos de 2014/2015 aos
cemitérios: Bonfim em Belo Horizonte-MG, Santa Casa e Evangélico em Porto Alegre-RS, São João Batista e Caju no Rio de Janeiro-RJ, São Francisco de Paula em Pelotas-RS e Consolação em São Paulo-SP.
o transporte de produtos e pessoas, é difícil imaginar que, antes da linha férrea alcançar o município, fosse fácil trazer produtos em grande escala, tais como rocha bruta nacional e/ou importada, a qual é frágil e pesada (GIROLETTI, 1988, p. 35). A hipótese também se sustenta no fato de que algumas sepulturas feitas, possivelmente antes de 1875, conforme as referências das inscrições lapidares, foram confeccionadas apenas em cimento.65
Através de um levantamento fotográfico de túmulos na Ala Velha, feito para esta dissertação, identificamos que muitos jazigos do século XIX não têm o autor da obra. Curiosamente, apenas a sepultura de Francisca Angélica de Moura, a falecida supracitada, contém o nome da oficina de Pereira & Costa e parece ter sido a única obra anunciada por eles também no “Jornal Pharol”. Não podemos afirmar, com exatidão, quais outros túmulos foram por eles confeccionados e, por isso, optamos por não lhes atribuir nenhum outro.66
Após elencados esses fatos, concluímos que esta oficina deveria comprar quase todas as obras por ela vendidas. Tais trabalhos vinham do Rio de Janeiro e/ou do exterior. Eles ficariam, então, enquanto responsáveis por apenas dar os acabamentos finais e mais simples, como grafar nomes e datas em alto e baixo- relevo, realizar outros detalhes talhados, cortar e colar as peças, entre outros.
Em 1878, Antônio Soares da Costa anunciou que viajaria para a Europa e lá ficaria por período indeterminado e, por isso, gostaria que seus credores lhe procurassem a fim de saldar eventuais dívidas. Antônio também avisa que a parte que lhe cabia no negócio ficaria então toda a cargo de seu sócio Joaquim José Pereira. Após a dissolução da sociedade, encontramos alguns anúncios da marmoraria neste mesmo ano, agora a chamada era: “Joaquim Pereira – Oficina de Mármores”.67
Sabemos que a marmoraria funcionou até 1896, pois há registros sobre o negócio no livro de pagamento de Impostos de Indústria e Profissões.68 Após esse ano, nada mais foi localizado, e não sabemos, assim, se o negócio foi encerrado ou se Joaquim Pereira veio a se mudar de Juiz de Fora ou a falecer.
65 Conforme observamos em visita ao Cemitério Municipal.
66 Esta análise ficou parcialmente prejudicada porque muitos jazigos foram demolidos,
descaracterizados ou vandalizados ao longo dos anos.
67 Pharol, 23/08/1877.
3.3 Os Italianos e as Marmorarias