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RESULTS AND DISCUSSION

Dans le document The use of non-conventional water resources (Page 189-196)

PART THREE NON CONVENTIONAL WATER RESOURCES : NORMS FOR REUSE

RESULTS AND DISCUSSION

Enquanto os primeiros estudos foram desenvolvidos na América do Norte e Europa, em meados dos anos de 1960 e 1970, em países de “primeiro mundo” desenvolvidos, com a população participativa, cujas condições materiais estavam razoavelmente satisfeitas (AULER; BAZZO, 2001), temos na América Latina a abordagem da temática por meio do chamado “Pensamento Latino-americano de Ciência, Tecnologia e Sociedade” (PLACTS) (DAGNINO; THOMAS; DAVYT, 1996), com autores como Oscar Varsavsky, Amílcar Herrera, Jorge Sábato, Máximo Halty e Marcel Roche como principais expoentes (VON LINSINGEN, 2007).

Em busca de instrumentos e caminhos para o desenvolvimento do conhecimento científico e tecnológico regional, os objetivos do PLACTS consistiram em tornar C&T objetos de estudo público. Isso porque os estudos de C&T tidos como processos sociais ligados às estratégias de desenvolvimento social e econômico, dependentes de um determinado contexto, compartilhando a perspectiva CTS de não- neutralidade e não-universalidade das abordagens europeia e norte-americana, poderiam resultar em uma forma de abordar e até solucionar os problemas sociais (VON LINSINGEN, 2007).

Entretanto, a dependência de tecnologias de outros países durante o processo de produção de conhecimento científico na América Latina (KREIMER, 2007) gerou questionamentos sobre o papel principal do PLACTS ser o de criticar o determinismo e a neutralidade da ciência (DAGNINO, 2016).

Considerando os países da América Latina, principalmente o Brasil e seus fatores históricos, sociais, culturais, políticos e econômicos diferentes, bem como sua luta pelo desenvolvimento social e econômico, podemos afirmar que o PLACTS difere dos estudos desenvolvidos nos contextos europeu e norte-americanos.

Nos países periféricos, ou seja, países subdesenvolvidos na periferia do capitalismo, como é o caso dos países latino-americanos, Dagnino (2016) afirma que as Políticas para o Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia (PCT) são implementadas em função de um contexto econômico-social e político periférico no qual estão inseridos, contexto esse diferente dos países europeus e norte- americanos. Entretanto, justificadas pela concepção da neutralidade da ciência e pela funcionalidade da tecnociência, as PCT tendem a servir aos valores e interesses do capital, mesmo quando elaboradas por governos de esquerda, visto sua influência nas mudanças tecnológicas e a formação dos profissionais pesquisadores.

A submissão frente às necessidades capitalistas é destacada pelos fundadores do PLACTS ao abordarem a diferença da pesquisa e desenvolvimento científico (P&D) por empresas privadas nos países latino-americanos e nos países desenvolvidos. Nos países da América Latina, a responsabilidade pela produção científica fica, em grande parte, a cargo das universidades públicas que, muitas vezes postas a serviço das empresas privadas, tem o papel de suprir suas demandas. Dessa forma, diferentemente de grande parte das empresas de países da América do Norte e Europa que investem no desenvolvimento de tecnologias de acordo com suas necessidades, nos países periféricos, segundo os fundadores do PLACTS é que existem “três bons negócios com tecnologia: roubar, copiar e comprar...; e nenhuma empresa ou país irá desenvolver tecnologia se puder realizar um desses três” (DAGNINO, 2016, p. 53).

Segundo Dagnino (2016), o Brasil se enquadra no terceiro caso, ou seja, compra tecnologia em vez de desenvolvê-la, devido à baixa propensão de haver mudanças significativas no plano político e econômico para aumentar o potencial técnico-científico para realizar P&D. O atraso no desenvolvimento científico no contexto brasileiro está relacionado ao seu passado colonial pois, enquanto os países

se desenvolviam frente ao avanço do capitalismo, nosso país estava à mercê da metrópole portuguesa (AULER; BAZZO, 2001). Esta situação se agrava no momento político atual do Brasil, no qual os cortes de verba da pesquisa e do desenvolvimento, bem como do ensino superior, têm acarretado a estagnação nas pesquisas básicas e aplicadas, resultado dos anseios sociais por regressão moral e por uma falsa ideia economicista que guiou as eleições presidenciais de 2018.

A exploração colonial foi tão eficiente que, enquanto a revolução científica dos séculos XVI e XVII acontecia na Europa, o Brasil permaneceu estagnado ao papel de colônia marcada pela exploração do homem pelo homem, regida pelo modelo econômico agroexportador, e posteriormente pelo regime escravocrata. Podemos verificar como esta cultura colonial ainda se perpetua, ao verificarmos que o Brasil é um país basicamente agrícola, extrativista e cuja indústria se concentra na produção primária têxtil e alimentícia e na venda a baixo custo de tais produtos, ao passo que precisamos importar a altos preços a tecnologia de países ricos (AULER; BAZZO, 2001).

Assim, o processo tardio de industrialização brasileira não incentivou P&D nem a capacitação técnica nacional, uma vez que, para seus propósitos imediatistas, a importação de tecnologias e mão de obra especializada se tornou mais viável. Foi no período pós Segunda Guerra Mundial que temos os primeiros incentivos para estudos brasileiros no campo de energia nuclear, principalmente com a criação de um órgão patrocinador de pesquisas, o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), em 1951 (AULER; BAZZO, 2001).

Nesse cenário dos primórdios do desenvolvimento de C&T, a partir da década de 1960, Auler e Bazzo (idem) destacam eventos importantes, como a fundação da Universidade de Brasília, a criação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Fundo do Desenvolvimento Técnico-Científico (Funtec), sendo o último resultado do Programa de Metas do governo vigente, de Juscelino Kubistchek, em 1964. Entretanto, apesar de compreenderem a necessidade de uma participação mais ativa de empresas nacionais no P&D, relação entre o governo brasileiro e a comunidade científica foi conturbada, com pouco ou nenhum diálogo sobre as questões científicas (CARVALHO; MARTINS, 1998).

Contudo, mesmo com os esforços do governo em trazer os cientistas brasileiros de volta, por meio de propostas de melhoria de condições de trabalho e remuneração, o momento histórico era de tensão, frente ao período de Ditadura Militar. Com a

publicação do Ato Institucional (AI5), em 1968, importantes cientistas e intelectuais da época foram cassados ou aposentados compulsoriamente, sob justificativa de eliminar quaisquer formas de dissenso (corrupção, comunismo, subversão) visando inserir o país “no campo da democracia ocidental e cristã” (FICO, 2004, p. 34).

A despeito do contexto marcado pela marginalização da produção nacional de C&T, a abordagem latino-americana emerge em distintos campos do saber e das políticas públicas como uma reação ao modelo hegemônico que as relações entre C&T acontecem no contexto social. Já no campo educacional, mostra-se presente por meio das abordagens alternativas de C&T e em discussões no ensino básico e superior, influenciadas pelos ECTS (VON LINSINGEN, 2007).

Os estudos CTS emergiram na América Latina com força na década de 1990, com grande influência dos trabalhos de autores espanhóis e portugueses. Com o intuito de analisar as políticas públicas em C&T, Vacarezza (1998) destaca nomes importantes como Jorge Sabato, Amilcar Herrera, César Varvavsky, Máximo Halty, Francisco Sagasti, Osvaldo Sunkel, Marcel Roche, José Leite Lopes e Miguel Wionseck. E dentre os primeiros trabalhos, encontramos um panorama geral de 1984 até 1994, dos pressupostos teóricos de CTS, bem como dos projetos que envolviam a renovação do currículo de Ciências publicada por Garritz em 1994 (MARTÍNEZ PÉREZ, 2012).

Martínez Pérez (2012) também destaca a importância da Organização de Estados Ibero-americanos (OEI) na divulgação de estudos CTS por meio de uma sala de leitura Ciência, Tecnologia e Sociedade mais inovação (CTS+i), pela Revista Ibero- americana em Educação e pela formação de professores em cursos sobre CTS. Segundo o autor, uma edição especial da revista foi dedicada para a discussão de questões sobre CTS no contexto ibero-americano, porém de oito (8) artigos publicados, apenas dois (2) eram de autoria de pesquisadores da América do Sul. Essa questão reforça que, apesar dos diversos autores, os estudos sobre CTS no ensino de Ciências na América Latina ainda eram bastante escassos, carecendo de maiores esforços para conseguir abranger a problemática vivenciada pela sociedade local.

Nosso contexto latino-americano caracterizado por diferenças sociais limitantes ao acesso de bens materiais e culturais, a grande parte da população apresenta a chamada “exclusão da modernidade” (MARTÍNEZ PÉREZ, 2012, p. 21), visto que muitos não têm acesso à C&T e seus benefícios. Existe também certa desconfiança

da população em relação ao desenvolvimento de C&T, por serem importadas de outros lugares e não serem produzidas regionalmente. Tudo isso implica na necessidade de um ensino de Ciências com enfoque CTS por meio de uma abordagem problematizadora, preocupada com a formação crítica dos cidadãos, para que o mesmo possa ser encorajado a discutir publicamente as implicações de C&T na sociedade, política e meio ambiente.

A discussão sobre C&T como uma construção social complexa e a importância da formação de sujeitos críticos que interferem na sociedade tem sido alvo de discussões em trabalhos de diversos autores latinos, como Auler (2001), Auler e Bazzo (2001), Carvalho e Lopes (2012), Lopes (2010; 2013), Martínez et al. (2006), Mion, Alves e Carvalho (2009), Rodrigues de Carvalho (2019), Santos (2001), Santos e Mortimer (2001), entre outros. Entretanto, por estarem inseridos em diferentes contextos sociais, existem abordagens distintas sobre como desenvolver o ensino de Ciências com enfoque CTS, como apresentaremos a seguir.

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