Article 2: “Influence of the lipophilic external phase composition on the preparation and characterization of xylan microcapsules: A Technical Note”
3. Results and discussion
A análise das considerações dos entrevistados sobre o desemprego e os momentos em que estiveram sem vínculos empregatícios, revela os sentidos atribuídos ao desemprego e à condição de desempregado. Atribuições como desocupado, uma pessoa desacreditada, insegura, que não possui nada, que não tem condições de manter sua família, que não tem solução, sem dinamismo e com poucos estudos foram relatadas ao tratar sobre o assunto.
Assim, apesar de somente um entrevistado não ter ficado sem vínculo empregatício após a demissão da empresa, apenas dois deles se identificaram como desempregados. Compreendem que vivenciaram ou estavam vivenciando período sem vinculação formal de emprego, e isso os caracterizou como desempregados, assim como as vivências negativas associadas à situação. O único participante que não tivera um momento de desemprego formal relatou que apesar disso sentiu-se inseguro pela mudança ocorrida em sua vida e por isso se aproximava da experiência de desemprego:
atualmente estou desempregado (Bruno). desempregado pra mim é pessoa que... que não tem nada na vida né, procura, ela não não tem solução pra nada daí (Eduardo).
não me senti, é... exatamente desempregado, mas de certa forma inseguro por ter que recomeçar a vida profissional, parece... é esse o sentimento, ter que recomeçar a vida profissional e até numa outra área que causa um impacto assim razoável na vida (Daniel).
Outros não se colocaram nessa posição, por entender que a situação compreende uma pessoa desocupada, sem trabalho, sem perspectivas de conseguir um emprego ou empreender uma atividade autônoma. Identificar-se com o desempregado seria como menosprezar e subjugar sua capacidade de encontrar uma saída para a demissão:
se eu pensar que eu... que eu sou desempregado né, tipo assim, ou que, sei lá, o correto seria até eu estou desempregado né, mas eu digo eu estou no mercado porque... assim, de um momento pro outro eu posso tá sendo chamado e... né, tipo assim, sempre tem aquele processo em andamento
(Carlos).
se eu falar que eu estou desempregado e começar a pensar que sou desempregado aí parece que a coisa começa a jogar contra né, [...] eu acredito em mim, eu acho que eu acreditando em mim faço com que as pessoas que conversam comigo acreditem em mim também (Carlos).
Com o desemprego, a rotina dos sujeitos mudou de forma significativa. A ocupação do tempo ocioso, buscando criar uma nova rotina, acaba por ser uma preocupação constante. A realização de atividades de lazer, tarefas domésticas, trabalhos autônomos e voluntários, além da dedicação à nova carreira, foram algumas saídas encontradas pelos entrevistados para ocupar o tempo e conseguir algum dinheiro para se manter:
tem hora que tu levanta assim fala, “pô, quê que eu vou fazer hoje né?”, tem que ficar lá pensando o que fazer (Carlos).
eu tentei manter uma rotina de atividades que pudesse suprir essas horas de ociosidade né, tentando assim, não ficar, é, não entrar em estresse, em depressão, em algum tipo de... fator assim com um certo risco de é... emocional, então como eu já estava em atividade de aulas, aquilo me amenizou a situação (Daniel).
procurei fazer algumas tarefa, mas assim autônomo né ,como dizem o pessoal né, um bico ali, um bico aqui até achar de volta onde as porta abria (Eduardo).
Mascarenhas (2008) também identificou a mudança na rotina dos executivos demitidos e a preocupação em preencher o tempo vazio, e o recurso mais utilizado foi a procura por um novo emprego ou a
construção de um novo trabalho como autônomo. Neste estudo, porém, os entrevistados apresentaram maior preocupação em lidar com o tempo ocioso, não somente como forma de encontrar uma nova ocupação profissional, mas principalmente para não sentirem o vazio deixado pelo emprego no Grupo H.
Vivenciar o desemprego é uma situação que gera insegurança devido à falta da regularidade financeira e imprevisibilidade do tempo de permanência sem emprego. Por isso, alguns entrevistados pareceram demonstrar um sentimento de impotência frente ao rumo de suas vidas, ao se colocarem em uma posição de dependência dos empregadores para que possam sair da situação. Surgem também questionamentos referentes à capacidade profissional afetando a possibilidade de se reinserir no mercado, o que indica uma culpabilização pela situação de desemprego e pela dificuldade de inserção no mercado, como referido por Antunes (1999b) e Coutinho e Jacques (2004):
é ruim, lógico, não tá trabalhando, se o cara tá aplicando em bolsa, tem gente acha que o cara tá vadiando aí, porque não entende como é que funciona (Bruno).
a gente acaba se questionando muito né, faz uma reflexão muito grande tipo, ‘poxa, será que eu tô com, com o direcionamento correto, com o posicionamento correto, será que, será que a escola que eu passei será que realmente é a melhor escola, não é, será que é, ajuda ou prejudica’, fica um monte de indagações que vão surgindo (Carlos).
foi muito difícil pra... porque eu tinha um salário bem... assim que dava pra manter bem a casa, [...] a minha esposa e os 2 filhos, dava de vivê bem, né (Eduardo).
Assim como compreendido por Freitas (1999), entendo que o emprego no Grupo H criou uma realidade, com um conjunto de valores e crenças, idealizado pelos sujeitos e que conformou suas identidades. Essa realidade quebrada pela demissão fez com que os entrevistados perdessem todo um esquema de referências que validavam suas identidades como trabalhadores e profissionais. Por consequência, todas
as outras identidades construídas pelos sujeitos são abaladas, pois estavam relacionadas ao papel de trabalhador.
Conforme colocado por Freitas (1997), pelo processo de aniquilamento os sujeitos são impossibilitados de reconhecimento por si e pelos outros como trabalhadores fora da empresa que constituiu a realidade onde essa identidade era validada. Como já não mais fazem parte da realidade da empresa, necessitam reorganizar suas identidades sem a vinculação aos seus valores. Encarar o mundo fora da empresa com o mesmo quadro referencial utilizado pela organização causa estranhamento e inadequação à nova realidade. Obviamente que aceitar a identificação com a posição de sujeito desempregado é difícil, ainda mais para incorporar um papel estigmatizado pela sociedade. A insegurança e a impotência se manifestam devido à dificuldade de rearranjar suas identidades de acordo com a nova situação vivenciada.
Demitidos, os sujeitos perderam um conjunto de referências importantes para suas identidades, que assumiu papel destacado em suas vidas e conformou suas identidades, não só a de trabalhador, mas todos os outros papéis assumidos como pai, marido, amigo, etc. Segundo Costa (1987), “o trabalho não vale apenas pelo que representa enquanto meio de sobrevivência. Ele possui outro valor, o de assegurar ao sujeito a posse de um predicado que o torna humano como os outros homens” (p. 21), assim o trabalho, por meio do emprego, é compreendido como legitimador de sua existência e de suas identidades. Desse modo, a privação do trabalho impossibilitaria a legitimação das identidades do sujeito. Para Costa (1987), assumir certas identidades significa adotar certos padrões de sentimento e comportamento e excluir outros que contradizem a norma aceita. Significa aceitar uma normatização que delimita o que é e o que não é ser um pai, marido, trabalhador, cujas normas são conformadas pela cultura e suas instituições, como a empresa, e incorporadas como constituintes da identidade psicológica dos sujeitos. Assim, a pessoa sofre ao lidar com situações que confrontem essas normas e compreende como doença viver a margem delas. Entendo que pela demissão os sujeitos são posicionados fora das normas que determinam sua identidade de trabalhadores, e as identidades são postas em questão, o que gera a instabilidade de todas as posições de sujeito assumidas ao longo de sua vida. Não sendo mais reconhecido pelo grupo e por si como empregado e trabalhador, o que lhe resta?
Assumir a identidade de desempregado não está nos planos, pois é um papel estigmatizado pela sociedade e por eles mesmos, e não era uma opção considerada existente quando estavam na empresa. A
insegurança e a negação da identidade de desempregado advêm do estigma que essa identidade carrega pela situação de medo criada pela empresa ao longo dos anos sobre essa posição e a vida fora da empresa. Para os entrevistados, o Grupo H possuía defeitos, mas era o melhor lugar para estar, fornecia segurança face às incertezas do mundo fora da empresa. O medo do desemprego e suas fragilidades fizeram com que aceitassem, como eles mesmos referenciam, a “prisão” da empresa. Descartados, não são mais parte do Grupo H e perdem uma referência central de suas identidades, nem desejam se identificar com algo que causa o sofrimento de que tanto fugiram e que lhes nega a identificação com a identidade de empregado.
No entender de Goffman (1988),
um indivíduo que poderia ter sido facilmente recebido na relação social quotidiana possui um traço que pode-se impor a atenção e afastar aqueles que ele encontra, destruindo a possibilidade de atenção para outros atributos seus. Ele possui um estigma, uma característica diferente da que havíamos previsto (p. 7).
Dessa forma, compreendo que os entrevistados, ao demonstrarem dificuldade em se assumirem como desempregados, em algum momento após a demissão procuraram não reconhecer o estigma do desemprego para os outros e para si, pois esse atributo (falta de um vínculo empregatício) os colocaria à margem do grupo de pessoas empregadas, negaria a identidade de trabalhador que construíram ao longo de sua trajetória no Grupo H e impossibilitaria serem aceitos novamente neste grupo como iguais.
Tolfo, Philipi, Grandi, Picinin e Noernberg (2004) comentam que o sujeito desprovido de trabalho formal “reconhecido socialmente é desqualificado e experimenta os mais diversos sentimentos de exclusão. Muitos introjetam a morte social” (p. 252). Compreende-se, então, que o desemprego carrega consigo sentidos construídos socialmente e em desacordo com a identidade que os sujeitos construíram. Como eles mesmos colocaram, o desempregado é considerado alguém “fracassado, desocupado, vadio”. Segundo Pagès et al. (1987), a empresa impõe a ideologia do sucesso e com isso uma carreira irreal e real ao mesmo tempo. Irreal à medida que é ambicionada, mas sem ser atingida por completo, e real por produzir os efeitos e privilégios do poder. Assim, os
sujeitos estão fadados à vencer tendo que abdicar de sua vida para conseguir o sucesso. Ao perder o emprego, identificar-se como desempregado seria o mesmo que identificar-se como fracassado.
Caldas (2000) ressalta esse sentimento de fracasso psicológico como passível de ocorrer com os indivíduos que construíram suas carreiras profissionais assentadas sob a lógica de empresas como descrito acima, onde havia grande importância conferida ao status e aos privilégios outorgados pelo emprego. O autor, porém, compreende que os sujeitos não são passíveis no processo de identificação com a empresa e que acabaram por aceitar essa condição. Como identificou Tolfo et al. (2004), a desvinculação do emprego pode ser “percebida como uma vivência psicológica difícil para os sujeitos, uma vez que as relações formais de trabalho norteiam a identidade pessoal e profissional” (p. 252). Schirato (2000), em seu estudo sobre a identificação dos trabalhadores com as organizações e suas implicações para a subjetividade, considera que o sujeito desprovido do emprego depois de ter aderido integralmente a uma empresa e se sujeitado as suas políticas, sente-se perdido quando, fora desse contexto, não reconhece a si e aos outros e necessita trilhar agora um caminho de redefinição da sua vida. Entendo que essa redefinição está assentada na reconstrução de suas identidades nesse novo momento sem o vínculo com a empresa.
Os depoimentos dos sujeitos sobre o desemprego corroboram a centralidade assumida pelo trabalho, na forma de emprego, na constituição de suas identidades, como apontado por Costa (1987), Ciampa (1987, 1993), Coutinho et al. (2007) e Codo et. al. (1993). A falta do vínculo com a empresa acarreta sofrimento e sentimento de perda de identidade. Os caminhos trilhados para reconstruir suas identidades como trabalhadores foram a busca pela recolocação no mercado de trabalho formal, o emprego em outras empresas, o desenvolvimento de trabalho precarizado e autônomo, como veremos a seguir.