Por muito tempo atribuiu-se o sucesso da Eneida exclusivamente por esta fazer uma “propaganda” do princeps Otávio Augusto. Além de realçar a história de Eneias e fazer do herói o fundador de Roma, Virgílio ainda relaciona a genealogia de Eneias com a gens Iuli, o que torna
Otávio Augusto descendente do primeiro romano. Essa posição é de fato interessante e o discurso torna ainda mais legítimo a posição do princeps. Porém, podemos nos perguntar até que ponto a obra se fez como uma propaganda ou legitimação do poder de Otávio Augusto.
Cabe destacar que ainda na antiguidade pensava-se que o objetivo da Eneida era simplesmente imitar as obras de Homero e fazer um elogio à figura de Otávio Augusto (CONTE, 1999, p. 276). Até meados do século XX essa percepção pouco se alterou. A historiografia creditava, em parte, o sucesso do reinado de Otávio Augusto à Eneida, que fora utilizada desde o seu “nascimento”, em 19 a.C., na educação do cidadão romano, sendo esta mais uma forma de controle e justificativa moral para o poder estar concentrado nas mãos de uma única pessoa. Analisando a vida de Virgílio, Pierre Grimal questiona essa visão historiográfica e tenta pensar na capacidade de decisão do poeta, colocando-o como um indivíduo autônomo e de capacidade de decisão, não apenas como um ser passivo e obediente a seu mecenas. Segundo o historiador:
Virgílio, ao escrever a Eneida, não traíra as suas próprias convicções; ele permanecia fiel à mística cesarista que animava já a Écloga de Dáfnis, e é talvez por isto, por causa desta profunda sinceridade, que ele tão bem serviu as intenções de Augusto e contribuiu para fornecer tão sólidos fundamentos espirituais ao regime imperial (GRIMAL, 1992, p. 64). Tal concepção abre um novo olhar sob a figura de Virgílio: não é mais um mero copiador, ou bajulador, pronto a fazer o que lhe foi mandado, mas sim um ser com liberdade de critério e que fora mais guiado por suas convicções do que influenciado ou comprado para realizar uma obra por encomenda. Esses elementos nos permitem pensar sobre a capacidade de agência do poeta, dando- lhe poder dentro de suas ações. Uma evidência desse poder dentro de suas ações é apresentada na própria obra, quando o mantuano agencia diversos elementos fora da cultura romana para chegar ao cerne de sua narrativa, como podemos ver nos trechos analisados nos próximos capítulos. Contudo, o debate historiográfico acerca da posição de Virgílio (ora o propagandista, ora um poeta fiel às ideias de Otávio) continua e, por diversas vezes, percebemos uma tendência ao analisar a Eneida apenas como uma mera propaganda.
Visando aportar nessa discussão, concordamos com a posição apresentada por Grimal e buscamos pensar a posição de Virgílio enquanto indivíduo a partir da teoria da estruturação de Anthony Giddens. Segundo o autor:
Na teoria da estruturação, considera-se “estrutura” o conjunto de regras e recursos implicados, de modo recursivo, na reprodução social; as características institucionalizadas de sistemas sociais têm propriedades estruturais no sentido de que as relações estão estabilizadas através do tempo e do espaço (GIDDENS, 2013, p. XXXV).
Na visão do sociólogo, a estrutura é composta, basicamente, de normas e regras sociais impostas, direta ou indiretamente, pelas instituições sociais. Dessa maneira, a cultura, enquanto elemento social, também faria parte dessa estrutura, uma vez que passa pelo crivo das instituições. Podemos entender, dessa maneira, como o controle “espiritual” feito por Otávio Augusto amplia seu domínio dentro da estrutura romana, uma vez que a faz a partir de elementos culturais. Dessa maneira, o controle dos indivíduos estaria assegurado pela estrutura social. Entretanto, outro conceito mostra-se útil dentro da teoria do sociólogo, na qual o denomina de agência:
Admite-se com frequência que a agência humana só pode ser definida em termos de intenções, ou seja, para que um item de comportamento seja considerado uma ação, é preciso que o realizador tenha a intenção de o manifestar, caso contrário o comportamento em questão é apenas uma resposta reativa. (...) “Agência” não se refere às intenções que as pessoas têm de fazer as coisas, mas à capacidade delas para realizar essas coisas em primeiro lugar (sendo por isso que “agência” subentende poder) (GIDDENS, 2013, p. 9- 10).
Giddens aborda a agência humana como uma ação prática capaz de causar mudanças na estrutura. Nesse sentido, a relação entre agência e poder apresenta-se como lógica dentro de um mecanismo social que é a teoria da estruturação. Em linhas gerais, a estrutura (no papel de instituições) usaria seus mecanismos para ter uma reprodução social desejada dos agentes (indivíduos). A agência, ou seja, a ação prática social dos agentes, poderia causar mudanças na estrutura. Para Giddens, a dualidade estrutura-agência alimenta e dinamiza a sociedade, transformando as relações sociais equilibradas. A contribuição mais clara dessa teoria social é, ao nosso olhar, a capacidade de autonomia dos indivíduos em suas ações, sendo elas resultado de sua experiência individual e também social, e não apenas uma relação de controle e dominação de uma classe sobre outra. Sobre essa análise sociológica, Giddens afirma que se os atores são encarados como idiotas culturais ou meros “portadores de um modo de produção”, sem qualquer entendimento que valha sobre as circunstâncias, o caminho está aberto para a suposição de que suas opiniões podem ser desconsideradas (GIDDENS, 2018, p. 80). Apesar de referir-se a análises de sistemas sociais modernos, a percepção de excluir o indivíduo e sua capacidade de ação também pode ser pensada para análises na antiguidade. Não queremos afirmar, contudo, que os indivíduos
na Roma Antiga (ou qualquer outra sociedade antiga) fossem livres e completamente autônomos, entretanto, não podemos retirá-los desta equação tão rapidamente.
Pensando no caso do poeta latino, podemos aferir que a estrutura atuaria como a cultura romana, o que se esperava de sua educação, suas virtudes, sua religião etc. Absolutamente todo elemento que emana da sociedade pode ser considerado uma parte da estrutura. Entretanto, as experiências de vida, as possibilidades de aprendizado com a vida e com outras pessoas, o que viu, sentiu e percebeu ao longo do seu caminho não faz, necessariamente, parte da natureza da estrutura, mas sim do agente. O agente é aquele que tem em si algo próprio, que se guarda nas vivências e acontecimentos de sua vida, o que escapa à vã tentativa de homogeneizar os indivíduos da estrutura. Essa particularidade do agente garante que, ao entrar em contato com a estrutura, este não perca sua autonomia. É-lhe posto, certamente, a possibilidade que a sua prática seja de acordo com o que a estrutura impõe, que a sua posição concorde com a cultura que as instituições desejam, porém, por mais que concorde com a estrutura esta é uma ação própria, pois carrega em si um pouco da individualidade do agente. A essa ação, como vimos acima, dá-se o nome de Agência.
A agência, como bem coloca Giddens (2018), não é a intenção de fazer algo, mas sim a capacidade do agente de fazer algo. Se Virgílio apenas pensasse ou tivesse a intenção de escrever a Eneida ele não estaria praticando a agência. Entretanto, o fato de ele objetivamente ter escrito a epopeia a elenca como uma ação de agência. A agência trata sobre o que é feito, não sobre o que pensa fazer, pois, nesse caso, o pensamento necessita da ação para expressar-se. Essa afirmação não invalida o contrário, de que toda ação é fruto de um pensamento, pois, consciente ou inconscientemente, todas as ações são guiadas por ideias (ou pensamentos). Visto isso, podemos pensar na relação estrutura – agente – agência a partir de um processo em que uma cultura comum busca influenciar ou homogeneizar os indivíduos através de normas, regras e formas comuns. Os indivíduos absorvem essa cultura comum e ao misturar-se com suas experiências individuais, suas percepções, modos de pensar e assimilação produzem a agência36. Exemplificando, é por essa questão que alguns indivíduos, em meio a uma situação e contexto comum, escrevem epopeias, outros pegam em armas e outros apenas lamentam.
Dentro desse processo, a agência pode ressignificar o sistema social, dinamizando a sociedade, transformando-a paulatinamente a partir de ações promovidas pelos agentes. Essa
36 Em termos matemáticos, poderíamos pensar essa relação através da fórmula Ce + Ca = A. Sendo Ce a “cultura da
estrutura”, Ca a “cultura do agente”, resultando em A, a “agência”. Mesmo a Ca sendo constituída, em parte, por elementos da estrutura, devemos considerá-la como uma parte única desta fórmula.
relação de continuidade ou transformação do sistema social foi denominado por Giddens de Estruturação (GIDDENS, 2013, p. 29). Ademais, a estrutura, em certa medida, está tanto fora como dentro do agente. Fora, por meio das instituições e regras, a estrutura se apresenta e media as relações sociais dentro do sistema. Entretanto, ela também está, em um nível mais sutil, dentro de cada um dos indivíduos que compõem essa sociedade, uma vez que estes foram criados e educados dentro de tais normas e regras. Esse fenômeno, a qual Giddens denomina de “dualidade da estrutura”, irá ser a base principal para a manutenção e continuidade de um sistema social, uma vez que expressa uma mútua dependência entre a estrutura e a agência. Segundo o sociólogo:
Por dualidade de estrutura entendo que as propriedades estruturais dos sistemas sociais são tanto meio quanto resultado das práticas que constituem esses sistemas. A teoria da estruturação, assim formulada, rejeita qualquer diferenciação entre sincronia e diacronia ou estático e dinâmico. A identificação de estrutura com coerção é também rejeitada: a estrutura é ao mesmo tempo propiciadora e coercitiva e uma das tarefas específicas da teoria social é estudar as condições na organização dos sistemas sociais que regem as interconexões entre um papel e outro (GIDDENS, 2018, p. 78).
Partindo dessa ótica, não podemos diferenciar rigidamente a estrutura e agência, sendo ambas um contínuo processo social no qual estão ligadas. Se analisarmos a organização social romana do século I a.C., podemos pensar nessa dualidade da estrutura, ou seja, sua capacidade de ser propiciadora de agências e também coercitiva, em termos de que a sociedade romana tem base nas suas instituições, tanto que por elas se travaram diversas batalhas como mostrado nas páginas anteriores. Entretanto, Roma também era composta, de forma mais simbólica, pelo cidadão romano. O que carrega as virtudes, os deveres e direito de um indivíduo partícipe dessa estrutura social. Sendo assim, a estrutura participa tanto dos processos individuais, formando uma carga cultural que nivela os homens e os categorizam como “romanos”, inserindo-os dentro de um molde social, como de processos coercitivos, ditando o que não é ser um romano, gerando uma alteridade e, assim, seguindo a lógica dual da estrutura. Virgílio não era uma exceção à regra. Mesmo tendo o papel de agente e tendo seu poder de agência, este também se apresenta com uma carga cultural forte advindo do sistema social e que muitas vezes não busca o confronto com a estrutura, mas sim sua contribuição. Nesse sentido, concordamos com a análise de Giddens ao afirmar que a estrutura não deve ser concebida como uma barreira que impede a ação, mas como essencialmente envolvida na sua produção, mesmo nos processos mais radicais e de ruptura de um sistema social (GIDDENS, 2018, p.79).
Sobre a sua ação social prática, ou seja, sua agência, devemos refletir como ela ajuda na continuidade do incipiente Principado romano, como assim é conhecido o governo de Otávio Augusto. Primeiramente, devemos entender que a ação de Virgílio não estava necessariamente ligada ao serviço direto do princeps. Concordamos aqui com Grimal ao afirmar que os poetas deste século não estão, contra o que se disse, a serviço de Augusto, nem sequer, mais geralmente, da sua ideologia. Nem são poetas cortesãos, como geralmente aparecem descritos (GRIMAL, 2011, p. 66). Por que podemos afirmar isso? Se pensarmos nos outros escritos, tanto de Virgílio como de outros poetas (Propércio e Ovídio, por exemplo) perceberemos que os temas de seus textos não são, em sua maioria, sobre Otávio Augusto ou por quem Roma deveria ser governada. Virgílio vai falar, muitas vezes, dos bosques a da vida tranquila do campo, dos pastores37. Já Ovídio irá se deter tanto na mitologia, com as metamorfoses, quanto a temas mais cotidianos e até polêmicos, como a arte de amar. Este último sendo uma das razões para o seu exílio (GREEN, 2011, p. 41-42). Visto isso, pensar nesse círculo de poetas como bajuladores ou mercenários não nos parece prudente. Apresenta-se com mais sentido a hipótese de que a produção de Virgílio, ou seja, sua agência, esteja mais ligada a uma busca pela harmonia e tranquilidade do meio em que vivia do que a escrita de uma epopeia por encomenda. Ao pensarmos nos fatores externos que assolaram a sociedade romana por quase um século, uma boa parte dele tendo sido vista pelo poeta, não nos parece difícil pensar em uma escrita voltada para essa paz e harmonia social. E essa necessidade se reflete, como citamos acima, em seus outros escritos, o que nos parece uma ação coerente com sua natureza mais introspectiva, assim como os acontecimentos que o circundavam.
Após levantar essas hipóteses, o que nos cabe é a investigação do processo de formação dessa agência, vulgo, entender como o poeta escreve sua obra. Quais seus referenciais? Que meios se utilizou para produção da Eneida e, objetivamente, como podemos perceber os elementos romanos e diferenciá-los de suas estruturas tradicionais? Para tanto, cabe-nos entender, primeiramente, o que significa escrever uma literatura épica na Antiguidade, suas fórmulas narrativas, os padrões que seguem e como estes padrões são seguidos ou quebrados dentro da obra que analisaremos. É isso que veremos no capítulo que se segue.