Aqui temos reunida a produção cortazariana da década de setenta e início de oitenta, cuja envergadura estético-literária agrega – ou congrega – o sócio-histórico-político-ideológico. Dentro destes contos, partimos da noção de representação da realidade com a intenção de constatarmos um ponto central que reúne o Libro de Manuel e todos os demais contos acima analisados: estamos diante de textos onde, em se tratando da obra de Cortázar como um todo, o real invade o fantástico, tornando-o mais fantástico ainda. Os elementos do mundo real incorporam-se aos elementos fantasiosos para que o estético seja preservado e para preservar sobretudo a sua condição ficcional, como deseja o autor. Seguindo o pensamento de Ortega (1986:185), os elementos do fantástico penetram nos relatos cortazarianos para aprofundar, questionar, e não se opor, à realidade empírica. Para Ortega, “lo real y irreal se conjugan, creando una nueva realidad supra-empírica que está regida por una causalidad que se aplica a fenómenos de caráter irracional”. Os elementos do fantástico contribuem para que o fato real seja mascarado pela verdade da ficção.
Este ponto central nos remete a Booth (1980:72), quando se refere à discriminação dos diversos realismos. Ele afirma, na esteira de Humphrey, que “os padrões distintivos das obras individuais são estratagemas para dar forma ao que, na realidade, é informe”. Para ele, a visão do real na literatura do século XX adquiriu uma nova postura e o tema ganhou uma feição bastante controversa, pois já não se concebe um realismo, mas vários; uma realidade, mas graus variados e possíveis de realidades, isto é, à realidade ficcional não se obriga mais a representar ou espelhar o mundo tal qual este se apresente,
semelhantemente a ele. É ainda Booth a afirmar que a realidade ficcional opera sempre dentro de um artifício mais lato, sendo a verossimilhança conseguida tanto através dos elementos naturais quanto dos artificiais, pela “diferenciação e variação” e não apenas pela semelhança.
Voltando à questão dos elementos naturais e artificiais de Booth, podemos depreender que, no texto literário, especificamente nos contos aqui analisados, os elementos naturais fazem parte do suporte referencial que, unindo-se aos elementos artificiais ou imaginados (elementos fantásticos, no caso), dão-lhe a seguridade ficcional, responsável pela verdade do texto, fazendo que a verdade literária predomine em detrimento da verdade histórica. De certa forma, ocorre uma negatividade ou velação do referencial, e o verossímil só é percebido se o leitor puder identificar nele, além do estranhamento, o suporte referencial. Assim, nos textos analisados estamos diante da representação de uma realidade um tanto quanto maniqueísta, onde o autor pratica a política dos contrários – sociedade/estado, bem/mal – sem fornecer ao leitor a possibilidade de imaginar uma saída positiva para os problemas neles configurados, seja favorável ao lado do bem, ou do lado do mal. Acreditamos que as próprias deficiências de Cortázar, em sua formação política tardia, obrigam-no a expor qualquer problema no maniqueísmo, sem nunca encontrar uma síntese superadora dos contrários.
O que há nos contos podemos configurar dentro do pensamento de Costa Lima como mímesis de produção. Lima (2000:151) diz que, ao nomear mímesis de produção e mímesis de representação não está, de forma alguma, fazendo uma oposição, mas antes uma distinção. Para ele, “a não-oposição das duas espécies indica o imbricamento de ambas na realidade”. Um tipo de mímesis que ao relacionar-se paradoxalmente com a realidade, posto que dela “se aproxima e se alimenta”, confere-lhe um novo status, abrindo para nós, leitores, uma situação de mundo que a transcende. Segundo Costa Lima,
pela mímesis participamos não só do inconsciente de nossa própria época, mas também no aproximamos do inconsciente de épocas passadas. [...]. É pela estranheza, o que não se deixa domar pelo encontro de semelhanças, que mais nos mostramos criaturas de um certo
momento, ao mesmo tempo em que é por ela que menos nos confundimos com nosso momento. (p. 307)
A relação mimética com a realidade é paradoxal. No entanto, a mímesis de produção requer um receptor que esteja apto a perceber e a recuperar, no texto, o que Costa Lima chama de “situação de mundo” criador, que apresenta um vínculo com a realidade, mas que não necessariamente assemelha-se a ele. Para melhor aclarar seu pensamento, cita Felman (p.400), cuja impressão dos grandes textos literários é que estes devem prolongar a ilusão especular e ao mesmo tempo incitar o leitor a rompê-la. Não significa dizer que, rompendo com a ilusão especular, terminemos por comprometer as relações de verossimilhança e mímesis do texto. Ao contrário, reforçam-se, através dos efeitos causados pelo jogo que a linguagem promove entre os elementos naturais e artificiais. São esses efeitos os responsáveis pela formação da “verdade do texto”, à medida que propõe uma forma supra de re-apresentação da realidade. Saúl Yurkievich (2004: p. 23) considera que o real mediado pelo fantástico na obra cortazariana produz uma mímesis que oculta ou camufla o fato relatado, declarando que Cortázar
Se apoya en la mimesis realista, para provocar sutiles fallas o fisuras que dejan entrever el reverso de lo real razonable, perturbaciones inexplicables que descolocan mentalmente, irreductibles desarreglos que permiten vislumbrar fuerzas ocultas, insospechadas dimensiones.
Criar verossimilhança é uma “vocação da obra”, como explica Costa Lima. Ele nos propõe, dentro de um concepção de mímesis de produção, uma visão da realidade amplificada e passível de ser modificada. Em suma, permite uma transgressão do “horizonte de expectativas” do receptor, posto que se dá por imagens as quais tornam disformes as referências. Se pela mímesis somos partícipes de uma época, diríamos que Cortázar demonstrou isso nos contos analisados: tomou os fatos e os fez ressurgir, dentro dos padrões que ele próprio traçou para o gênero conto, manteve a forma, mas, conteudisticamente, desentranhando-os da cotidianidade, dando-lhes uma nova configuração, onde vislumbramos essa supra-realidade formada agora,
não só pelos elementos fantásticos, mas, com a mesma intensidade, pelos elementos políticos.
Essa supra-realidade cortazariana nos visita nestes contos via ideologia, no sentido dado por Umberto Eco (1979:83), como “tomada de posição filosófica, política, estética, etc. em face da realidade”. Cortázar nos repassa por esta via um conceito de nação bastante amplo – América Latina – fazendo circular através do texto literário, mais do gênero conto, toda a densa carga política do momento e o quanto de sofrimento estava passando a sua gente. E a maneira que ele encontra para fazer chegar ao mundo tamanha crueldade é colocando sua escritura-em-ação. E, embora se mantenha em um plano literário e não deixe claro que os seus textos possam modificar o mundo nem criar uma visão mais consciente nos leitores, Cortázar (2001:207) crê na realidade como parte integrante desse mundo de ficção, isto é, acredita que a “literatura é sempre expressão da realidade, por mais imaginária que seja”. E, mesmo não apresentando a visão pedagógica de boa parte da esquerda de sua época, podemos ler afirmações como a de Tomás Borge (2004:13), como leitor do Libro de Manuel, que foi para ele um estímulo tanto literário quanto político, afirmando em seguida que
La literatura de Cortázar, tanto fuera como dentro de la cárcel, es un llamado a la imaginación; pero nunca, en ningun caso fue para mi fuga, evasión de mi deber y de mi conciencia. Nada más excitante para la imaginación que un próximo proyecto revolucionario. La imaginación, la ficción, apenas vislumbran, apenas esbozan la realidad que concreta una revolución.
Assim sendo, e diante de algumas indicações do Cortázar crítico e sensível aos problemas humanos, dá sim, para sentirmos o caráter intencional e não “inocentemente literário” de sua escritura da década de setenta, o seu direcionamento temático envolvendo um contexto delimitado. Vejamos pelo menos três afirmações dele que nos leva a essa conclusão: a primeira, trata-se da inserção deliberada de um contexto revolucionário dentro de um eixo de
escritura já afirmado como fantástico63; a segunda, a certeza de que sua obra comportava “interrogações e uma série de possíveis aberturas que tocavam no mais fundo da problemática existencial latino-americana”64, e a terceira, a vontade de prosseguir o trabalho intelectual apesar dos obstáculos impostos pelo terror e pelo fascismo operante65. Por acreditar que assim se faz ouvir, ele subverte a função estético-literária de sua obra, colocando-se em risco pelo acréscimo da função político-ideológica. Utiliza-se de seus mundos possíveis para apresentar um mundo impossível e ab-surdo, entretanto real.
A realidade nos textos de Cortázar cruza com a ficção formando uma tessitura discursiva que permite uma leitura de mão dupla, se o leitor tem conhecimento do contexto no qual se insere a obra. Ao mesmo tempo em que luta com a hidra, como Lucas, desenvolvendo um trabalho hercúleo para matar o panfletário e pedagógico que possa haver em sua obra, apresenta-se como um patriota poeticamente nostálgico: “del país me queda un olor de acequias mendoncinas”, (p. 232) que desenvolve um patriotismo hiperbólico, o qual chama de patrioterismo: “y argentino hasta la muerte” (p. 233) , o qual desemboca num pathos, numa dor de quem, estando ausente, quase nada pode fazer, no patiotismo: “Lucas comprende que no hay nada que hacer, que ya está de nuevo en el pátio, que la tarjeta postal sigue clavada para siempre al borde del espejo del tiempo, pintada a mano con su franja de palomitas, con su leve borde negro”.
63
Cf. Para Solentiname, 2001, p. 144.
64
Cf. Carta a S. Sosnowski (a propósito de uma entrevista a David Viñas, 2001, p. 55.
65