A literatura aponta que as trajetórias escolares dos alunos sofrem influências internas e externas a escola. Além disso, demonstra que existem alunos, em situações de vulnerabilidade, que necessitam de uma atenção diferenciada. Ao analisar os aspectos que envolvem a evasão escolar, as trajetórias anteriores podem ajudar a compreender melhor o processo.
Mariana Bittar (2011) define as trajetórias escolares como “percursos percorridos pelos jovens ao longo de sua vida escolar”, caracterizados pela distorção idade-série, repetências, expulsões e evasões. Dessa forma, a autora separa estes em dois grupos:
1. Alunos com trajetória escolar contínua (fluxo contínuo, sem reprovações, evasões e elevada distorção idade-série).
2. Alunos com trajetória escolar descontínua (fluxo descontínuo e fragmentado, com reprovações, evasões e elevada distorção idade- série). (BITTAR, 2011, p. 52).
Bittar (2011) ainda destaca que as trajetórias descontínuas podem mudar de curso, à medida em que recebem influência positiva da família, da escola ou do trabalho. Santos (2017) dialoga com Bittar (2011), ao ressaltar que o fracasso escolar envolve um conjunto de fatores para além da escola e da qualidade de seus professores, destacando o comprometimento da família e do poder público atuante no desenvolvimento de projetos. Caso contrário, os alunos respondem negativamente.
A análise das trajetórias pode contribuir para a identificação daqueles alunos que precisam de maior atenção, destacando os que possuem uma trajetória descontínua.
Os alunos que reprovam ou abandonam por mais de dois anos entram nas estatísticas de distorção idade-série. Tavares Júnior (2019, p.6) aponta que “a defasagem idade-série, está diretamente relacionada ao rendimento educacional, especialmente às taxas de não aprovação (repetência e evasão).”
Dessa forma, podemos inferir que o aluno que ingressa na 1ª série do Ensino Médio e traz consigo uma defasagem idade-série deve ser acompanhado. Para isso, o conhecimento das trajetórias deve contribuir para o desenvolvimento de estratégias pedagógicas que visem a diminuição das lacunas de conhecimento trazidas pelos estudantes ao ingressarem no Ensino Médio, considerando que cada aluno traz consigo o seu próprio “arcabouço intelectual e cultural”. Nesse sentido, é necessário que a escola aproveite o conhecimento prévio do aluno, de forma a estimular a ampliação das aprendizagens. (SILVA FILHO; ARAUJO, 2017).
Sobre o desempenho escolar dos alunos e os fatores que o influenciam, Soares (2005) desenvolveu pesquisa se utilizando dos dados do SAEB – Sistema de Avaliação da Educação Básica no ano de 2001, chegando à conclusão que o desempenho dos alunos fica muito abaixo dos valores julgados adequados, evidenciando a notória desigualdade de oferta de qualidade no sistema educacional brasileiro.
A análise dos dados permitiu, ao autor, identificar que há uma relação direta entre os indicadores de NSE – nível socioeconômico e a proficiência dos alunos. Dessa forma, percebe-se que estudantes socioeconomicamente mais favorecidos apresentam melhor desempenho. Para Soares (2005, p. 96):
Aumentar os níveis de proficiência e diminuir os impactos da posição social no sucesso escolar devem ser os principais objetivos de qualquer sistema educacional, mas de forma em especial no Brasil, onde a dependência da proficiência em relação a posição social é tão grande.
Essa atenção diferenciada aos alunos vulneráveis, proposta por Soares (2005), que busca diminuir as desigualdades dentro e fora da escola, contraria o modelo de escola meritocrática e excludente apresentada por Dubet (2003, p. 40-41).
Ela ordena, hierarquiza, classifica os indivíduos em função de seus méritos, postulando em revanche que esses indivíduos são iguais. Os indivíduos devem, portanto, perceber se como os autores de seus desempenhos, como seus responsáveis. A escola apresenta- se um pouco à maneira de uma prova esportiva que postula a igualdade dos concorrentes e a objetividade das regras. A ética esportiva é a da responsabilidade dos desempenhos: que vença o melhor!
O histórico de fracasso escolar causa desestímulo ao aluno, principalmente quando passa de uma etapa a outra, no caso do Ensino Fundamental para o Médio. A adaptação para a nova etapa pode ser tranquila para aqueles que já dominam os conhecimentos básicos para o ingresso. Já para aqueles que são oriundos de uma trajetória descontínua, a escola tem papel fundamental, conforme explica Silva Filho e Araújo (2017, p. 37).
A escola pode ser responsável pelo sucesso ou fracasso dos alunos, pois os jovens perdem muito rapidamente o entusiasmo pelos estudos no ensino médio. A evasão e o abandono representam um processo muito complexo, dinâmico e cumulativo de saída do estudante do espaço da vida escolar.
Tavares Júnior (2018) apresenta alguns dados que tentam explicar a relação entre fracasso escolar e os processos que culminam com a evasão, bem como a ineficiência dos sistemas e escolas em melhorar os resultados.
Alguns fatores ajudam a contextualizar tal argumento. Quando se acompanham grupos etários (coortes) em períodos largos, como nas pesquisas de trajetórias, percebemos o quanto este efeito é significativo. Um simples exemplo é comparar a coorte com sete anos em 2003 e 17 anos em 2013. Em 2003, 96% da coorte de 7 anos estava na escola. Em 2013, pouco mais de 10% eram concluintes do Ensino Médio. Mais de 80% da coorte ficou pelo caminho. Por isso a reprovação não pode ser vista apenas numa série ou como efeito específico, sendo necessário observar o conjunto. (TAVARES JUNIOR, 2018, p. 8).
Silva Filho e Araujo (2017) reforçam os achados de Tavares Júnior (2018), destacando as consequências da evasão escolar.
A evasão escolar é um problema crônico em todo o Brasil, sendo muitas vezes passivamente assimilada e tolerada por escolas e sistemas de ensino, que chegam ao exercício de expedientes maquiadores ao admitirem a matrícula de um número mais elevado de alunos por turma do que o adequado, já contando com a ‘desistência’ de muitos ao longo do período letivo. Que pese a propaganda oficial sempre alardear um número expressivo de matrículas a cada início de ano letivo, em alguns casos chegando próximo aos 100% (cem por cento) do total de crianças e adolescentes em idade escolar, de antemão já se sabe que destes, uma significativa parcela não irá
concluir seus estudos naquele período, em prejuízo direto à sua formação e, é claro, à sua vida, na medida em que os coloca em posição de desvantagem face os demais que não apresentam defasagem idade-série.
Percebemos que a trajetória escolar dos alunos recebe influências diversas ao longo das séries. Porém, é certo que a escola tem grande responsabilidade sobre estes sujeitos. Afinal, é ela que dá o veredicto final. Dayrell (2007) complementa a questão levantada por Tavares Júnior (2018) e Silva Filho e Araujo (2017), apontando as marcas deixadas pelo fracasso escolar.
Para grande parte da juventude brasileira, aquela que de alguma forma foi excluída antes de concluir o ensino básico, parece que a experiência escolar pouco contribuiu e contribui na construção da sua condição juvenil, a não ser pelas lembranças negativas ou, o que é também comum, pela sensação de incapacidade, atribuindo a si mesmos a “culpa” pelo fracasso escolar, com um sentimento que vai minando a auto-estima. (DAYRELL, 2007, p. 124).
Concluímos que a escola exerce grande influência nas trajetórias dos alunos, principalmente no que se refere às condições de aprendizagem que são oferecidas a cada aluno, considerando as suas necessidades. Também nos foi revelado que as trajetórias descontínuas, citadas por Bittar (2011), estão diretamente ligadas à evasão.