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Na região em que frequentava, a da Pedro Taques, Zezé buscava se estabelecer como uma referência, buscando organizar a convivência e mediar as relações internas ao grupo. Não era traficante, mas costumava comprar uma quantidade de crack para si e para os colegas. Ao saber que eu estudei a praça Raposo Tavares, contou que já a frequentou, mas, à época, não

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Como foi o caso de Miguel, que alugou uma casa para tentar sair da vida nas ruas, mas sua luz foi cortada por falta de pagamento. O Projeto Amor se reuniu, lhe deu uma cesta básica e fez uma arrecadação no culto de domingo para pagar sua conta de luz.

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apenas ele, como outros dessa região, buscavam se diferenciar dos que ficam naquela praça. O ritmo de consumo de drogas e sociabilidade eram menos acelerados ali na região da Pedro Taques que lá e ali as relações comunitárias estavam mais estabelecidas. Muitos deles compartilhavam o mesmo mocó, as relações grupais eram mais duradouras, tinham animais de estimação e, eventualmente, cozinhavam o próprio alimento, além de trabalharem cuidando de carros na avenida Pedro Taques, tanto na região próxima à COPEL (Companhia Paranaense de Energia), quanto na praça da Igreja Divino Espírito Santo (Praça Monsenhor Bernardo Cnudde).

Certa vez, Zezé me contou “que parou com as drogas e que estava mudando”. Disse também que no domingo iria à Igreja Batista – onde estávamos durante a conversa. Seu projeto de “mudança”, porém, não avançou. Continuou morando na rua e realizando as mesmas práticas. A experiência de Zezé nos permite pensar nas especificidades das relações com o universo religioso. Seja no âmbito mais geral, seja nas relações mais rentes à situação de rua, as matrizes católica e evangélica fornecem termos para ele pensarem o mundo e a própria trajetória de vida.

Ao mesmo tempo em que este interlocutor transita por feixes diferentes de possibilidades, está produzindo maneiras específicas de lidar com o religioso e com as questões da vida cotidiana, nas quais elementos de um e outro espaço se mesclam e geram algo específico. Assim, a religiosidade produzida em sua experiência ganha contornos específicos, bastante distintos daqueles realizados nos templos religiosos. Tanto aqui, quanto no caso de Pedro, a experiência religiosa é incorporada ao cotidiano e realizada em sintonia com outras práticas não ascéticas da vida nas ruas. Equilibram-se e se imiscuem, então, motivações religiosas e moral das ruas, em um conjunto valorativo em que o respeito ganha contornos centrais, o que os conecta a matriz teológico-cristã e se torna fundamental na maneira d se lidar com os diferentes grupos que não estão em condição de rua.

Em uma situação de campo, fiz uma visita a Zezé e sua companheira Kelly. Moravam em um barracão abandonado. Nas palavras de Kelly, se tratava do “popular mocó”, mas costumavam se referir ao local como casa. Outras pessoas frequentemente dormiam ali com eles ou os visitavam, o que tornava a casa um ponto de encontro para socialização, a qual passava pelo consumo de drogas. Mostraram bastante prazer com minha visita, mas também uma preocupação. Estavam se preparando para consumir crack, mas suas regras de etiqueta diziam que não deveriam fazê-lo na “frente da visita”. Viam em mim um amigo, mas não alguém que compartilha dos circuitos da rua. A maior parte do contato que tive com este grupo foi mediado por duas instituições religiosas, a Aliança de Misericórdia e a Igreja

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Batista, embora tentasse me dissociar da imagem religiosa. Passei por uma situação muito significativa, a qual vale a pena relatar:

O Zezé senta perto de mim e me chama para conversar. Diz que o pessoal fica um pouco constrangido com minha presença ali, embora todos gostem de mim e me acolham muito bem. De fato, em nenhum momento senti que estava sendo incômodo. Fica, nesse momento, meio subentendido que estavam com vergonha de usarem crack na minha frente. O tempo passa e sigo entre eles. [...] Estavam se preparando para consumir a substância, que logo deveria chegar. [...] A ansiedade parecia aumentar. De cada pouco se perguntavam se estava chegando. Finalmente chegou. [...] O Zezé me chama novamente para conversar, agora em particular. Entramos na casa. Líder do grupo, ele tenta me explicar, olhando nos meus olhos, com o rosto perto do meu, que todos gostavam de mim, que eu era bem-vindo ali, mas que o pessoal estava se sentindo constrangido com minha presença. Digo a ele então que já estava indo embora. Ele se desculpa e diz que vai comigo até o portão. Ele me explica, pede para eu não ficar chateado, mas o pessoal não estava conseguindo ficar à vontade. [...] Ele diz que é usuário de droga, que isso é uma doença, mas que não faz nada errado. Salienta que ganha dinheiro cuidando de carro. [...] O cumprimentei pela honestidade e coragem em falar abertamente o que estavam sentindo. Ele mais uma vez salientou que me ajudaria no que precisasse. [...] (Diário de Campo, 11 de junho de 2015).

Esta experiência de campo foi bastante intensa. Embora conhecido e bem-vindo ali, eu era tido como um amigo, mas também como uma alteridade para qual o respeito se torna imprescindível. Acabo sendo objeto de construção de um conflito e, mais uma vez, a ambivalência entre desfrutar do prazer do consumo e os imperativos morais os dividiam. O que fariam? Como poderiam consumir crack na frente da visita? Seria uma tremenda falta de educação. Kelly decide: não vai usar. Se usar, vai ser dentro de casa, para não se mostrar. Com princípios morais claros, entende que deveria respeitar a visita. A vontade, no entanto, permanece e o conflito se acirra.

Luana, mais extrovertida e expansiva, se dá por satisfeita com minhas palavras de liberdade e decide que vai consumir na minha frente mesmo. Mas havia outras pessoas na casa e eu era uma pessoa que inspirava respeito, que andava entre religiosos. O que eles deveriam fazer? Como sair dessa situação? Quando o crack chega, a ansiedade e a tensão chegam ao limite. Zezé, que antes ensaiara uma conversa comigo, novamente me chama para conversar, olho no olho, sinceridade. Com sensibilidade e respeito, indica que as pessoas não estão à vontade. Minha presença provoca certa desestabilização.

Um conflito se estabelece: por um lado cabe respeitar e acolher da melhor maneira possível a visita. Por outro, desejam consumir crack. As duas coisas parecem difíceis de serem equilibradas. Surge um dilema entre eles. O que fazer? A sensível, educada e lúcida solução encontrada por Zezé é falar comigo, fazer a mediação, e me explicar que tem todo o interesse em me ajudar, mas que as pessoas estavam um pouco tímidas com minha presença.

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Assumindo o comando do grupo e mostrando que consumir crack não significava sair do campo da cultura e da lucidez, fala comigo, explica a situação: naquele momento não se sentem à vontade em exporem para mim parte das suas vidas que ele aprendeu que era reprovável, uma doença.

Decidir falar comigo com sinceridade e delicadeza foi a melhor demonstração de respeito que podiam dar. Isso dizia muito sobre eles. Tanto por afirmar que não se tratavam de sujeitos incivilizados, incapazes de decisões e moralização da vida, quanto por apresentarem como estruturam suas práticas e seus códigos. A referência que norteou a ação deles ali foi a do respeito, o que significava não me exporem ao consumo de crack. Entendo que essa perspectiva está complexamente estruturada em valores das ruas, os quais contêm elementos oriundos da religiosidade, ativados possivelmente pelo fato de eu os ter conhecido quando estávamos em uma instituição religiosa.

Muitas coisas compõem o quadro aqui. Por um lado, a experiência muito própria da rua, que estrutura a relação e exige o respeito, sobretudo com outras pessoas que não estão vivendo nas ruas. Por outro lado, conhecem os discursos que associam o consumo de crack à degenerescência, ao descontrole, à imoralidade, ao pecado, à doença etc. Mesmo que sua prática não corresponda a esses estigmas, os enfrentam como algo vergonhoso frente a alguém de fora. Sendo uma prática com pouca aceitação moral, sendo eu um corpo estranho, os constrangia e limitava o usufruto da experiência. Sendo eu uma pessoa respeitável e fazendo um trabalho digno, seria desrespeitoso me deixarem ver tudo aquilo. Não me exporem ao consumo de crack, seria, portanto, não apenas se proteger, mas também me proteger. Não se tratava apenas de esconder dos meus olhos uma prática que, supunham, eu veria de forma negativa. Mais que isso, tratava-se mesmo de me proteger de ver essa prática e de alguma forma me contaminar com aquilo que Zezé chamava de vício e de doença.

Essa experiência ilumina como se elabora o princípio do respeito, o qual funcionava como uma estratégia que possibilita a continuação das dádivas que recebem, mas principalmente como um imperativo moral. O princípio do respeito integra as sociabilidades das ruas. É uma categoria tanto estratégica quanto balizadora da moralidade grupal. Suas origens são, ao mesmo tempo, forjadas nas experiências religiosas e morais que circulam pelas representações sociais e também pelas experiências vividas nas ruas. Se nesta situação estão alheios às instituições religiosas, ao menos por minha presença, se veem obrigado a lidar de alguma forma com um conjunto de questões também perpassadas pelo universo religioso ativado pela minha presença.

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