• Aucun résultat trouvé

Restriction de croissance intra-utérine et petit poids à la naissance

Chapitre 1 Introduction

1.4 Épidémiologie de la DE

1.4.2 Causes et facteurs de risque

1.4.2.4 Restriction de croissance intra-utérine et petit poids à la naissance

——————————————————————————————————

Nota explicativa inicial: optamos por não manter a apresentação dos trechos de

Aristófanes em ordem cronológica, pois dois deles, pertencentes a peças diferentes, são praticamente idênticos. Assim, os dois trechos selecionados da peça Vespas ficaram separados, pois o trecho da peça Paz foi colocado entremeando-os. Vespas 1030-1037, e Paz 754-760, são muito similares, sendo que os versos 1031-1035 de

Vespas e 754-758 de Paz são iguais. Desse modo, faremos apenas um comentário a

esses dois trechos, contendo apenas os vocábulos comuns aos dois, já que o vocábulo grego λάµια está em meio a esses versos repetidos. Logo após o comentário, será apresentado o segundo trecho de Vespas.

—————————————————————————————————— Σφῆκες 1030-1037251 ἀλλ' Ἡρακλέους ὀργήν τιν' ἔχων τοῖσι µεγίστοις ἐπιχειρεῖν, θρασέως ξυστὰς εὐθὺς ἀπ' ἀρχῆς αὐτῷ τῷ καρχαρόδοντι, οὗ δεινόταται µὲν ἀπ' ὀφθαλµῶν Κύννης252 ἀκτῖνες ἔλαµπον,

251 Aristófanes, Vespas. Trecho grego retirado de MacDowell, 1971 = TLG. Em Vespas, Aristófanes faz

troça dos juízes do maior tribunal ateniense, a Helieia, que somava ao todo 6000 cidadãos de pleno direito, acima dos 30 anos de idade. A Helieia, ou Grande Eclésia, era composta pelos chamados "dicastas" (δικάσται, do verbo δικάζω, "julgar", cf. LSJ, 1996, pp. 428-429). Na verdade, as decisões políticas eram atribuição do tribunal da Eclésia, enquanto as decisões judiciais cabiam à Helieia. Cf. Capps, Page & Rouse, 1930, p. 405; cf. Hornblower & Spawforth, 1996, pp. 520-521, verbete "eliaia", em que os autores dizem que esse tribunal não passou de um rearranjo de Sólon, pois era composto basicamente pelos mesmos membros da eclésia e, como tribunal, preparava as "pautas" a serem discutidas por este último conselho; e pp. 514-151, verbete "ekklesia", em que os autores afirmam que, num primeiro momento, a eclésia decidia apenas a respeito de guerra e paz com as outras cidades- estado, mas que, a partir da segunda metade do século V a.C., passou a ser o principal órgão decisório de Atenas, reunindo-se primeiramente na Pnix, e depois no teatro de Dioniso, para decidir sobre todo tipo de assunto. Segundo eles, ainda, de acordo com relatos oficiais, o quórum de seis mil cidadãos não era sempre convocado, e seu número podia variar, dependendo do assunto a ser julgado. Em Vespas, Aristófanes representa um pai, Filócleon (Φιλόκλεων), e um filho, Bdelícleon (Βδελύκλεων), discutindo acerca da paixão do pai pelo seu trabalho de dicasta nos tribunais da pólis de Atenas. Filócleon crê que governa Atenas, enquanto Bdelícleon quer provar que o pai está errado, mostrando a ele que, na verdade, ele é um escravo e nem se dá conta disso. O texto é composto por elementos de um julgamento tradicional ateniense, em que o coro serve como júri. Cf. Capps, Page & Rouse, 1930, pp. 403-406, em que eles explicam sucintamente o processo judicial ateniense, a composição do júri, as diferenças entre os dois grupos de assembleias da pólis, e ainda fazem um resumo do argumento da peça.

ἑκατὸν δὲ κύκλῳ κεφαλαὶ κολάκων οἰµωξοµένων ἐλιχµῶντο253 περὶ τὴν κεφαλήν, φωνὴν δ' εἶχεν χαράδρας ὄλεθρον τετοκυίας, φώκης δ' ὀσµήν254 , Λαµίας δ' ὄρχεις ἀπλύτους, πρωκτὸν255 δὲ καµήλου. τοιοῦτον ἰδὼν τέρας οὔ φησιν δείσας καταδωροδοκῆσαι, ἀλλ' ὑπὲρ ὑµῶν ἔτι καὶ νυνὶ πολεµεῖ. [...]

Aristófanes usa para atacar o político populista Cleon: Cina era o nome de uma famosa cortesã ateniense, que Paflagônio, em Cavaleiros 765, diz que é de maior valor que ele próprio: "Τῇ µὲν δεσποίνῃ, τῇ της πόλεως µεδεούσῃ, / εὔχοµαι, εἰ µὲν περὶ τὸν δῆµον τὸν Ἀθηναίων γεγένηµαι / βέλτιστος ἀνὴρ µετὰ Λυσικλέα καὶ Κύνναν καὶ Σαλαβακχώ, / ὥσπερ νυνὶ µηδὲν δράσας δειπνεῖν ἐν τῷ πρυτανείῳ" - "A ti, senhora, a ti, guardiã da pólis / suplico, se me fiz, ao povo dos atenienses / o melhor homem, depois de Lisicles, Cina e Salabacó, / como agora, sem nada para fazer, possa eu jantar no pritaneu" (Aristófanes, Cavaleiros 763-766, trecho grego retirado de Coulon & van Daele, 1967 =

TLG). Contudo, Cina é também uma referência à Sirius, a estrela mais brilhante da constelação do Cão

Maior, que já era assim chamada pelos gregos antigos, Κύων (κύων = σείριος, LSJ, 1996, pp. 1015 e 1588-1589), a constelação que representa o cão caçador da constelação de Órion. Segundo Kanavou, os gregos acreditavam que os raios da estrela Sirius causavam febre, de modo que associar sua imagem à de Cleon não deve ter sido muito favorável a ele, assim como a referência aos políticos como cães, que Aristófanes faz mais de uma vez em mais de uma de suas peças (para todas essas referências sobre Cina, cf. Kanavou, 2010, p. 89). Clara Crepaldi, em seu artigo sobre a autodepreciação que Helena faz de si mesma na Ilíada (Crepaldi, 2012), afirma que é atestado o uso da palavra κύων como xingamento tanto na Ilíada quanto na Odisseia. Em todas as ocorrências analisadas por ela, esse xingamento é dirigido a outra pessoa, a não ser no caso de Helena, que denomina a si mesma κύων (Ilíada: 6.344, 6.355) e κυνώπις (Ilíada: 3.180; Odisseia 4.145). Crepaldi deixa claro que o estatuto do cão homérico é, apesar da convivência e do bom relacionamento com os homens, ainda selvagem, pois muitas vezes é lembrado que os cadáveres que ficam caídos no chão do terreno da batalha vão servir de alimento para os cães (cf. Crepaldi, 2012, p. 53). O próprio rei de Tróia, Príamo, ao pensar nas desgraças advindas da derrota na guerra, menciona que servirá de repasto aos cães que ele próprio criou (Ilíada, 22.66-67). Crepaldi afirma que essa selvageria estaria associada a uma ἀναίδεια típica dos cães, que seria a ideia principal atrás da metáfora presente no xingamento do outro, ou de si mesmo, como "cão". Assim, para os fins dessa nossa investigação, basta a associação metafórica à "falta de vergonha" e à selvageria caninas, que são imediatamente atribuídas a quem quer que seja chamado "cão".

253 O verbo ἐλιχµῶντο, λιχµάω é usado para descrever o movimento que não somente as serpentes, mas

todos os répteis fazem com suas línguas bifurcadas ao sondarem o ambiente: projetam as línguas para fora da boca e as movimentam para cima e para baixo, rapidamente, absorvendo, assim, o maior número possível de impressões olfativas. É dessa maneira que elas identificam o ambiente que as cerca, obtendo informações que vão desde os vegetais caídos no chão até a presença de possíveis presas e predadores, como afirmam Heiser, Janis e Pough:

As serpentes têm a língua bífida, com as extremidades amplamente separadas, que podem mover-se independentemente. Quando a língua é projetada, as extremidades são onduladas no ar ou encostadas no chão. Em seguida a língua é retraída e os estímulos químicos são transferidos para o órgão vomeronasal par. A forma bifurcada da língua das serpentes (...) pode permitir que elas consigam detectar gradientes de estímulos químicos e localizar objetos. (Heiser, Janis & Pough, 2008, pp. 336-337).

A acepção principal do verbo é "brincar com a língua", esse movimento glóssico que fazem, portanto, os répteis (LSJ, 1996, p. 1055).

254 ὀσµή - esse substantivo feminino pode ser usado em sua acepção mais genérica de "cheiro, odor",

mas na maior parte das vezes ele é usado para indicar um cheiro ruim, um "fedor", algo malcheiroso. Contudo, pode significar até mesmo "perfume". Usamos "bodum" que é uma palavra popular no Brasil para indicar um cheiro forte proveniente de animais ou da transpiração humana (LSJ, 1996, p. 1261; Houaiss, 2010, p. 476).

255 Algumas traduções verteram a palavra πρωκτός em "traseiro", "quarto traseiro", "anca", e até

mesmo "final".O substantivo masculino significa, literalmente, "ânus", e aparece em três passagens de Aristófanes: nas duas trabalhadas nesta tese, e em Acarnenses 863: "τοῖς ὀστίνοις φυσεῖτε τὸν πρωκτὸν κυνός" — "com as tíbias soprem o cu de um cão" (LSJ, 1996, p. 1544).

Tradução:

Vespas 1030-1037

mas com a gana de um Héracles atacava os maiorais,

vencendo valentemente, direto e desde o começo, a este dente-serra, que dos olhos de cadela lança raios faiscantes terribilíssimos,

com um aro de cem cabeças de puxa-sacos lamentando-se com línguas de serpente ao redor da cabeça, uma voz de torrente que paria a ruína,

o bodum de uma foca, os bagos imundos de uma lâmia e o cu de um camelo. E vendo uma tal fera diz não aceitar suborno, e mesmo amedrontado,

por vós ainda agora luta. [...]

——————————————————— Εἰρήνη 754-760256 Καὶ πρῶτον µὲν µάχοµαι πάντων αὐτῷ τῷ καρχαρόδοντι, οὗ δεινόταται µὲν ἀπ' ὀφθαλµῶν Κύννης ἀκτῖνες ἔλαµπον, ἑκατὸν δὲ κύκλῳ κεφαλαὶ κολάκων οἰµωξοµένων ἐλιχµῶντο περὶ τὴν κεφαλήν, φωνὴν δ' εἶχεν χαράδρας ὄλεθρον τετοκυίας, φώκης δ' ὀσµήν, Λαµίας <δ'> ὄρχεις ἀπλύτους, πρωκτὸν δὲ καµήλου. Τοιοῦτον ἰδὼν τέρας οὐ κατέδεισ', ἀλλ' ὑπὲρ ὑµῶν πολεµίζων ἀντεῖχον ἀεὶ καὶ τῶν ἄλλων νήσων. [...]

256 Aristófanes, Paz. Trecho grego retirado de Coulon & van Daele, 1969. Muitas das peças de

Aristófanes foram escritas no contexto da Guerra do Peloponeso, e tratam do tema da guerra (caso de

Paz, Acarnenses e Lisístrata). A Guerra do Peloponeso foi uma série de disputas entre Atenas e seus

aliados (Liga de Delos) e Esparta e aliados (Liga do Peloponeso), e durou de 431 a.C. a 404 a.C., com vitória dessa última. Foi registrada por Tucídides. Sobre essa guerra cf. Hornblower & Spawforth, 1996, p. 1134. Para Liga de Delos, veja-se Hornblower & Spawforth, 1996, pp. 441-442; e para Liga do Peloponeso, idem, ibidem, pp. 1133-1134. Paz estreou na iminência da assinatura do tratado de paz conhecido como "Paz de Nícias", entre Atenas e Esparta. Na peça, o lavrador ateniense Trigeu resolve subir ao Olimpo para perguntar aos deuses a razão da violência, usando como veículo um escaravelho. Ao chegar no Olimpo ele só encontra Hermes, que lhe conta que a Paz fora aprisionada. Trigeu volta e convoca todos os lavradores gregos a soltar a Paz. Eles conseguem, a Guerra é derrotada, a Paz volta a reinar absoluta e nosso herói acaba se casando com a Abundância, companheira da Paz. O acordo que ficou conhecido como "Paz de Nícias" foi conduzido pelo general ateniense de mesmo nome: Nícias, o maior rival de Cleon ao governo de Atenas, após a morte de Péricles. Cleon era favorável à continuação da guerra, mas Nícias queria a paz entre as potências maiores, Atenas e Esparta, que estavam envolvidas na Guerra do Peloponeso (431 - 404 a.C.). Os espartanos lutavam para conter a crescente influência e poder dos atenienses junto às outras póleis gregas. Na verdade, Atenas e Esparta disputavam a hegemonia sobre as póleis gregas desde 465 a.C., com períodos de batalhas entremeados por períodos curtos de relativa paz, ou de pequenas tréguas. A "Paz de Nícias" durou de 421 a 415 a.C. Cf. Hornblower & Spawforth, 1996, p. 1041.

Tradução:

Paz 754-760

E primeiro então lutei dentre todos com este dente-serra, que dos olhos de cadela lança raios faiscantes terribilíssimos,

com um aro de cem cabeças de puxa-sacos lamentando-se com línguas de serpente ao redor da cabeça, uma voz de torrente que paria a ruína,

o bodum de uma foca, os bagos imundos de uma lâmia e o cu de um camelo. Vendo tal fera não me acovardei, mas por vós guerreando

— e pelos outros das ilhas também — suportava sempre. [...]

Comentário:

λάµιας δ᾽ὄρχεις ἀπλύτους: essas duas passagens de Aristófanes são as únicas neste

trabalho que se referem à lâmia como um ser de nome feminino dotado de caracteres sexuais masculinos. Ὄρχις é um substantivo masculino usado para denominar os testículos dos machos, o que nos permitiria concluir que a figura da lâmia talvez fosse

vista como um monstro hermafrodita.257

Uma das pinturas remanescentes descritas por John Boardman no LIMC, mostra o que aparenta ser um humanóide hermafrodita (presença de seios e possivelmente um pênis) sendo torturado por sátiros. Ela decora um lécito de aproximadamente 500 a.C. Boardman afirma que a criatura sendo torturada é feminina, e que a parte da pintura que aparenta ser o órgão sexual masculino é uma representação de fogo, que os sátiros estariam colocando nos pelos pubianos da lâmia amarrada a uma palmeira. De fato, próximo a ela há um sátiro com uma tocha. Todavia, o desenho da parte entre as pernas da criatura lembra muito o formato de um pênis, como pontua Monique Halm-Tisserant. Ela afirma que, se uma técnica de descoloração do verniz for aplicada à pintura, é possível perceber o contorno do falo ereto da criatura que está sendo torturada. A criatura seria, portanto, hermafrodita. Halm-Tisserant considera que esse ser seja um monstro, e não uma caricatura humana, devido às distorções de seu corpo e sua face. Segundo a autora, as proporções corporais da figura principal do lécito são muito estranhas, o que torna sua representação um tanto grotesca, contribuindo para a teoria de que ela seja realmente

a imagem de um monstro, e não de um ser humano.258 Os tão mencionados ὄρχεις da

lâmia não estão aparentes na criatura central, apenas nos sátiros.259

Há comentários antigos disponíveis acerca desses versos. Vamos citar primeiro o escólio ao verso 1035 de Vespas, em que o comentador cita a anedota da lâmia contada por Dúris de Samos:

Fr. 35: Dúris, no seu segundo [livro], o dos líbios, conta a Lâmia ter sido uma bela mulher, mas porque Zeus transou com ela, as [crianças] que paria eram destruídas por Hera enciumada; por isso tornou-se deformada pela dor e sequestradora que matava as crianças dos outros.260

Um comentário detalhado da história acima pode ser visto nesta mesma tese na parte

em que tratamos de Dúris de Samos.261 Basta dizer neste momento que o fragmento

acima é uma das únicas fontes dessa história, que de outro modo estaria perdida para nós. Em seguida, citamos o comentário acerca do verso 758, de Paz:

<bagos de uma lâmia> os testículos são de fato ativos.262

258

Cf. Halm-Tisserant, 1989, especialmente pp. 75-76, nas quais ela apresenta sua tese de que a criatura é um monstro hermafrodita.

259 Cf. LIMC, v. III1, 1986, p. 189 para os comentários do autor e a legenda da figuras, e III2, 1986, p.

90, para a figura em si. Cf. ainda Halm-Tisserant, 1989. 260

Escólio anônimo a Aristófanes, Vespas, 1035, Fr. 35: "Δοῦρις δ' ἐν βʹ Λιβυκῶν ἱστορεῖ, γυναῖκα καλὴν γενέσθαι τὴν Λάµιαν, µιχθέντος δὲ αὐτῇ Διὸς, ὑφ' Ἥρας ζηλοτοπουµένην ἃ ἔτικτεν ἀπολλύναι· διόπερ ἀπὸ τῆς λύπης δύσµορφον γεγονέναι, καὶ τὰ τῶν ἄλλων παιδία ἀναρπάζουσαν διαφθείρειν". Trecho grego retirado de Holwerda, 1982 = TLG. Um trecho cheio de infinitivos e com apenas dois verbos finitos, ἱστορεῖ, no presente indicativo ativo, e ἔτικτεν, no imperfeito indicativo ativo. A impressão é a de que o autor quis, com o uso de tantos infinitivos, mostrar os motivos de cada personagem da história para fazer o que fez. Os verbos ἀπόλλυµι e διαφθείρω têm acepções extremamente parecidas. Apesar de exibirem algumas particularidades de significação, o primeiro sentido de ambos é "destruir totalmente", sendo "matar" o segundo, e ainda têm o sentido de "arruinar" em comum (cf. LSJ, 1996, pp. 205 e 418). Na tradução foram usados verbos portugueses diferentes, mas com similaridade no sentido, para tentar manter a variação vocabular do grego. Para Dúris de Samos cf. nesta mesma tese pp. 117-119.

261

Cf. nesta tese pp. 117-119.

262 Escólios a Aristófanes, Paz, 758: "<Λαµίας ὄρχεις> δραστικοὶ γὰρ οἱ ὄρχεις". Esse comentário tem

uma outra possibilidade de tradução, que apenas descobrimos ao ler a tradução e o comentário de Rutherford (Rutherford, William. Scholia Aristophanica. London and New York: MacMillan and Co., 1896) a esse escólio, na p. 117 de seu livro: "a ὄρχις é violenta em sua ação medicinal" ("the ὄρχις is violent in its medical action"). Ele se refere a uma espécie de planta rasteira europeia, uma orquídea que nasce no chão, e cujo nome específico era Orchis papilionacea à época em que o LSJ foi escrito, mas que hoje em dia se tornou Anacamptis papilionacea. Rutherford sugere que a palavra ἀπλύτους fosse em verdade ἀπολύτους, do verbo ἀπολύειν, que, em termos médicos é usado para indicar remoções de partes do corpo, de tecido, etc. (cf. LSJ, pp. 208-209). E assim ele conclui que faria mais sentido porque essa planta, ou sua raiz, era usada para limpar úlceras e afecções corporais semelhantes (ela é usada até hoje com fins medicinais: uma farinha é feita a partir de seus tubérculos, e é misturada com água, dando uma gelatina que é então ministrada ao doente na forma de uma bebida quente. Essa farinha é rica em um polissacarídeo chamado glucomanana, e por isso é usada como um emulsificante poderoso. Ela é muito usada na fabricação de uma bebida quente chamada salepo, que é típica de todos

<bagos de uma lâmia> Ambíguo263, retrata alguns testículos de Lâmia, [mas ela] de fato é fêmea. Daí também Lamo, a cidade dos lestrigões.

Diz-se que Lâmia era filha de Belo e Líbia. Falam que Zeus se enamorou dela, e a transferiu da Líbia para a Itália e, a partir dela, uma cidade na Itália foi chamada de Lâmia. O fato de Zeus estar se encontrando com ela não passou despercebido a Hera: esta, enciumada, matava sempre todas as crias nascidas de Lâmia. E ela, deprimida pelas suas crianças chacinadas, raptando por inveja as crianças dos outros, matava. Falam que é por isso que as amas, atormentando os pirralhos, chamam a Lâmia para eles. Conta-se como esta ficava continuamente insone pela vontade de Hera, a fim de estar dias e noites em luto, até que Zeus, apiedado dela, fez os olhos dela serem removíveis, de modo que pudesse tirar de si mesma os olhos e colocar de novo. E também dizem ter obtido de Zeus a capacidade de se metamorfosear no que quer. Assim encontrei nas anotações.

[Aristófanes] quer estabelecer Cléon como um monstro estranho: pois falam que a lâmia era um animal feroz, fedido e selvagem. Não se contentando apenas com esses [adjetivos] para representá-lo, atribuiu também imundo, a fim de exaltar ainda mais a inhaca em volta de Cleon.264

os países que constituíram o Império Turco-Otomano, e ainda na receita de um sorvete típico da Turquia e do Azerbaijão, a que eles chamam "dondurma". Cf. Rutherford, 1896, p. 117.

263 Para a tradução do vocábulo δίδυµος, há a opção "testículos", mas optou-se por manter a palavra

"ambíguo" por causa do contexto da frase, que está questionando essa informação que Aristófanes dá de que a lâmia teria testículos. O autor do comentário parece dizer que não faz muito sentido a lâmia apresentar testículos, pois é do conhecimento de todos que ela é fêmea. Um sujeito chamado Dídimo agrupou os comentários antigos a respeito das peças de Aristófanes entre os séculos I a.C. e I d.C., e essa sua compilação foi a base de outra compilação de comentários, organizada por um tal Símaco. Essa última obra, ou alguma de suas primeiras descendentes, foi anotada nas margens de um livro que continha todas as peças de Aristófanes, juntamente com outros materiais, e assim compôs a base dos

scholia que passaram à Posteridade (cf. Dickey, 2007, p. 29).

264 Escólios a Aristófanes, Paz, 758: "<Λαµίας ὄρχεις> δραστικοὶ γὰρ οἱ ὄρχεις. / <Λαµίας ὄρχεις>

Δίδυµος· εἰδωλοποιεῖ τινας ὄρχεις Λαµίας· θῆλυ γάρ. ἐντεῦθεν καὶ Λάµος ἡ πόλις τῶν Λαιστρυγόνων. / λέγεται ἡ Λάµια Βήλου καὶ Λιβύης θυγάτηρ. ταύτης ἐρασθῆναι τὸν Δία φασίν, µεταγαγεῖν δὲ αὐτὴν ἀπὸ Λιβύης εἰς Ἰταλίαν, ἀφ' ἧς καὶ πόλις ἐν Ἰταλίᾳ Λάµια προσαγορεύεται. ἔνθεν αὐτῇ συνελθὼν ὁ Ζεὺς οὐκ ἔλαθε τὴν Ἥραν· ἥτις ζηλοτυποῦσα τὴν Λάµιαν τὰ γινόµενα αὐτῆς τέκνα ἀνῄρει ἀεί. ἡ δὲ ἀποθνησκόντων αὐτῆς τῶν παιδίων βαρυθυµοῦσα τὰ τῶν ἄλλων παιδία διὰ φθόνον ὑποκλέπτουσα ἀνῄρει. διὰ τοῦτο καὶ τὰς τίτθας ἐκφοβούσας τὰ βρέφη φασὶ καλεῖν ἐπ' αὐτοῖς τὴν Λάµιαν. µυθεύεται δὲ ὡς ἄϋπνος αὕτη διατελεῖ βουλήσει Ἥρας, ἵνα καὶ ἡµέρας καὶ νύκτας ἐν τῷ πένθει ᾖ, ἕως οὗ αὐτὴν ἐλεήσας ὁ Ζεὺς ἀφαιρέτους αὐτῆς τοὺς ὀφθαλµοὺς ἐποίησεν, ὅπως ἂν ἐν αὐτῇ ᾖ ἐξαιρεῖσθαι ἑαυτῆς τοὺς ὀφθαλµοὺς καὶ πάλιν θεῖναι. λέγεται δὲ ἐσχηκέναι παρὰ Διὸς καὶ τὸ µεταµορφοῦσθαι εἰς ὅ τι οὖν βούλεται. οὕτως εὗρον ἐν ὑποµνήµατι. / ἀλλόκοτόν τι τέρας ὑποστήσασθαι βούλεται τὸν Κλέωνα· τὴν γὰρ Λάµιάν φασιν ἄγριον εἶναι ζῷον καὶ δύσοσµον καὶ ἀνήµερον. οὐκ ἀρκεσθεὶς δὲ τούτοις αὐτὸν εἰκάσαι µόνοις προσέθηκε καὶ ἄπλυτον, ἵνα µᾶλλον αὐξήσῃ τὴν περὶ τὸν Κλέωνα δυσοσµίαν". Texto grego retirado de Koster-Holwerda, 1978-1982 = TLG. As chaves indicam informações que nós acrescentamos na tradução, para torná-la mais compreensível em português. Para ver um comentário detalhado sobre a construção dos escólios à obra de Aristófanes, cf. Dickey, 2007, pp. 28-31; e White, 1914, Introduction, pp. ix-xxx, mais especificamente, começando na p. xiv (White, John W. The

Scholia on the Aves of Aristophanes. Boston and London: Gynn and Company, 1914). A partir da p.

xxv, e até a p. xxx, White trata longamente da vida e da obra de Dídimo, a quem ele denomina o primeiro compilador de edições de variorum gregos. Ele afirma que não há como definir nem a data de nascimento nem a de morte de Dídimo, e que os estudiosos não concordam nesse ponto. Há um acordo apenas de que ele viveu no final do Período Alexandrino, e que não foi um grande crítico ou teórico, mas sim um compilador hábil, incansável e de interesse variado, que nos legou uma inestimável gama de informações a respeito das obras aristofânicas, entre outras.

O escólio primeiro diz que lâmias são seres do sexo feminino e que o fato de Aristófanes ter-lhes atribuído testículos é algo dúbio. Atentemos para a informação que o comentador acrescenta aos versos: a lâmia, apesar de ter testículos que funcionam, é fêmea. Ou seja, ou comentador duvida da informação que ele próprio está fornecendo e provavelmente vê a lâmia como um ser hermafrodita, ou está apenas confuso.

A opção de tradução em que se entende Dídimo como o nome do compilador da primeira coleção de escólios às peças de Aristófanes também é possível. O comentário, assim, afirmaria que "Dídimo disse que há algumas lâmias com testículos". Aparentemente Dídimo não escreveu muitos comentários acerca dos versos de Aristófanes, limitando-se a compilar, em vários rolos (John White cita mais

de três mil), as obras que haviam sido escritas com esse fim por autores anteriores.265

O comentador ainda faz questão de remontar a Homero, estabelecendo a conexão da lâmia com a cidade dos lestrigões, a qual ele denomina Lamo, afirmando que é uma palavra feminina, como λάµια. O escoliasta corrobora, desse modo, nossa verificação de que os dois vocábulos gregos λάµια e Λάµος têm uma atuação semântica parecida, relacionada à voracidade daquilo a que se referem, como mencionamos tanto na "Introdução" deste trabalho quanto na parte dedicada à

discussão do trecho homérico.266

Em terceiro lugar, o comentador relata a história da Lâmia filha de Belo e Líbia, por quem Zeus se apaixonou. Tal história, na verdade, não aparece em nenhuma das fontes antigas, a não ser em esparsas referências: no verso remanescente

da peça Lâmia, de Eurípides, em Dúris de Samos, e em Heráclito paradoxógrafo.267

Belo seria o deus Marduk da mitologia babilônica, o que implicaria em origens semíticas para Lâmia. Tal origem poderia explicar sua conexão com Lilith e, a partir

desta, com a assíria Lamashtu.268 Plutarco também menciona uma lâmia que tem a

Documents relatifs