Suralimentation Postnatale
D. Restriction calorique
Captar a polifonia de grupos distintos é uma tarefa importantíssima para quando se deseja detectar as diferentes posições e visões existentes nos interiores dessas agremiações. Os vieses da oralidade e da textualidade escrita são sim ferramentas eficazes detecção da heterogeneidade de vozes. De uma forma ou de outra, acreditamos ser possível se buscar caminhos viáveis para se entender a construção identitária a partir de ecos polifônicos, reveladores de posições subjetivas produzidas na rede de inter-subjetividades pelos grupos nas suas relações interna ou externa.
No caso específico deste item, a polifonia da comunidade Muzenza, ao contrário da captação feita na comunidade Ilê, feita através de depoimentos foi identificada a partir das composições carnavalescas produzidas pelos seus integrantes, nas quais foi possível se perceber a heterogeneidade de vozes dos seus compositores.
Os compositores Tarciso Sales, Adson, Nem Tatuagem e Diego Rumpilé, na composição “O Muzenza passa”, revelam seus entusiasmos e suas convicções, em relação à magia que o bloco Muzenza provoca nas platéias assistentes e, até mesmo nos próprios integrantes do grupo, durante os desfiles por todo o período carnavalesco. A força vibrante da euforia lúdica que o bloco desencadeia nas pistas, para esses compositores, eleva a todos a um estágio sublime de graça e beleza que sem a presença do bloco “[...] a Avenida não tem graça [...]”. Os negros tocando os tambores, jogando para o lado, jogando prá cima e cantando com alegria; eleva a auto-estima dos sócios, despertando um forte sentimento de prazer e de afirmação identitária, pois, é a própria composição que, como linguagem que expressa essa auto-estima, proclama “Eu sou Muzenza e não abro mão”. Nesse posicionamento firme e nessa declaração emocionante, os autores reiteiram a certeza de que acreditam estarem no caminho certo, quando retrucam “jamais mudarei meu modo
de pensar”.
A identidade no Muzenza não só se evidencia nos folguedos lúdicos carnavalescos, ou simplesmente em inconseqüentes atividades recreativas, mas revela-se, inclusive, nas atitudes intelectuais antenadas ao mundo em volta, mostrando que o “ser Muzanza” é estar acompanhando os movimentos culturais nacional e internacional. Conhecer as realidades sociais é também uma forma identitária de
“Ser Muzenza” – como no caso específico da Música Popular Brasileira, representada pelo grande expoente carioca Tom Jobim, reverenciado pelos compositores do Muzenza Elí Eliú, Ronaldo Pinheiro e Tinga na composição “Vamos
falar do Tom” que, homenageando o criador da Bossa Nova, abriu espaço na
territorialidade do grupo para mostrar que tem gratidão e bom gosto, colocando a afro-descendência brasileira nas grandes discussões nacionais, propondo-se a tratar de grandes temas ao sugerir “[...] vamos falar no Tom. Vamos falar no Tom Jobim”, demonstrando que no carnaval pode-se, também, tratar de coisas sérias.
Subindo ou descendo as ladeiras, o Muzenza é sempre o “Muzenza do Reggae”. No swing da dança, negros e negras se movimentam firmes e conscienciosos dos seus papéis, elevando suas auto-estimas, cantando e exibindo suas cores e os seus valores. Nego Júlio, Tica Mahatma e Clóvis Cruz, compositores selecionados do grupo, na composição “Cambaleô” exaltam as belezas das suas dançarinas, quando asseveram “[...] Negra maravilha do viver, pois minha vida é você”.
“Somos Muzenza do Reggae, explosão da Bahia Jamaica”. É assim que o bloco Muzenza costuma abrir o ciclo festeiro do Momo, convidando as assistências a participarem da “dança das Iaôs”. Ao som dos seus toques característicos, o Muzenza encanta as platéias e as faz envolverem-se nos seus requebros. Chocolate Nascimento, um dos compositores de grupo, seduzido pelos requebros femininos, na sua composição “Reggae Street Muzenza”, assim se expressa “Ó musa, mulher
louca que me deixa de água na boca [...].”
Luciano Gomes, outro compositor do bloco, consciente do importante valor que tem o Muzenza, convida a todos “a tirar o chapéu” na passagem do bloco. Na sua composição “Tcheco Leléo”, referindo-se ao Muzenza, expressa “Eu sou poeta,
profeta de tradição / Força de liderança, livre conscientização / Sou Rasta Filosofia, divindade e esplendor / Guerreiro Sagrado / Eu sou afro-Muzenza que o universo consagrou [...]”.
A “filosofia muzenza” é latente para todos aqueles que se dispuserem a ouvir a polifonia do grupo. A “comunidade muzenza”, nas suas letras denunciativas, expõe toda a sua visão deste sistema perverso e desigual. Sacramento e Jailtom Pereira,
na composição “Novo canto”, nos chama a atenção para esse aspecto “[...]
Repressão, violência contra o povo / O sistema fabrica o marginal / Diz que é pobre ou preto é suspeito / Nesta sociedade não temos direito não [...]”.
O Muzena vive cada um dos seus temas com euforia e novidade, anunciando a todos a sua nova criatividade. Suas Iaôs dançam “tirando pó do chão”. O bloco se diz “elegante e vibrante”. E, assim vai reverenciando a jamaica [...] Cruz, um dos seus compositores, referindo-se às Iaôs, na sua composição “Povo vem ver”, exalta: “Aquela negra de trança sempre a se embalar / No balanço do Reggae vai
misturando ao toque do Ijexá [...]”.
Na composição “Canto Latino”, Everaldo Itakbak, um dos compositores de Muzenza, faz uma verdadeira apologia ao “Ser negro”: “[...] a pele negra é bonita demais [...]”. E numa reverência a Bob Marley, ele diz: “[...] foi São Jorge Marley quem venceu o
dragão [...]”. E, como que quebrando os padrões da concepção dominante, ele
afirma: “O Cristo é negro bonito de olhos cor mel”. Nessa linha, ele vai re-alinhando as velhas visões a partir de uma outra forma de ver e conceber a vida, impondo um novo sentido aos sentidos tradicionais.
A Identidade Muzenza tem sido construída a partir das heranças africanas, mas, o viés de busca, como já se sabe, sempre foi a Jamaica caribenha, tendo como ídolo inspirador Bob Marley – o grande influenciador dos valores étnicos cultuados e adotados pelo bloco. Itamar Tropicalha e Roque Carvalho, compositores do bloco, fazem uma referência a esse veio diaspórico: “Bob Marley semeou, ô, ô, ô / E o
Reggae se espallhou / Muzenza difundindo Salvador desabrochar / Jamaicanizado está”. E assim, o bloco Muzenza vai prosseguindo na sua trilha cantando a “Mama África” ao som do Reggae jamaicano e do Ijexá africano, tendo Bob Marley como
guia.
E, para encerrar essa breve escuta polifônica, trago aqui Nego Tenga com a sua curta, porém, brilhante composição “Brilho e beleza”, demonstrando toda a importância trazida pelo “Rei” jamaicano ao Muzenza, com essa linda e emocionante frase que traduz a forte ligação entre o Muzenza e Bob Marley, frase essa que, aliás,
já foi citada neste trabalho: “O negro segura a cabeça com a mão e chora / E chora,