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4.2 Simulations de mesures lidar : la méthode du suivi de rayon

4.2.3 Restitution de la matrice de diffusion atmosphérique

Mais recentemente, naquele que é na verdade o primeiro trabalho de fôlego sobre a história da sociologia em Portugal, Nuno Estêvão Ferreira, na esteira das formulações mais dialécticas de Madureira Pinto a que começámos por nos referir na secção anterior, discute de forma apenas implícita a referida tese de Sá, controvertendo explicitamente as posições de António Teixeira Fernandes e Mário Murteira.

Para estes autores, como vimos, e agora segundo Estêvão Ferreira, o relevo que intencionalidades de modernização socioeconómica e legitimações doutrinárias de cunho reformista-católico teriam assumido na “sociologia” praticada em Portugal nas décadas de 1950 e 1960 (e por Sedas Nunes em particular), justificariam a convicção de que apenas depois de Abril de 1974 passariam a existir «condições sociais» para o desenvolvimento daquela disciplina «a partir da “consolidação do paradigma científico”»94. Para Estêvão Ferreira, alternativamente, o peso que o reformismo- católico e o próprio corporativismo terão assumido na trajectória de Sedas Nunes, por um lado, e o facto de as instituições por si projectadas só terem sido reconhecidas após a transição democrática, por outro, não invalidam que já em 1972 estivesse concluída «uma determinante viragem no percurso daquele actor no sentido de produzir investigações no campo das ciências sociais nos contextos em que estava inserido»95. E não só não o invalidam como terão constituído o enquadramento geral – as doutrinas e ideologias perfilhadas ou as instituições entretanto criadas – de um processo essencialmente individual de cariz intelectual (protagonizado pelo mesmo actor) em que, por rupturas sucessivas, se foram queimando etapas, da doutrinação corporativista à afirmação das modernas ciências sociais (passando pela realização de estudos sociais sobre o desenvolvimento), até à decisiva depuração epistemológica de um «conhecimento científico do real-social». De acordo com o autor, semelhante viragem abriria então caminho àquilo que não seria senão a mera «legalização» da licenciatura em Sociologia no ISCTE mas também à transformação do Gabinete de Investigações

94 Nuno Estêvão Ferreira, A Sociologia em Portugal…, op. cit., p. 222. 95 Id., ibidem, pp. 222-223.

Sociais em Instituto de Ciências Sociais (ICS), em 1982, apenas possíveis, de facto, no novo quadro político96.

Não nos ocuparemos do argumento de Estêvão Ferreira em toda a sua extensão, mas, para os devidos efeitos, torna-se necessário explicitar este último ponto. Inicialmente integrado no Gabinete de Estudos Corporativos (GEC), do Centro Universitário de Lisboa da Mocidade Portuguesa, e posteriormente destacado por convite para a direcção do recém-criado Centro de Estudos Sociais e Corporativos (CESC), do Ministério das Corporações, Adérito Sedas Nunes acabaria por verificar a incompatibilidade entre a estrutura social portuguesa e as teses corporativistas, a que começaria por aderir. Constatação que viria conduzi-lo, então, ainda no âmbito deste enquadramento institucional genérico, à convicção da necessidade de se proceder ao «estudo aprofundado das estruturas e dos dinamismos da organização da sociedade»97 (e, apenas a prazo, à sociologia científica).

O movimento descrito decorre em dois passos: se num primeiro momento a descoincidência entre as realidades sociais e aquele ideário começaria por suscitar a proposta de aplicação de um «pré-corporativismo», ou de um corporativismo possível, a aplicar nomeadamente, para além da reorganização das empresas, por intermédio da «preparação dos dirigentes e do estudo sério e intenso dos problemas económicos»98; num segundo momento, a mesma constatação, «associada a outros factores», e, em particular, às dificuldades de concretização de projectos de investigação autónomos (é este o factor destacado por Ferreira), teria significado «a definitiva desvalorização dos princípios doutrinais e, principalmente, o recurso a metodologias mais eficazes no acesso à realidade social»99. A posição que assumiria como director do referido CESC, ocupada por Sedas Nunes em 1957 e na qual permaneceria por cerca de dois anos, representaria o separador simbólico destes dois momentos100 e a renúncia ao cargo, para

96 Diz o autor: «Na nossa perspectiva, o corporativismo e o reformismo católico constituem, sem sombra

de dúvida, importantes referências na trajectória de Adérito Sedas Nunes. As instituições que projectou foram apenas reconhecidas depois da transição democrática. Mas também consideramos ter tido início em 1965 e estar concluída em 1972 uma determinante viragem no percurso daquele actor no sentido de produzir investigações no campo das ciências sociais nos contextos em que estava inserido. E foi essa mudança que preparou a legalização da licenciatura em Sociologia no ISCTE e a criação do ICS, apenas possíveis no novo quadro político» (id., ibidem).

97 Id., ibidem, p. 168. 98 Id., ibidem, p. 167. 99 Id., ibidem, pp. 164-165. 100 Id., ibidem, p. 165.

a qual invocaria a recusa da tutela de criar uma publicação periódica que divulgasse os trabalhos realizados, o natural corolário de uma mesma postura científica perante os problemas sociais (gerada ainda no GEC, tal como se explicita). Facto que explicaria também, de acordo com Estêvão Ferreira, a decisão de regressar ao GEC101, agora algo paradoxal, perante a progressiva desvalorização do corporativismo (após a passagem pelo CESC) e face ao papel que (ainda segundo o autor) a definitiva ruptura com aquela doutrina viria a ter na subsequente evolução intelectual de Sedas Nunes e na correspondente criação do Gabinete de Investigações Sociais, como sua condição102.

De resto, só a circularidade do argumento permite afirmá-lo simultaneamente – que a ruptura científica com o corporativismo foi condição da sua subsequente evolução intelectual e, por isso, determinante na criação do GIS, nos moldes descritos («O GIS é resultado de uma primeira ruptura no percurso de Sedas Nunes»103) e que o regresso ao Gabinete de Estudos Corporativos é consequente com a postura científica de Sedas Nunes perante os problemas sociais. Porque é justamente por via de «uma análise da realidade social por intermédio de processos científicos» ou, mais adiante no mesmo parágrafo, pela crítica teórica «alicerçada numa matriz científica», que se desencadeia no próprio GEC um processo em que se começaria por associar «a exposição sistemática dos eixos estruturadores da doutrina corporativista» a «uma análise das estruturas sociais, na qual o recurso a construções de teoria social permitia esclarecer dificuldades de correlação e apontar incompatibilidades»104 e que, a jusante, resultaria na radical reconfiguração do próprio GEC. Reconfiguração possibilitada, é certo, pela proposta de alteração estrutural apresentada pelo ministro das Corporações e Previdência Social em 1962 ao abrigo do Plano de Formação Social e Corporativa (e que viria a redundar na instituição do GIS junto do ISCEF), mas determinada, sublinhe- se, pelas próprias reservas da parte de Sedas Nunes (e de outros membros do GEC)

101 Afirma o autor: «(…) o motivo imediato para a saída de Sedas Nunes do CESC – a recusa da tutela em

criar uma publicação periódica que divulgasse os trabalhos realizados – assim como a decisão de regressar ao GEC expressam a mesma postura que havia sido gerada nesta instância corporativista. O estudo científico dos problemas sociais constitui o denominador comum» (id., ibidem, pp. 168-169).

102 A este respeito o autor limita-se a afirmar: «Num primeiro momento, o corporativismo constituiu o

quadro de realização de estudos científicos sobre o social. Posteriormente, o abandono do “pré- corporativismo” mostrou-se compatível com a prossecução daqueles trabalhos nos contextos institucionais existentes. Finalmente, uma tal compatibilização tornou-se insustentável (…)» (id., ibidem, p. 169).

103 Id., ibidem, p. 164.

relativamente ao projecto inicial do ministro, que previa a criação de novo centro de estudos sociais e corporativos e de forma a corresponder «à necessidade de proceder a estudos sociais, de acordo com a preocupação da objectividade e à luz do critério científico»105. E se as razões de fundo que terão levado Sedas Nunes a regressar ao GEC são para nós relativamente irrelevantes, já o mesmo não se pode dizer das razões que, no GIS, terão levado, primeiro, à «emergência das investigações sociológicas» e, depois, à «sociologia científica» propriamente dita – que são fundamentalmente as mesmas, acrescidas de preocupações metodológicas inerentes a esse mesmo processo (embora aparentemente estimuladas também pelas transformações económico-sociais do país).

Assim, e depois de dois anos iniciais em que os trabalhos produzidos no GIS e publicados na Análise Social permaneceriam inscritos «na perspectiva de uma abordagem de problemas sociais, onde o trabalho, o sindicalismo, a habitação, o progresso [alguns deles temas comuns aos abordados no GEC e no CESC] constituem vectores importantes, e que podemos considerar na óptica de uma compreensão dos “aspectos sociais do desenvolvimento económico”»106, em 1965 operar-se-ia uma modificação no perfil da revista «no sentido de alargar o seu “cunho sociológico”, sem no entanto a desviar do seu interesse fulcral pelos problemas sociais”», e que seria acompanhada «pela construção de outros objectos de análise»107. Para Estêvão Ferreira, estamos então em presença de dois movimentos complementares em que as questões metodológicas suscitadas pelos primeiros ensaios de problematização do desenvolvimento social e económico de Portugal implicavam recorrer a novos procedimentos de análise, e em que, por seu turno, as abordagens sociológicas da realidade significavam a valorização de outros tópicos108. «Iniciava-se aqui o processo que conduziria à emergência da fundamentação epistemológica da sociologia, ou, dito de outro modo, processava-se uma segunda transição do percurso de Sedas Nunes, de que resultaria a derradeira etapa que assinalamos»109 – e que, no seu devido tempo, levaria ao reconhecimento da sobredita forma de conhecimento.

105 Id., ibidem, pp. 191-192. 106 Id., ibidem, p. 193. 107 Id., ibidem, p. 196. 108 Id., ibidem. 109 Id., ibidem.

É certo que, já a terminar o texto, Estêvão Ferreira sugere que o próprio perfil institucional do GIS teria sido relevante para a afirmação da sociologia no espaço académico português, por nele não se ter operado a cisão (tal como terá sucedido noutros enquadramentos institucionais mais ou menos conexos) entre «as metodologias de objectivação» e a «interpretação dos resultados»110. Mas, como vimos, para além de embater na instrumentalidade dos primeiros estudos do GIS, semelhante especificidade decorria ela própria, para lá das preocupações metodológicas notadas, dessa ruptura individual que as desencadeara. Aliás, afirma Estêvão Ferreira a propósito de forma inequívoca, «Na base destas evoluções situa-se a intencionalidade inicial do GIS»111.

Na verdade, cremos, e nos termos do próprio texto que temos vindo a acompanhar, mais do que o resultado de uma ruptura individual com o corporativismo, a criação do GIS, primeiro, e o posterior e correlativo desenvolvimento da sociologia nesse mesmo gabinete, parecem ter começado por corresponder a uma autonomização científico-institucional dos primeiros estudos económico-sociais realizados ainda no GEC112 ou, se preferirmos, à consumação de perspectivas aí abertas mas efectivamente não concretizadas, ou apenas parcialmente consumadas (o que evidentemente não invalida que semelhante ruptura intelectual tenha de facto ocorrido e contribuído para semelhante desfecho). E se essa autonomização não pode ser compreendida à margem das diligências iniciais do ministro das Corporações e Previdência Social (José João Gonçalves Proença) e, sobretudo, da decisiva anuência à contraproposta, da parte dos membros do GEC, de total reestruturação do mesmo, aquele deferimento, por seu turno, não pode ser entendido sem referência a um contexto genericamente favorável àquele tipo de estudos e à criação de institutos votados à sua realização que não pode ficar por uma referência vaga ao arranque desenvolvimentista das décadas de 1950 e 1960. Pelo contrário, a referência a semelhante contexto deverá considerar também o modo concreto como aquelas transformações desafiaram os moldes consagrados do

110 Segundo o autor, no GIS «A ciência possuía autonomia para comportar todas as instâncias

metodológicas, até porque passava a estar em causa explicar o social pelo social e não introduzir reformas sobre a sociedade» (id., ibidem, p. 231).

111 Id., ibidem (sublinhado nosso).

112 É o próprio Estêvão Ferreira que o afirma, relativamente àquele segundo aspecto: «Para além de

corresponder a uma autonomização face à doutrinação corporativista, a emergência de investigações sociológicas também era o resultado de preocupações metodológicas. A mesma questão inicial, as condições estruturais do desenvolvimento social e económico, provocava a reivindicação de um espaço epistemológico para a sociologia, onde pudessem ser exploradas construções teóricas de maior potencial explicativo e possibilidades metodológicas mais eficazes» (id., ibidem, p. 195).

intervencionismo público e da própria orgânica institucional do Estado e a relação biunívoca que a governação manteve com os lugares de criação e com a própria produção de saberes sobre o social (teóricos ou empíricos), de que o GEC, sublinhe-se, constitui desde logo instância a considerar. Tanto mais quando se começa por dar por assente a desconfiança do regime face a este tipo de estudos; ou inversamente, quando a suposta relação destes com a putativa inflexão política daquele, a partir de meados da década de 1950 (que teria tido nos primeiros Planos de Fomento o seu sinal mais aparente), carece também ela de explicitação.

A este título genérico, aliás, Estêvão Ferreira fornece um contributo inestimável, não tanto a respeito do Estado ou de organismos na sua esfera de influência mais ou menos directa, mas a propósito da Igreja, resgatando ao passado um pouco conhecido acervo de trabalhos de investigação social de âmbito religioso e a acção do Secretariado de Informação Religiosa (SIR) do episcopado português, criado em 1959 e responsável pela realização daqueles estudos. Aqui, porém, a «sociologia do religioso» (a expressão é do autor) e a institucionalização do SIR não avultam senão enquanto resultado culminar de um quadro sócio-histórico alargado onde se cruzam em pano de fundo factores como: a) a reacção do catolicismo português ao processo de secularização então em curso na sociedade portuguesa; b) o entendimento clerical da posição relativa do Estado nesse processo e a percepção dos limites dos modelos instituídos da acção eclesial e social-católica; c) a ampla e profunda reforma pastoral desenvolvida pelas elites do clero de Lisboa ao longo da década de 1950; d) a emergência da sociologia das religiões no panorama científico internacional; e ainda e) a preponderância intelectual e científica de práticas equivalentes empreendidas noutras paragens113.

Sublinhemos convenientemente a dupla importância deste complexo itinerário pelas transformações intelectuais e institucionais da Igreja, pelas racionalizações conexas protagonizadas pelas mais altas esferas do clero e pelas influências estrangeiras a que umas e outras terão sido sujeitas. Trata-se antes de mais de destacar e especificar a

113 A aposição ordenada de apenas duas entre as várias passagens do livro em questão que serviriam para

ilustrar a nossa avaliação bastará para confirmá-la: «No quadro da reforma pastoral que foi sendo desenvolvida pelas elites do clero de Lisboa ao longo da década de 50 [do século XX], a sociologia religiosa constitui uma componente de uma estratégia global do catolicismo, que visava, acima de tudo, reagir de forma concertada e homogénea ao processo de secularização da sociedade portuguesa. A criação do SIR corresponde a este imperativo de renovação das relações entre a Igreja e a sociedade» (id., ibidem, p. 81). Ou, mais adiante: «A afirmação da sociologia religiosa em Portugal decorreu das preocupações relativas à descristianização da sociedade e à emergência da coordenação da acção pastoral da Igreja Católica perante tal realidade» (id., ibidem, p. 95).

ascendência que determinadas formas de conhecimento empírico acerca da sociedade terão passado a exercer sobre a acção burocrática (interna) e pastoral (externa) daqueles sectores eclesiásticos, esta última de especial relevância para o caso português atendendo ao papel plurissecular da Igreja propriamente dita ou de outras instituições conexas com a mesma inclinação assistencialista (como as Misericórdias) na gestão das relações sociais e na vez de um Estado hesitante face a esta matéria ou, nalgumas áreas, assumidamente demissionário – e relativamente ao qual poderá ter sido pioneira e, acrescentamos nós, que poderá ter chegado a servir-lhe de inspiração. Até porque assim se inaugura um novo capítulo da história das ciências sociais em Portugal (a «sociologia religiosa»), relativamente autónomo perante outros filões já referidos mas com vários actores e dinâmicas comuns àqueloutro filão que vínhamos acompanhando e onde se destacaria, uma vez mais, o inevitável Adérito Sedas Nunes – envolvido nalgumas das primeiras iniciativas científico-sociais daquele sector reformista do catolicismo português, enquanto militante laico114.

Mas, se no quadro do argumentário avançado, o envolvimento em semelhantes iniciativas e a ascendência intelectual da doutrina social da Igreja podem de facto ajudar a compreender o «interesse» inicial de Adérito Sedas Nunes pela sociologia115, esse envolvimento e esse interesse não chegam igualmente para justificar a ulterior afirmação científica (e institucional) daquele conhecimento, mesmo atendendo a tudo o que se foi deixando registado relativamente a este ponto e desconsiderando inclusivamente problematizações mais interessantes avançadas por Estêvão Ferreira a respeito do modo como enigmas e insuficiências da ciência económica (em que inicialmente se formara) terão conduzido Sedas Nunes não só a novos instrumentos de análise mas também à própria conceptualização prévia da esfera ontológica que os reclamará: o social116. Não chegam para justificá-lo, dizíamos, pelo menos sem precisar a importância que processos análogos terão tido ao nível dos institutos do Estado ou da orgânica corporativa. O facto de Adérito Sedas Nunes constituir, como se afirma, «o elemento de ligação entre diversos agentes e contextos sociais, que foram sendo

114 Sobre as iniciativas científico-sociais do sector reformista do catolicismo português vd. também

Adelino Gomes, «A JUC, o Jornal Encontro e os primeiros inquéritos à juventude universitária....», op.

cit..

115 «Será então no cruzamento entre a percepção do espaço de intervenção da igreja e as formas de

problematizar o social que aplica que iremos detectar as linhas que conduziram ao seu interesse pela sociologia» (Nuno Estêvão Ferreira, A Sociologia em Portugal…, op. cit.,, p. 163).

definidos por finalidades distintas, mas cuja articulação nos permite compreender uma estratégia e explicar as suas evoluções» não pode, quanto a nós (e tal como se pretende), servir de justificação a que um desses dois «contextos» – o corporativismo e o catolicismo social, no caso o primeiro – se veja pura e simplesmente subsumido no percurso individual da figura (ademais apenas uma entre várias) que os liga117. A menos que se considere que no âmbito do objecto estudado – a sociologia em Portugal – cada um daqueles dois enquadramentos institucionais se reveste de dignidades historiográficas distintas, em função de desenlaces epistemológicos e académicos diferenciados e, sublinhe-se, definidos à partida pelas respectivas finalidades. Bastaria então, de facto, por um lado identificar a emergência do interesse propriamente científico pela sociologia por parte daquele actor privilegiado e, por outro, mostrar a degenerescência instrumental (ou a deriva utilitária) de uma ciência já constituída e posta ao serviço de interesses particularistas (neste caso religiosos).

Quanto a nós, e sem prejuízo de estarmos perante a mais profunda e interessante análise disponível sobre o tema, a verosimilhança da alegação de que, apesar de se tratar de duas vias paralelas, a afirmação da sociologia religiosa no SIR e o desenvolvimento da sociologia no GIS radicam numa mesma matriz118, resulta em parte daquilo que se nos afigura ser a anulação ostensiva das potencialidades (e correlativas limitações) do corporativismo para enquadrar teoricamente as implicações sociais e políticas decorrentes da necessidade declarada e entretanto consagrada de desenvolvimento económico do país – de que homens de formação técnica como Sedas Nunes e engenheiros e economistas em geral viriam a ser os principais arautos, e cujas condições e consequências seriam eles os primeiro avaliar. O que não equivale a afirmar, naturalmente, a identidade (ou sequer qualquer tipo de filiação directa) entre corporativismo e sociologia. A este respeito, será certamente desnecessário insistir aqui na forma como a doutrina oficial do regime serviu efectivamente de base (como vimos sugerir Victor de Sá) a enunciados que negavam muitos dos fundamentos e postulados que à época caracterizavam aquele saber e, desde logo, a própria possibilidade de considerar a manifestação de interesses sociais que não correspondessem directamente aos agrupamentos humanos considerados naturais – nação, corporações e família. E vale

117 Id., ibidem, p. 13.

118 «Todavia, tanto estes contactos como as noções que os membros do GIS, na sua fase inicial, possuíam

do trabalho desenvolvido no SIR, não nos permitem inferir o acerto de estratégias a partir de um referencial originário. A proximidade verificada aponta, antes, para a existência de vias paralelas que foram desenvolvidas a partir de uma mesma matriz» (id., ibidem, p. 226).

a pena sugerir antecipadamente que algumas das mesmas questões que noutros enquadramentos institucionais (nomeadamente em domínio agronómico) haviam já conduzido à aplicação de instrumentos de investigação científico-social e à invocação formal da sociologia, emergiriam nesses contextos de problematizações teóricas e de dificuldades práticas que, muito embora comungassem de alguns dos mesmos valores e inquietações, pouco ou nada ficariam a dever ao corporativismo, enquanto sistema político-económico.

Mas o corporativismo não foi apenas a formulação doutrinária de um modelo de organização económico-social a impor de cima para baixo (juridicamente ou por doutrinação das elites, por exemplo) ou um princípio formal de representação política, decorrente daquele e assente numa concepção organicista da sociedade; enfim, o corporativismo foi algo mais do que mera barreira ideológica que teve de ser superada