5 DISCUSSION DES RESULTATS
5.3 Les ressources formelles et informelles
Os alimentos da ceia pascal, o pão e o vinho, evocam os produtos produzidos e consumidos por homens e mulheres da Palestina no tempo de Jesus, mas que também, na sua linguagem religiosa, representam o percurso de uma história de salvação estendida numa terra símbolo e compêndio de todas as terras do mundo438.
A terra recebida por Deus como herança é para o bem-estar de toda pessoa, produzindo frutos para quem a habita e trabalha: à tua descendência darei esta terra (Cf. Gn 5-9.17-21; 12,1-3). Destarte, os israelitas celebram a memória e presença de Deus com pão e vinho na terra prometida439.
434 Representada, por exemplo, pelo profeta Amós (cf. 4,4-5; 5,21-25), Oseias (cf. 6,6).
435 Cf. o estudo de: ZENGER, E. “Ich finde Wohlgefallen an Liebe, nicht an Opfer” (Hos 6,6). Ersttestamentliche Stellungnahmen zum Verhältnis von Kult und Ethos. In: KRANEMANN, B.; STERNBERG, T.; ZAHNER, W. (Hrsgs.) Die diakonale Dimension der Liturgie. Freiburg – Basel – Wien: Herder, 2006, p. 16-30.
436 Cf. NOGUEIRA, P. Dar a vida pelos seus amigos: o Jesus histórico e o sacrifício, p. 39.
437Contudo, na atualidade, o mesmo discurso milenar não consegue não pensar em Jesus como sacrifício, como vítima expiatória dos nossos pecados. É uma característica da sociedade ocidental que representa isto, por exemplo, na iconografia e rituais: Jesus, o cordeiro sem mancha, imolado, Cf. NOGUEIRA, P. Dar a vida pelos seus amigos: o Jesus histórico e o sacrifício, p. 36.
438 Cf. PIKAZA, X. Para celebrar: fiesta del pan y fiesta del vino. Mesa común y eucaristia. Estella: Verbo Divino, 2005, p. 55.
Os alimentos como dons representam uma bênção440 e também um risco, ou seja, um conflito que perpassa a história toda. Justamente os israelitas descem ao Egito em busca de pão e são escravizados pelo faraó441. Eles precisam mais do que o pão. Israel precisa de liberdade para comer o pão, fruto da vida partilhada442.
Nessa situação clamam a Deus e este os escuta. Assim, confere-se que o povo vê na terra que emana leite e mel um presente prometido por Deus e outorgado aos hebreus agora libertos da escravidão no Egito. É o que declara todo israelita: Gritamos a Yhwh,
Deus dos nossos pais, e Yhwh ouviu a nossa voz: viu nossa miséria, nosso sofrimento e nossa opressão [...] e nos trouxe a este lugar, dando-nos esta terra, uma terra onde emana leite e mel. E agora, eis que trago as primícias dos frutos do solo que tu me deste, Yhwh (Dt 26,7.9-10, cf. Ex 3,8-10).
É significativo, ao que tudo indica, que Jesus vincula sua vida e missão ao pão e ao vinho e estaria renunciando aos sacrifícios de animais443. Seus discípulos, segundo a narrativa de Mc, não queimam carne morta em sacrifícios nem oferecem pão exclusivo ou libações de vinho444, mas, eles comem e bebem, com gratidão, o pão e o vinho oferecidos por Jesus na ceia pascal. Deus não reserva para si mesmo coisa alguma445.
440 Cf. VAUX, A. de: “a bênção é vida e abundância de comida tirada da terra”, citado em: TEIXEIRA, C. Fome nunca mais: esperança que renasce da comensalidade de Jesus, p. 56.
441 É chamativa a história de José, o intérprete dos sonhos do faraó e dos pobres (Gn 40,9-12; 40,17-27). A fartura do faraó estará depois nos seus sonhos com o pesadelo da fome. Aliás, uma história interpretada desde os alimentos do pão e do vinho. Um pão que, mais para frente, transformou-se num pão da tentação (... quando comíamos pão com fartura... Ex 16,3).
442 Cf. PIKAZA. X. Para celebrar: fiesta del pan y el vino, p. 75.
443 Em: THEISSEN, G. Die Religion der ersten Christen, p. 195s. afirma-se que em todas as grandes religiões houve críticas ao culto com oferendas e sacrifícios. Já os profetas manifestaram sua grave procupação pela contradição entre a prática de sacrifícios e a injustiça social (cf. Am 5,21-24; Mq 6,6-8; Os 6,6s.; Is 1,11-17).
444 Constata-se que o vinho e o pão fazem parte da oferenda de Melquisedec em Canaã (Gn 14,17-20). Mais tarde, o templo de Jerusalém transformou-se no santuário do vinho e do pão, alimentos sagrados para Deus e para os sacerdotes. No evangelho de João (2,3-6) havia vinho no templo para libações a Deus (cf. Lv 23,9-14) e consumo dos sacerdotes, o que parece mostrar que o vinho do templo não é bom para o reino, assim o expressa BECKER, L. Rebe, Rausch und Religion, p. 143.
445 Cf. PIKAZA, X. Para celebrar: fiesta del pan y el vino, p. 71. Quanto ao valor nutritivo associado ao pão fermentado tem como consequência o desejo humano de dominar e destruir, cf. TEIXEIRA, C. Eucaristia: uma comensalidade conflitiva. Revista de Cultura Teológica, São Paulo, nro. 30, 2000, p. 30.
A participação à mesa é uma característica do ministério de Jesus. Surpreendente e escandalizador, inesperadamente, ele abre espaços a todos: senta-se à mesa de Levi (Mc 2,15-17); está com Simão, o leproso (Mc 14,3-9); seus discípulos comem com “mãos impuras” (não lavadas, 7,1-2); oferece alimento abundante às multidões (6,30-46; 8,1-10) e na última ceia reparte pão e vinho (14,22-24). Quer dizer: privar de alimentos é privar da vida, também no âmbito social da inclusão e exclusão446. Portanto, se comer e beber é uma questão de vida ou morte, partilhar à mesma mesa é sinônimo de humanidade num nível fundamental e superior447.
Quanto ao vinho, conforme a história bíblica, após o dilúvio, os humanos começam o cultivo de vinhas e produzem licores448. Transforma-se em algo necessário para manter a vida, e passa a ser símbolo da alegria e festa sobre a face da terra. O vinho apresenta na Bíblia também a ambiguidade vinculada às bodas, ao amor (cf. Ct 2,4.15), e ao engano e embriaguez (Gn 19,30.38). Mas, a tradição israelita apresenta o vinho, antes de tudo, como bênção e promessa de vida (Cf. Nm 13,20-26).
As vinhas são a primeira surpresa que enche de alegria e esperança os sedentos vindos do deserto (Nm 13,20-26, cf. Dt 1,24-25). Talvez isto tenha influenciado para que momentos especiais e datas importantes sejam celebrados com vinho, como a maioridade do filho (Gn 21,8), realização de uma aliança (Gn 26,28-30), uma boda (Gn 29,21s.), aniversário (Gn 40,20), vindima (Jz 9,27), tosquia (1Sm 25,36), construção de uma casa (Prov 9,1s.), entronização de um rei (1Cr 12,40)449.
446 Por que não compreender como causa de doença (entre elas as múltiplas curas de endemoniados, paralíticos), nos tempos de Jesus, a exclusão social? Para esta possível interpretação cf. CROSSAN, D. O
nascimento do cristianismo. O que aconteceu nos anos que se seguiram à execução de Jesus. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 333-344.
447 Cf. PÉREZ FERNÁNDEZ, M. Textos fuente y contextuales de la narrativa evangélica, p. 448. Conforme CROSSAN, D. O Jesus histórico: a vida de um camponês judeu do Mediterrâneo. Rio de Janeiro: Imago, 1994, p. 369-391, um dos eixos do atuar de Jesus foi estabelecer uma comensalidade ampla, na qual todos pudessem sentar-se à mesma mesa juntos e celebrar a chegada do Reino de Deus. 448 Cf. PIKAZA, X. Para celebrar: fiesta del pan y el vino, p. 79-87.
Israel é apresentado como a verdadeira vinha (um texto que evoca a festa do vinho é: Sl 80,9-17). Quando termina a colheita das uvas, o israelita sobe até o templo para oferecer a Deus os dons da terra. Esta vinha, porém, tornou-se rebelde (cf. Is 5,1-7). Os habitantes de Israel deviam ser bons como o vinho, ou seja, especialistas em justiça. Em Mc 12,1-12, pode-se dizer que não haverá festa do vinho sem justiça450.