Geotermia é a designação atribuída a uma série de ciências e técnicas de estudo e exploração do calor existente no centro do planeta: a energia geotérmica. A temperatura do solo aumenta cerca de 33º C por cada quilómetro de profundidade, contudo, devido à variação da composição da crosta terrestre, por vezes é possível obter temperaturas elevadas a profundidades bem menores. Qualquer temperatura existente no solo pode ser usada diretamente como energia geotérmica. Habitualmente já existe no solo um fluido que permite a troca de calor (lençóis freáticos ou infiltração das chuvas) mas caso não exista é possível injetar água no solo (rochas quentes). Existem também aflorações naturais de água quente, principalmente em zonas vulcânicas, aproveitadas há largos séculos para fins termais [12] [13].
A energia geotérmica separa-se em energia de baixa entalpia e de alta entalpia consoante o fluido esteja a menos ou a mais de 150º C respetivamente. Em Portugal apenas existe energia geotérmica de baixa entalpia (abaixo dos 80º C) contudo existem já algumas aplicações diretas da energia geotérmica em climatização de edifícios e no aquecimento de piscinas e estufas [12]. A energia geotérmica é uma forma de energia renovável, disponível em todo o mundo e a qualquer momento (ao contrário de outras formas de energia renovável), útil e proveitosa em qualquer estação do ano [13].
O solo pode ser usado quer como fonte quer como vazadouro de calor. A maior ou menor capacidade de absorção ou entrega de calor do solo depende das suas propriedades (condutividade, composição, calor específico e difusividade térmica). A difusividade térmica do solo é a razão entre a condutividade térmica e o produto do calor específico e massa volúmica. Os furos no solo (BHE – Borehole Heat Exchangers) podem ser verticais ou horizontais. Os furos verticais representam 80% das aplicações geotérmicas na Europa e neles podem ser usados tubos concêntricos (coaxiais) ou em U [13] [14].
Numa instalação do tipo BTES – boreholes thermal energy storage [15], o armazenamento de energia é feito diretamente no solo, sendo este caracterizado pela existência de camadas rochosas ou por camadas sólidas de terra. Não existe portanto nenhum fluido natural presente, o fluido de permuta de calor irá circular pelo interior de tubos ou no interior de furos.
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Figura 2.1 – Circuito primário de um sistema bomba de calor geotérmica, de anel fechado [15]
No aproveitamento da geotermia para climatização deve ser conhecida a temperatura do solo numa base horária [16]. A temperatura do solo varia ao longo do ano segundo uma função seno cuja evolução depende da temperatura média do ar exterior e da profundidade (h). Com o aumento da cota à superfície variam a amplitude e a fase da função. A amplitude da função decresce com o aumento da profundidade e a inércia do solo é tanto maior quanto maior for a profundidade, resultando num atraso do valor da temperatura deste em relação à temperatura do ar. A temperatura média do solo pode ser considerada igual à média anual da temperatura exterior, contudo, para um cálculo mais rigoroso esta temperatura deverá ser afetada por três parâmetros: AH – fator de correção da amplitude com base na profundidade; VS - fator de correção de fase; gm – fator de correção relacionado com o material do solo.
AH é calculado da seguinte forma:
0,000335. 0,01381. 0,1993. 1
(Eq. 2.1) VS é calculado da seguinte forma:
24. 0,0195. 0,3385. 1,0156. 10,298. 0,1786)
(Eq. 2.2)
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Figura 2.2 – Variação da temperatura do solo ao longo do ano (a partir de [16])
O valor de gm depende do material constituinte do solo e pode ser retirado da tabela 2.1.
Tabela 2.1 – Valores do parâmetro gm para diferentes solos (a partir de [16])
Material do solo Condutividade [W/m.K] Massa volúmica [kg/m3] Calor específico [J/kg.K] Fator de correção gm Solo húmido 1,50 1400 1400 1,00 Areia seca 0,70 1500 920 0,90 Areia húmida 1,88 1500 1200 0,98 Argila húmida 1,45 1800 1340 1,04 Argila seca 2,90 1800 1590 1,05
A temperatura do solo (Tg) pode então ser dada pela equação 2.3, onde é a diferença entre a temperatura média mensal mais elevada (a média do mês de Julho se este for o mais quente) e a média mensal mais baixa (a média do mês de Janeiro se este for o mais frio), é
a média anual da temperatura exterior e JH é a hora para a qual se quer calcular a temperatura do solo.
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= . %&−. %. sin '
()*+. − + 24,25 (Eq. 2.3)
As aplicações geotérmicas para produção de energia térmica para climatização podem ser simples permutadores ou utilizar bombas de calor geotérmicas (GSHP – ground source heat pumps). Um sistema bomba de calor geotérmica é constituído por 3 componentes principais [17]: os furos geotérmicos (BHE) que têm tipicamente diâmetros entre os 90 e os 150 mm [15] e entre 30 a 200 metros de profundidade; a bomba de calor (GSHP) tipicamente água-água e o sistema de distribuição de energia térmica.
Uma definição de bomba de calor pode ser a que se encontra na nova EPBD [2]:
“«Bomba de calor», uma máquina, um dispositivo ou uma instalação que transferem calor dos elementos naturais circundantes, como o ar, a água ou o solo, para os edifícios ou processos industriais invertendo o fluxo de calor natural de forma a que este passe de uma temperatura mais baixa para uma temperatura mais alta. No caso de bombas de calor reversíveis, a transferência de calor pode fazer-se também do edifício para os elementos naturais circundantes”.
Uma definição mais lata de bomba de calor poderá ser a de um equipamento que transfere calor de uma fonte fria para um reservatório a temperatura superior; pode no entanto ser utilizada para transferir energia da fonte quente para a fonte fria, com melhor desempenho neste caso. As bombas de calor têm vindo a ganhar espaço nos edifícios de serviços e nas habitações, não só para aquecimento e arrefecimento dos edifícios mas também para produção de AQS (águas quentes sanitárias), aquecimento de piscinas e mesmo para processos industriais. Encontram-se bombas de calor no mercado entre 1,75 kW e 44 MW, capazes de fornecer fluidos a temperaturas superiores a 100ºC [14]. Para cada fonte de energia deve ser usado um tipo de bomba de calor concebida para o efeito. As fontes podem ser tão variadas como o ar, água subterrânea ou à superfície, a energia solar ou o solo. Uma tipologia bastante interessante em termos de investimento inicial, facilidade de conversão do edifício, custos de operação e controlo de temperaturas no espaço são as bombas de calor água-água ligadas a anéis fechados de circulação de água no solo (GSHP). O tipo mais comum de bombas de calor geotérmicas é o que usa o ciclo de compressão de vapor (figura 2.3). Este ciclo pode ter um só estágio, mais que um estágio, ser do tipo cascata ou compound.
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Figura 2.3 – Esquema de princípio do funcionamento de uma bomba de calor por ciclo de compressão de vapor [14]
A razão pela qual as GSHP têm uma eficiência energética 30% superior à melhor das bombas de calor ar-água deve-se ao facto de ser utilizada água em vez de ar (esta tem um Cp superior ao ar) e ao facto de estas não estarem sujeitas às temperatura extremamente elevadas ou baixas como é o caso da temperatura do ar exterior no verão e inverno respetivamente. O material mais utilizado nos tubos de permuta de calor é o PEAD – polietileno de alta densidade com diâmetros entre os 32 e os 40 mm. A vida útil deste material neste tipo de aplicação é de 50 anos. Em muitos casos é suficiente usar-se água no interior dos tubos do circuito primário, contudo, em situações em que pode ocorrer congelamento da água adiciona- se-lhe um anticongelante como o etilenoglicol. Este tipo de GSHP chama-se Ground Coupled. Nos casos em que é o fluido frigorigéneo a percorrer uma serpentina no solo estas são do tipo expansão direta. A situação atual é a da utilização de compressores do tipo scroll e do refrigerante R410A dadas as melhores propriedades térmicas e melhor comportamento em sistemas reversíveis [17].
Como auxiliar ao projeto de instalações geotérmicas são atualmente efetuados testes de resposta térmica do solo (thermal response tests). O método Line Source Theory é o mais simples e rápido sendo o mais utilizado na Europa. Estes testes são elaborados in sito, com recurso a equipamento portátil e têm como principal interesse a determinação da composição do solo, a avaliação do desempenho dos diferentes tipos de permutadores existentes e as características reais do solo, tais como a condutividade e a convecção existente em furos permeáveis à água ou na proximidade de lençóis freáticos [15].
Em [18] foi demonstrado o potencial de aplicabilidade das bombas de calor geotérmicas (projeto europeu GROUNDHIT – Ground Coupled Heat Pumps of High Technology). Esta forma de troca de calor com o solo não tem virtualmente limite e beneficia da estabilidade quase total da temperatura do solo ao longo do ano. Conseguem-se assim performances sazonais indiscutivelmente mais apelativas que as dos sistemas bomba de calor tradicionais (a partir de
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fontes como o ar). O custo de perfuração do solo é elevado sendo o principal entrave à utilização deste tipo de sistema de climatização. Foram efetuados testes de resposta térmica do solo (thermal response tests) à instalação, em modo de aquecimento, de acordo com o método Line Source Theory, com duração mínima de 30 horas. A curta duração de alguns dos testes foi possível devido à rápida estabilização das temperaturas (à 15ª hora). O equipamento de produção de calor utilizado não era específico para o efeito (conceção própria) tendo sido necessárias algumas adaptações, até se conseguirem estabilizar a temperatura e o caudal de água. O CoP (Coefficient of Performance) máximo atingido foi de 6,05 com uma taxa de produção de energia térmica em aquecimento de 12,11 kW. Os resultados demonstraram qualitativamente que a configuração de permutadores em duplo U é a que tem melhor desempenho.
O projeto GROUND-REACH, financiado pela Intelligent Energy Europe e com o contrato nº EIE/05/105S12.420205 teve como propósito introduzir no mercado bombas de calor geotérmicas de grande dimensão para ajudar a combater a emissão de gases com efeito de estufa e dinamizar o mercado das GSHP. As caraterísticas apontadas como vantagens deste sistema eram a fiabilidade da tecnologia e o seu estado de maturação, a redução de 25% a 75% dos custos de climatização, a redução das emissões de CO2, o aumento do conforto e
consequente valorização do imóvel, a promoção da sustentabilidade ambiental e a utilização racional de energia [17].
A norma EN 15450:2007 pode ser utilizada como garantia do cumprimento dos requisitos mínimos, no projeto de um sistema GSHP completo. Não existe ainda nenhuma norma europeia para a parte geotérmica propriamente dita do sistema, somente algumas especificações técnicas nacionais nos países mais desenvolvidos neste campo [13] [19]. A norma EN 791:1996 foi já adotada por todos os países membros da UE mas destina-se apenas a assegurar a segurança na perfuração do solo e no manuseamento da maquinaria utilizada com esse propósito. Para geotermia a grandes profundidades deve ser consultada legislação aplicável à atividade de prospeção de petróleo, nomeadamente a legislação americana (API – American Petroleum Institute). No que respeita às bombas de calor o caso é diferente, existe todo um conjunto de normas aplicáveis cobrindo todas as vertentes destes equipamentos.
As dificuldades de harmonização da utilização desta forma de energia renovável devem-se ao facto de o clima e às propriedades do solo variarem por toda a Europa. Dever-se-á no futuro caminhar para uma situação em que, seja possível em qualquer parte da Europa, determinar a melhor configuração do sistema, atendendo às características e propriedades dos furos, dos materiais e dos tipos de bomba de calor utilizada. Em questões de licenciamento é também necessário definir procedimentos que tornem clara a atuação de todos os intervenientes na implementação de um sistema de climatização deste tipo e que dê garantias de qualidade ao cliente, mediante a certificação do serviço.