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Quando Anne Rice escreveu Entrevista com o vampiro em 1974 (publicado em 1976), ela não apenas modernizou a figura do vampiro, mas também ajudou a reavivar as discussões em torno da literatura góti- ca. De acordo com Bette B. Roberts66 : ―Rice não apenas recuperou a riqueza e a dignidade da tradição, mas perpetuou seu espírito de libera- ção ao alforriar o gênero de sua presente insignificância e abrir novos horizontes para o vampiro‖ (ROBERTS, 1994, p. 25, tradução nossa)67

. Rice cria um novo vampiro com ares modernos e com o espírito cético do homem do século das novas descobertas científicas, tecnológi- cas e epistemológicas; além de chamar atenção para literatura gótica que havia sido marginalizada durante a primeira metade do século XX. Ro- berts afirma que:

Antes da metade dos anos setenta poucos candida- tos de doutorado escreviam dissertações sobre romances do período romântico, e cursos sobre o romantismo britânico raramente incluíam escrito- res como Ann Radcliffe ou Mary Shelley. Anteri- or a este período estudos críticos sobre o gótico são muitos escassos (Roberts, 1994, p. 107, tradu- ção nossa)68.

Apesar de poucos acadêmicos terem escrito dissertações sobre o período romântico antes da metade dos anos setenta, houve estudos bastante relevantes sobre o gótico anterior a este período. Daniel Serra- valle de Sá69e Anelise ReichCorseuil70na introdução do periódico Ilha

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Bette B. Roberts is chair of the English Department at Westfield State Col- lege in Massachusetts. She is the author of The Gothic Romance: Its Appeal to Female Writers and Readers in Late-Eighteenth-Century England and many essays on Gothic Fiction. Source: From the book Anne Rice, 1994.

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―Rice not only recaptures the richness and dignity of the tradition but per- petuates its spirit of liberation in freeing the genre from its present insignifi- cance and opening up new realms for the vampire‖

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Before the mid-1970s few doctoral candidates wrote dissertations on the novels of the Romantic period, and courses in the British Romantics seldom included writers like Ann Radcliffe or Mary Shelley. Early critical studies of the Gothic are sparse indeed.

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Professor Adjunto do Departamento de Língua e Literatura Estrangeiras da Universidade Federal de Santa Catarina. Tem experiência nas áreas de Literatu- ra e Cinema, atuando principalmente nos seguintes temas: teoria e crítica literá- ria e cultural, literatura e história, análise de filmes. Nos últimos anos, tem

do Desterrodo Programa de Pós-Graduação em Letras: Inglês e Literatu- ra Correspondente da UFSC, edição número 62 de 2012 explicam que:

Pode dizer-se que a crítica gótica começou no iní- cio do século vinte com a publicação de trabalhos seminais, como O sobrenatural na ficção Moder- na Inglesa de Dorothy Scarborough (1917), O conto de terror de Edith Birkhead (1921), O cas- telo assombrado de Eino Railo (1927), A agonia romântica de Mario Praz (1933), A procura do gótico de Montague Summers (1938), A chama gótica de Devendra Varma (1957), entre outros estudos influentes. Estes estudos críticos ajudaram a resgatar textos ficcionais góticos de uma posição de marginalidade para um lugar mais perto do câ- none literário (CORSEUIL; DE SÁ, 2012, p.12, tradução nossa)71.

Os estudos mencionados serviram de base para várias outras pes- quisas e publicações depois da segunda metade do século XX.

George E. Haggerty72 em seu livro Queer Gothic explica que:

escrito sobre o gótico e suas manifestações em diferentes contextos culturais.

Disponível em: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/busca.do - Acesso em 21.02.16.

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Possui graduação em Licenciatura em Letras/Inglês e Literatura pela Univer- sidade Federal de Santa Catarina (1985); mestrado em Literaturas de Língua Inglesa, Eastern Michigan University (1987); doutorado em Literaturas em Língua Inglesa, Wayne State University (1992); e pós-doutorado no Departa- mento de Televisão, Teatro e Cinema da Universidade de Glasgow, 2000. É professora associada na Universidade Federal de Santa Catarina, Departamento de Língua e Literatura Estrangeiras desde 1993; membro do Colegiado do Cur-

so de Pós-Graudação em Letras/Inglês. Disponível em:

http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/busca.do - Acesso em 21.02.16.

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Gothic criticism can be said to begin in the early twentieth century with the publication of seminal works such as Dorothy Scarborough‘s The Supernatural in Modern English Fiction (1917), Edith Birkhead’s The Tale of Terror (1921), Eino Railo‘s The Haunted Castle (1927),Mario Praz‘s The Romantic Agony (1933), Montague Summers‘s The Gothic Quest (1938), Devendra Varma‘s The Gothic Flame (1957),among other influential studies. These critical works have helped to retrieve fictional Gothic texts from a position of marginality to a place closer to the literary canon.

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George Haggerty is a professor of English at the University of California, Riverside. He is the author of Gothic Fiction/Gothic Form, Unnatural Affec- tions: Women and Fiction in the Later Eighteenth Century, and Men in Love:

Não foi por acidente que Freud se valeu da escrita gótica para ajudá-lo a articular sua noção do es- tranho inquietante e vários comportamentos fanta- siosos. Escritores góticos anteciparam o trabalho de Freud e outros sexólogos, e parece para mim, se estudarmos mais atentamente o que eles escre- veram nós talvez não achemos a história da sexua- lidade tão limitada quanto parece (HAGGERTY, 2006, P.5, tradução nossa)73.

Esta observação feita por Haggerty mostra que a sexualidade sempre esteve lá escondida nas entrelinhas dos romances góticos. Ele também enfatiza a importância do gótico, não apenas para a literatura, mas também para outras áreas da ciência conectadas com o estudo de comportamentos sexuais.

Rice usa de todo seu conhecimento das convenções góticas para escrever seu primeiro best seller sobre vampiros, no qual a sexualidade e o erotismo são os principais elementos, e talvez isso tenha sido sua fór- mula de sucesso. Rice presta dois grandes serviços aos estudos literá- rios: primeiro reavivar as discussões sobre gênero e sexualidade tendo como base os romances góticos. Segundo, ressuscitar a figura do vampi- ro que estava adormecida há quase um século, obviamente outras obras tendo o vampiro como protagonista foram escritas, mas apenas Rice conseguiu restabelecer a notoriedade que o sanguessuga havia perdido.

A maneira inovadora de ver o vampiro criado por Rice lhe trouxe uma legião de fãs por todo o mundo. A academia, por sua vez, não po- deria ficar indiferente a este fenômeno literário, estudos sobre seu traba- lho começaram a proliferar dentro das universidades a partir do sucesso das Crônicas Vampirescas . No livro The Gothic World Anne Rice, Kathryn McGinley74no artigo Development of the Byronic Vampire: Byron, Stoker, Riceexplica que:

Masculinity and Sexuality in the Eighteenth Century. Source: From the back

cover of the book Queer Gothic, 2006.

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It is no accident that Freud relied on gothic writing to help him articulate his notions of uncanny and various delusional behaviors. Gothic writers anticipated the work of Freud and other sexologists, and it seems to me that if we attend more closely to what they have written we may find that the history of sexuality is not as constricting as it has sometimes seemed.

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Katherine McGinley has a B.A. in English from Adelphi University. An as- piring novelist, she has written reviews, stories, and poetry for university publi- cations and is currently working on her first novel. Source: The Gothic World of Anne Rice, 1996,p. 249.

Anne Rice, autora das Crônicas Vampirescas, foi a primeira a escrever sob o ponto de vista dos vampiros. Fazendo isso ela modernizou a lenda, mostrando seus vampiros protagonistas Louis e Lestat sucessivamente. Esses vampiros são pare- cidos com o personagem Drácula, uma vez que eles podem ser destruídos com fogo ou com a luz do dia, e geralmente dormem em caixões, embora não precisem necessariamente fazê-lo. Mas alho, espelhos ou objetos religiosos não tem efeito ne- nhum sobre estes vampiros modernos. Eles são

imunes porque são tão incertos sobre a existên- cia de Deus quanto os mortais modernos. Para serem feridos por artigos religiosos eles deveri- am acreditar no diabólico, em uma natureza demoníaca, mas os vampiros Riceanos não tem o luxo desse conhecimento. Ao invés disso eles são forçados a consumirem-se com questões sobre o bem e o mal igual ao resto da humani- dade (McGinley, 1996, p. 81, negrito nosso, tra-

dução nossa)75.

De acordo com Mcginley, Rice criou vampiros mais humanos, e isso fez com que as pessoas se sentissem mais relacionados a eles e também mais empáticas com relações aos problemas existenciais enfren- tados pelos mesmos. O fato de o romance ter sido escrito sob o ponto de vista de um vampiro com características mais humanas pode ter sido fundamental para o sucesso da obra, uma vez que o vampiro deixa de ser apenas uma criatura diabólica temente a Deus para transformar-se em um cidadão cético com problemas terrenos parecidos com os da raça humana. A grande diferença entre o vampiro Louis e o Conde Drácula de Stoker é que o primeiro tem dúvidas sobre a existência de Deus, já o

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Anne Rice, author of The Vampire Chronicles, was the first to write from the point of view of the vampires themselves. In doing so, she further modernized the legend, portraying as her protagonists the vampires Louis and Lestat, suc- cessively. These vampires are similar to the Dracula character in that they can be destroyed by fire and sunlight, and usually sleep in coffins, though they don‘t need to necessarily. But garlic, mirrors, and religious articles have no affect on these modern vampires. They are immune because they are no more or less sure of the existence of God than modern mortals are. To be harmed by religious articles would certify an evil, demonic nature, but the Ricean vampires do not have the luxury of this knowledge. Instead they are forced to struggle with questions of good and evil just as the rest of humanity must.

segundo sabe que ele existe, pois teme todo e qualquer objeto que tenha cunho sagrado.

O ponto de vista do vampiro em Entrevista com o Vampiro(1976) é dado pelo personagem Louis, um vampiro frustrado e torturado por questões pessoais e que não consegue suportar a dor de viver sem expli- cações para sua existência melancólica. Ele quer saber qual é o signifi- cado da vida e a fonte de tanto sofrimento. Louis necessita saber o por- quê de ele ser o ―outro‖. Em uma entrevista publicada na revista Play- boy em 1993, a qual foi republicada no livro The Unauthorized Anne Rice, a escritora das Crônicas Vampirescas afirmou que:

As crônicas falam sobre todos nós e como nos sentimos por nos acharmos excluídos. Como nós nos sentimos excluídos em um mundo onde todo mundo entende alguma coisa que nós não enten- demos. É sobre nosso horror da morte. É sobre como maioria de nós provavelmente tomaria san- gue para se tornar imortal, mesmo que tivéssemos que matar para isso. É sobre estar preso em um

corpo quando nossa mente pode voar. É sobre o dilema humano (RICE apud Hirshey, 1996, p,

57, negrito nosso, tradução nossa)76.

As palavras de Rice nos dão fortes evidências para acreditar que Louis, o protagonista de Entrevista com o Vampiro (1976) possa estar parodiando o comportamento de um ser humano, apesar de ser um vam- piro. Segundo Salma Ferraz no seu artigo Vampiros: O mito é o nada que é tudo e de todos (2012):

Ele [Louis] tem nostalgia do humano porque só o humano tem acesso ao sagrado, ao divino. É um vampiro que não deu certo, adora a beleza e a e- ternidade dos vampiros, mas inveja a crença na salvação, crença e esperanças estas só possíveis aos humanos, inveja a mortalidade destes seres. Sua trajetória vai do nada ao nada (FERRAZ, 2012, p. 243).

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The Chronicles are about how all of us feel about being outsiders. How we feel that we´re really outsiders in a world where everybody else understands something that we don´t. It´s about our horror of death. It´s about how most of us would probably take that blood and be immortal, even if we had to kill. It´s about being trapped in the flesh when you have a mind that can soar. It´s the human dilemma.

Os poderes sobrenaturais de Louis não são fortes suficientes para suplantar a ausência de sua humanidade, portanto, sofre porque sabe que não tem um Deus em que possa assentar suas expectativas de salvação.

Uma das principais características de Entrevista com o Vampiro é o desejo homoerótico entre os personagens do sexo masculino, Gerri Hirshey77 em seu artigo Flesh for Fantasy aponta que:

Louis, Lestat e outros sugadores de sangues do sexo masculino talvez não troquem fluidos corpo- rais da maneira que estamos acostumados a ver, mas há uma surpreendente intensidade homoeróti- ca na maneira em que eles se amam, espreitam, chupam e matam (HIRSHEY, 1996, P. 129, tra- dução nossa)78.

O elemento homoerótico mencionado por Hirshey é um dos prin- cipais aspectos dentro do romance Entrevista com o Vampiro(1976), Rice parece querer enfatizar esta característica para transformar seus vampiros em seres andróginos e sexualmente confusos, mas por outro lado criaturas desesperadamente humanas, com falhas de caráter e com o desejo de acertar. Talvez este tenha sido o maior trunfo do sucesso de Rice, transformar o vampiro grotesco e monstruoso do século XIX em uma criatura mais terna e digna da empatia dos seres humanos.

2.9. VITTORIO – O VAMPIRO - UM TEÓLOGO NO MUNDO DAS

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