Os dois modelos de família colocados tocam em aspectos referentes à constituição do masculino e do feminino que são estruturados em relação ao maior ou menor uso do poder. Ao modelo patriarcal está associado uma representação de masculinidade e de feminilidade segundo a qual o poder estaria concentrado nas mãos do patriarca. Entretanto, este modelo fortemente dicotômico demonstra que, por vezes, na família patriarcal, o poder feminino se manifesta – ainda que como exceção - na ocupação do lugar do patriarca pela mulher.
Já o modelo de “família nuclear moderna” traz uma família reduzida em sua composição e sugere relações mais igualitárias entre homens e mulheres no casamento. Nesse modelo de família, o poder feminino concentra-se no espaço “da mulher” ou no espaço doméstico. Cândido não apresenta maiores considerações sobre os arranjos que se dão. Sabe-se, porém, que o autor tem como referência para a família que esboça a sociedade brasileira em franco processo de urbanização e de industrialização.
Mas o que se pode dizer das relações de poder entre homens e mulheres? Ao mudar o centro do poder das mãos do patriarca, o que acontece com o poder feminino?
Se a análise do modelo patriarcal conduz à percepção do poder como algo tipicamente masculino, o que acontece quando o poder dominante masculino sai da esfera doméstica e passa a ser identificado com o mundo da rua?
Para compreender a passagem do poder da família patriarcal para a
família nuclear burguesa “mais igualitária” é preciso entender o desenvolvimento que se opera na sociedade brasileira no século XIX. Freyre (1981) sugere que novos atores sociais passam a concentrar em suas mãos o poder político até então pertencente ao patriarca, o que significa dizer que o poder migra da casa para a rua.
Nas primeiras décadas do século XX, Recife, como de resto todo o país, é beneficiado pela onda de desenvolvimento capitalista ocorrida no mundo, ocupando nesse período um papel predominante na Região Nordeste. Em termos de equipamentos urbanos, isso significou a inauguração de setores como o telégrafo, um serviço de telefonia ainda no século XIX e a inauguração do bonde elétrico no setor de transporte em 1914, apenas para nos referirmos a alguns setores do cenário econômico da cidade. Os homens serão encontrados circulando nesse novo cenário, na medida em que ocupam seus postos de trabalho.
Do ponto de vista da articulação do poder, haverá um deslocamento das mãos do senhor patriarcal para as mãos dos novos setores, agora instalados nas zonas urbanas, que estão em franco desenvolvimento. Gilberto Freyre, em Sobrados e Mocambos (1987), analisa bem essa passagem. Como mostra, é já no final do século XIX que uma nova categoria de pessoas passa a fazer parte e a ocupar os lugares da administração pública, vindo a desempenhar um papel importante nos espaços de decisão. Trata-se da figura do bacharel.
Segundo Freyre (1981, p. 582), a partir de 1845 os homens “à frente da administração das províncias e nas maiores responsabilidades políticas e de
governo, começam a aparecer só homens formados”, se distinguindo assim o prestígio do título de “bacharel” e do título de “doutor”, que passa a crescer nos meios urbanos. Para ele, notícias e avisos sobre “Bacharéis Formados” e “Doutores” começam a aparecer nos jornais anunciando o novo poder aristocrático que se levantava.
O bacharel, de quem fala Freyre, tem sua origem sócio-econômica na terra, mais especificamente no Engenho, e passa a constituir uma incipiente classe média urbana que se forma através dos bancos da Faculdade de Direito e assume diversos cargos públicos e políticos. Pode-se dizer que seu poder ainda tem ecos do poder do patriarca.
Tanto o aumento do número de bacharéis como o surgimento de outros profissionais, está ligado ao surgimento das Escolas de Ensino Superior que, até então, era restrito aos filhos de pais aristocratas que os enviavam para estudar em Portugal.
A partir da primeira metade do século XIX, o acesso é ampliado para membros de outras camadas sociais, através do crescimento das Escolas de Ensino Superior. Em 1827 se instala em Olinda a Faculdade de Direito que a partir de 1854, instala-se em Recife. Outros cursos profissionais vão surgindo e, deles, sairão os atores que compõem esse estudo. Além dos bacharéis, farmacêuticos, médicos, agrônomos e engenheiros começam a entrar no cenário e a constituírem parte das camadas médias do Recife do início do século XX. Com isso, pode-se afirmar que se acentua ainda mais o declínio do poder do patriarca.
A educação traz o surgimento de novas profissões que passam a ser fonte de poder. Esse deixa de ser centralizado nas mãos do senhor patriarcal, acabando por influir na forma como o poder se manifesta na família. O homem passa a ter menos poder em casa. As mulheres passam a assumir tarefas e responsabilidades que antes eram desenvolvidas pelas escravas.
É durante a fase imperial, mas já no final do século XIX, que, de acordo com Freyre, surgem novos valores em torno dos quais a “valorização social” passa a se constituir. Tais valores vêm agora “de uma Europa burguesa, donde nos foram chegando novos estilos de vida, contrários aos rurais e mesmo aos patriarcais” (Freyre, 1891, p. 574). Está montado, portanto, um novo ordenamento social que vai ter também influência sobre a mulher da época, sobretudo a partir da família.
Mas é preciso ressalvar que as antigas formas de organização familiar ainda não foram de todo extintas. Continuam existindo valores e resquícios de um prestígio baseado na posse da terra que dava origem à concessão de títulos que ainda continuam sendo considerados elementos de prestígio social. Mesmo em decadência, ser membro de uma ex-família aristocrática ligada à terra ainda permanece uma fonte de prestígio. Como pensar a mulher dentro desse novo ordenamento? De que maneira essas novas concepções interferem na influência e no poder que as mulheres passam a exercer sobre os outros? Como identificar fontes de poder a partir dessa nova ordenação do espaço social? Se para a família patriarcal Gilberto Freyre (1981, p. 93) ressalta aspectos relativos à submissão ao marido, segregação e confinamento à esfera doméstica, enfatizando a restrição
do convívio aos filhos, aos parentes, e ao confessor o que acontece com a mulher do final do século XIX?
Antes de responder a essa pergunta, gostaria de ressaltar alguns aspectos relativos à vida da mulher mostrados por Freyre e que bem mostram os espaços onde as mulheres circulavam. Um desses espaços, freqüentemente invocado pelo autor, é a Igreja, que é mostrado através do fervor religioso e do contato com os padres.
Para o autor, a Igreja, através do confessionário, representa uma oportunidade de higiene mental para a mulher em função de sua reclusão. Em suas palavras,
muita mulher brasileira deve ter sido salva da loucura, que parece ter sido mais freqüente entre as mulheres das colônias Puritanas da América do que entre nós graças ao confessionário(....) Confessando-se, elas
desintoxicavam-se. Purgavam-se. Era uma limpeza para os nervos e não apenas para as suas almas ansiosas do céu. (Freyre, 1981, p. 94)
Aqui, se tem, portanto, a religião como um fator que contribui para a manutenção da submissão feminina na medida em que auxilia a mesma a aplacar os sentimentos de opressão. Pureza, devoção, obediência e dedicação à família estão entre os ideais que se esperavam das mulheres. Nesse sentido, o regime econômico patriarcal impôs restrições às mulheres “limitando-lhe a influência, sobre a vida comum (...) limitando- lhe a atividade à esfera doméstica ou ao plano da prática religiosa.” (Ibid. p.115).
É verdade que as mulheres no plano da esfera doméstica são retratadas, em muitas passagens, participando de muitas atividades. Porém, para Freyre e para os autores da época que registraram em seus diários4 e notas as muitas funções desempenhadas por elas, faltou, certamente, a percepção de que todas aquelas
4
Refiro-me aos diários de viajantes que visitaram o Brasil e registraram suas impressões sobre as mulheres brasileiras.
atividades contribuíam para a constituição de um “modo patriarcal de ser e de mando”.
Assim, mesmo desempenhando múltiplas atividades no espaço doméstico, em função das necessidades da época, o que se registra é uma imagem de mulher, por vezes tida como “preguiçosa” e “indolente”, que fica mais como uma ausência do que uma presença no espaço doméstico.
Com relação à educação, os registros referem-se sempre ao pouco desempenho que as mesmas tinham nesse setor. Charles Boxer (1975), comentando a misoginia da Igreja Católica em relação às mulheres, enfatiza o papel dos padres na construção de uma imagem desvalorizada das mulheres já que, de acordo com os manuais jesuíticos, nem as orações que proferiam agradavam a Deus. Melhor, então, que continuassem em suas atividades domésticas.
Posteriormente, o binômio religião-educação vai mudar a constituição do feminino. No final do século XIX, com a instalação de muitas ordens religiosas femininas no Recife, que na Europa já possuíam tradição de ensino, abre-se às mulheres das camadas médias uma oportunidade ímpar de iniciar uma formação intelectual que as suas antecessoras não conheceram. Esse fenômeno permitirá às mulheres um desenvolvimento intelectual que servirá não somente para a aquisição de conhecimento, mas também um aumento de poder na esfera doméstica, muitas vezes através da educação dos filhos e, ainda, para se capacitarem, posteriormente, para o desempenho profissional remunerado.
Embora a formação católica trazida pelas religiosas européias perpetue uma visão conservadora sobre a mulher, com princípios que reforçam os ideais femininos de submissão, obediência e pureza, por outro lado inicia um tipo de
convivência que extrapola os limites da família, separando as meninas do espaço familiar que, até então, se colocava como a única possibilidade para elas. Portanto, é a partir das modificações que se processam ao longo do século XIX e desembocam no século XX que uma nova correlação de forças surge, substituindo o poder patriarcal por outras formas de poder.
A educação e o conhecimento passam a ser fonte para o novo poder na medida em que formará os quadros profissionais e da administração pública a partir do que Freyre chamou a “ascensão do bacharel”. Para as mulheres, essa nova configuração também se manifesta de forma direta, quando se abre a possibilidade de uma formação intelectual através da profissionalização das escolas. Não se trata mais de apenas aprender a ler e a escrever em casa, mas de freqüentar uma escola, obter certificados de conclusão de cursos e de se capacitarem para fazer um curso superior. Todas essas questões vão marcar positivamente o desempenho da mulher em relação ao uso que passarão a fazer do poder. Em se tratando das relações de gênero, à medida que mudam as perspectivas de atuação para um deles, marcam-se, também, mudanças para o outro.
Porém, não se pode deixar de registrar que em meados do século XX, durante os chamados, “Anos Dourados”, a família nuclear tradicional que se estabelece como modelo dominante, reforça para as mulheres a função de “rainha do lar”.
Assim, se de um lado, abre-se a possibilidade do desempenho intelectual para as mulheres através do ingresso nos cursos superiores e no desempenho de algumas profissões, por outro, reforça-se o “lar” como o lugar ideal para a mulher. Ao lado do homem provedor e profissional, encontra-se uma mulher que deve dar
conta das tarefas da casa, que no modelo patriarcal estava a cargo das negras, e ser responsável pela felicidade doméstica. Como diz Bassanesi (1997, p. 627):
Considerá-la a rainha do lar, a principal responsável pela felicidade doméstica, significava não somente atribuir-lhe um poder intransferível e significativo sobre a família - com toda a carga que essa tarefa, nem sempre viável pudesse trazer - mas também reforçava o papel central da família na vida da mulher e, parece claro, sua dependência em relação aos laços conjugais.
Entretanto, é preciso lembrar que, se de um lado, a família nuclear moderna aumenta o espaço de atuação feminina na vida doméstica, possibilitando à mesma um certo empoderamento, por outro, é preciso estar atenta às ambigüidades desse poder. Como mostra o texto de Bassanesi citado acima, a mulher dessa família é o eixo da família, mas depende financeiramente do marido; foi estimulada a estudar bem mais do que o foram sua avó e sua mãe, mas devem dedicar-se à educação dos filhos. Sua esfera é restrita ao lar.