Species Accounts
22 RESOURCE PUBLICATION 194
Como já apresentado anteriormente, há uma distinção entre sujeito e autor. Para Orlandi, (2007, apud Bressan, 2009) esta diferença existe, assim como há distinção entre discurso e texto. O sujeito está para o discurso e para a dispersão, assim como o autor está para o texto e para a unidade. Assim, a autoria precisa de disciplina e organização na sua relação com o texto. “A autoria constitui-se como função mais afetada pelo contato com o social e com as coerções, pois está submetida às regras das instituições e nela são mais visíveis os procedimentos disciplinares” (BRESSAN, 2009, p.3).
Em outras palavras, Bressan (2009, p.3) afirma
Um texto, do ponto de vista de sua apresentação empírica, pode ser visto como um objeto com começo, meio e fim. Porém, se o texto for considerado como discurso, será incompleto, uma vez que não é uma unidade fechada. Não interessa, portanto, apenas a organização do texto, mas o que o texto organiza em sua discursividade. Nesse sentido, se o discurso está para a dispersão, o texto está para a unidade. Assim, na autoria, o sujeito ao se colocar na posição de autor, tornar-se-á responsável pelo efeito de fechamento do texto.
Para estas pesquisadoras (Bressan, 2009, Orlandi, 2007) a autoria é um princípio necessário ao discurso e origem da textualização. “Na autoria, o sujeito que assume a posição de autor, torna-se responsável por aquilo que diz e não diz, pela textualidade do texto, ou seja, pela sua unidade, coerência, pelo seu fechamento, mesmo que empírico” (BRESSAN, 2009, p.4). O sujeito na posição de autor responsabiliza-se pelo dito, o não-dito e pelo que foi silenciado, mesmo que de forma provisória ou ilusória, produzindo o efeito de fechamento do texto.
Sendo o autor uma das dimensões do sujeito mais afetada pelo contexto sócio-histórico (pelas exigências de coerência, padrões estabelecidos, não contradição, originalidade, unidade etc), ao produzir a unidade o “sujeito (disperso) é apagado pelo autor (unidade)” e neste processo pode-se observar a ação do discurso sobre o sujeito: “um modo de dizer padronizado
e institucionalizado, no qual se inscreve a responsabilidade do sujeito pelo que diz”. As exigências “buscam tornar o sujeito visível (enquanto autor, com suas intenções, objetivos, direção argumentativa)”, “controlável” e “identificável” (ASSOLINI, 2003, p.64).
Assolini (2003, p.64) afirma que o sujeito pode ocupar diversas funções em um discurso, dependendo das formações discursivas. Também que este sujeito pode assumir a função-autor em algumas formações e em outras não. O que pode indicar uma relação da autoria com a construção da identidade, “pois o sujeito se identifica com determinadas formações discursivas e dentro delas está autorizado a se responsabilizar socialmente pelo sentido, colocar-se na origem”.
Outro ponto salientado por Assolini (2003, p.65) citando Orlandi (1993) é que existe uma relação entre autoria e censura, um jogo entre elas. A censura afeta a identidade do sujeito pois “impede que ele se identifique com as regiões do dizer...que não convém em uma conjuntura dada”, ao mesmo tempo que ao “proibir determinados sentidos, a censura não os cala totalmente, pelo contrário, chama a atenção para sua existência”. Assim a opressão traz em seu bojo a resistência: “os sentidos calados significam em silêncio ou pelo avesso”, ou ainda, o que é calado pela censura pode significar por meio do que é permitido, “de forma mascarada”.
Para Orlandi (2010, p.79) a política de silencio como a censura produz asfixia:
Ela é a interdição manifesta da circulação do sujeito, pela decisão de um poder de palavra fortemente regulado. No autoritarismo, não há reversibilidade possível no discurso, isto é, o sujeito não pode ocupar diferentes posições: ele só pode ocupar o “lugar” que lhe é destinado, para produzir os sentidos que não lhe são proibidos. A censura afeta, de imediato, a identidade do sujeito.
Esta asfixia apaga a identidade do sujeito e impede a autoria.
Assolini (2003, p.69) apresenta o conceito de autor e autoria para Tfouni (2001, p.82,83, apud Assolini, 2003), que os propõe com base no conceito de letramento como processo sócio- histórico, que não aceita a concepção de separação dicotômica entre os usos orais e escritos da língua:
[...]o autor é uma posição do sujeito a partir da qual ele consegue estruturar seu discurso (oral ou escrito) de acordo com um princípio organizador contraditório, porém necessário, visto que existe no processo de produção de um texto um movimento de deriva e dispersão de sentidos inevitável que o autor precisa controlar (1997ª), a fim de dar ao seu discurso uma unidade aparente, com começo, meio e fechamento.
Ainda citando Tfouni, Assolini (2003, p.71) apresenta três possíveis efeitos de sentido que o autor faz uso ao colocar “o interlocutor (leitor ou ouvinte) em posições específicas de interpretação do discurso”:
1) – a criação de um efeito de suspense, pelo autor, através da interrupção do fluxo narrativo e da sugestão de que algo importante vai acontecer, sem que, no entanto, o conteúdo desse acontecimento seja explicitado naquele momento; 2) – antecipação, pelo autor, da necessidade do interlocutor (dúvidas, questionamentos ou informações) e 3) – (re)significação da experiência pessoal do autor dentro do discurso narrado, possibilitando que ele, o autor, se coloque como testemunha dos conteúdos narrados, a fim de garantir um efeito de verossimilhança.
Estes efeitos de sentido apresentam-se como vestígios, marcas da presença da função- autor “em uma determinada formação discursiva, uma vez que não temos acesso aos sentidos, mas sim aos seus efeitos” (Tfouni, 2001 apud Assolini, 2003, p.71).
Na escola, na formação de professores, se a prática pedagógica for fundamentada num discurso autoritário, no qual a censura silencia os outros sentidos e os interlocutores não podem assumir a função-autor, haverá pouco espaço para autoria emergir. Para Assolini (2003, p.71) uma consequência do impedimento do processo de autoria é que o aluno fica amarrado a determinadas formações discursivas, que são apenas aquelas que a instituição escolar “permite” que circulem e que são legitimadas por ela.
Para que a autoria emerja, segundo os pesquisadores já citados (Orlandi, Assolini, Tfouni, op. cit.) é necessária a assunção pelo sujeito da função-autor que acontece quando o aluno, como sujeito inserido na cultura, no contexto histórico-social, conhece quais são as condições de produção dos textos/discursos, conhece “quais são e como são produzidos textos que se inscrevem no discurso da escrita”, e ofereça “condições para que os alunos de fato possam produzir esses textos” (Orlandi e Guimarães, l988, apud Assolini, 2003, p.71).