et de l’abondance des ressources naturelles
2.4. La resource curse au Pérou
Como sugerem Timbarlake e Fátima Oliveira, um enunciado faz parte geralmente de um conjunto mais vasto: um texto discursivo ou narrativo. Põe-se, portanto, a questão de saber a que nível devem ser analisadas as relações temporais e as modalidades: ao nível da microestrutura, observando essas relações dentro da frase; ou ao nível da macroestrutura, tendo em conta a gramática do texto.
Os seguidores de Benveniste e Weinrich defendem que os tempos dos verbos distribuem- se em dois sistemas distintos e complementares que manifestam dois planos de enunciação diferentes: a narração e o discurso (Benveniste, 1966, citado por F. Fonseca, 1986 : 286) e que, portanto, as diversas categorias linguísticas devem ser estudadas ao nível mais alargado do tipo de texto.
Bronckart (1984), na sequência de outros trabalhos, a que já fiz referência, sobre a aquisição da temporalidade, realizou uma experiência com crianças de 11 e 12 anos para observar o seu comportamento em dois tipos diferentes de texto: a narração de uma história infantil ouvida antes e o relato do que tinham feito no domingo anterior (este deveria começar pela palavra hier). Seguindo Fayol (1981), Bronckart usa um "esquema de superestrutura narrativa" e propõe-se distinguir a origem textual, a exposição, a complicação, a avaliação, a resolução, e a coda da narrativa.
Os resultados obtidos no estudo confirmam o carácter essencial da noção de tipo de texto, visto terem resultado dois objectos linguísticos diferentes. Verificou ainda que esta diferença se manifesta ao nível dos sistemas de tempos verbais escolhidos e ao nível das categorias de organizadores textuais usados. Os resultados confirmam igualmente que, dentro de cada sistema, a oposição dos dois tempos de base ("Passé Simple"/"Imparfait" vs"Passé Composé"/"Imparfait" serve para reforçar as oposições aspectuais já contidas nos itens verbais.53
Fayol (1985) em "L'emploi des temps verbaux dans les récits écrits. Etudes chez l'enfant, l'adulte et l'adolescent" volta ao assunto. Começa por dizer que os trabalhos actualmente disponíveis tendem a mostrar que, a partir dos 6 anos, as crianças parecem recorrer a um esquema narrativo próximo do dos adultos no que diz respeito à compreensão, mas que os dados se apresentam muito menos claros se considerarmos a produção. Em consequência, põe a hipótese de
53 São os seguintes os resultados obtidos no estudo de Bronckart (1984:658): na narrativa - passé simple 145; imparfait
as crianças não organizarem intratextualmente os tempos dos verbos. A experimentação confirmou a hipótese. De facto, as crianças de 7-8 anos parecem fazer depender fortemente os tempos verbais da relação entre evento(s) referido(s) e enunciação e, só mais tarde, as formas verbais se articulam entre elas em função da organização intratextual; assim é, pelo menos, no que diz respeito à escrita. Como mostram trabalhos anteriores e as experiências aqui relatadas, assiste-se, como diz o autor, "a um longo desenvolvimento até ser atingido na produção o modelo adulto relativamente estereotipado" (p. 696).
Berman e Slobin (1987), colocados no seu habitual ponto de vista interlinguístico, afirmam que, embora havendo interacções importantes entre os dois níveis, no macronível há muito em comum no desenvolvimento das capacidades das crianças de diferentes línguas para construir narrativas coerentes e bem sucedidas. Mas é ao nível da frase, e particularmente do verbo, que as crianças aprendem a recontar eventos em função das perspectivas favorecidas pelas suas línguas nativas54 e é aí que se manifestam as diferenças. Estas perspectivas reflectem uma série de opções na forma de apresentar os eventos, opções essas que são as disponibilizadas por cada uma das línguas.55 Segundo os autores, as diferenças podem ser avaliadas comparando a forma como falantes nativos de diferentes línguas representam por palavras os mesmos acontecimentos. Mas disto falaremos no ponto seguinte.
No que diz respeito à macroestrutura, tanto para Berman e Slobin como, por exemplo, para Wallace (1982), a sua abordagem envolve questões muito diferentes daquelas que vimos serem eleitas pelos investigadores da escola de Genève e dizem respeito ao conceito de saliência.
Como nos diz Wallace (1982 : 213-214), "as pessoas estão, geralmente, mais interessadas noutros seres humanos, ou pelo menos em entidades animadas, do que em entidades não animadas; as pessoas tendem a colocar-se no centro das atenções; entidades individualizadas, particularmente concretas, definidas, singulares e contáveis, estão mais aptas para atrair atenção do que as suas contrárias; aquilo que é real, certo, positivo, imediato, limitado, completo e dinâmico tem mais condições para fazes avançar o discurso, para constituir o primeiro plano "foreground") de um texto, do que as respectivas propriedades contrárias que formam o plano de fundo ("background") e que suporta o primeiro". Ora, "seria estranho que, /.../ sendo estas distinções fundamentais na percepção visual, não fossem relevantes para a forma como os seres humanos usam a linguagem para comunicar experiência". Portanto, é muito possível que os falantes organizem o seu discurso em função destas distinções e que os ouvintes as usem como guia para interpretar o "quadro verbal" ("verbal picture").
54 O material analisado neste artigo resulta da narração, por crianças e adultos cujas línguas maternas são o Alemão, o
Espanhol, o Hebreu, o Inglês e o Turco, expostas a uma história sem palavras usada também em trabalhos anteriores de Slobin: "Frog, where are you?"
55 "The ontogenetically and conceptually primary function of viewpoint specification is not to signal relationship among
sentences, but to mark the spatio-temporal relationship of the speech act to the scene being described" (Delancey, 1982: 180).
É interessante constatar que T. Givón (1982), num artigo publicado no mesmo volume que Wallace (1982) e no qual procura rebater a hipótese inatista de Bickerton, defende que os crioulos não são mais do que sistemas prototípicos. Ou seja, nós temos tendência a falar de eventos em sequência, eventos como acções e eventos que realmente aconteceram; as marcas especiais de fora de
sequência, não- pontual e "irrealis", são a prova disso. Logo, o sistema criado pela primeira geração de
crianças falantes de um crioulo reflecte a universalidade da aquisição de segunda língua e não a universalidade da aquisição da primeira (T. Givón, 1982 : 156-157).
Na verdade, uma abordagem deste tipo parece adequar-se bastante bem à análise de interlínguas, porque o falante não nativo, enquanto destinatário, parece ter, em relação ao input disponibilizado, estratégias guiadas pela saliência dos eventos; e também porque, enquanto destinador, esta abordagem permite descrever a produção independentemente da língua nativa do sujeito e da língua alvo.
CAPÍTULO 6