Por fim, é importante problematizar as questões trazidas por Viviane Resende (2017) no que concerne à decolonização dos estudos críticos do discurso. Inicialmente, é importante destacar sua reflexão frente à decolonização do saber, que tem por objetivo implicar cada vez mais os estudos críticos do discurso no que se refere às concretudes das realidades latino-americanas. Nesse sentido, é importante considerar nas análises discursivas as imbricações entre gênero, raça e classe social constitutivas de tais sociedades, por meio da colonialidade do poder. A hegemonia então se dá através destes marcadores sociais de diferenças e de exercício da colonialidade. A autora argumenta que os(as) analistas do discurso tem condições especiais, devido a própria especialidade das ACD, para agir e atuar em prol da decolonização do ser – através da consciência emancipatória para, em suas palavras, denormalizar “os quadros interpretativos que nos conduzem a identidades subalternas” (ibdem, s/p.).
A autora enfoca a necessidade de que os(as) analistas se desloquem dos limites disciplinares da linguística, assumindo a importância de outros saberes. Apesar de a ACD já se pressupor interdisciplinar e isso ser uma premissa desde o início dos estudos teóricos de Fairclough – na medida que pressupõe as relações entre os usos linguísticos e as estruturas sociais - creio que Resende (2017) se refere ao fato de que as análises críticas discursivas na América Latina necessitam pressupor diálogos e imbricações teóricas marcadamente decoloniais, ou seja, que visem a decolonialidade. Isso se dá na medida em que a decolonialidade parte de um giro epistêmico que provoca um profundo deslocamento nas ciências a partir da centralidade da América Latina no sistema-mundo e da categoria de raça como divisão mundialmente hierárquica entre humanos e não-humanos. E ainda que a esta divisão hierárquica outras estão fortemente relacionadas, como as de classe social e a de gênero.
Neste sentido, pautada nas contribuições de Resende (2017) sobre ACD e decolonialidade, e nas contribuições das epistemologias feministas, proponho que este trabalho seja pautado numa Análise Crítica Discursiva Feminista Decolonial. Através das epistemes feministas compreendo que a experiência, sempre localizada em termos de raça, classe e gênero,
é ela própria categoria de análise para a produção do conhecimento (SCOTT, 1999; HOOKS, 2017). Nesse mesmo sentido, Avtar Brah (2006), propõe utilizar a análise das diferenças (raciais e de classe, por exemplo) como experiência. A autora leva em consideração a experiência como uma “luta sobre condições materiais e significado”, uma prática de atribuir sentido à realidade, ou de construí-la, simbólica e narrativamente. De acordo com ela devemos compreender a experiência:
Como um lugar de contestação: um espaço discursivo onde posições de sujeito e subjetividades diferentes e diferenciais são inscritas, reiteradas, repudiadas. É essencial então enfrentar as questões de que matrizes ideológicas ou campos de significação estão em jogo na formação de sujeitos diferentes, e quais são os processos econômicos, políticos e culturais que inscrevem experiências historicamente variáveis (BRAH, ibdem, p.261).
Brah traz para a noção de experiência o lugar da contestação. Para Kathleen Canning (1994)
apud Débora Garazi (2016), a noção de agência (entendida como capacidade de ação) é o lugar da
mediação entre discurso e experiência e serve para deslocar a concepção de que o discurso sempre constitui plenamente a experiência. Para Ana María Bach (2010) a experiência é constituída na relação com subjetividade, política, conhecimento e linguagem. É conformadora e formadora de subjetividades e sua dimensão cognitiva diz respeito à concepção de que quem conhece algo, conhece a partir de uma determinada situação, posição ou circunstância. Revisitando o uso da categoria experiência pelo campo das ciências sociais e feministas, a autora fala da necessidade de valorizar a experiência dos(as) que estão “às margens”, deslocando o uso da experiência em torno de uma mulher universal e levando, portanto, em consideração as intersecções entre raça, classe social e gênero. Dessa maneira, penso o uso de experiências enquanto posicionamentos diante das realidades vividas, enquanto construções de si diante da existência e das relações entre individualidades e coletividades. As escolhas linguísticas utilizadas pelas interlocutoras e as práticas sociais relacionadas às mesmas serão analisadas por mim de maneiras em que as problematizações trazidas pela ACD são tangenciadas às questões feministas e decoloniais.
As entrevistas realizadas foram, portanto, lidas por mim através desta ótica decolonial, tanto em termos de análise linguística quanto em termos de análise das práticas sociais implicadas. Nesse sentido, foi central analisar os discursos considerando “poder”, “subjetividades” e “identidades” a partir da perspectiva de que a colonialidade é constitutiva dos(as) mesmos(as). Proponho uma análise imbricada e fronteiriça entre categorias da Análise Crítica do Discurso e categorias Decoloniais e Feministas, considerando a colonialidade do poder, do saber e do ser, buscando a tessitura entre as mesmas. Se para a ACD o discurso é um momento de práticas sociais e a análise discursiva é um nível intermediário entre o texto e seu contexto social, parto de antemão
da certeza de que vivemos numa sociedade onde a colonialidade constitui nosso contexto; e o discurso, portanto, é um momento de práticas sociais coloniais ou decoloniais.
Nesse sentido, a opção decolonial problematizada por Mignolo (2008), se faz necessária e os processos de desobediência epistêmica ainda mais, através da constante crítica às epistemes ocidentalizadas, pautadas em divisões/oposições/dicotomias/hierarquias. Ir de encontro à colonialidade é contrariar tais lógicas - necessariamente eurocentradas - e desobedecê-la epistemologicamente. Faz-se necessária ainda a consciência de que a opção decolonial não significa o abandono de toda a prática e fundamento euro-ocidental, visto a não viabilidade disso frente ao forte arraigamento desta em nossas subjetividades. A opção decolonial busca o pensamento de fronteira, o fronteiriço entre as margens e o centro, buscando evitar os fundamentalismos, sejam eles ocidentais ou não ocidentais.
Chegaremos enfim à parte analítica de minha pesquisa. A mesma é dividida em quatro capítulos. O primeiro tem um caráter introdutório e visou problematizar analiticamente as autodeclarações raciais das interlocutoras pois as mesmas tinham significativo impacto sobre meu trabalho e sua análise. Neste capítulo faço relações entre suas autodeclarações, as formas com que eu as identifiquei e questões referentes ao mito da democracia racial. No segundo capítulo, trago as experiências de maternidades das interlocutoras trabalhadoras domésticas, através de seus discursos, a partir dos quais foram criados cinco tópicos que versaram sobre: as imposições colonizantes da categoria gênero, autonomia reprodutiva, discursos sobre paternidades, redes de apoio à maternidade e maternidades e trabalho doméstico remunerado.
No terceiro capítulo, trago as experiências de maternidades das interlocutoras empregadoras através de seus discursos e conforme três tópicos que versaram sobre: a maternidade como sonho, transformação e diagnóstico; discursos sobre as paternidades; redes de apoio à maternidade e maternidades e trabalho remunerado.
Por fim, no capítulo A colonialidade constitutiva das relações entre trabalhadoras
domésticas e empregadoras, analiso os discursos nos quais trabalhadoras identificavam
discursivamente empregadoras e nos quais empregadoras identificaram discursivamente trabalhadoras domésticas. Neste capítulo analiso como a branquitude, enquanto lugar e exercício de poder, visa se esconder nos discursos das empregadoras mas se mostra nas formas em que identificam trabalhadoras domésticas através de elementos que trazem a “confiança”, a caridade e à disposição ao trabalho como fundamentos para práticas sociais que mantém seus privilégios através da racialização inferiorizada do trabalho doméstico. Em contraponto, a branquitude é
mostrada através das práticas sociais nos discursos das trabalhadoras domésticas a partir de elementos que mostram o medo do contágio racial; as formas de auto-superioridade através de estratégias de inferiorização; e as (im)possibilidades de horinzontalidade entre empregadoras e trabalhadoras domésticas. Por fim, fecho a análise deste trabalho através dos discursos que trazem as hierarquias maternas de forma mais explícitas.