• Aucun résultat trouvé

Research Objectives and Main Contributions

1. General Introduction

1.2 Research Objectives and Main Contributions

As mulheres influenciaram religiosamente a travessia de Riobaldo. Nhorinhá, ao oferecer o seu amor e a sua fé sincrética encantando um Riobaldo carente de afeto e de sentido, o influencia com a esperança de uma vida para além do ódio do pacto de guerra, afirmando a impotência humana diante do transcendente através da necessidade da proteção pela fé e devoção numa estampa de santa milagrosa. Otacília, além do amor, oferece a sua fé contextualizada no cristianismo, alimentada na devoção aos santos, em Nossa Senhora e inspirada na transcendência imanada da Fazenda Santa Catarina. Influencia Riobaldo como esposa, com o poder das suas orações e dos trabalhos espirituais do grupo de rezadeiras intermediado por ela e com o valor da castidade e da fidelidade derivado da veneração à pureza de Nossa Senhora e recomendado como princípio moral ao crente arrependido, no caso, o velho barranqueiro e suas lembranças de uma vida jagunça promíscua. Diadorim, apesar do pacto de ódio contra o Hermógenes a fim de vingar a morte do pai e apesar de alienar-se do feminino em favor de um segredo estéril, dedica amor em forma de amizade, acompanhando e ensinando Riobaldo, desde o primeiro encontro – ainda menino – a ter fé e coragem. Ensina Riobaldo a perceber a presença de Deus através das suas adoráveis criaturas, tal como, o pássaro manuelzinho-da-crôa; transfigura-se diante do amigo na imagem da santidade e da pureza de Nossa Senhora da Abadia; e diante do corpo nu de Deodorina, Riobaldo recorre à crença na ressurreição sabendo que Diadorim, dom de Deus, a Deus foi dada desde o seu nascimento no batistério da matriz de Itacambira. Infere-se, portanto, a maestria das mulheres, um assunto de Deus, que acompanha o itinerário do velho Riobaldo.

As devoções aos santos e a busca por milagres e proteção fazem parte das tradições cristãs desde o início, quando as peregrinações à terra santa e a necessidade de preservação da memória de santos e mártires se tornaram importantes. No relato do encontro de Riobaldo com Nhorinhá, além do amor e da sabedoria oferecidas por ela, num momento de magia e de “casamento esponsal” ultrapassando o possível preconceito do encontro entre um jagunço e uma meretriz, há o oferecimento da religiosidade. Numa perspectiva judaico-cristã, Utéza afirma que a relação entre Riobaldo e Nhorinhá faz dela uma nova Amada do Cântico dos Cânticos e também faz lembrar-se da prostituta dos Evangelhos, ao compará-la às ninfas do Verde-Alecrim, contextualizando uma referência à pecadora que lavou os pés de Cristo na casa de Simão, perdoando-lhe ele os pecados por ter manifestado muito amor537. Tal analogia, conclui o autor, projeta sobre Nhorinhá a aura divina ao ser lembrada pelo narrador

537

em sua eterna juventude.538 Além dessa perspectiva sugerida por Utéza, Nhorinhá também partilha com Riobaldo as suas crenças, isto é, o amuleto que traz proteção contra mordida de cobra e a veneração a uma estampa de santa milagrosa revelando a dimensão cristã da sua fé.539 Certamente esse encontro com Nhorinhá se estendeu para outras dimensões pertinentes a um jagunço errante atrás de guerra e vingança, no entanto, a narrativa do velho Riobaldo prioriza a peculiaridade da crença dando ao leitor, mais uma vez, o tom das suas preocupações religiosas no momento em que relata o fato vivido. E é nesse intervalo entre o fato e o relato que se percebe a ambiguidade do texto, pois se a religiosidade transmitida por Nhorinhá, no primeiro momento, é vista como dom e como desfecho feliz de uma relação amorosa, carnal e espiritual significativa, por outro, a perseguição de Diadorim e de Medeiro Vaz à magia da mãe de Nhorinhá – Ana Duzuza – que previra o futuro do fracasso da travessia do Liso do Sussuarão – o inferno – revela uma narrativa que dá a condição de poder para aquela que dialoga com o sobrenatural, provocando o conflito, a marginalização e o desconhecimento dessa manifestação religiosa, por aqueles que, de alguma forma, se sentiram ameaçados.540 Infere-se, portanto, uma contraposição, ou seja, a afirmação e a negação do sentido dessa religiosidade. No entanto, é possível identificar nessa multiplicidade significativa que o relato do velho Riobaldo oferece o elemento religioso cristão da devoção aos santos e às suas intercessões miraculosas.

Se com o ensinamento e a experiência religiosa de Nhorinhá, Riobaldo alimenta a sua fé cristã da devoção aos santos, então, com a imagem de Otacília, figurada por ele na aparição sonhada de Nossa Senhora, dá a si mesmo a oportunidade de pisar em solo sagrado. Era o que ela, naquele instante, alheio à guerra e aos tormentos do amor nebuloso por Diadorim, além da paz e da espiritualidade da Fazenda Santa Catarina, lhe podia oferecer e ensinar-lhe. Os textos do Novo Testamento e a tradição cristã atestam que Maria de Nazaré, ao ser escolhida por Deus para ser a mãe de Jesus, se transformou na mulher mais venerada entre os cristãos, e desde os primeiros séculos o cristianismo a considerou santa por ter dado

538

UTÉZA, Francis. João Guimarães Rosa: Metafísica do Grande Sertão, p. 336.

539

“Se chamava Nhorinhá. Recebeu meu carinho no cetim do Pêlo – alegria que foi, feito casamento, esponsal. Ah, a mangaba boa só se colhe já caída no chão, de baixo... Nhorinhá. Depois ela me deu de presente uma

presa de jacaré, para traspassar no chapéu, com talento contra mordida de cobra; e me mostrou para beijar uma estampa de santa, dita meia milagrosa. Muito foi”. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas, p. 33.

Grifos nossos.

540

à luz o filho de Deus.541 Portanto, a forte influência dessa verdade de fé estava presente na formação religiosa que Riobaldo recebeu de sua mãe, e, por isso, a analogia entre a figura aparente de Otacília no enquadro da janela e a aparição de Nossa Senhora o transporta para o universo religioso, dando-lhe não somente o acesso a imagens recebidas no passado, mas a um sentido existencial necessário para o momento que a fé de um devoto poderia oferecer- lhe.542 Essa reflexão é endossada por Araujo ao afirmar que o tema da devoção a Maria, seguido do amor cortês, liga-se à descoberta da humanidade de Deus, aflorada no século XII e presente no romance de Rosa.543 Ambas, Nhorinhá e Otacíla, mestras, em nome do amor levam Riobaldo às fontes de transcendência a fim de matar a sua sede através da aceitação da magia, da devoção aos santos e à Nossa Senhora como forma de preencher o vazio causado pela esterilidade do amor por Diadorim e pela bestialidade da guerra jagunça fundada no ódio e na vingança. Rosenfield, nesse momento, reforça essa opinião ao afirmar que a decisão de Riobaldo pelo noivado com Otacília significa optar pela proposta erótica e carnal muitas vezes escondida nas palavras bem-educadas, diferente de decidir por um amor espiritual da moça de família pura e virgem.544 O leitor pode inferir dessa narrativa uma dupla preocupação do velho Riobaldo reforçando o caráter ambíguo do texto. A primeira é a tendência a valorizar os aspectos religiosos. Se considerarmos que no momento da narração a realidade do jagunço Riobaldo é apenas uma lembrança a ser narrada, portanto já tendo passado pelo julgamento moral feito por e para si mesmo, as manifestações religiosas do personagem entram como contrapondo à atitude indesejável do jagunço e desejável pelo velho Riobaldo que está à procura de sentido, de religião e de salvação. A segunda é o compromisso com o interlocutor mudo – o narratário – pois ao armar o ponto de um fato não pode desrespeitá-lo ignorando os fatos, ou seja, precisa assumir quem foi o jagunço Riobaldo, deixando claro ao seu ouvinte silencioso a natureza da sua identidade e da sua trágica história. Ou seja, se a religiosidade ganha espaço e privilégio ao relatar, o contraste apresentado no romance entre a vida jagunça no sertão identificado ao mal e ao demo,

541

A respeito de Maria de Nazaré, a mãe de Deus, o COMPÊNDIO do Catecismo da Igreja Católica, no segundo capítulo da segunda seção da primeira parte elaborou uma reflexão sustentada nas crenças desenvolvidas a partir da tradição cristã.

542

“Moça de carinha redonda, entre compridos cabelos. E, o que mais foi, foi um sorriso. Isso chegasse? Às vezes chega, às vezes. Artes que morte e amor têm paragens demarcadas. No escuro. Mas senti: me senti.

Águas para fazerem minha sede. Que jurei em mim: a Nossa Senhora um dia em sonho ou sombra me

aparecesse, podia ser assim – aquela cabecinha, figurinha de rosto, em cima de alguma curva no ar, que não se

via. Ah, a mocidade da gente reverte em pé o impossível de qualquer coisa! Otacília. O prêmio feito esse eu

merecia?”. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas, p. 158. Grifos nossos.

543

ARAUJO, Heloisa Vilhena de. O Roteiro de Deus: Dois Estudos sobre Guimarães Rosa, p. 353.

544

portanto, a uma vida de pecados vivida e participada pelo jagunço Riobaldo, e uma vida voltada ao bem e à religião do velho Riobaldo, se adéquam à religião cristã que tem como proposta resgatar, pela graça de Deus, através do sacrifício de Cristo, o pecador, a ovelha perdida. O itinerário para Deus buscado pelo narrador é orientado, portanto, pela experiência religiosa dos santos, dos mártires e de Nossa Senhora vislumbrada na chegada à Fazenda Santa Catarina, como o lugar de Deus.

Já com Diadorim, Riobaldo aprende a acreditar que se pode afirmar a existência de Deus e se aproximar d’Ele através das suas criaturas. Ao referir-se à natureza falando dos pássaros como um assunto de Deus, reconhece que os ensinamentos recebidos de Diadorim somados à exuberante paisagem da Fazenda Santa Catarina ao lado de Otacília, o ajudavam a afastar-se do demônio e das ruindades do Hermógenes.545 Na bíblia, por exemplo, no salmo oito, encontram-se referências da afirmação da presença de Deus através da sua criação, e, também no cristianismo ao longo da sua trajetória se desenvolveram formas de diálogo com Deus por meio da contemplação das suas criaturas e se aprendeu com os ensinamentos de Jesus nos evangelhos a exaltar o poder de Deus na manifestação da simplicidade de vida dos pássaros e da beleza dos lírios do campo, superando a pomposidade do Rei Salomão.546 Francisco de Assis, que recebeu de Deus a graça de poder se aproximar d’Ele através das criaturas, desenvolveu uma mística cristã com orações, hinos e ações que exaltavam a simplicidade, a pureza e a beleza da obra divina, estendendo ao cristianismo a possibilidade de professar a grandeza de Deus na humildade da criação. O tom amarronzado da cor da terra das penas da cotovia, visto por São Francisco como o símbolo da simplicidade e depois adotado como a cor do hábito vestido pelos frades franciscanos, é análogo também à admiração de Riobaldo pela cor marrom do pássaro manuelzinho da croa.547 Riobaldo, ao aprender com Diadorim sobre a presença de Deus na

545

“Fazenda Santa Catarina era perto do céu – um céu azul no repintado, com as nuvens que não se movem. A gente estava em maio. Quero bem a esses maios, o sol bom, o frio de saúde, as flores no campo, os finos ventos maiozinhos. A frente da fazenda, num tombado, respeitava para o espigão, para o céu. Entre os currais e o céu, tinha só um gramado limpo e uma restinga de cerrado, de donde descem borboletas brancas, que passam entre as réguas da cerca. Ali, a gente não vê o virar das horas. [...] Minha Otacília, fina de recanto, em seu realce de mocidade, mimo de alecrim, a firme presença. Fui eu que primeiro encaminhei a ela os olhos. Molhei mão em mel, regrei minha língua. Aí, falei dos pássaros, que tratavam de seu voar antes do mormaço. Aquela visão dos pássaros, aquele assunto de Deus, Diadorim era quem tinha me ensinado”. ROSA, João Guimarães. Grande

Sertão: Veredas, p. 188 e 189. Grifos nossos. 546

"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem: não trabalham, nem fiam. Eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles" (Mateus 6:28-29).

547

Chiara Frugoni em seu livro descreve a simplicidade e a humildade das cotovias que inspirava a prática do evangelho buscado como ideal de vida religiosa por Francisco e seus frades. FRUGONI, Chiara. Vida de um

criação, reconhece na contemplação da Fazenda Santa Catarina uma vida de simplicidade, de Deus e de um viver comum que, no momento, em função da campanha de guerra, não se podia ter.548 Araujo também acrescenta que Diadorim, ao ensinar Riobaldo a perceber a beleza da Criação através dos pássaros o ensina sobre “o amor de Deus, sem que ele saiba”.549 Paradoxalmente, o relato do velho Riobaldo coloca o episódio do primeiro encontro com Otacília contornado de religiosidade manifestada na contemplação da criação e daquele assunto de Deus que o lugar proporcionava como algo isolado e fora do real, pois a verdadeira função da sua estadia na Fazenda era parte da estratégia da guerra, aproximando-o muito mais dos complexos princípios hermogêneos e demoníacos como a um destino trágico, e menos da afirmação de Deus e de sua simplicidade através de suas adoráveis criaturas. Essa ambiguidade percebida da narrativa no seu conjunto reforça a visão da personalidade titubeante de Riobaldo que, por um lado, quer cumprir a sina da vingança ao lado de Diadorim, mas por outro, com olhar de narrador, vê o significado a partir de um propósito salvífico da presença de Deus afirmado em um evento isolado reconstituído na história narrada. Professar Deus através da sua criação, portanto, é a inferência do cristianismo presente nesse relato do romance em que Riobaldo por algum momento se distancia da real maldade do sertão, transcendendo-se para os ensinamentos recebidos de Diadorim que acreditava na revelação de Deus através da sua criação e para a beleza simples da Fazenda Santa Catarina que o impulsionava para a contemplação da simplicidade da criação divina ao lado de Otacília. Tal inferência também é percebida nos contrastes propositadamente presentes na narrativa entre o bem e o mal, o feio e o belo, o complexo e o simples, e Deus e o diabo, que revelam a condição do humano no mundo vista pelo cristianismo como itinerário para Deus. Ou seja, se o cristão vive num mundo em que tudo é muito misturado, cabe-lhe a exemplo de Jesus discernir o caminho para Deus e para o seu propósito salvífico. O narrador, de forma discreta, conforme se pode ver, assume essa posição.550

pássaros: “De todos, o pássaro mais bonito e gentil que existe é mesmo o manuelzinho-da-crôa”. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas, p. 143.

548

No capítulo Grandes Veredas, Araujo desenvolve uma reflexão a partir de São Boaventura (autor da biblioteca de Rosa) sobre a ciência filosófica e a ciência teológica buscando analogias dessas ciências no texto do Grande Sertão, tal como a chegada de Riobaldo na Fazenda Santa Catarina marcada por profundo cristianismo. ARAUJO, Heloisa Vilhena de. O Roteiro de Deus: Dois Estudos sobre Guimarães Rosa, p. 97.

549

Ibidem, p. 51.

550

Para Schillebeeckx, o tema Deus é visto como problemático no mundo contemporâneo. Longe do dualismo, afirma que existe no mundo atual uma mistura enigmática e constante de bem e mal, de sentido e sem-sentido, sem que a história possa responder a esse problema, contudo a fé em Deus a partir de uma experiência religiosa

Se a presença de Riobaldo na Fazenda Santa Catarina ao lado de Diadorim e Otacília era um assunto de Deus, então, também era de Deus, conforme a narrativa nos leva a inferir, a orientação cristã de uma conduta moral para a castidade, presente como mandamento de Deus desde a origem do cristianismo.551 A imagem da virgem pura e santa, presente nas devoções a Nossa Senhora e às santas, tem servido de modelo e de conteúdo para os sermões e textos religiosos cristãos a fim de orientar a vida de todo aquele que ao ser batizado precisará ser educado nesses princípios e, em especial, a conduta daqueles que farão de suas vidas uma entrega total ao serviço de Deus e de seu reino. A castidade é vista pelos cristãos como vida celibatária, isto é, a abstinência total da sexualidade entre um homem e uma mulher e também como sacramento em que estão presentes a aliança de fidelidade e a sexualidade desejada por Deus com os fins da procriação. Otacília e Diadorim representam em dois momentos esse modelo cristão. O velho Riobaldo certamente conhecia esse referencial cristão da castidade. O primeiro é o da virgem – figuração de Nossa Senhora. Atributo também dado a Diadorim, que se apresenta transfigurado para Riobaldo na imagem da santidade e da pureza de Nossa Senhora da Abadia por ocasião do encontro acidental com um leproso, em que a impureza do doente coloca Riobaldo diante de sua própria impureza movida por instintos sexuais pecaminosos.552 Enquanto que Diadorim, ao se mostrar sereno na cena, leva Riobaldo extaticamente a vê-lo como diferente, conforme o fragmento citado. Portanto, a tendência do narrador com o poder do conteúdo da história vivida é assumir Diadorim como parte de uma fantasia e transformá-la na virgem sobrenatural. O segundo é o da esposa fiel, devota e dedicada à religião. Otacília, diferente de Diadorim, traz a castidade que não nega o feminino, afastando Riobaldo da esterilidade da atividade guerreira, da regra do celibato de Joãozinho Bem-bem e da ausência da mulher

voltada para a humanização – “o sim em aberto” – como dom de Deus, resgata essa esperança perdida sustentando a resistência do “não” contra toda forma de sofrimento. SCHILLEBEECKX, Edward. História

Humana: revelação de Deus, p. 22 e 23. 551

Neitzel afirma que: “Numa remissão ao Paraíso sobre a Terra — missão escatológica do mito marial — encontramos Otacília vivendo de acordo com o ideal cristão definido no final do século IV, quando a virgindade – de significado escatológico – era a garantia da ascese, o retorno à origem. A continência foi uma imposição religiosa cristã, que gravitava numa problemática da superação da alma sobre o corpo e suas concupiscências. A castidade constituiu, durante longos séculos, tema do cristianismo, apanágio para a existência de um modelo exemplar”. NEITZEL, Adair de Aguiar. Otacília: um prolongamento da visão mítica

de Maria. Disponível em <periodicos.ufsc.br/index.php/literatura/article/download/5368/4749>. Acesso em 6

de outubro de 2012. Também a respeito da castidade, o COMPÊNDIO do Catecismo da Igreja Católica, no segundo capítulo da segunda seção da quarta parte desenvolveu argumentos teológicos sobre o mandamento de Jesus do amor ao próximo a partir do sexto mandamento da lei de Deus: “Não cometerás adultério”.

552

“[...]: Diadorim, nas asas do instante, na pessoa dele vi foi a imagem tão formosa da minha Nossa Senhora

da Abadia! A santa... [...] Aí peguei o cordão, o fio do escapulário da Virgem – que em tanto cortei, por não

poder arrebentar – e joguei para Diadorim, que aparou na mão”. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão:

ao lado dos principais chefes jagunços. No entanto, a ambiguidade da narrativa dá ao comportamento sexual do jagunço Riobaldo um duplo sentido. Primeiramente ele se assume como promíscuo, medonho e pecador. Depois, ao relatar o seu respeito pelas mulheres meretrizes, ambiguamente retira os elementos religiosos desses encontros ao contrapor a conduta selvagem e instintiva dos outros jagunços que tinham aca e manejavam quando estavam precisando de mulher. Ou seja, a narrativa dá ao leitor a possibilidade de que o narrador se veja, a partir das relações estabelecidas no momento com sua esposa Otacília, como o jagunço pecador e promíscuo que afirma ter abandonado tais costumes, mas respeitoso com as prostitutas, sugerindo que esses encontros eram desejados por Deus por serem humanos na busca do prazer mútuo, diferindo radicalmente da brutalidade instintiva do comportamento comum de um jagunço.553 Outra possibilidade para o leitor, seria a de perceber a armação do relato do barranqueiro que procura esquivar-se de seu passado jagunço incompatibilizando a sua natureza jagunça através dessa ambiguidade ao narrar. Como se sente arrependido por ter participado de crueldades e selvagerias, procura através da sua narrativa justificar e amenizar a condição vivida como presa a um destino que o