6 General conclusions and perspectives
6.4 Recommendations for future research
Membro de uma das mais ilustres famílias do Reino: «[...] pelas heróicas proesas que praticaram, pelos importantes serviços políticos que prestaram ao Rei e à sua Pátria - os membros da ilustre Casa de Almeida foram também poderosos e influentes pelas elevadas posições que muitos deles ocupavam na Sociedade, na Igreja, e no Estado, pelos avultados bens que possuíram, pelas relações que os ligava ás mais fidalgas famílias do Reino [...]» .
D. Lopo de Almeida terá nascido pelos anos de 1524-1525. Era o quinto filho de D. António de Almeida (Contador-Mor do Reino) e de D. Maria Pais Leme, descendente do 1.° Conde de Abrantes.
32 Idem, Ibidem. 33 Ibidem, p. 30
34 BASTO, Artur de Magalhães, História da Santa Casa da Misericórdia do Porto, vol. I, Porto, Santa Casa da Misericórdia do Porto, p. 56.
Poderíamos citar numerosos membros da sua família, dada a importância e os lugares de destaque por eles ocupados, dentro da Igreja e ao nível do Estado, mas destacamos apenas o seu tio-avô, Io Vice-Rei da índia e D. Jorge de Almeida, Bispo-Conde de Coimbra35.
Terá sido com o seu tio, D. Jorge de Almeida, que D. Lopo de Almeida terá vivido em Coimbra, no Paço Episcopal, aí frequentando a Universidade durante cerca de três a quatro anos. Provavelmente, terá sido este que o terá incentivado a prosseguir a carreira eclesiástica.
D. Jorge de Almeida faleceu em 1543 e um ano após a sua morte D. Lopo seguiu para Bordéus onde prosseguiu os seus estudos. Segundo o Professor Mário Brandão, «[...] partiu para Bordéus em cujo colégio (o célebre Collège de La Guyenne), passou cerca de ano e meio, onde se terá dedicado ao estudo de Humanidades» .
Terá permanecido nesta cidade até esta ser assolada pela peste, indo então viver para Cadillac. Aí permaneceu um ano.
Estávamos em pleno Renascimento onde a renovação intelectual era agitada e a procura de novas ideias levava a que muitos jovens saíssem dos seus países para estudarem nos melhores centros intelectuais da Europa, geralmente custeados pelo próprio Reino.
D. Lopo, após a sua permanência em Cadillac, partiu para Paris, com o intuito de estudar Grego e Matemática.
Em Outubro de 1548, depois de uma viagem à Flandres, regressou a Paris, onde se terá debatido com imensos problemas financeiros.
D. Lopo estava de tal maneira habituado a levar uma vida ostensiva e repleta de bem estar, que a sua pensão começou a tornar-se escassa, pelo que teve que recorrer monetariamente à ajuda de um seu compatriota, Manuel de Araújo .
Em 1550 regressou à Pátria, recolhendo-se em casa de seu irmão D. Dinis (Contador-Mor do Reino) evitando o contacto público.
Mas a vida de D. Lopo tornou-se algo agitada: em Setembro de 1550 D. Lopo foi preso pelo Santo Ofício com alguns dos mais eminentes professores do Colégio das Artes de Coimbra, sob acusação de erros contra a Fé Católica38. Mas o que terá levado a Inquisição a
prender D. Lopo?
35 Idem, Ibidem, p. 57; e PEIXOTO, Ana Sílvia Albuquerque de Oliveira Nunes de Lemos, Ob. cit., p.30.
36 BASTO, Artur de Magalhães, Ob.cit., p. 63, nota 7; e BRANDÃO, Mário, A Inquisição e o Colégio das Artes, Coimbra,
Imprensa da Universidade,vol. I, 1948, p. 395.
37 BASTO, Artur de Magalhães, História da Santa Casa da Misericórdia do Porto, vol. II, p. 65. 38 BRANDÃO, Mário, Ob. cit., pp. 392-441.
Tudo leva a crer que D. Lopo, aquando da sua estadia em Coimbra, desrespeitava o jejum comum da Quaresma, faltava a missas e às rezas canónicas. Justificava mesmo a sua necessidade de comer carne, por sofrer dos olhos.
Mesmo preso, nunca negou as suas ideias menos ortodoxas, próximas do Luteranismo: considerava ser legal o casamento dos clérigos, negava a necessidade de rogar aos Santos, sendo suficiente rogar a Deus, colocava em dúvida a existência do Purgatório e negava o poder do Pontífice em excomungar alguém.
Deram-lhe «[...] em penitência que faça abjuração de seus erros em forma, diante dos Inquisidores e Oficiais da Santa Inquisição, e Cárcere Perpétuo, e seja absoluto in forma ecclesia da excomunhão em que incorreu; e mandam que seja deposto das ordens clericais que
39
diz ter, conforme o direito em tal cãs [...]» .
Foi então determinado pelo Cardeal Infante D. Henrique que D. Lopo fosse cumprir pena no Mosteiro de São Domingos de Benfica, onde deveria permanecer, excepto para comer e dormir nas casas de "Cosmo de Lafetaa".
Cumpriu a penitência durante cerca de oito meses, tendo-lhe sido perdoado o resto da condenação, por alvará de Agosto de 1551.
Não pomos em dúvida que D. Lopo morreu defensor da Igreja Católica Apostólica Romana, desempenhando mesmo na altura de sua morte, o cargo de Capelão de Filipe II.
Politicamente, D. Lopo foi um defensor da Causa Espanhola ao ponto de ter sido preso, novamente, em Ponte de Lima, no ano de 1580. No entanto, encontramo-lo, na hora da sua morte, cerca de três anos e meio após este incidente, a residir em Madrid.
O seu testamento demonstra que Portugal era a sua pátria, optando por ela ao fazer a doação dos seus bens, principalmente no Norte, na cidade do Porto.
No seu legado, para além da contemplação dos seus familiares, D. Lopo não se esqueceu dos pobres e de libertar um escravo que possuía; preocupou-se com os presos, mas a grande contemplada, em primeiro lugar foi a Santa Casa da Misericórdia do Porto. Caso esta recusasse o seu legado, seria contemplada a Misericórdia de Braga e por fim a de Lamego .
39 BASTO, Artur de Magalhães, Ob. cit, vol. II, pp. 76-77.
Como testamenteira de D. Lopo de Almeida, a Santa Casa teria que aceitar as premissas impostas no seu testamento. D. Lopo declarou por seu herdeiro universal «Um hospital mental e de obras pias», o Hospital de D. Lopo, sendo a Misericórdia sua administradora41.
Foi assim que, em cumprimento das clausulas testamentárias de D. Lopo de Almeida, nasceu este Hospital e a Capela-Mor da Igreja da Misericórdia, na Rua das Flores, onde ainda hoje se efectuam as solenidades em sua honra no dia 29 de Janeiro de cada ano, data da sua morte.