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Este estudo se propôs a analisar a relação entre o trabalho e a saúde mental de docentes de uma instituição federal de ensino superior, bem como identificar fatores que desencadeiam sofrimento e que proporcionam prazer no trabalho exercido pelos professores, além de discutir as impressões e vivências relacionadas à saúde mental e trabalho.

Observa-se que, de acordo com os dados apresentados na primeira fase do estudo, o perfil de absenteísmo na UFRN segue com o que vem sendo descrito na literatura, onde mostra um crescimento dos transtornos mentais e comportamentais em comparação com as outras causas de afastamentos.

Corroborando a estudos já realizados, que demonstram que a depressão tem sido associada às ocorrências de absenteísmo no trabalho, os dados apresentados indicam que nas causas mais frequentes de transtorno mental em servidores da UFRN, há o componente depressivo, e a presença de grande quantidade de dias perdidos, revelando o quanto os transtornos mentais, em especial a depressão, podem ser incapacitantes.

Quanto à segunda fase do estudo, no que diz respeito ao sofrimento no trabalho docente na universidade, foi visto que os professores vivenciam uma realidade de precarização e flexibilização do trabalho, decorrentes das transformações ocorridas no mundo do trabalho, que segue a lógica neoliberal, e reflete na educação superior atual. Com isso, fez com que se instalasse uma lógica empresarial nas universidades públicas, caracterizada pela competitividade exacerbada, produtivismo, gestão por metas, sobrecarga de trabalho, que em consequência leva a uma indissociação tempo-espaço da vida acadêmica e pessoal. Dessa forma, o ambiente torna-se propício para a ocorrência de problemas de saúde como esgotamento profissional, alcoolismo, dependência química, transtornos depressivos e ansiosos, assédio moral e em casos extremos, o suicídio.

Tal realidade leva a refletir e a repensar a forma da educação superior que está sendo produzida no país, onde a universidade se configura atualmente em um ambiente extremamente competitivo, com exigências de produção exacerbada, onde muitas vezes, a quantidade vale mais do que a qualidade, a sobrecarga de trabalho é tamanha e a desvalorização do ensino em detrimento da pesquisa e produção acadêmica é real.

Mas em contraponto a esta realidade vivenciada pelos docentes, a prática do ensino em sala de aula foi eleita quase que por unanimidade como fonte geradora de prazer no trabalho, e o reconhecimento profissional, tanto por parte dos alunos, quanto por parte da instituição é extremamente gratificante no cotidiano do professor, por ocasionar aquela sensação de que todo o esforço desempenhado em suas atividades fizeram valer a pena o seu cargo de professor.

Mas não se pode deixar de perceber que este cenário também tem gerado conflitos entre os docentes, pois as atividades que lhes proporcionam prazer no trabalho, também se configuram em fontes geradoras de sofrimento. Dessa forma, o prazer e o sofrimento no trabalho coexistem e são fruto de uma interação dinâmica entre a organização do trabalho e a realidade vivenciada pelos trabalhadores, as quais integram variáveis socioculturais e psíquicas, conforme descrito na teoria da Psicodinâmica do Trabalho.

Mas apesar do sofrimento vivenciado no trabalho, das condições de desconforto, de mal-estar, por vezes culminando até em adoecimento, os docentes reconhecem o seu trabalho como estimulante, como uma mola propulsora, que dá sentido à sua existência, em que o simples fato do ser professor, e do exercício da docência podem ser considerados como promotores do prazer e da qualidade de vida no trabalho.

Diante dos resultados apresentados, torna-se imprescindível abordar a necessidade de maior investimento em promoção de saúde, em especial na saúde mental no trabalho na universidade, abrangendo todo o quadro de servidores da instituição, bem como o empenho e apoio dos gestores, uma vez que a cada ano mais servidores adoecem e se afastam do trabalho em virtude de algum transtorno mental e comportamental.

Algumas atividades relativas à saúde mental já vem sendo propostas na UFRN, e que durante este ano foram colocadas em prática, como o “Janeiro Branco”, um mês totalmente voltado à temática da saúde mental e a formação de grupo de enfrentamento à ansiedade social, sob coordenação de uma psicóloga. O acompanhamento multiprofissional de servidores com restrição laboral, e os exames médicos periódicos já instituídos pelo Decreto nº 6.856/2009 se somam ao que vem sendo desenvolvido para a promoção da saúde mental dos servidores na universidade.

É importante e válida a oferta de atividades que promovam a qualidade de vida no trabalho, pois demonstram a preocupação da instituição com seus servidores, favorecendo e incentivando o desenvolvimento potencialidades por meio da liberdade de expressão e uso da criatividade, mas salientamos que as atividades de qualidade de vida propostas não devem ser de caráter paliativo, mas serem pautadas em mudanças das condições e organização do trabalho, uma vez que são eles que englobam as reais fontes desencadeadoras de sofrimento no trabalho.

Nesta complexa realidade que se configura a educação superior no país, destaca-se a necessidade de organização e participação coletiva e ativa dos docentes em busca de seus direitos como trabalhadores, através do diálogo e debate sobre os reflexos e consequências da atual conjuntura política e econômica do país no contexto da educação, e na busca de perspectivas de mudanças como a revalorização do componente ensino no tripé acadêmico das universidades.

Como possíveis limitações, ressalta-se que apesar da existência de uma Política voltada para a saúde dos servidores públicos federais, de uma Portaria que orienta as ações de saúde mental no serviço público federal, da regulamentação dos exames periódicos, dos esforços empreendidos pelos servidores que atuam no SIASS/UFRN e do apoio por parte da gestão da UFRN, atualmente diante da conjuntura política e gestão do governo, o serviço público enfrenta dificuldades.

Dessa forma, o desenvolvimento e andamento das ações de prevenção e promoção da saúde ocupacional na UFRN não ficaram isentas, em virtude de vários agravantes, com destaque para a falta de recursos e investimentos, a carência de pessoal, que consequentemente gera um acúmulo de atividades, a falta de incentivo salarial e ausência de aprimoramento do sistema para obtenção de relatórios gerenciais completos, o que configura um desafio a mais para os gestores.

E dentre as dificuldades vivenciadas para a realização deste estudo, pontua-se a resistência de docentes em participar da pesquisa, o que culminou na recusa de alguns, desistência de outros, o que nos leva a refletir e levantar hipóteses para explicar tais atitudes como: o medo de se expor, mesmo sendo assegurado o seu anonimato; o preconceito que o tema saúde mental ainda sofre nos dias atuais, mesmo por pessoas bem esclarecidas como os professores universitários, acredita- se que contribuiu para esse receio e resistência em participar.

Destacamos a importância e a necessidade da continuidade com novos estudos acerca da saúde dos servidores públicos federais na universidade, voltados tanto para o público de docentes quanto para os técnicos-administrativos.

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