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Recorre-se à história oral para ter acesso às memórias sobre as incelências e os velórios dos anjinhos. Foi selecionada uma colônia de narradoras, as quais obedeciam a alguns critérios antes estipulados, como ter participado dos velórios cantando ou ouvindo as incelências. As entrevistas foram pautadas em um roteiro

elaborado com esse intuito. De início, a rigidez das perguntas atrapalhou um pouco o andamento das pesquisas e, por isso, decidiu-se, então, deixar as entrevistadas mais à vontade, permitindo que as participantes conduzissem a conversa, de modo que só havia a intervenção quando surgia alguma dúvida sobre o que estava sendo falado.

Foram entrevistadas nove mulheres que participavam dos velórios de anjinhos, seja cantando ou apenas ouvindo. Essas senhoras, como já dito, atendiam aos critérios já mencionados, entre eles, ter um bom repertório de incelências. A seguir, portanto, é feita uma descrição de quem são essas mulheres e em quais sítios moravam ou moram.

Maria das Neves Valentim da Silva, 54 anos, foi a única entrevistada que não cantou as incelências, mas que, apesar disso, também participou dos velórios. Ela teve oito filhos, mas conseguiu criar apenas três. Maria Francisca da Silva, dona Neguinha, 62 anos, hoje reside na cidade, mas acompanhou as incelências até os 12 anos. Dona Maria Socorro, conhecida como Socorro Rabicó, cantou as incelências e amortalhou os anjinhos.

No sítio Cacimbas: Teresinha Maria de Jesus, 71 anos, acompanhou as incelências até os 12 anos, quando saiu do Sítio Cacimbas e veio morar na cidade. Maria Francisca da Silva, dona Nêna, solteira de 57 anos, ainda reside no mesmo sítio.

No distrito de Boi Selado: Petronila Luca de Araújo, dona Nila, 104 anos, teve 11 filhos e apenas quatro sobreviveram. Ela se tornou viúva muito nova e sustentou os filhos e a casa vendendo bolachas e bolos. Apesar da idade avançada, dona Nila tem uma memória e lucidez impressionante. Francinete Cardoso Batalha de Souza, costureira e filha de dona Nila, tem 68 anos e teve oito filhos, dos quais dois tornaram-se anjinhos. Segundo ela, acompanhou as incelências até os quinze anos. Ainda em Boi Selado, tem-se Maria José Feliciano, conhecida como dona Zezinha, 68 anos, a qual disse que acompanhou as incelências até os 25 anos e que teve 3 anjinhos, mas só permitiu que cantassem incelência para dois deles. Dona Zezinha tem a voz rouca, provocada pelo uso excessivo de cigarro, já que ela começou a fumar com nove anos de idade. Francisca Francina da Silva, com 59 anos de idade, teve sete filhos e apenas um anjinho. Porém, por considerar as incelências muito penosas, não deixou que cantassem para aqueles os seus que partiram.

É interessante notar que algumas das mulheres que cantavam incelências nos velórios de anjos não permitiam que cantassem para os seus anjos por considerar as incelências “muito penosas”. Entretanto, faziam de tudo para cantar quando se tratava de outras crianças que não as suas.

3.2 O CENÁRIO

As casas simples de taipa no meio da caatinga, fronteadas apenas por uma porta e uma janela, ambas rústicas, na penumbra das primeiras horas da noite, certa movimentação de pessoas começa a mudar os arredores da casa, a noite traz consigo o lamento da morte de mais um anjinho, as vizinhas começam a chegar, esse acontecimento já era corriqueiro. Roupas modestas vestiam quem se aproximava da casa, tantas muitas mulheres que já passaram por momentos semelhantes.

Dentro da casa, pouca iluminação, apenas uma lamparina abastecida com óleo de mamona e um pavio de algodão. No meio da sala, sobre uma esteira de palha, estava o centro de todas as atenções: um caixão simples, enfeitado com flores de papel colorido. O cheiro do café, o aroma dos chás e o barulho da borbulha do caldeirão de batatas compõem a cena. Mulheres cantam e enfeitam o féretro, o pranto da mãe, que pode ser ouvido ao longe. Do lado de fora, no terreiro, os homens conversam, as crianças brincam de anel, moças e rapazes namoram à luz da lua e de uma coivara que ofusca luz singela da lamparina no interior da casa.

É necessário realizar esse exercício de visualização da cena, como o que foi feita acima, para se ter noção de como aconteciam essas cerimônias fúnebres. As entrevistadas deste trabalho relatam de forma muito detalhada como se estruturavam essas ações em torno da criança morta. Segundo dona Francisca Maria da Silva, conhecida como dona Neguinha, de 61 anos de idade, “quando morria o anjinho, juntava aquelas vizinhas, moças e crianças (...) mais ou menos umas 15 mulheres, dependia da vizinhança” (SILVA, 2017). Dona Neguinha, hoje, mora na cidade, mas ainda lembra-se de forma muito saudosa dos tempos em que morava no sítio Cacimbas, um dos lugares onde foi detectada a prática das incelências no século passado.

Dona Neguinha ainda afirma que as mulheres estavam alegres quando se reuniam para cantar as incelências, e a ideia da criança inocente, como já detalhada anteriormente, é percebida. Por isso, segundo a mesma entrevistada, os anjinhos não precisavam de orações em sufrágio da alma que tornassem a morte infantil um motivo de júbilo, pois mais um anjo estaria compondo as milícias celestes. “Cantavam como se fosse um momento de alegria, era aquela coisa alegre porque aquela criança era mais um anjinho para Jesus” (SILVA, 2017).

Como já foi visto, as incelências estavam ligadas à noção de “boa morte” e, sendo assim, diz respeito aos cuidados antes do momento final, durante o velório e após o enterramento. Desse modo, a fala das entrevistadas vai de encontro a essa ideia já debatida anteriormente por autores como Philippe Ariès. Dona Terezinha de Jesus afirma:

A gente ficava fazendo quarto. Quarto era quando o menino ainda estava vivo até a hora de expirar e a velinha acesa para colocar na mão (...). Ficava o povo tudo olhando, aí quando dizia “Está morrendo! Está com a ânsia!”, “né”, aí trazia uma vela e colocava na mão do menino. (...) Era a ladainha que cantava, as pessoas mais velhas que sabiam cantar (JESUS, 2017).

Além de prática espiritual, as incelências serviam como modo de interação social, uma vez que o ritual movimentava a comunidade durante toda a noite, como confirma mais uma das participantes, dona Francinete, e conta um pouco da relação social nesses velórios: “A gente ficava no terreiro no claro da lua, conversando, contando história de „trancoso‟, brincando de anel, quem estava disposto ficava lá dentro cantando, nos terreiros costumava fazer uma coivara, um foguinho para clarear” (SOUZA, 2017).

Esse lado festivo das incelências é confirmado por Dona Teresinha de Jesus, e ela reconhece: “Era muita gente, e quem achava bom eram os namorados que ficavam lá fora, e tome café a noite todinha, porque não era para ficar ninguém dormindo, todo mundo acordado” (JESUS, 2017). Esse momento podia ser entendido como uma comemoração por dois motivos: o primeiro, por ter mais um anjo compondo a corte celeste, e o segundo, que, apesar de parecer estranho, é confirmado, em meio a gargalhadas, por dona Zezinha: “Gostava, adorava, achava bom quando morria um menino” (SILVA, 2017). Era um momento em que as

pessoas podiam divertir-se, seja cantando, jogando conversa fora ou namorando em um lugar com pouca ou quase nenhuma opção de lazer.

O evento estendia-se durante toda a noite, e as participantes pontuam que o café era em grandes quantidades, pois ajudava a manter os convidados deste rito acordados. Mas não era somente isso: batatas cozidas e chás também integravam o cardápio modesto dessas reuniões, e em alguns velórios ainda eram servidas bolachas junto ao café caso a família tivesse mais condições, como declarou dona Neguinha.

Segundo todas as entrevistadas, as incelências causavam grande comoção nas mães, e isso é unanimidade na fala delas. Algumas das colaboradoras comentam que quando se morria um filho delas, não deixavam que cantassem por ser muito penoso, mas faziam questão de cantar para os anjinhos das vizinhas. Os cânticos estendiam-se durante a noite toda, acompanhados dos lamentos da mãe que perdia a criança, para que somente durante as primeiras horas da manhã todos se preparassem para a despedida. Quase rompendo a aurora das três para as quatro horas da manhã, saia o enterro, e um homem adulto levava a criança morta num caixão ou telha, enfeitado com flores, e até certo ponto do caminho era acompanhado, como assegura dona Maria Francisca: “A gente saía acompanhando o caixãozinho cantando até lá em coisa” (SILVA, 2017).

3.3 MORTALHAS

As mortalhas assumem papel fundamental no rito fúnebre, uma vez que elas têm uma “ligação direta com o Santo Sudário, o pano que envolveu o cadáver de Cristo e com o qual ele mais tarde ressuscitou e ascendeu ao céu” (REIS, 1952, p. 118). Era comum, segundo Reis, que as crianças vestissem-se com roupas de santos, e a mortalha tinha relação com o estado de pureza da criança e a posição que ela ocuparia ao chegar ao céu. Em consonância com o que Reis diz, dona Das Neves, uma das entrevistadas, afirma que, em alguns casos, “se fazia uma coroa de papelão e cobria com areia brilhosa” (SILVA, 2017). O relato da confecção dessa coroa encimada por uma cruz lembra bastante a coroa de São Miguel Arcanjo, santo bem visto na hora da morte, principalmente nas mortes de crianças (REIS, 1952, p. 119).

A produção dessas mortalhas obedecia a regras que faziam parte do rito fúnebre e que estavam impregnadas de superstições, como é possível notar no relato de dona Socorro Rabicó:

Antigamente, meu filho, a pessoa só amortalhava o anjo. Olhe, tinha que saber onde era o direito do pano, porque, se tivesse, abastava ter uma manga feito pelo avesso, sonhava uma pessoa dizendo que tinha que endireitar, porque tinha que ser tudo bem direitinho. Olhe, morreu um menino, aí apareceu uma pessoa dizendo: diga à mamãe que mande o pedaço do bico que faltou na minha mortalha, botar um biquinho em baixo, faltou um pedacinho, mande o pedacinho do bico que faltou. E ela: e por quem eu vou mandar? (no sonho), Aí ele foi e disse: amanhã o portador passa lá na sua porta. Aí quando foi no outro dia a mulher ficou... Aí mandou comprar o pedaço de bico. Quando deu fé, lá vem uma pessoa com um anjinho (pia, me arrepiei todinha), aí foi, ela botou na mão do anjo o pedaço do bico e não sonhou mais não (SOUZA, 2017).

Geralmente, as mortalhas eram brancas e feitas de morim, que era um tecido ao qual as pessoas pobres tinham acesso, tendo em vista seu baixo custo. O modelo das mortalhas era simples e a confecção constituía parte das ações em torno da morte infantil. “Vamos fazer a mortalhinha: costurava, e quando não tinha a máquina era tudo na mão. Comprava morim. Eu vendi muito (silêncio) branca toda de morim. Quando era de menina fazia a roupa branca e o manto azul, cobria a cabecinha. O traje de nossa Senhora, pronto, era azul e branco” (JESUS, 2017), como atesta dona Teresinha de Jesus.

Pegava o morim, dobrava e costurava. A gente num tem essa cava? (a entrevistada demonstra na própria roupa), só que não existia, costurava assim direto, reto, que hoje a costureira sabe. A mulher: “eu queria uma blusa manga de mortalha”, porque não tem cava, aqui era o morim, “nera”? Cavava o buraquinho aqui, para enfiar a cabeça, agora aqui cortava assim, no que você vestia aí ficava a manguinha, aí tudo era branco. Agora a menina que colocava o paninho azul que cobria a cabecinha nela aí descia, ficava mais ou menos aqui o azul. (...) Do menino era só branco, depois começou a fazer São Francisco, aí era a “mortalhinha” marrom com o cordão de São Francisco na cintura (JESUS, 2017).

A simplicidade do rito, aliada à informalidade, permitia que as mortalhas e os caixõezinhos fossem bastante enfeitados, e esses adornos eram produzidos com os materiais a que essas pessoas, em meio a toda dificuldade financeira, tinham acesso. O caixão podia ser de caixa de sabão reaproveitada. Antigamente, segundo

os relatos coletados, o sabão era vendido em caixas de madeira e essas caixas eram reaproveitadas de muitas maneiras, inclusive na confecção dos caixões para anjinhos. Quando não se tinha a caixa de madeira, uma telha servia de suporte para o frágil corpinho. O caixãozinho ou a telha era enfeitado com flores coloridas durante a noite, como foi contado por dona Nêna: “Homem, aqueles caixõezinhos ficavam tão bonitinhos, tudo enfeitadinho” (SILVA, 2017). O caixãozinho ficava em cima de uma mesa ou esteira de palha na sala e era “enfeitado com papel de anjo azul, amarelo, verde (papel seda)” (SILVA, 2017).

Havia uma quantidade considerável de adereços que poderiam ser usados junto à mortalha, desde a coroa de papelão à fita que envolvia a cintura da criança e amarrava as mãos postas, ou até mesmo, como informado por dona Maria Petronila, de 104 anos de idade: “O anjinho, com as mãos postas, fazia um livrinho [papel dobrado ao meio], o anjinho ficava com os olhos abertos [havia a ideia de não precisar fechar os olhos da criança], parecia que estava lendo a noite toda até o amanhecer” (ARAÚJO, 2017). Junto a esses elementos, ainda existia a confecção de rosas para ornar o féretro. A produção dessas rosas estava inserida no rito das incelências, e tanto a feitura das rosas quanto o grude servia de cola, como afirma dona Terezinha de Jesus:

“Pegava goma, fazia tipo, botava água e fazia como leite, aí derretia e botava no fogo para engrossar, aí ficava aquele grude para você passar nas flores e pregar na “mortalhinha” e no caixãozinho. Ainda pegava um paninho, “nera”, Maria? E jogava um paninho quadrado e jogava um monte de florzinha pregada” (JESUS, 2017).

Na imagem 04, vê-se uma mortalha confeccionada em morim branco, sem cava, apenas com a abertura para a cabeça, finalizada com bico. A fita servia para ataviar a cintura ou amarrar as mãos do anjo de forma que ficassem postas. O modelo obedece às informações oferecidas pelas narradoras.

Vê-se, na imagem 05, o detalhe da abertura para a cabeça e o acabamento feito com bico de algodão. O modelo também obedece às informações oferecidas pelas narradoras.

É possível observar, no modelo ilustrativo costurado por dona das Neves, as características apontadas anteriormente, como o morim, a manga sem cava, a abertura para passagem da cabeça, o bico, que também servia como ornamento, e a fita que cingia a cintura dos anjinhos.

Vê-se, na imagem 06, a mortalha com um dos adornos mais comuns, as flores feitas em papel seda ou papel de anjo, como chamavam. O modelo de pétalas pontiagudas podia enfeitar desde a mortalha até o caixãozinho. O modelo obedece às informações oferecidas pelas narradoras.

Foto 04: Mortalha em morim, confeccionada por dona das Neves. Acervo do autor.

Foto 05: Detalhe da abertura para a cabeça, com o acabamento em bico de algodão. Acervo do autor.

Foto 06: Flores dispostas sobre a mortalha. Acervo do autor.

Foto 07: Flores aproximadas. O modelo foi produzido pelas narradoras. Acervo do autor.

Na imagem 07, vê-se, de forma mais aproximada, as rosas produzidas para ornamentar o anjinho. Nessa foto também se percebe a fibra do morim. O modelo obedece às informações oferecidas pelas narradoras.

Nessas imagens pode-se ver parte dos adornos que enfeitavam os anjinhos mortos, e esse modelo de flores foi apresentado por uma das entrevistadas (a disposição das flores na primeira foto obedece à informação da narradora). Vale lembrar que todo caixão era coberto com essas flores, e enquanto cantavam-se as incelencias, algumas mulheres enfeitavam o caixãozinho. Outro detalhe que é interessante mencionar é que, após enfeitado o caixão e a mortalha, ainda colocavam, em certos casos, uma folha de papel seda cortado como que formando uma renda para cobrir o anjinho.

3.4 AS INCELÊNCIAS

As incelências estão ligadas às orações e preces em torno do morto. Nesse caso, especificamente, por tratar-se de crianças e, portanto, não haver a necessidade de purgação de pecados, essas músicas ora festejam – não a morte dos pequenos, mas o acesso deles ao reino dos céus –, ora consolam as mães e os pais que perdiam os filhos.

As letras eram simples e refletiam o imaginário católico, sendo “os cantos [...] de estrutura melódica simples e despojada, com o predomínio do estilo silábico e os sons repetidos, ao lado do defunto, cantados pelos parentes, amigos e vizinhos” (SANTANA, 201, p. 91).

Isso é possível observar nas incelências cantadas por dona Socorro Rabicó. (Para facilitar a divisão das letras, as incelências são numeradas conforme suas aparições no texto).

Incelência 01

No entrar da glória O sino tocando Senhor São Miguel

As almas pegando Senhor São Miguel As almas pegando

Eu vou uma viagem no céu Dois anjos veio e me levou Eu vou ver Nossa Senhora Eu vou ver Nosso Senhor

Incelência 03

São Joaquim, quando morreu Deixou seu mundo de luz Deixando nós com memória

Louvores da Santa Cruz

Incelência 04

Doze incelências Meu Deus, que só é José Quem vai para o céu vai sorrindo

Porque em Deus tem grande fé Jesus, Jesus, Jesus Maria e José

Incelência 05

Lá vem a barra do dia Lá vem a virgem Maria Desceu doze anjos do céu

Para sua companhia

Incelência 06

Oh meu Deus, eu vou pro céu Doze anjos vei me levou, Do mundo eu vou me esquecendo

Só de Deus vou me lembrando Nossa Senhora da Guia Também vai me acompanhando

Pode-se observar a ênfase dada à relação entre São Miguel e as almas, na incelência 01, pois esse santo do panteão católico é entendido como general dos exércitos de anjos e pune os pecadores com o fogo do inferno (REIS, 1952, p. 121). Além disso, vê-se a invocação de outros santos que intermediam a passagem para o céu, como a figura da Nossa Senhora (incelências 02, 04 e 05), que é tida como arquétipo de mãe cristã (REIS, 1952, p. 120). Ademais, ainda aparecem outros

santos intercessores, como na incelência 03, que cita São Joaquim (embora tenha forte ligação com a velhice), e o próprio Senhor Jesus Cristo.

Teve-se acesso a outras incelências, como as cantadas por dona Socorro na entrevista por ela concedida. Dona Socorro começa cantando com o número doze, porque, segundo ela, quando se começa a cantar obedecendo à sequência numérica, tem que cantar até o fim. Ou seja, se começa cantando “Uma incelência, meu Deus...”, teria que cantar até completar as doze e, caso não fizesse isso, a incelência tornar-se-ia um mau agouro. Isso porque as incelências seguem uma sequência numérica específica: algumas são ordenadas de um até doze e outras de um até sete. As informações acerca da sequência das incelências foram dadas pelas entrevistadas, e o que realmente importa não é saber se o padrão era repetir doze ou sete vezes, mas, sim, perceber que existia uma métrica nesses cantos. Contudo, mesmo havendo essa divergência quanto ao número de vezes que se cantava, a superstição em torno de cantar fora de um velório de anjinho começando por um número que não seja o número um é levada em conta por todas as entrevistas.

Uma característica primordial das incelências cantadas em Jucurutu em meados do século XX é a composição das letras com termos infantis e voltados para a consolação dos entes que perdem as crianças. As incelências que seguem foram cantadas por dona Neguinha.

Incelência 07

Mamãe, não chores por mim Por mim não deves chorar Quem bota um anjinho para o céu

Aí só deve se consolar Mamãe não sabe da sina Que Deus tinha para me dar

Incelência 08

Adeus, papai Adeus, mamãe Adeus, meus irmãos Até quando Deus quiser

Uma incelência que é Para o senhor São José

Dona Neguinha, além de fornecer informações sobre a composição dos velórios para anjinhos, informou ainda essas duas incelências, nas quais é possível observar as letras voltadas para amenizar a dor e o sofrimento dos familiares que perdiam seus anjinhos. Logo, é comum que expressões como “mamãe, não chores por mim” sejam encontradas nas letras. Além desse caráter consolador, as incelências serviam também como cantos de despedida: “Adeus, papai; Adeus, mamãe; Adeus, meus irmãos”. Talvez esse apelo à despedida servisse para que as famílias assimilassem a morte dessas crianças, tendo em vista que era um acontecimento corriqueiro.

Ainda observa-se, na letra fornecida por dona Neguinha, a menção a São José, santo que, no Seridó, região seca e árida, é bastante cultuado por ser o santo das chuvas. O dia 19 de março, dia de São José, em se tratando de inverno, é o mais esperado do ano, uma vez que, segundo a cultura popular, chovendo no dia desse santo era a certeza de um inverno abundante. Sendo assim, quando se

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