Lacan inicia sua segunda lição retomando o término da anterior em que falava de Pavlov. E ainda, volta a questionar a grande quantidade de pessoas que vinham ver o seminário daquele ano. Naquela lição, Pavlov é apresentado de forma paradigmática sobre como a ciência produz o saber e como a verdade lhe escapa necessariamente. Parte-se do clássico e conhecido experimento em que se desenvolve o emparelhamento de estímulos para condicionar o comportamento de um cachorro em produzir suco gástrico a partir do som de um trompete/sirene. O som fora emparelhado com a apresentação de pedaços de carne que serviam de alimento ao animal.
Esta experiência poderia ser considerada estruturalista em seu início, pois demonstra que o corpo pode ser enganado pelo significante. Os significantes produzem efeitos na carne (a viva). E mais, demonstra que o significante é o que representa o sujeito para outro significante, do seguinte modo: o significante do trompete (o seu som) representa o sujeito Pavlov, implica em sua presença. Então como tomar uma
experiência apesar do sujeito, como faz esse modelo de ciência que
necessariamente o exclui? Eis por quais caminhos se esboça a crítica lacaniana, mas que deve ser considerada como dirigida aos psicanalistas e não aos comportamentalistas, como se insinua. Assim, escuto: alguns psicanalistas sustentam um desconhecimento de estarem implicados nas análises que conduzem.
Nota-se o seguinte movimento do discurso de Lacan para abordar o ato psicanalítico: ele se aproxima do sujeito para pensar esse ato pela via do analisante, para, em seguida, apresentar como o psicanalista está também implicado; em oscilação constante entre as duas partes. Isso nos permite entender que o ato psicanalítico admite essas duas vertentes, mas que também está condicionado à transferência, circunscrito pela relação transferencial. E ainda, que a vertente do psicanalista no ato provém da apreendida enquanto analisante, o que justifica esse movimento de idas e vindas para circunscrever a temática26.
Mas, voltando a Pavlov, outro aspecto estruturalista e essencial do ser falante em relação à linguagem extraída desse experimento é que
26
Num momento posterior desse seminário, Lacan fará referência aos termos
ofensiva e defensiva, oriundos do vocabulário de guerra do General Clausewitz
para falar do processo de análise. Contudo, tendo a acreditar que existe uma estratégia semelhante no modo em que Lacan avança sobre a temática, ora na defensiva, ora na ofensiva com a sua plateia.
ele sempre recebe sua própria mensagem de forma invertida. Isto é, o ruído do trompete, que nada queria dizer sobre a presença do alimento para o animal, passa a produzir a mesma resposta fisiológica por ser a mensagem de Pavlov, o esperado por ele. Essas relações não são percebidas por ele, pois é condição de sua perspectiva que não se interesse pelas consequências de seu experimento no campo da verdade. Assim seria a ciência, um saber que não se preocupa com as consequências do que produz. Nas palavras de Lacan, um saber que se mantém na dimensão do fútil (em oposição a útil), no que o termo lhe remete ao gozo: um saber como fonte de gozo.
Nessa época, Lacan apresentava seu ensino na École Normale
Supérieure e boa parte de sua plateia era composta por alunos desta
instituição, mesmo insistentemente reafirmando ser um discurso dirigido aos analistas. Ainda, considerando sua crítica ao saber universitário, ele se pergunta o porquê de tanta gente acompanhar os seus seminários. Acredita que alguns percebiam algo diferente em sua fala, pois seu ensino tem consequências, ao contrário de todo e qualquer debate universitário apresentado de tal modo que não produza consequência alguma – seja pouco útil.
Todo este preâmbulo serve para nos dizer que seu ensino tem consequências e que elas se aplicam à própria psicanálise, explicando desta maneira a tensão gerada pelo tema de seu seminário entre os psicanalistas. Não apenas pelo que já foi dito sobre as associações que o termo comporta em psicanálise, mas principalmente, por tocar a prática dos analistas. Neste sentido, Lacan questiona: o que se passa com os que
praticam este ato? Visto considerar a definição de psicanalista a partir
da capacidade em praticá-lo e, mesmo, que isso determina um lugar, um campo de atuação. Porém, sem colocar essas considerações de lado, ele afirma: o ato psicanalítico diz respeito, em primeiro lugar, aos que dele
não fazem profissão. Isto é, o ato psicanalítico está vinculado, antes de
tudo, ao analisante.
Sendo verdade que a formação do psicanalista se faz em sua análise pessoal, é condição para se conduzir uma análise que o ato analítico ocorra nele enquanto analisante, que ele o tenha vivenciado antes. Pois “da natureza deste ato dependem consequências as mais sérias quanto ao que resulta da posição que se deve manter para se estar apto a exercê-lo” (p.26-27). De outra forma, é do que se pode extrair de consequências sobre o ato, em sua análise pessoal, que depende a possibilidade do praticante ocupar a função de psicanalista. Fazer da psicanálise ofício implica ter o ato psicanalítico operado antes em si
mesmo, o que nos mostra que as duas vertentes do ato, ao final das contas, se sobrepõem, são um ato só.
Na mesma época, em um discurso realizado em Roma, publicado sob o nome de “A psicanálise. Razão de um fracasso” (1967), o ato é apresentado como aquilo através do qual um psicanalista se compromete a responder pela psicanálise. Essa condição é extraída da análise pessoal e por esta razão é que caberia ainda qualificá-la como didática. Algo, um saber (não é conhecimento), é necessário ao praticante para que ele sustente as condições de que o ato psicanalítico do lado do analisante possa vir a se realizar. Entendo, portanto, que esse ato possui profundas implicações para o final da análise e um valor formativo para o praticante.
Será através dos desvios recolhidos nos enunciados de outros psicanalistas sobre os seus atos, que Lacan pretende encontrar onde está verdadeiramente o embaraço com o ato psicanalítico. Mas antes, vale adentrar na situação analítica e ampliar um pouco o contexto clínico em que o ato se realiza.