Em 1967, quando se dá início às transformações ocorridas na Diocese de Goiás, a população de sua área geográfica estava majoritariamente concentrada no campo. Cerca de 75% vivia na área rural e dos 25% que moravam nas cidades, grande parte trabalhava como lavradores nas fazendas. Por esse motivo quando a Diocese fez a opção pelos pobres, excluídos e marginalizados da sociedade, estava fazendo uma opção pelos lavradores, que representavam a grande maioria da população pobre.
A cultura camponesa é fortemente marcada por uma estrutura familiar patriarcal, onde o homem é o chefe da família e, portanto o poder está concentrado em suas mãos. Tudo o que envolve a sua vida vem marcado por este dado cultural, até mesmo a própria fé. Segundo Lemos (2000, p.5): “vale também considerar que as culturas camponesas são construídas socialmente, com marcas de concepção de gênero hierarquizadas, na sua maioria com desvantagem para as mulheres”.
A Igreja católica reforça a concepção de inferioridade da mulher na medida em que a mulher é identificada sempre com o profano e é excluída dos quadros da produção do sagrado. A religião popular, no caso aqui o catolicismo, vem acentuar ainda mais estas diferenças não respeitadas. Uma forma de religião popular muito comum na região da Diocese é a de folia de reis. O giro é uma das características fundamentais da folia e neste giro as mulheres são impedidas de participar. Elas acolhem na casa, arrumam comida, e somente os homens são identificados com os três reis que vão visitar o menino Jesus.
Por outro lado, nas rezas mais ligadas à Igreja, ou que eram mais aceitas pela Igreja, como eram as rezas dos terços, das novenas, enfim, das devoções aos santos e à virgem Maria, as mulheres é que estavam à frente juntamente com as crianças. Os homens, em geral compareciam ao local, mas ficavam à distância conversando seus assuntos, enquanto as mulheres e crianças rezavam. As rezas eram de tal forma elaboradas, que reforçavam ou induziam as mulheres a se tornarem ainda mais submissas aos seus maridos ou a seus pais. Segundo Ribeiro (1999, p.54): “A subordinação das mulheres é considerada como a primeira forma de opressão na história da humanidade. Remonta ao período pré – histórico, no qual foi se criando uma organização social que concentra o poder em mãos masculinas”.
17 Nello Bononi é italiano, era presbítero e pároco de Itapuranga na época da chegada de Dom Tomás Balduíno,
O mundo atual é o mundo das transformações rapidíssimas, as revoluções acontecem quase de um dia para outro. No entanto, no meio rural tais mudanças chegam e se dão mais lentamente. E quando se refere às relações familiares, marido e mulher, pais e filhos, a cultura milenar impede ou pelo menos dificulta muito as mudanças.
A religião oficial e também a religião popular representam muito mais um freio do que um acelerador em vista destas mudanças. O grande problema é que estas transformações acabam trazendo conseqüências para quem tem o controle da situação, entra em jogo o poder. A religião popular, em geral, é utilizada pelo poder dominante e assim através do poder da fé, se mantém na sua situação de privilegiado. Foucault, conforme Lemos (2000, p. 7) afirma que: “O poder confere status e reconhecimento social e destas coisas ninguém abre mão com facilidade”.
Todo sentimento religioso deve ser respeitado, pois cada pessoa ou cada grupo tem direito de viver e manifestar a sua fé da maneira que melhor lhe convier, desde que com isso não venha prejudicar outras pessoas. Lemos (2000, p.5) escrevendo sobre a religião do povo e relação de gênero afirma que: “Faz-se necessário, portanto, respeitar sim as diferentes formas de religiosidade, mas talvez uma das formas de respeitar seja trazer à luz os possíveis equívocos em suas concepções e propostas de vida que provam estar prejudicando a metade de seus membros”.
Os trabalhos realizados pela Diocese de Goiás, a partir da opção pelos pobres, caminharam buscando uma vivência não apenas espiritualista da religião, mas uma religião que levasse em conta os princípios éticos. Há uma busca de construir comunidades comprometidas com o Reino de Deus presente neste mundo, fato este que é fruto da organização política da humanidade e não apenas intervenção direta de Deus ou então dos santos.
Esta atuação da Igreja mexeu no universo religioso dos pobres, dos lavradores. Pessoa (1999, p. 161) analisando o trabalho da Diocese em relação à religião popular, critica sua forma de ação porque: “implantou um reducionismo ético em sua concepção religiosa, não levando em conta os aspectos existenciais que são o substrato determinante da forma como os sujeitos elaboram os seus conceitos de sua visão de realidade inclusiva”.
Moura (1989, p.105) analisando também sob este mesmo ângulo, demonstra que o sonho da construção da nova sociedade não passou de um sonho e que o povo se afastou das comunidades e a “causa disso tudo é mesmo desrespeito às formas simbólicas e rituais preexistentes, como festas de padroeiros, folias de reis, procissões”.
Ouvindo Dom Tomás Balduíno que foi o bispo desta Igreja e como bispo, um dos incentivadores das mudanças ocorridas, percebe-se uma visão de quem via esta situação de dentro. Em 1989, Dom Tomás Balduíno faz uma apresentação do livro de O’Gorman (1987), na qual fala sobre a relação homem–mulher no campo, e integra aí a questão religiosa e ao mesmo tempo o respeito e as exigências do Evangelho com relação à cultura do povo. Em O’Gorman (1987, p.13 e 14) assim ele expressa:
“Pois bem, este escrito vai ser a semente e o fermento que está faltando para a coisa crescer. Muitas mulheres ao lerem o que está aqui vão querer seguir por este novo rumo de libertação. E eu estou convencido que se não houver esta libertação da mulher não haverá libertação da sociedade”.
A única coisa que eu estranhava, era a discriminação da mulher feita pelo próprio lavrador oprimido e da caminhada. Parecia que para muitos maridos a libertação terminava na porta da casa e não era para suas mulheres”.
É claro que o pensamento, as idéias do bispo nem sempre são as idéias e a prática da Diocese, porque embora o bispo seja o responsável pela mesma, não é ele que realiza o trabalho na base. A Diocese é composta de 23 municípios e embora a orientação seja uma só, a atuação em cada um desses municípios é diferenciada devido a mentalidades diferentes dos agentes de pastoral ou mesmo dos coordenadores de comunidades. Percebe-se, no arquivo diocesano e no imenso arquivo vivo, desde bispo, padres, religiosos e leigos em geral, que houve conflitos, tensões e até mesmo violência. Violência física (expulsão de padres, atentados, agressões) contra agentes de pastoral e violência simbólica (no exagero da politização do universo religioso). Por outro lado se percebe uma busca comum para adaptação, de um lado, o respeito e o estudo da cultura do povo, e por outro a disposição de dar passos e adaptar-se às “novas” exigências da vida cristã. Luiz Ório18 ( anexo 11) falando sobre este diálogo da Diocese com a religião e a cultura do povo diz que considera:
“extremamente positiva a relação entre a Diocese e a religião do povo, que foi percebendo que Deus está do lado do pobre, que as desigualdades devem desaparecer, que a fome e a miséria, são frutos da falta de partilha e da exploração e que o reino de Deus se constrói aqui”.
Existem desigualdades que foram se estabelecendo e com o passar do tempo foram consideradas normais e fazendo parte da cultura do povo. Esses aspectos culturais
18 Luís Ório é agente de pastoral e atua na CPT, Regional Centro-Oeste. Reside em Itaberaí e já atuou como
passaram a ser questionados pelo trabalho de evangelização da Diocese. Na medida em que o povo foi lendo a Bíblia e percebendo as injustiças que se cometiam. Na realidade rural, essas injustiças atingiam e muito a mulher. A exploração e a marginalização vão formando uma corrente de tal forma que mesmo os explorados têm seus subalternos aos quais eles exploram e oprimem. As mulheres são as mais oprimidas entre os oprimidos.
Scott (1996, p. 13) analisando as relações sociais a partir de gênero conclui que:
“o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais, eles/elas avançam no sentido da compreensão da natureza recíproca do gênero e da sociedade, e das
maneiras particulares, situadas em contextos específicos, como a política constrói o gênero e o gênero constrói a política”.
A exploração e dominação das mulheres na zona rural se manifestam de muitas maneiras e por vezes de forma muito simples na vida cotidiana como o demonstra Luiz Ório (anexo 11): “presenciei inúmeros casos de a mulher servir o prato do marido, o que para mim é um gesto de dominação dele, e outros trabalhos inferiores que a mulher é obrigada a fazer”. Esta atitude revela uma questão de poder, de desigualdade, de senhorio. Scott (1996, p. 12) constata que “o gênero é um campo primeiro no seio do qual ou por meio do qual o poder é articulado”.
Saffioti (1992, p.207-208) diz que o problema mais sério é quando a ideologia dominante consegue penetrar na ideologia dominada, quer dizer o dominado(a) assume como verdadeira, como sua a ideologia do dominador. Na medida em que o dominado(a) vai se dando conta disto, vai percebendo as coisas desde o seu ângulo de dominado(a) as mulheres vão se libertando do machismo, assim como os operários vão deixando de ter espírito de patrão e os negros vão deixando de pensar como brancos.
Por outro lado também, pensando no caso das mulheres e aqui mulheres da roça, elas vão percebendo que nem todo o poder está na mão do marido, que elas detêm uma parcela de poder e que através desta parcela poderão ir conquistando sempre mais espaços e mais poder e assim equilibrando a situação. Saffioti (1992, p.184), estudando esta questão, constata que: “Em todas as sociedades conhecidas, as mulheres detêm parcelas de poder, que lhes permite meter cunhas na supremacia masculina e, assim, cavar-gerar espaços nos interstícios da falocracia”.
Nos relatórios de Assembléias, coordenações diocesanas e demais encontros pastorais não aparece explicitamente a preocupação com a questão de gênero, com a
dominação do homem sobre a mulher. Entretanto, percebe-se que produziu frutos nesta direção porque na medida que seu trabalho ia numa perspectiva de conscientização dos oprimidos, a mulher foi tomando consciência deste tipo de opressão, e por outro lado os agentes comprometidos com novo modo de ser Igreja iam abrindo espaços porque tomavam consciência do problema ou então porque eram forçados a isso pela pressão das mulheres que eram já a grande maioria assumindo os trabalhos pastorais e especialmente as coordenações das comunidades. Conforme O’Gorman (1987, p.14) Dom Tomás Balduíno descreve uma situação de Diocese em que as mulheres começam a se libertar também das opressões na família:
“A coisa foi tão chocante para alguns maridos que deu discussão, briga e até separação. Foi mais curioso o fato de ter havido separação do casal, sendo que o marido estava na luta do sindicato e a mulher, na caminhada, fazendo oposição sindical. Bem disse Jesus que o Evangelho iria trazer divisão” (Lc. 12,51-52).
E mais adiante Dom Tomás Balduíno continua “É preciso que outras mulheres e homens também vejam a grande força que vocês são, força que estava abafada e aprisionada e que agora, por vocês mesmas, vai sendo liberada”. Aos poucos a mulher vai percebendo que a sociedade burguesa a usava como objeto e é usada e explorada como instrumento de produção e reprodução. Marx (1983, p. 35) alerta para o perigo das idéias burguesas contaminarem o ideal socialista:
“Para o burguês, sua mulher nada mais é do que um instrumento de produção. Ouvindo dizer que os instrumentos de produção serão explorados em comum, conclui naturalmente que haverá comunidade de mulheres. Não imagina que se trata precisamente de arrancar a mulher de seu papel atual de simples instrumento de produção”.
A participação das mulheres nos Grupos do Evangelho, que aos poucos foram se transformando em CEBs sempre foi muito grande, tanto nas cidades como na zona rural. Elas estão presentes na catequese, na coordenação da comunidade, na liturgia e enfim nos mais diversos ministérios da comunidade. Essa realidade delineia as CEBs com um rosto muito feminino. Na zona rural este rosto feminino é ainda mais característico e isto se explica essencialmente por dois motivos: primeiro porque a escolaridade das filhas mulheres é mais elevada, os meninos abandonam mais facilmente a escola para trabalhar e o segundo motivo,
ligado ao primeiro é que os homens, em grande número saem de suas comunidades em busca de trabalho, nas redondezas ou então na grande cidade. Por isso, aqui cabe um questionamento: as mulheres são as protagonistas desta história da Diocese ou são também instrumentos de produção para as CEBs?
As mulheres têm conquistado mais espaços, mas mesmo estas conquistas, por vezes, são contestadas assim como o faz Bidegain de Urán (1984, p. 61) porque:
“estas deveriam raciocinar como um homem, apresentar-se com a mesma agressividade de vocabulário dos homens e viver a espiritualidade como os homens, em última instância, masculinizar-se, fazendo a história como a tinham feito os homens ou então agir como seres assexuados”.