Représentations du modèle
4.2 Représentation multirésolution explicite
No palco das artes cênicas, as experiências artísticas também foram bastante significativas, principalmente na dança e no teatro. Houve um grande avanço, especialmente na dança com a criação da Funarte, em 1975, que passou a fomentar atividades artísticas no país. As universidades públicas, palco do surgimento de grande parte da produção artística da época, não foram esquecidas pela instituição acima. Era nelas que se geravam os principais espetáculos do momento, como confirma Aquino (2005, p. 100):
(...) naquela década, a dança se firmou profissionalmente por meio da criação de grupos estáveis e independentes e se configurou como grau de liberdade do sistema, driblando a censura, experimentando o novo e falando daquilo que os anseios populares desejavam. Falando de coisas que a maioria queria ouvir mas que poucos ousavam dizer.
Para a criação de companhias de dança, concorreu uma preocupação com a formação de profissionais. Teve um papel importante o professor e coreógrafo Ismael Guiser, que reuniu profissionais, organizou apresentações e conseguiu cachês para os participantes, ao mesmo tempo em que ensinava o que é ser profissional. Surgiram desse empenho o Balé Stagium e o Corpo de Baile do Teatro Municipal de São Paulo (hoje Balé da Cidade).
Aconteceram importantes eventos de dança na segunda metade da década de 70, com destaque para os festivais universitários, a exemplo da Oficina de Dança e do Festival de Inverno de Ouro Preto – realizados pela Universidade Federal da Bahia, UFBA, e pela Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG respectivamente.
E o surgimento de diversos grupos: Grupo de Teatro do Movimento (RJ), Grupo Experimental de Dança da UFBA, Grupo Coringa (RJ), Grupo Pitu (DF) e Grupo Andança (SP).
Para o teatro, a década de 70 foi o um dos períodos mais repressivos. Maciel (2005, p. 105) relata:
O plano da cultura, naqueles anos, se caracterizou pela presença absoluta de censura. Tudo era censurado – jornais, livros, filmes, mas principalmente peças de teatro. O crítico José Arrabal declara, em seu ensaio sobre o teatro brasileiro nos anos 70: “Nunca, em toda a história de nossa formação social, foram proibidos tantos textos dramáticos e tantos espetáculos de teatro”.
Pois é: a principal mania dos censores da época era censurar teatro. O número de peças que, no Brasil, foram cortadas, mutiladas e simplesmente proibidas parece incalculável.
Para burlar a censura, os artistas chegavam a realizar apresentações clandestinas altas horas da noite, numa autêntica manifestação de protesto. Outra forma era o uso de peças históricas para discutir a sociedade brasileira de então.
Grosso modo, de acordo com Maciel (p. 106), pode-se dizer que no Brasil floresciam três tipos de teatro: um primeiro convencional, marcadamente comercial, que passou a ser chamado de “teatrão”; o segundo, um teatro com preocupações sociais e políticas – destaque para dois grupos de São Paulo: o Teatro de Arena e o Teatro de Oficina; o terceiro, uma alternativa de vanguarda que rompia com os pressupostos realistas e representativos das outras duas direções em favor de uma teatralista, apresentativa.
Das três orientações, a que tinha mais liberdade da censura era o teatro de vanguarda, talvez até pela estrutura da peça, de difícil compreensão. A que mais sofria repressão da censura era a segunda. Essa geração, então passou a se dedicar mais à pesquisa da linguagem do espetáculo, sob a influência de Bertold Brecht. Gianfrancesco Guarnieri, em Ventura (2000, p. 78), assim desabafava, em 1973, sobre o fazer teatro da época:
Todas as peças correm o risco de sair de cartaz por causa da censura, mesmo depois de aprovadas. Não adianta nada aquele certificado, com um tempo determinado de duração, porque não é verdade. A qualquer momento, qualquer peça, qualquer filme, qualquer novela, pode ser retirada de cartaz e a censura pode pedir uma reverificação. No [Um] Grito [parado
no ar] a censura fez alguns cortes que absolutamente não prejudicaram a
peça. Foram mais palavras. Pelo contrário: a censura tem ido diariamente ver o espetáculo e eu sei que eles gostam. Mas eu acho que é melhor ir ver logo...
O cinema vai ter pouca representatividade nessa época, já que não se podia abordar qualquer temática, devido a censura. Quando isso acontecia, corria-se o risco de acontecer o que se deu com São Bernardo, de Leon Hirszman. Pronto em 1972, só foi lançado dois anos depois porque a censura queria cortar dez minutos do filme e seu diretor não concordava, fato que levou a Saga Filmes – distribuidora – à falência.
O cinema dos anos 70 se contrapôs à politização revolucionária do cinema brasileiro da década de 60. Brandão e Duarte (1990, p. 87-88) discorrem sobre esse novo cinema:
Esse “cinema de invenção” procurou revolucionar toda a linguagem bem- comportada do cinema nacional através de um discurso fragmentado e caótico. Para isso incorporou elementos de “mau gosto” (kitsch) e “absurdos”, lançando mão de uma nova estética que procurava traçar um caminho alternativo para o cinema, diante de um complexo quadro político- cultural marcado pelo fechamento político dos canais de expressão, através da censura, e pelo reflexo retardado dos movimentos contraculturais do final dos anos 60.
Mas, de acordo com Bahiana (2006, p. 319), foi a pornochanchada, que atingiu seu pico nos últimos anos 70 e representava em 1978, 85% do faturamento, o gênero por excelência do cinema brasileiro da década de 1970. Era chamado assim por trazer alguns elementos dos filmes do gênero conhecido como chanchada e pela dose alta de erotismo que, em uma época de censura no Brasil, fazia com que fosse comparado ao gênero pornô, embora não houvesse, de fato, cenas de sexo explícito nos filmes. O filme A ilha do desejo, de Carlo Mossy (diretor) e David Cardoso (produtor) suplantou a bilheteria de O poderoso chefão, em muitos cinemas. São diversos títulos desse gênero: Um soutien para papai (1975), Com as calças na mão (1975), Amadas e violentadas (1975), As massagistas profissionais (1976), 19 mulheres e um homem (1977), O bem dotado homem de Itu (1977), Bonitas e gostosas (1978), As 1001 posições do amor (1979).
Em agosto de 1973, Zuenir Ventura (2000, p. 60-61) assim desabafava sobre o cinema brasileiro:
Dos 25 maiores sucessos de bilheterias dos últimos cinco anos – segundo lista do Instituto Nacional do Cinema –, oito são comédias eróticas e, um, melodrama erótico. Dos dezenove restantes, onze são êxitos devido a ídolos populares como Roberto Carlos, Teixerinha e Mazzaroppi. Na lista estão três filmes de Roberto Carlos ocupando o segundo, o quarto e o quinto lugares; dois do Teixerinha e um de José Mendes, Pára, Pedro; e nada menos que cinco de Mazzaroppi. Dos cinco filmes que sobram, um é uma superprodução histórica, Independência ou morte, o outro é um
musical de época, A moreninha, o terceiro, também censura livre, é Meu pé
de laranja-lima, e apenas dois solitários representantes de uma posição de
abertura para o conhecimento do Brasil e do mundo: Macunaíma e Como
era gostoso o meu francês. A lista, portanto, compreende nove filmes
eróticos de baixo nível e mais onze filmes cujo sucesso é baseado apenas na presença carismática de um cantor ou ator.