Ao se falar sobre a evolução da linguagem, faz-se, na maioria das vezes, uma comparação direta com a linguagem humana, ressaltando sua complexidade (Janik, 2013). Outros animais já mostraram capacidades de aprendizagem vocal e, com ela, transmissão
desses aprendizados culturalmente, tais como aves da ordem Psittaciformes, primatas não humanos, elefantes e mamíferos aquáticos (Deecke et al, 2000, Krutzen et al, 2005, Tyack, 2008, Stoeger & Manger, 2014, Richards et al, 1984, Foote et al, 2006)
Muitos estudos têm sido feitos para demonstrar o aprendizado vocal, entretanto eles não mostram definições sobre o que constitui o aprendizado vocal e como ele pode ser classificado (Janik & Slater, 2000). Segundo Janik & Slater (2000) tal comportamento vocal possui três passos: produção, compreensão e uso do que se aprendeu.
Janik & Slater (2000) alegam que o sistema respiratório (permite a passagem de ar, sob pressão) pode mudar alguns parâmetros do som, tais como a duração e a amplitude, uma vez que este sistema altera o estado respiratório dos músculos. Já o sistema de fonação (aparatos que produzem o som) modifica parâmetros como a frequência absoluta e a modulação, pois pode mudar o estado da estrutura que produz o som (seringe ou laringe). O sistema de filtro (todas as estruturas de filtro ou ressonância entre o órgão de fonação e o ambiente externo) pode alterar, por exemplo, a distribuição da energia relativa, uma vez que pode modificar o estado das estruturas de filtro.
Em contextos que envolvem a aprendizagem vocal, o indivíduo aprende como associar um sinal que já existe com novos contextos de sua realidade social, o que pode interferir e modificar quando o sinal é usado ou o seu significado que é carregado para o receptor e, consequentemente, a interpretação deste último (Janik, 2014). Desse modo, este comportamento de aprendizagem pode ser feito aprendendo com um modelo externo ou improvisando um som qualquer (Nottebohm & Liu, 2010), que pode ser uma mistura de modelos externos com o próprio canto do indivíduo.
Podem ocorrer outros tipos de aprendizagem vocal, tais como o uso da aprendizagem, no qual o emissor aprende a usar seus sinais de vocalização somente em contextos específicos,
e a aprendizagem por compreensão, em que o receptor aprende a alterar sua resposta de acordo com a vocalização do emissor (Nowicki & Searcy, 2014).
Dentre as aves, a ordem Psittaciformes representa um importante grupo com evidências de aprendizado vocal, na qual indivíduos aprendem desde o nascimento a ouvir cantos e formar a memória desses traços de cantos (Tyack, 2008). Outros animais mostrarm capacidade de aprendizado vocal, vistos em mamíferos como elefantes, mamíferos aquáticos e primatas não humanos, por exemplo (Stoeger & Manger, 2014, Richards et al, 1984, Foote et al, 2006, Krutzen et al, 2005).
Desse modo, a aprendizagem social pode ser vista como uma ferramenta importante para os indivíduos, uma vez que pode afetar escolhas de parceiros, forrageio, reconhecimento de predadores e manuseio de intrumentos.
A transmissão cultural pode ser entendida como o aprendizado social de comportamentos ou informações com coespecíficos e já foi reportada em vários animais, como primatas, cetáceos e aves (Garland et al, 2011, Deecke et al, 2000). Para um traço comportamental ser considerado como culturalmente transmitido ele deve ser adquirido em contextos de aprendizagem social, a partir de coespecíficos, transmitindo-o de maneira constante para as próximas gerações (Boyd & Richerson, 1996). Tal comportamento pode ser propagado de pais para filhos (transmissão vertical), de gerações passadas para mais jovens (transmissão oblíqua) ou entre indivíduos de idades ou gerações semelhantes (transmissão horizontal) (Garland et al, 2011).
Em populações que vivem em sociedades, comportamentos individuais variam culturalmente e podem ser transmitidos de geração para geração (Krutzen et al, 2005) e, quando se torna estável, pode inclusive modificar a evolução biológica de espécies (Rendell & Whitehead, 2001).
Os cetáceos (grupo de mamíferos aquáticos que envolvem odontocetos e misticetos) são vistos como seres com capacidades cognitivas avançadas e complexas em sua comunicação (Janik, 2013), o que despertou interesse de pesquisadores para a elaboração de estudos comparativos a respeito da evolução da comunicação complexa nesses animais (Janik, 2014).
Em mamíferos aquáticos, a variação cultural pode ser uma das responsáveis da variação acústica, visto que os pinípedes (CARNIVORA: PINNIPEDIA) e cetáceos estão dentre os poucos grupos de mamíferos nas quais a imitação e o aprendizado social foram documentados (Ford, 2008). Isso pode significar que a transmissão de padrões vocais através de gerações pode depender mais de mecanismos culturais do que genéticos (Ford, 2008). A variedade de maneiras que a aprendizagem social pode influenciar a comunicação vocal, mostra que é necessária uma revisão das teorias sobre o assunto, que possa esclarecer e melhor definir os tipos de variação nos comportamentos acústicos animais, para poder comparar espécies e entender a influência dos possíveis fatores na ocorrência de aprendizagem na comunicação animal (Janik & Slater, 2000).
Já foi verificado em baleias com dentes, tais como belugas (Delphinapterus leucas) e orcas (Orcinus orca), que o aprendizado vocal e outros aspectos da capacidade cognitiva desses animais são causados pelo comportamento social e as necessidades de se manter em uma sociedade grande, com muitas relações sociais sendo mantidas dentro dos grupos (Janik, 2014). Desse modo, aspectos da comunicação sonora seriam mantidos para reafirmar a coesão espacial do grupo e negociar relações sociais, uma vez que há muitos ruídos no ambiente acústico marinho e, para ultrapassar esse obstáculo, esses animais usariam modificações como modulação de frequência, por exemplo (Janik, 2014).
As baleias orcas (Orcinus orca) vivem em geral em grupos estáveis de ordem matriarcal e podem emitir vocalizações chamadas cliks, pulsos de ecolocalização, assobios tonais e chamados pulsados (Deecke et al, 2000). Dentre esses animais, pode-se observar repertórios
vocais únicos entre grupos, os quais são considerados dialetos vocais (Deecke et al, 2000). Estes últimos são considerados muito estáveis entre os grupos de orcas, uma vez que Ford (1989) não identificou nenhuma diferença em certos chamados usados por alguns grupos em 30 anos de estudo e observação. Desse modo, o dialeto poderia funcionar como um facilitador da comunicação do grupo, uma vez que os indivíduos que o usam seriam rapidamente identificados como pertencentes da mesma ordem matriarcal de indivíduos, além de reduzir o efeito de mascaramento por outros sons provindos de outras linhas matriarcais ou outras fontes sonoras.
Machos de baleias-da-Groelândia (Balaena mysticetus) e de baleias jubarte (Megaptera novaeangliae) produzem cantos na estação de reprodução que mudam a cada ano e todos os indivíduos aprendem e vocalizam tal canto da mesma forma (Rendell & Whitehead, 2001). Além disso já foi identificada transmissão cultural horizontal nas baleias-da-Groelândia, as quais imitaram cantos de co-específicos, mostrando que a homogeneidade de vocalizações também é mantida pela transmissão e aprendizado cultural (Rendell & Whitehead, 2001).
Em espécies de golfinhos a evidência de aprendizagem vocal social está nos sons chamados assobios assinatura. A partir das observações de Caldwell & Caldwell (1965), verificou-se que cada golfinho da espécie Tursiops truncatus emitia assobios com cotornos distintos e únicos, que variam de acordo com os indivíduos, denominados assobios assinatura. De acordo com alguns autores esse som está relacionado com o reconhecimento de indivíduos no grupo e pode servir como chamado de contato entre eles (McCowan et al, 1998, Tyack, 2000, Kuczaj et al, 2012). Em geral os filhotes aprendem com suas mães, através da aprendizagem social e utilizam esse som para manter contato uns com os outros.
5. Discussão