Ao longo deste trabalho experimental uma série de dificuldades inerentes ao processo de adaptar uma obra de literatura para um roteiro cinematográfico foram surgindo. Muitos destes problemas são devidos a dificuldade de qualquer iniciante, que se depara com um problema e por algum momento fica sem saber como seguir o curso da estória. No entanto, outros são do próprio original, que por se tratar de um romance literário permite fugas e erros de seqüência dramática que passam, em alguns casos, tranqüilamente até, em um texto, mas não passam em um roteiro e precisam ser solucionados. Algumas dessas questões, que não foram poucas, serão ilustradas nesta seção.
No livro Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (SOARES,2005), em alguns momentos da estória, o jornal O Paíz aparece estampado revelando fatos importantes ao desenvolvimento da trama. Entretanto, estampar uma página de jornal na tela para que o expectador encontre e leia a informação não parecia um opção agradável. Por isso, sabendo que em 1924 poucos eram os letrados no Rio de Janeiro, adaptou-se a situação para que um garçom, mais instruído um pouco, Bodoque, lesse para seus companheiros de trabalho o jornal, revelando assim as informações que se desejava passar. Por exemplo, cena 95.
Ainda no livro há uma seqüência da narrativa em que o comissário Machado Machado presta contas de sua investigação ao general Floresta, na delegacia, enquanto que um suspeito, Heroíldo Capanema, aguarda numa salinha para ser interrogado em seguida. Na conversa, Floresta reclama ao comissário da atitude do legista Penna-Monteiro, brigando e se perguntando onde ele estava, que não lhe dava nenhuma satisfação. Essa situação se inicia na página 115 do livro e correspondem as cenas 47 e 48 do roteiro. O problema é que na seqüência, Machado sai da conversa com Floresta e vai interrogar o tal suspeito, só que, deste interrogatório Penna-Monteiro participa. Oras, se Penna-Monteiro não estava na delegacia na hora da cobrança do general, como poderia estar na salinha de interrogatório, que é a situação que se passa logo em seguida? Algo está errado. Ou interrogatório não podia ser no mesmo dia ou Penna-Monteiro não podia estar lá. A solução encontrada foi retirar totalmente Penna- Monteiro do interrogatório. Todas as suas perguntas relevantes ao suspeito no original, foram transferidas de alguma forma ao comissário Machado Machado.
Outra decisão foi retirar do roteiro uma luta de esgrimas entre Max Muchenot e Machado Machado. No livro, esse momento se encontra nas páginas 126 a 131. Como essa luta dizia muito pouco à estória, optou-se por retirá-la dentro da regra de escrever roteiro que diz para excluir cenas que não produzem sensação de avanço. Entretanto, uma série de mudanças precisaram ser feitas para retirar essa seqüência. No livro, a luta de esgrimas foi marcada na conversa em que Machado Machado teve com Max Muchenot no cassino do Copacabana Palace. Quando se decidiu por excluí-la foi necessário reescrever a cena que originara o encontro, de modo que o assunto esgrima não aparecesse e de modo que as características da conversa não desaparecessem, pois assim se fazia necessário, já que Max Muchenot deveria permanecer ao menos
por um tempo como suspeito para efeito dramático. E as poucas informações relevantes ditas na conversa entre os dois personagens na luta de esgrimas, foram adaptadas e descobertas de outras formas, espalhadas no roteiro.
De certa forma, em contra-posição à regra de se escrever roteiros citada no parágrafo anterior, algumas cenas que não continham diálogos nem produziam sensação de avanço na estória precisaram ser acrescentadas ao longo do roteiro. Em primeiro tratamento elas não existiam, mas por se tratar de gênero policial, em que há muitos diálogos que transmitem muitas informações na busca do assassino, achou-se por bem pincelar a estória com cenas sem diálogos que permitam ao espectador tempo para raciocinar e juntar as informações. Isso foi um erro gravíssimo cometido em primeiro momento. Não havia tempo para respirar. Posteriormente, algumas coisas foram acrescentadas com intuito de corrigir a deficiência. Um exemplo é a cena 14, em que o Legista Penna-Monteiro segura o coração de um acadêmico no Instituto Médico Legal. Outro exemplo é a cena 54, também no IML, logo após a morte de Lauriano Lamaison. Esta tinha uma série de diálogos no original que foram poupados para dar descanso ao espectador. A cena 56 é mais uma criada com o mesmo intuito, apenas um passeio de bonde, entre outras. O importante era dar pausas à narrativa.
Outro caso interessante, que vale ser ressaltado, ocorreu com as cenas 42, 43 e 44. Nesta seqüência, Padre Ignácio de Villaforte sai da Alfaiataria Dedal de Ouro e na cena seguinte Machado chega à Alfaiataria. Por não estar usando ao longo do roteiro este tipo de corte, ou seja, de um local A para o mesmo local A com algum tempo de passagem entre os dois, houve uma certa estranheza na interpretação da seqüência. Com objetivo de solucionar tal problema criou-se a cena 43 para a transição, uma cena que é apenas um lento plano detalhe do bilhete deixado por padre Ignácio de Villaforte
ao alfaiate Camilo Rapozo. Algo similar, ocorreu na seqüência em que Machado está na limusine com Manuela Pontes-Craveiro e em seguida está na Academia Brasileira de Letras sendo recebido por Leonardo Feijó. Em primeiro tratamento, esse corte ficou muito estranho, por isso criou-se a cena 38, que, sem diálogos, faz a transição que faltava.