• Aucun résultat trouvé

TOUTE AUTRE REPONSE

DEMANDEZ A TOUS

2 TOUTE AUTRE REPONSE

Nascida Angélica González, no ano da graça de 1966, na terra de Salvador Dalí (Figueres – Espanha), Angélica Liddell é formada em Estudos de Psicologia e Arte Dramática. Em 1988 começou a trabalhar nas Artes da Cena como dramaturga. Em 1993, funda a companhia  Atra Bilis Teatro, com  Gumersindo Puche (também diretor da Cia., produtor e ator). O nome do grupo faz alusão à bílis negra, substância do corpo humano que, segundo a medicina antiga, era o elemento causador da melancolia e da hipocondria. A criação da companhia é um divisor de águas em seu trabalho, uma vez que, a partir deste ponto, Angélica passa a colocar seus próprios textos em cena. Acumulando as funções de encenadora, cenógrafa e atriz, o trabalho dessa multiartista transita pela prosa, poesia, performance, instalação, tudo de um modo estreitamente relacionado à sua produção teatral.

Versando especialmente sobre a decadência da instituição familiar, o lado obscuro do  ser humano, a  morte e o  sexo, ao mesmo tempo que adota como linguagem um pungente Expressionismo, a construção de metáforas físicas para o conceito de pureza e a procura por significados revelados através da dor e da subversão, a atriz, poetisa, escritora, encenadora e dramaturga espanhola busca atingir com o seu trabalho dimensões sublimes do espírito humano, ao mesmo tempo que realiza uma contundente crítica social. Tal como Pina Boush ou Bob Wilson, o trabalho de Angélica Liddell tem uma assinatura bastante marcada, sua obra é constituída, essencialmente, a partir de suas memórias e da saturação em tons de realismo fantástico dos seus conteúdos particulares, o que torna o seu trabalho radicalmente autoral e, por consequência, facilmente identificável.

Conhecida e reconhecida por espetáculos como Frankenstein, El Año de Ricardo, You

are my Destiny e O Matrimónio Palavrakis (este montado em Porto Alegre, por Maurício

Casiraghi), sua mais recente criação é a terceira parte da Trilogía del Infinito. Liddell acumula prêmios importantes ao redor do mundo, como, por exemplo: O Prêmio

Dramaturgia Inovadora Casa América, 2013, por Nubila Wahlheim; o Prêmio Nacional de Literatura Dramática na Espanha, 2012, e o Prêmio Sebatiá Gasch de Artes Parateatrales, 2011,

por La casa de la fuerza; o Prêmio Notodo del Público ao Melhor Espetáculo, 2007, por Perro

Ricardo; Accésit del Premio Lope de Vega, 2007, por Belgrado; o Prêmio SGAE de Teatro, 2004,

por  Mi relación con la comida;  o Prêmio Ojo Crítico Segundo Milenio, 2005, em reconhecimento pelo seu percurso, e recebeu o Leão de Prata da Bienal de Teatro de Veneza, 2013, “pela sua capacidade de transformar a sua poesia num texto que agita o mundo”.

Seus textos foram traduzidos para francês, inglês, russo, alemão, português e polonês, e tem apresentado o seu trabalho nos maiores festivais e teatros do mundo, como Festival d’Avignon, Festival de Otoño de Madrid, Festival d’Automne à Paris, Bienal de

Teatro de Veneza, La Laboral Centro de Arte, Théâtre National de Bretagne, Schaubuhne Berlin, Festival de Tokyo, entre outros.

Descrita por muitos críticos como soturnas, niilistas e densas, as encenações de Angélica Liddell são impactantes, especialmente graças ao modo visceral como a diretora garante forma física aos seus objetos de interesse ante a condição humana (a dor, o sofrimento, o antigo e a nostalgia da beleza, que se transforma em melancolia frente ao mundo, e na bílis negra de rancor e inveja, como caminho para se aprofundar no tocante aos desígnios do ser).

Um exemplo desta confluência de linhas e investigações sobre o humano é a

Trilogía del Infinito, composta por Esta Breve Tragedia De La Carne, ¿Qué haré yo con esta espada? (Aproximación a la Ley y al problema de la Belleza) e Génesis 6,6–7, a trilogia é uma

investigação complexa e crua sobre os mistérios contidos no sagrado, ante os quais é impossível sair impune. No transcorrer dos 3 espetáculos que a constituem, a criadora não está interessada em gerar entendimento ou compreensão, tampouco se preocupa com o verbo ou a forma mais apropriados para abordar a plateia. Ao contrário, aposta todas as suas fichas no uso do verbo e na força imagética das palavras para criar espaços e estabelecer relações viscerais entre as composições de cena.

Esta Breve Tragedia De La Carne é uma performance na qual a criadora espanhola

estabelece uma elipse temporal, colocando-se, a si mesma, na condição do poeta que se põe em confronto com o outro, e nesta condição, ela, Angélica Liddell, se põe diante de Emily Dickinson. Num intertexto entre realidade e ficção (visto que tanto Liddell como Dickinson são de fato poetas), o trabalho, estreado em 2015 no Festival La Bâtie, em Genebra, tem como tônica a beleza e o erotismo, que, como tudo o que é humano, é chamado a ter um fim – a morte. Para Liddell, Emily Dickinson não é nem homem nem

mulher, mas sim, “uma terra de índios, de sequestros, assassinatos e canibalismo, onde cada um é um fuzil carregado, onde o Deus da ira alimenta a ira dos filhos de Deus”. (OcioCritico.com, 2018). Segundo ela, Emily desafia o mundo racional com sua inteligência e seu confinamento, com o enigma, quebrando a lei da comunicação, indiferente à cronologia mundana. Quanto mais confinamento, mais contato com o infinito. E como não foi amada por ninguém, aceita ser amada por uma arma, é neste estado limite do eu que Angélica se coloca em confronto com ela.

¿Qué haré yo con esta espada? (Aproximación a la Ley y al problema de la Belleza) é a

segunda parte da Trilogia do Infinito, com quase cinco horas de duração e dividida em três atos. Nela, Angélica se serve de uma frase de Fernando Pessoa (Pessoa, F. Mensagem. p. 27) para o título, numa alusão aos desbravamentos e genocídios das descobertas, e novamente nos coloca em sobreposições de sentidos, pois, para ela, a espada em questão é também a palavra, é uma pergunta sobre o dizer.

A criação transforma em problema estético duas tragédias localizadas em Paris. E aproxima Issei Sagawa, universitário japonês que canibalizou uma mulher, a quem dizia amar, como ação artística, em 1981, e os ataques por terroristas ao Bataclan, em 2015, que deixou mais de uma centena de mortos (Angélica estava na cidade durante o ataque à boate). A estrutura da encenação apresenta, miticamente, a figura de Angélica e o seu niilismo profundo sobre a existência, como um catalizador de energias capaz de mover todos os eventos e guiá-los rumo à mais terrível destruição humana. No entanto, nada disso é meramente uma estratégia dramatúrgica. Liddell não é simplista em momento algum. Ela apresenta, em metáforas míticas, esta sua descrença do mundo e do indivíduo (força motriz para o desenvolvimento dos fatos) como se da energia por ela emanada fosse possível programar futuros, tal qual um Deus ou um anjo do destino. E ela nos oferece a compreensão dessa percepção, ao nos apresentar um paralelo sobre o quão horrível foi sua infância próxima a camponeses e abusadores de toda ordem. Ao alinhavar essas duas faces do horror social da contemporaneidade à uma vida terrível sublimada ao ser assumida publicamente, Liddell, enquanto sucumbe ao destino de não poder ser outra pessoa e ter outra vida, dá uma resposta poética à genealogia da moral francesa – ainda que diversa, em muito formadora da nossa.

Génesis 6,6–7, terceira parte da Trilogía del Infinito, é um trabalho inspirado no mito

haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração. E disse o Senhor: destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até o animal, até o réptil, e até a ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito.” (Gênesis 6:6,7). No espetáculo, Angélica Liddell cria uma evocação ao final dos tempos, numa combinação cênica entre erudição—provocação, sagrado—profano, escatologia—beleza. A premissa para esta obra é a de que não há salvação possível. Estamos condenados, pois “Nós esgotamos Deus. Deus está cansado de suportar tantas pessoas miseráveis”, como disse ela em entrevista à revista Bravo! Para reconquistar a beleza perdida, o espetáculo completamente desvinculado de qualquer referência do teatro comercial, busca como fator estruturante a materialização do símbolo e a volta do contato com os instintos mais primeiros. Mais uma vez, a morte, o amor, um ser supremo e o sexo são temas na obra da diretora, que quer falar da parte tóxica do homem, da humanidade, e das instituições.

Deste modo, tendo a Trilogía del Infinito como exemplo, percebemos que, ao tratar da obra de Angélica Liddell, devemos, antes, falar sobre o verbo como força propulsora de imagens e movimentos e sobre um trabalho de cena que tem por objetivo ofuscar e estremecer, numa sucessão de acontecimentos que ressignificam na contemporaneidade os rituais hipnóticos, em imagens perturbadoras do nosso cotidiano. O trabalho de Angélica vai se adensando na perspectiva de que parte do indivíduo e todos os seus desvios e percursos interiores amplia-se para o conjunto dos indivíduos, seu convívio e pactos sociais, e finalmente, ruma para o confronto entre a humanidade e o seu conflito com o Divino (interno e externo). Num não lugar, não fala, não tempo míticos em que o espírito ainda não tenha sido desvalorizado em favor de uma explicação materialista das coisas.

Documents relatifs