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Existem muitos narradores que têm preferência pelos contos maravilhosos. João Cota é um deles. Ele tem predileção pelos contos fantásticos, maravilhosos. Em seu repertório há uma forte presença dos contos folclóricos nordestinos brasileiros, que têm suas raízes ibéricas. João Cota pertence a uma geração de contadores tradicionais que conhecem seus costumes, hábitos e crenças do seu povo. Através de suas histórias constatamos o conhecimento dele do lugar onde vive até hoje: Nísia floresta.
Nísia Floresta, cidade natal do contador, é riquíssima em lagoas. Fato que a faz ser conhecida e reconhecida, abrangendo seu reconhecimento até a capital do estado, Natal. Percebemos que as histórias na sua grande maioria acontecem nos arredores das lagoas.
O Morro Grande – Um Reino Encantado é uma dessas histórias de tirar o fôlego. O maravilhoso é peça chave da trama. Desde o título que já deixa marcas de que algo misterioso acontecerá durante o enredo, pois se trata de “Um Reino Encantado”. A seguir o contador destaca a descoberta de um tesouro no momento em que estava pescando, o maravilhoso está presente no fragmento adiante, pois por alguns momentos os pescadores estavam ricos, em instantes estavam apenas contando a história da possibilidade de encontrar um tesouro:
Eu fui pescá de tarrafa mai um home chamado bimbim. Ele jogava a tarrafa e eu governava a canoa, num é? Eu sei qui quando chegou in frente o morro grandão, ele jogou a tarrafa, qui quando ele jogou a tarrafa! Cadê a tarrafa querê vim? Ele disse: “Jão! A tarrafa tá engaiada”. Eu digo: “home! Será qui foi... “cá num tem peda”. Ele foi puxando e a canoa já ia assim...digo: “coidado rapaz! Se não nós apanha água”. Ele disse: “é o peso da tarrafa”. Digo: “coidado! Coidado!” qui quando levantemo na flô d‟água: os dois aro do tacho... “Jão!Vem de lá pra cá!” “vem butá esse tacho cumigo na canoa”. E digo: “home! Home!” disse: “não”... e deve sê esse que nós peguemo hoje, e nós agora cum esse tacho chei de ouro vamo saí da misera! O tacho ia afundano cum canoa e tudo. Aí eu digo: “vira o tacho”! Vira o tacho! Se não nós vamo afunda também. Qui quando ele virou o tacho, tava chei de garrafa (Informação verbal).
Logo de entrada, o narrador afirma que é um reinado encantado. Em seguida conta um
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galo canta. O galo cantava. [...] Papai dizia: „num to ouvindo não‟. Mai eu to”. O narrador- personagem conseguia ouvir o galo cantar, contudo o pai dele não escutava nada e dizia: “ali tem um reinado encantado”. Outro fato que o narrador conta foi ter visto um cacho de banana que sumiu:
Bem, quando eu vou subindo, chego lá em cima na chã do morro, olho assim p‟ra baixo, tava uma toceira de bananeira verde, a coisa mais bonita! Olha o cacho de banana! Toda madura! (...) qui olhei po lado, cadê banana, cadê nada? Cadê banana, cadê nada? E vou lá... percuro. Cadê? (Informação verbal).
Nesse morro, escuta-se ou não se escuta. Ver ou não ver. Tudo é mistério. Real e maravilhoso vivem em zona de fronteiras.
Em entrevista, o contador de história afirmou que não sabia exatamente a quantidade de histórias no seu repertório. Confirmou apenas que sua fonte era proveniente da tradição oral e experiências vividas com amigos.
A história do Morro Grande não encontramos registrada em nenhuma obra, nem ouvi nenhum outro narrador contá-la. Não sei se foi inventada, ou vivenciada por João Cota. Só sei que não há indícios do conhecimento desta história na comunidade.
Há um espaço que sempre se repet, na casa do contador de histórias, onde conta e reconta suas histórias. Nesse dia a sessão de conto ocorreu no horário da manhã das 8:00 h às 11:00 h. Então, procuramos cumprir rigorosamente este horário para não incomodá-lo.
A sessão-conto de João Cota foi realizada em um espaço diferente dos contadores de histórias modernos. Estes têm toda uma estrutura de palco, cenário, luz, instrumentos e muitos outros acessórios que auxiliam no contar, deixando geralmente o público um pouco distante do contador. Com o contador tradicional é diferente. Há um clima de proximidade entre os espectadores e o contador. Ambos compartilham o mesmo espaço, não precisa de microfone, sistema de som, nenhum recurso moderno. O que há é voz e gesto. O que acontece naquele
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momento e que jamais será repetido é a performance. Pois nada é repetido, mesmo que seja contada a história novamente.
O público nessa sessão de conto era eu; Patrícia, sua neta; Lourdes, sua nora, e sua esposa dona Geralda, espectadora-narradora. Eu e os demais ficamos silenciosos do inicio ao fim. Observamos os familiares que assistiam. Através de seus gestos, interrogavam-se sobre a relevância daquelas histórias. Uma explicação que ao término da narração na ausência do contador foi esclarecido. O contador também questionava se aquela história serviria para alguma coisa, como se não soubesse do valor de suas histórias.
Nós ficamos próximos do contador. Eu mais perto ainda, com o gravador na mão registrando o momento. Esta permissão de registrar os encontros foi permitida tanto por João Cota, quanto pelo seu filho Paulo. Aproveitei a ocasião e argumentei a respeito da necessidade e importância do registro.
Desde o início, a voz ocupa um papel importante. Às vezes substituem à palavra ao gesto. E algumas vezes, voz e gestos simultaneamente contracenam na história. São gestos que representam palavras.
A maneira que o contador conduz a história com sua voz e gestos seduz os ouvintes. No entanto, ainda não estabelece nenhum contato com seus espectadores. Todo grande poeta, narrador, ao contar faz com que os ouvintes/espectadores construam imagens. E é exatamente isto que o contador consegue internalizar na cabeça dos que o ouvem. Nas veredas que vamos caminhando, o narrador vai nos conduzindo para lugares desconhecidos. Durante a sessão o contador interage com o público, perguntando se estamos compreendendo ou não. Sua voz sempre expressiva, ora com tom mais baixo, ora mais alto, de acordo com a situação vivida pelo personagem. Os gestos parecem acrobacia acompanhando o ritmo de sua voz, produzindo imagens com sua voz. Vejamos mais um fragmento onde o narrador utiliza-se da voz e do gesto:
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Ora! “Eu pensei qui era ouro”. Aí já dispejou aquele negoço todim dentro d‟água e tampou a garrafa e jogou na proa da canoa. Qui quando chegemo no Porto, fumo contá a estora, qui quando contamo a estora, tinha um home na rua comprano ouro véi. Aí conforme contamo a estora, o orive qui compra ouro véi tava ouvino tudim. Aí diz: “E aonde tá essa garrafa qui você dispejou?” digo: “tá lá na proa da canoa, nós dexemo lá”. Diz: “Vá lá pega”. Ele foi lá pegá e trouxe. Aí o orive pegou e dispejou um poquim daquele pó na mão dele. Diz: “Ah rapaz! Tudim aqui é ouro em pó, se você num dispeja dentro da lagoa, só essa aqui,tava sua vida ganha” (Informação verbal).
No mundo do reino encantado tudo aparece e tudo desaparece. As coisas surgem e somem. Real e fantasia se entrelaçam. O narrador é real mas, suas visões são diversas encantando o ouvinte.