Esse tópico é para discorrer sobre o culto do caboclo no terreiro aqui estudado. Mas, antes de falar do Dois de Julho propriamente, falarei do 1º de maio, quando ocorre uma reunião fechada que, sempre nesta data, relembra a passagem de uma entidade muito importante para a reconstrução do terreiro Tumbenci nos idos anos 50 do século XX. Seu nome é Caboclo Mata Virgem.
Nos relatos de mãe Zulmira e de outros membros mais antigos do terreiro, Seu Mata Virgem é uma entidade muito clamada em assuntos de saúde e de justiça. Ele é chamado de caboclo curador. Ao responder algumas perguntas sobre a não manifestação desta entidade há décadas, mãe Zulmira pontuou:
125 Veremos isso mais detidamente que eu falar sobre o corte para os inquices e orixás. 126 Anotações do diário de campo em junho de 2014.
Mata Virgem me pegou desde os meus 07 ou 08 anos. Sempre foi uma manifestação muito forte, um índio bravo... Por isso, minha mãe (Beuí) deu passagem a Seu Imbira, outro caboclo que me apanha. Mata Virgem nunca gostou de festa, só de trabalho mesmo. Ajudou a reconstruir este terreiro. Mas, depois de aborrecimentos, da nossa dificuldade de entender o que ele queria e ensinava, pois era muito rígido, deixou de baixar. Não vem mais. Como é chamado de caboclo curador e trabalhador e não festeiro, o povo daqui resolveu escolher o 1 de maio para lembrar dele e rezar como ele ensinava e gostava.127
A celebração do 1º de maio no Tumbenci talvez seja a mais ecumênica entre todas. Neste dia, na chamada casa ou cabana do caboclo, onde ficam seus assentamentos, numa área cercada, mas descoberta, todos os membros reunidos fazem uma única roda com as mãos dadas e rezam uma Prece de Cáritas, lembrando doutrinárias do espiritismo.
Um trecho da oração:
Deus, nosso Pai, que tendes Poder e Bondade, dai a força aquele que passa pela provação, dai a luz aquele que procura a verdade,
ponde no coração do homem a compaixão e a caridade. DEUS! Dai ao viajor a estrela guia,
ao aflito a consolação, ao doente o repouso. Pai! Dai ao culpado o arrependimento, ao Espírito a verdade, à criança o guia, ao órfão o pai.
Senhor! Que Vossa bondade se estenda sobre tudo que criastes. Piedade, Senhor, para aqueles que Vos não conhecem,
esperança para aqueles que sofrem.
Que a Vossa bondade permita aos Espíritos consoladores, derramarem por toda parte a paz, a esperança e a fé.128
Depois se rezam o Pai Nosso e a Ave Maria e começam a lembrar nomes de antigos filhos e filhas do Tumbenci já “desencarnados”. De feição espírita, a celebração logo ganha características de uma missa católica – onde os mais velhos começam a “orar em nome do Senhor Jesus”, pedindo a intercedência do Caboclo Mata Virgem, contra a tudo que é dor, doença, desemprego, falsidade, guerra, violência, fome, sede, solidão – bem próximo da expressão: “rezemos ao Senhor”, ditas pelos fiéis católicos nas missas.
Depois de orações de teor espírita e católico, alguns pontos de caboclo começam a ser entoados, o mais vibrante é:
127 Anotações do diário de campo (março de 2016).
128 Esta oração é distribuída, em folhas de ofício em Xerox, a todos os membros na roda que a leem
Quando ele plantou raiz Quando ele plantou raiz Na mesma hora colheu flor Rei Mata Virgem arranca toco E fura pedra
Rei Mata Virgem Ele é rei, é curador
Dois atabaques, com dois ogãs/taatas fazem a sonoridade, e outro pega o
gan129, e alguns caboclos começam a incorporar em seus filhos. O ponto
exemplificado acima é um forte chamamento de caboclo na tradição do Tumbenci, é o ponto do caboclo pai, a principal entidade ameríndia da casa de mãe Zulmira. Seu Mata Virgem é o senhor da cura do terreiro, aquele que, quando vinha em terra, ensinava as beberagens, dava o passe com ervas e fumaça de charuto, aconselhava, mexia nas energias perturbadoras que, direta ou indiretamente, em transe ou possessão (como diferencia Bastide, 2016, p. 129), fragilizava ou obsediava (para usar um termo espírita) os que ali presentes precisavam de sua ajuda.
O uso do passe é muito comum em festas e sessões de caboclo, como no espiritismo, essa ação espiritual, o passe, indica “limpeza de corpo”.
Sobre a limpeza de corpo em diálogos do espiritismo com as religiões de matrizes africanas, vejamos:
As plantas utilizadas tanto para a preparação dos remédios como para a ‘limpeza de corpo’ passam por processos e rituais que vão desde a coleta até a sua preparação e seu consumo. Já podemos adiantar que no contexto das curas espíritas a eficácia terapêutica dos vegetais é, por assim dizer, garantida pelos guias, na medida em que são estes que orientam o médium quanto a que planta deve ser usada, também em cada caso. (CANCONE; REZENDE, 2012, p. 204).
Seu Mata Virgem, portanto, era (é) um exímio curador e conhecedor das “ervas mais difíceis”, ganhando fama por entre fiéis e clientes do Unzó Tumbenci. Bem próximo de um domínio técnico em que se processaria a cura em rituais que acionam as dimensões simbólicas (LEACH, 1976) e efetivas desse tipo de medicina espiritual.
Em todos os relatos escutados, por mim, sobre ele, há um desenho de grande estima e de muita saudade. Nas palavras da ekedi Iyalandê, ekedi Iyá Coilê, makota
129 Instrumento musical feito de ferro, de origem provavelmente banto, que dá uma sonoridade
Mussengue, cota Iansimbi, cota Sinavulu e mãe Zulmira: Mata Virgem é um tronco
de sustentação, o caboclo curador e benfeitor para os humanos vivos e para as almas perdidas neste mundo.130
Ao ouvi-las falarem sobre Seu Mata Virgem, penso no quanto de simbologias espíritas compõem a sua imagética de entidade ameríndia num terreiro perfilado, liturgicamente, nisto que chamo de transnação. Que aparato complexo é esse de misturas e de grande circularidade cultural e religiosa que perfila o Unzó Tumbenci?
Para reforçar esse traço de espiritismo no terreiro em questão, trago a título de ilustração:
[...] as relações entre umbanda e espiritismo, não podemos esquecer de que a cosmologia umbandista incorpora elementos da cosmologia espírita, e não podemos deixar de considerar, na formação das religiões de matriz africana no Brasil, o sincretismo religioso interafricano e tampouco a incorporação e a ressignificação de elementos de outras realidades religiosas, especialmente a incorporação primeira de elementos cristãos pela via do catolicismo dominante ao tempo da escravidão. (CANCONE; REZENDE, 2012, p. 204).
O excerto acima traduz, privilegiadamente, o os rituais do 1º de maio no terreiro de mãe Zulmira. Seu Mata Virgem é um caboclo em trânsito na transnação que se formou ali.