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SIMULATIONS ET RÉSULTATS

3. Simulation et évaluation des performances

3.4. Renouvellement des clés

... quando não houver mais nada para desmascarar

Bertold Brecht, A decisão

Neste trabalho tentamos articular a diferença entre o cinismo grego - kynikoi e o cinismo moderno. Assim verificamos que não só na Antiguidade, mas na modernidade há um vasto e interessante campo para análise do cinismo. No entanto o cinismo de acepção grega ou os kynikoi diferencia-se do cinismo de acepção moderna pelo fato de que aquele tem por base ou princípio a sua sobrecarga de moralidade, contrário deste que como já se disse é amoral, egoísta e até mesmo manipulador.

Desse modo podemos verificar também que o cinismo de acepção moderna pouco ou nada pode contribuir em nossa vida. Por isso Sloterdijk propõe o retorno ao cinismo grego, cuja resistência satírica juntamente com a insolência e gargalhadas diante dos poderosos hipócritas da Antiguidade seria a solução. No entanto entendemos também que o retorno aos modos de prática filosófica dos kynikoi seria pouco provável; da mesma forma que a eficiência e a probabilidade de as pessoas adotarem os valores e formas de vida dos kynikoi em tempos modernos ser também remota. Portanto, o que de fato pode ser aprendido com a retomada da filosofia cínica?

Aproveitando o ensejo da questão, pensamos na seguinte reflexão: o retorno à prática filosófica dos kynikoi agregaria a vida contemporânea mais senso de humor para adaptação às adversidades que a vida oferece. Mas de fato isso poderia contribuir de modo positivo para a vida do homem de hoje? Por outro lado sabemos que entender a complexidade das definições e do modo de agir do cínico moderno, aparentemente pode ter pouco a contribuir para a nossa vida, no entanto tentar reformular esse caminho nos faz ver com mais clareza e evidência aqueles que ao mesmo tempo são moralistas e também hipócritas.

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Desse modo entendemos que o estudo dessa peculiar filosofia pode ser mais importante para a nossa construção intelectual, ao contrário do que muitos já pensaram.

Para todos os efeitos o retorno ao cinismo na acepção grega como propõe Sloterdijk nos faz pensar que em alguns casos, pode mesmo ser interessante e até saudável rir das pretensões de hipócritas de tiranos; contudo não conseguimos conceber que com o riso por exemplo, poderíamos resolver os problemas do mundo.

Na definição de Sloterdijk o cinismo grego é ―amoral e bem humorado‖394 pois ele faz

de sua crítica uma espécie de potencial para que seja possível dar um novo sopro para a vida contemporânea. Observemos que o autor alemão define nesse ponto o cinismo grego como ―amoral e bem humorado‖ portanto ele propõe que a reação ao novo modo cínico de cunho moral e hipócrita seria exatamente o retorno ao seu cinismo favorito que, como já se disse é amoral e hipócrita.

Nesse sentido a proposta de retorno realizada por Sloterdijk em seu livro Crítica da razão cínica ao primeiro cinismo é por sua vez moralista.Todavia sabemos que os primeiros cínicos são amorais. Nesse sentido pensamos que não podemos ter as duas coisas ao mesmo tempo pelo fato de que o retorno proposto a uma filosofia considerada e definida como amoral é moralista e por isso, há mais uma vez um paradoxo que se torna extremamente preciso e certeiro em sua inverossimilhança aparente; pois sabemos que nesse caso, o retorno proposto por Sloterdijk se torna ao mesmo tempo, amoral e moral.

Diógenes de Sínope colocava em evidência as coisas erradas, ele fazia questão de expor o que as pessoas tinham vergonha. Por outro lado ele era um ser político no sentido que criticava tudo e todos ao seu redor com claras representações do dizer a verdade, ou melhor, de parrésia (παππηζία). No entanto Sloterdijk reconhece que o cínico grego Diógenes era um antiteórico, antidogmático e anti-acadêmico395. Ele ao mesmo tempo em que se apresentava como portador de uma política peculiar ele se portava como um animal político ―sem

394 SLOTERDIJK, 1987,p. 126.

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vergonha‖.396 O retorno à prática filosófica dos primeiros cínicos não necessariamente está

sob a condição de vestir-se ou morar em um barril para que os benefícios dessa filosofia sejam vivenciados por nós modernos. Desse modo podemos pensar que os cínicos modernos (diferente dos gregos, que faziam uso de estratégias subversivas dotadas de humor escatológico e autossuficiência (αςηάπκεια), aliadas à resistência e à adaptação às adversidades), são aqueles capazes de se apresentarem como pessoas dúplices que fazem uso de suas justificativas, como se o fim justificasse os meios.

As justificativas dos cínicos modernos são usadas para encobrirem as suas finalidades que se reduzem ao mero egoísmo.397 Este cínico por sua vez encontra-se nas variadas instâncias que compõe a sociedade. Isto é desde as instituições privadas às públicas e, por isso surge a necessidade urgente do retorno às ideias kynikoi.

Por outro lado temos o argumento da impossibilidade desse retorno embasado na hipótese de que a sociedade contemporânea não saberia lidar ou sobreviver com o individualismo e com as atitudes anti-sociais de Diógenes de Sínope. A conduta sempre será uma exceção, da mesma forma que sucedia no próprio tempo que viveu o kynikoi; isto é o kynikoi nunca será a regra, ainda sim na modernidade. Também por isso o comportamento e prática filosófica kynikoi ser uma exceção, é que podemos então entender que, de modo algum ele deve ser considerado sem valor. Entretanto admitimos também que parece plausível considerar que há uma sensação de valor ou estima para com os kynikoi. Por exemplo, admitir um pouco mais de humor em nossas vidas, da mesma forma que permitir o individualismo para aqueles que apreciam tal forma de vida parece de certo modo interessante.

No entanto apenas isso não clarifica necessariamente a forma e o modo de tornar a sociedade atual mais cínica no sentido antigo e; portanto abre espaço para a proposição (que também deve ser pensada) de que não necessariamente essa atitude poderia ser uma solução e prática correta para vida na contemporaneidade.

396 Ibdem. p. 167.

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Contudo se pensarmos o cinismo grego sob a ótica da moral e da política chegamos à ideia que para Diógenes de Sínope a política deve ser rejeitada em favor da moral. Desse modo na modernidade, o que vemos é exatamente o oposto, visto que o cínico moderno, por exemplo é capaz de separar a política da moralidade. Nesse sentido podemos pensar até que ponto o primeiro cinismo é mais vantajoso que o segundo? Se pensarmos a partir de uma perspectiva mais ampla verificaremos que ambas as formas de conceberem tanto a moral quanto a política e a relação existente entre elas fazem com que ambos os cinismos, quando pensados sob a perspectiva da moral e da política valem a pena. Ambas as formas e manifestações são baseadas na vontade do individuo e não em critérios objetivos ou socialmente determinados como verdade. No primeiro cinismo por exemplo, vale mais a atitude do que a fala. Diógenes de Sínope, por exemplo disse a alguém ―que lhe falou: ―Não sabes coisa alguma e te fazes de filósofo‖, sua resposta foi: ―Aspirar à filosofia também é filosofar‖.398

Nesse sentido podemos pensar que uma atitude moderna de um cinismo cuja desfaçatez é sua base pode ser exemplificada por exemplo pelo fato de que a tomada de posição desse cínico é o que conta; em outras palavras, se ele equivocadamente se define por uma ideologia, apenas está apoiando a vontade de outros. Afinal, no segundo cinismo, a verdade não escolhe lados, é a tomada de posição pessoal, nesse caso, que conta. Tal qual, o exemplo paradigmático do cinismo modernos, nesse caso, o romance de Conrad, Coração das trevas, o qual podemos ver que o seu protagonista Charles Marlow não escolhe os lados, o que mais o interessa é a tomada de uma posição de caráter pessoal. Nas palavras desse protagonista inserido no processo de exploração da África do século XIX podemos ler o seguinte:

Uma calamidade se abatera sobre ele, com certeza. As pessoas haviam sumido. [...] O que aconteceu com as galinhas, eu também não sei. Imagino que talvez o progresso as tenha pegado, de alguma forma. Entretanto, por conta desse caso

398 LAÊRTIOS, 2008, livro VI, §64, p.168.

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glorioso consegui minha nomeação antes mesmo de começar a ter uma real esperança...399

Nesse sentido vemos que a contemporaneidade não comporta o ascetismo e a abnegação, isso pelo simples fato de que o interesse desse nosso tempo é diferente da Antiguidade clássica. Desse modo, mesmo se adotássemos os modos dos kynikoi dificilmente iriamos levar a cabo as atitudes extremas dos mesmos.

Como já se disse temos dois lados em relação à ambivalência kynike- cínica: de um lado temos a rejeição moralista em favor de uma autodisciplina e, de outro temos a liberdade individual juntamente com a hipocrisia que está em favor de uma falsa moralidade; nesse sentido entendemos que ambos os cinismos não são capazes de estabelecer uma relação de ponderação ou um caminho moderado e honesto cuja busca primordial seriam os objetivos práticos mesmo quando subjugados à necessidade de mantenimento de um determinado Status quo.

Entretanto sabemos ser isso impossível pelo fato de que a vida humana não se limita a esse tipo de política, se fosse seria previsível e ao mesmo tempo maçante. Desse modo, podemos dizer que ambas as manifestações cínicas possuem aspectos positivos e também negativos. No entanto relacionar o primeiro cinismo–kynikoi como positivo, mesmo diante de sua amoralidade contribui para nos fazer pensar que a sociedade contemporânea é demasiadamente conformista e egoísta até mesmo pela incapacidade desses de conseguirem abraçar o ascetismo e o extremo individualismo, não o individualismo de agora que tem por base interesses próprio.

Vale dizer também que não que essas atitudes transformariam esse novo cínico em um homem de valores positivos, mas poderia fazer com que esses tipos ruins se tornassem escassos e fossem facilmente identificados. Por exemplo, no caso de uma política moralista, o cínico pode suavizar as bordas mais duras dessa gestão totalitária por ser capaz de subverter. Por outro lado, esse mesmo tipo de cinismo é capaz de permitir a exploração egoísta desse

399 Grifo meu. Cf. CONRAD, 2002, p.19.

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sistema mantendo certa distância e demonstrando com isso que se acostumou com o que presencia e, exatamente por essa razão, ele deve aprender a viver com isso.

Apesar de Diógenes de Sínope se inspirar na vida dos animais, para todos os efeitos no reino dos seres vivos, sabemos que apenas os homens são seres capazes de serem cínicos, quer do bem, quer do mal, ou melhor, kynikoi–cínico e vice versa. Se fosse o contrário a vida seria menos interessante. Isso quer dizer que o homem é especialmente o único animal que tem a possibilidade de portar o adjetivo de cínico; tanto é que o primeiro cínico apresenta-se como austero, ascético e adepto de uma vida de simplicidade, sendo ao mesmo tempo rude e carregado de princípios amorais, assim, esse kynikoi é classificado como obsceno e perturbador. Já o segundo cínico é o malandro e sobrevive melhor que o primeiro, pois esse homem não tem princípios, o que esse espécime e/ou modelo ideal de niilista persegue é o seu próprio interesse em detrimento de qualquer valor moral.

À guisa de conclusão compreender todos os tipos de cinismo e com isso tentar estabelecer as diferenças entre eles em níveis comparativos contribui sobretudo para todo e qualquer estudo que tenha a intenção de colaborar para a investigação das relações humanas.

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