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RENFORCER LES OBLIGATIONS LÉGALES DE TRAITEMENT DES

Dans le document N 4600 ASSEMBLÉE NATIONALE (Page 20-25)

A noção de experiência que nos orienta aqui, está para além daquilo que viveu o sujeito ou do que lhe acontece, tampouco se trata do que ele acumulou ao longo do tempo em sua vida. Vamos mais adiante, intencionando exceder essa compreensão, assim como o fizeram Benjamin (1994; 2012) e Bondía (2002), propondo a adoção de uma noção de experiência como aquilo que, por sua importância e intensidade, é capaz de provocar mudanças de direção, “tombar”57 e transformar o sujeito da experiência, passando a constituí-lo.

Antes de tudo, é preciso esclarecer que a tratativa de Benjamin à ideia de experiência sofre modificações ao longo de sua trajetória. A relação desse autor com esse conceito passa por diferentes fases, que se articulam com o contexto e com sua maturidade intelectual.

Lima e Baptista (2013) unem-se no esforço de mapear o desenvolvimento do conceito de experiência ao longo das obras do filósofo alemão Walter Benjamin e explicam que:

Em seus primeiros escritos, [Benjamin] considerou a experiência como um saber mascarado, opressor. Em seguida, após seus estudos da Crítica da razão pura, entendeu que o conceito kantiano de experiência era insuficiente para estruturar as diversas qualidades de experiência. Na década de 30, tempo de suas obras mais famosas, Benjamin concebeu ainda a experiência como o conhecimento tradicional, passado de geração em geração, e que vinha definhando com a modernidade. Por fim, em 1943, em um ensaio sobre Baudelaire, Walter Benjamin trouxe a experiência mais ao campo da sensibilidade, nomeando-a não mais como “experiência” (Erfahrung), mas sim como “vivência” (Erlebnis) (LIMA E BAPTISTA, 2013, p. 45. Grifo meu). É, portanto, dessas duas últimas fases, onde o conceito de experiência é tratado por ele na sua relação com o vivido e sentido pelo próprio sujeito, que vem sua contribuição para as reflexões propostas aqui. Benjamin nos ajuda a compreender a experiência, principalmente, a partir do seu oposto, ou seja, da sua ausência, da não experiência, denunciando o mundo moderno como um espaço-tempo marcado pela

“atrofia da experiência” causada, sobretudo, pela nova organização do trabalho e do modo de produção capitalista.

Inspirado por Benjamin, Bondía (2002, p. 18) define a experiência como “algo que nos passa, que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, o que acontece ou o que toca”. Esse autor adverte ainda, que “nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara”. Sua afirmação reforça a tese de que vivemos um “cenário” impróprio à experiência.

Para esses autores, o homem moderno vive um tempo marcado por condições específicas, que resultam na pobreza de experiências. Bondía (2002) elenca algumas condições características da atualidade que tornam o mundo contemporâneo um lugar onde é cada vez mais rara a experiência. Para o autor, os tempos atuais, marcados pelo excesso de informação e de opinião, pela falta de tempo e pelo excesso de trabalho, configura cenários e impõe rotinas, comportamentos e hábitos que impedem que tenhamos experiências no sentido mais profundo da palavra. Ele explica que o tempo todo procuramos informações e somos cobrados de estarmos bem informados e cada vez mais informados. A lógica da chamada “Sociedade da Informação” é a de produzir e consumir informações em uma velocidade cada vez maior, o que impossibilitaria uma relação de experiência com qualquer uma dessas informações ou saberes. Por isso, podemos saber muitas coisas, mas poucas experimentamos de fato.

Bondía também argumenta, com base na ideia de periodismo de Walter Benjamin, que a sociedade atual fabrica informações e opiniões, cobrando de nós que tenhamos opinião sobre tudo o que nos chega, ainda que essa opinião se restrinja a concordar ou discordar de algum fato. Ao opinar, o homem precisa colocar-se, posicionar-se, ter certezas e, com isso, limita-se, se enrijece e fecha-se à experiência que, por sua vez, exige do sujeito da experiência uma postura passiva, de entrega, de se deixar afetar.

O autor aponta que o excesso de trabalho e a falta de tempo também são inimigos da experiência porque, no afã de produzir e de transformar o mundo pelo trabalho, e pelo excesso de coisas que realiza e vive ao mesmo tempo, o homem estaria privado da possibilidade de viver experiências, já que essas demandam atitudes de demora, de

passividade e de entrega que não caberiam nos hábitos e na rotina do homem moderno.

O tom de crítica e denúncia adotado pelos autores ao se referirem à escassez de experiências em nosso tempo deve ser entendido à luz do que pode nos mobilizar para um movimento de ruptura e serve de alerta para a necessidade de pensarmos em práticas, também na educação e na formação docente, que rompam com aspectos meramente técnicos, cumulativos e consumistas, mas que valorizem e oportunizem aos sujeitos verdadeiras experiências.

Toda essa compreensão coloca a experiência como algo que se configura em um espaço conjuntivo entre o conhecimento e a vida humana, o que mobiliza a ideia de que nela são forjadas as subjetividades e as particularidades do sujeito ou de uma coletividade.

Benjamin também traz outra contribuição importante para essa discussão sobre a experiência ao vinculá-la, organicamente, à capacidade de comunicá-la. Para ele, a capacidade de comunicar, de narrar, é quase que “uma condição” para que uma determinada vivência seja de fato uma experiência. A partir desse entendimento, o autor traz um elemento que agrega complexidade ao conceito de experiência: a ideia de narração.

Uma vivência, algo pelo qual simplesmente eu passei, eu atravessei, ou algo que me aconteceu, ela não é nada se não puder ser transformada em alguma narrativa compartilhável e transmissível ao grupo ao qual eu pertenço. É a transmissão, é o compartilhar que transforma a vivência em experiência (BENJAMIN, 1994, p. 114).

Esse entendimento também justifica a escolha, neste estudo, de destacar as vozes dos próprios sujeitos que, ao narrarem suas experiências com a tutoria no Prolicen, nos possibilitam o acesso ao conhecimento daquilo que entrelaça essas vivências às várias esferas de suas vidas, trabalho e subjetividades e que, portanto, incidem sobre sua formação e suas identidades.

Assim, a experiência entendida a partir do que esses autores trazem, teria outro componente fundamental: a capacidade de formação ou de transformação. Bondía (2002) explica que

É experiência aquilo que 'nos passa', ou que 'nos toca', ou nos acontece, e ao nos passar nos forma e nos transforma. Somente o sujeito da experiência está, portanto, aberto à sua própria transformação (BONDIA, 2002, p. 18. Grifos do original).

Essa relação entre experiência e formação é também o foco do trabalho de Marie Christine Josso que, ao encaminhar a discussão para o campo específico da formação de professores, propõe o entrelaçamento desses conceitos ao trabalhar a ideia de Experiência Formadora.

As ideias dessa autora também compactuam com o entendimento de que a formação é um processo contínuo, vivido pelo sujeito ao longo de toda a sua trajetória, e reforça a defesa de que os estudos, a partir de narrativas e das histórias de vidas, tornam possível o conhecimento acerca dos processos de formação vividos na perspectiva do próprio aprendente.

Partindo dessa compreensão, ao longo de sua vida, o sujeito vive experiências de várias ordens, em diversos espaços-tempos e na relação com outras subjetividades que podem se configurar em experiências verdadeiramente significativas para o seu aprendizado, passando a compor seu repertório de saberes, conhecimentos, pensamentos e práticas, ou seja, por força de sua importância, essas experiências passam a ser incorporadas ao sujeito.

Essa é a ideia fundamental que a autora usa para falar do conceito de experiência

formadora como

[...] uma aprendizagem que articula, hierarquicamente: saber-fazer e conhecimentos, funcionalidade e significação, técnicas e valores num espaço-tempo que oferece a cada um a oportunidade de uma presença para si e para a situação, por meio de uma pluralidade de registros[58](JOSSO,

2004, p. 39).

Josso, acrescenta ainda que, ao rememorar e narrar sua trajetória, a fim de compreender sua própria formação, o sujeito tende a focar em suas “recordações-

58Em nota de rodapé de seu livro “Experiências de Formação”, Josso explica que usa a expressão

“registros” para se referir a eventos psicológicos, psicossociológicos, sociológicos, políticos, culturais e econômicos.

referências”, que seriam aquelas lembranças que, por sua força e significado na vida do sujeito, guardariam consigo um potencial formador.

A recordação-referência pode ser qualificada de experiência formadora, porque o que foi aprendido (saber-fazer e conhecimentos) serve, daí para a frente, quer de referência a numerosíssimas situações do gênero, quer de acontecimento existencial único e decisivo na simbólica orientadora de uma vida. (JOSSO, 2004, p. 40)

Segundo a autora, a partir da identificação das recordações-referências contidas na narrativa do sujeito, é possível, ao pesquisador, identificar as experiências formadoras. Ou seja, as lembranças narradas são em geral selecionadas pela sua importância e seu impacto sobre a vida daquele que rememora, sejam elas lembranças boas ou ruins.

Além disso, Josso ressalta que o trabalho a partir das experiências formadoras deve ser entendido em sua dupla inserção: na pesquisa e na própria formação do sujeito que, ao rememorar sua trajetória buscando interrogar-se sobre suas ações, escolhas, conhecimentos, estabelecendo lógicas e relações com sua vida, suas memórias e sua identidade, realiza um trabalho biográfico, no qual procura dar sentido aos fatos vividos. Nesse exercício, ele acaba por realimentar o seu processo formativo, ou seja, ele estaria, nesse mesmo momento, novamente em formação.

Ao falar de seus processos formativos em sua trajetória de vida, o sujeito fala de si, daquilo que ele era (remetendo-se ao passado), do que se tornou (com referência no presente) e daquilo que pretende ser (com projeção para o futuro), ou seja, ele narra e, ao mesmo tempo, constrói para si e para os outros a sua identidade. Nas palavras de Josso, “a formação descreve os processos que afetam as nossas identidades e a nossa subjetividade” (JOSSO, 2004, p. 41).

A ideia de experiência formadora de Josso, que de algum modo ecoa aquilo que há de fundamental nas ideias de Benjamin e Bondía, nos coloca frente a uma dimensão mais específica que se volta para o trabalho, para os saberes e fazeres e para os conhecimentos que passam a constituir o próprio sujeito. Ela se caracteriza por sua intensidade, de tal forma, na vida do sujeito, que passa a constituí-lo, servindo de guia para suas escolhas, comportamentos, opiniões e ações em diferentes situações posteriores a essa experiência, tomando, enfim, forma de aprendizado.

Ainda na esfera da formação de professores, talvez possamos articular essa compreensão de experiência formadora com o que Goodson (1992, p. 74) chama de

incidentes críticos, como momentos, fatos ou acontecimentos na vida dos professores,

importantes o suficiente para afetarem suas percepções e práticas profissionais. Essas transformações em suas formas de perceber seu trabalho e suas práticas vão configurando e reconfigurando seu modo de ser e estar na profissão e, portanto, definindo e redefinindo suas identidades.

No contexto das discussões que se seguiram até aqui e no bojo das contribuições de cada autor com que dialogamos, fica para nós a certeza de que os processos de formação e de constituição de identidades são indissociáveis e também contínuos, que se dão o tempo todo nas diferentes experiências a que estamos expostos, que se enriquecem a cada novo encontro, a cada nova experiência.

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