5.2. LA STRUCTURE DES DEPENSES DE PERSONNEL
5.2.1. LA REMUNERATION PRINCIPALE
Em Imagens de pensamento, Walter Benjamim enuncia a metáfora de Paris como “um grande salão de biblioteca atravessado pelo Sena”.397
Nessa imagem surge a figura do flâneur embevecido pelos espelhos d‟água, o que endossa o pensamento de Giraudoux, de que “a maior sensação de liberdade humana é flanar ao longo do curso de um rio.” Utilizo essa imagem para refletir sobre a travessia que aqui se encerra por entre veredas e restingas, nas quais cintilam os espelhos d‟água, ou melhor, os imensos labirintos de espelhos encobertos por camadas de silêncio. Nessa travessia, o caminhante, embevecido pelo reluzir das águas – que dão brilho e movimento ao chão por onde trafega, em um movimento de idas e vindas – trilha espaços que se reinventam o tempo todo.
Desse modo, a feitura labiríntica que constitui o espaço sertão enseja que se perscrutem atalhos, que se escavem pistas, que se decifrem armadilhas camufladas nos intervalos entre um espaço e outro, pois embrenhar-se nas profundezas de um território tão complexo como esse, requer que se abra fendas em um solo que se move como as águas de um rio.
Ao atentar para o campo imagético-discursivo que institui o lugar-sertão, pude observar a emergência de um espaço eivado de ambiguidades e urdido no universo das práticas culturais, políticas e sociais de sujeitos que, ao se apropriarem desse território, lhe impuseram uma feição própria. As narrativas aqui analisadas jornalísticas, literárias, e oficiais, esboçam uma cartografia em retalhos, na qual se encontra dispostas e dispersas uma diversidade de mapas (das afetividades, das configurações de poder, do espaço físico e do desejo). Esses mapas demarcam lugares de fala, leituras de mundo, mitos fundantes, espaços de experiência que valorizavam o significado das vias fluviais na configuração desse território: sertão maranhense. Tais aspectos que se tornam preciosos para a análise dos modos de produção e apropriação dos espaços a partir das práticas culturais.
Assim, dos múltiplos fios que urdem a trama que se configura o instituído sertão do Maranhão, torna-se flagrante uma situação social marcada pelo confronto e pela circulação de homens, de mulheres e de crianças, convertendo as cidades pontilhadas no mapa desse território em pontos fluidos e em lugares cheios de contrastes. Como o riacho “sem inicio nem
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fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio” criado por Deleuze e Guattari398
a liquidez desse território encontra força no fluxo dos rios, uma vez que arrastam o que encontram pela frente, margens, embarcações, vegetações, produtos, idéias, destinos, sonhos, desejos, esperanças, afogados, sobreviventes, corpos perfurados por tiros de rifle e por facas, lendas, pequenos e grandes indícios de tempo e de espaço suspensos e/ou eclipsados pela força desses territórios líquidos.
O sertão se diz de tantas maneiras e se pratica de diferentes formas, que cabe retomar a imagem do mapa rizomático para refletirmos sobre essa cenografia móvel que representa o espaço instituído como sertão do Maranhão. Conforme Deleuze e Guattari, os rizomas são constituídos tanto por linhas de segmentaridade pelas quais ele é “estratificado, territorializado, organizado, significado [...]”399
quanto por “linhas de desterritorialização pelas quais ele foge sem parar”, produzindo suas linhas de fuga.400
Dessa forma, como argumento desde o início deste trabalho o modo como entendo a metáfora sertão tentou se afastar de uma visão essencializada que procura explicar, dizer o que é, produzir totalidades, encontrar uma verdade absoluta, pelo contrário, o texto que se coloca em apreciação não quer capturar o objeto no contexto em que está inserido, mas quer estabelecer lacunas e abrir frinchas que permitam a construção de diferentes olhares e de leituras polissêmicas e que possibilitem o surgimento de encruzilhadas.
Em parte, o esforço desse escrito é elucidar como essa parte do Maranhão foi se constituindo em espaço de entroncamento para diferentes fluxos sociais, trajetórias e devires. Isso faz com que ele surja como vibrações nos quais reverberam as vozes e os silêncios de homens e mulheres inflamados pelo desejo, pela miséria, pela espera, pelo medo e pelos dispositivos de saber-poder. Portanto, é necessário que se olhe para essa espacialidade como espaço do meio, lugar de passagem, pois é “no meio da travessia” que as coisas adquirem velocidade. Para isso, torna-se nevrálgico deixar em aberto múltiplas entradas e muitas saídas, procurando não encerrar o objeto no discurso das origens e dos fins, pois mesmo que esse território seja atravessado e prefigurado por linhas de segmentaridade, sobre ele também incidem linhas de fuga que o faz ser constantemente refeito.
398DELEUZE; GUATARRI, op. cit., 1995, p.37. 399 Ibid., p.31.
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