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Dans le document Gains en capital. T4037(F) Rév. 21 (Page 15-25)

A história da vida, como a vejo, é uma série de situações estáveis, pontuadas em intervalos raros por eventos importantes que ocorrem com grande rapidez e ajudam a estabelecer a próxima era estável (GOULD, 1980 apud CASTELLS, 1999, p. 49).

A história da humanidade é marcada por momentos ímpares que provocaram, e certamente continuarão provocando, mudanças em diferentes setores da vida e áreas do conhecimento, e o homem, que é ao mesmo tempo autor e personagem dessa história, vem criando novos comportamentos sociais devido a suas criações, invenções e descobertas. Nesse contexto, a tecnologia, indubitavelmente, protagoniza boa parte dos fatos e, aliada ao fenômeno atual de globalização, permite o processamento de informações e a comunicação de forma assustadoramente mais rápida. Motivados pela mudança e pelo desconhecido, vários teóricos vêm se debruçando sobre as pesquisas voltadas para a tecnologia, seus usos, efeitos e sua relação com a educação (LÉVY, 2010, 1996, 1993; CASTELLS, 1999; KENSKI, 2010, PAIVA, 2013, 2010; LEFFA, 2002b, 1999; DOWBOR, 2011; PRETTO, 2010, PRETTO e PINTO, 2006; PRETTO e ASSIS, 2008; LOPES, 2007; COX, 2008; VIRILIO, 2001; DEMO, 2011, entre outros).

Inicialmente, acredito ser relevante apresentar ao leitor o que pode ser definido como tecnologia, tecnologias de informação e comunicação (TICs) e novas tecnologias da informação e comunicação (NTICs). Na visão de Kenski (2010, p. 24), tecnologia, em linhas gerais, pode ser definida como o “conjunto de conhecimentos e princípios científicos que se aplicam ao planejamento, à construção e à utilização de um equipamento em um determinado tipo de atividade”. Leite (2002, p.106) acrescenta que

a tecnologia é parte do acervo cultural de um povo e, como tal, se nutre das contribuições permanentes da comunidade social, em espaço, tempo e condições econômicas, políticas e sociais determinadas. A tecnologia existe como conhecimento acumulado, é produção constante e dinâmica.

Na contemporaneidade, duas categorias de tecnologias podem ser levadas em conta, conforme defende Lopes (2007). A primeira é aquela capaz de processar a informação, representada pelos computadores, e a segunda é a responsável pela propagação da informação, como, por exemplo, os sistemas de telecomunicação. Na visão da autora, nos últimos anos, está ocorrendo a fusão dessas categorias visando à disponibilização da informação de forma mais rápida e eficaz.

Quanto às TICs, Kenski (2010, p.28) entende como o “processo de produção e uso da linguagem oral, da escrita e da síntese entre som, imagem e movimento”. Enquanto no tocante ao conceito de NTICs, a autora o classifica como “variável e contextual”, considerando a dificuldade em “estabelecer o limite de tempo que devemos considerar para designar como ‘novos’ os conhecimentos, instrumentos e procedimentos que vão aparecendo” (Ibid., p.25), uma vez que os avanços tecnológicos acontecem de maneira cada vez mais rápida. As NTICs estão relacionadas, portanto, com conhecimentos que têm origem na eletrônica, na microeletrônica e nas telecomunicações, podendo ser considerados como exemplos a televisão, as redes digitais e a internet, sendo estas últimas as mais recentes. Tais tecnologias são consideradas evolutivas e têm como campo de ação e matéria-prima o virtual e a informação, respectivamente. De acordo com Lévy (2010, p. 28),

[as] ‘novas tecnologias’ recobrem na verdade a atividade multiforme de grupos humanos, um devir coletivo complexo que se cristaliza sobretudo em volta de objetos materiais, de programas de computador e de dispositivos de comunicação.

Apresentar algumas características distintas sobre as NTICs é mais interessante que fazer uma definição formal, defende Cabero (2001), rememorado por Lopes (2007), sendo que essas características são: imaterialidade, interconexão, interatividade, instantaneidade, elevados parâmetros de qualidade de imagem e som, digitalização, mais influência sobre os processos que sobre os produtos, introdução em todos os setores, criação de novas linguagens expressivas, ruptura da linearidade expressiva, potencialização da audiência segmentária e diferenciada, inovação, automatização, diversidade e capacidade de armazenamento.

Tais conceitos e características refletem as mudanças que vêm ocorrendo ao longo do tempo. Consoante Castells (1999), a partir do final do século XX passamos a vivenciar um dos raros intervalos na história, considerado por ele um evento de relevância semelhante à Revolução Industrial ocorrida no século XVIII. Para o autor, esse fato tem como característica a transformação da “cultura material”31 por dispositivos que representam um novo paradigma tecnológico, baseado na tecnologia da informação que, para ele, inclui o conjunto convergente de tecnologias – microeletrônica, computação, telecomunicações/radiodifusão, optoeletrônica, além da engenharia genética.

Essa temática torna-se uma premissa diante das mudanças que vem provocando em todas as áreas do conhecimento, principalmente diante do fato de possibilitar o grande fluxo de informação no ciberespaço32, marcado por um ritmo altamente acelerado. Segundo Lévy (2010), Roy Ascott33 caracterizou o momento em que estamos vivendo como o “segundo dilúvio”, aquele das informações, e cabe a nós nos adequarmos a ele e repassar nosso conhecimento para as futuras gerações. Para Castells (Ibid., p. 50),

o processo atual de transformação tecnológica expande-se exponencialmente em razão de sua capacidade de criar uma interface entre campos tecnológicos mediante uma linguagem digital comum na qual a informação é gerada, armazenada, recuperada, processada e transmitida.

Na visão de Dowbor (2011), essa revolução que estamos vivenciando possui uma base técnica bem simples, sendo possível destacar cinco pontos principais: 1) o código binário34 como ponto de partida, permitindo expressar, mediante a variação, todo o universo de conhecimento; 2) a base do conhecimento que era material tornou-se um “fluido” de flexibilidade sem limites; 3) a organização da “navegação” nesse fluido informativo; 4) a organização da busca de informações; e 5) a convergência de instrumentos de geração, transmissão e recepção de informação. Para esse autor (Ibid., p. 23), “o acervo de conhecimento de toda a humanidade é transformado num gigantesco sistema de vasos comunicantes, onde todos podem ter acesso a tudo” através da internet35, a qual possibilita a

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Para Castells (1999), trata-se de conceito semelhante ao de tecnologia.

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Lévy (2010) também denomina o conceito como rede. Para o autor, trata-se de um novo meio de comunicação, contudo não especifica apenas a infraestrutura material da comunicação, mas o todo de informações que nele se encontra, bem como os seres humanos que nele navegam e se alimentam.

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Um dos pioneiros e principais teóricos da arte em rede (LÉVY, 2010).

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Se uma mensagem ou informação pode ser explicitada ou medida, ela também pode ser traduzida digitalmente, ou seja, ela pode ser traduzida em números. Desta forma, todas as informações podem ser representadas pelo código binário, sob a forma de 0 e 1 (LÉVY, 2010).

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Idealizada na década de 1960, um esquema audacioso deu origem à internet. Proposto pelos agentes tecnológicos da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos

comunicação de qualquer pessoa “a partir de qualquer ponto, com qualquer outro usuário do planeta”, o que vem sendo nomeado como sociedade em rede36. O ciberespaço permite, assim, que a comunicação se realize independentemente de lugar geográfico ou espaço de tempo.

Castells (1999) apresenta também cinco aspectos que representam a base material da sociedade da informação: 1) a informação é a matéria-prima; 2) a penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias; 3) a lógica de redes em qualquer sistema ou conjunto de relações; 4) a flexibilidade como base do paradigma tecnológico; e 5) a crescente convergência de tecnologias específicas para um sistema altamente integrado, resultante da lógica compartilhada na geração de informação.

O aparecimento desse novo espaço é acompanhado por uma evolução geral da civilização, ao mesmo tempo em que a traduz e a favorece. Mas, diante desse contexto, estaríamos nos condicionando à tecnologia ou esta estaria determinando os rumos da sociedade? Para Lévy (2010), a cultura produziria a técnica e a sociedade estaria condicionada, e não determinada, às suas técnicas, ou seja, a tecnologia criaria possibilidades que outras opções culturais e sociais não poderiam ser pensadas a sério sem sua existência.

Ainda na visão de Castells (Ibid.), a questão do determinismo tecnológico trata-se de um problema improcedente, uma vez que considera a tecnologia a própria sociedade, e esta não pode ser compreendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas. Entretanto, chama a atenção para o fato de que “a sociedade pode sufocar seu desenvolvimento principalmente por intermédio do Estado” (CASTELLS, 1999, p. 26). Para ilustrar tal acepção, o autor cita como exemplo a China, a União Soviética e o Japão. A primeira foi a civilização mais avançada em tecnologia no mundo por volta de 1400 e responsável pela invenção do papel e da imprensa, dando origem à primeira revolução no processamento de informação. Entretanto, viu o seu progresso estagnar-se diante do seu isolamento perante o avanço do império britânico. Assim como a China, Castells (Ibid.) também cita a inabilidade do estatismo soviético para dominar a tecnologia da informação, o que ocasionou a interrupção de sua capacidade produtiva e o enfraquecimento de seu poderio militar.

Já o Japão, Castells cita como exemplo o país no intuito de mostrar que nem toda intervenção estatal vai apresentar maus resultados em relação ao desenvolvimento tecnológico. Segundo ele, o Japão passou por um período de isolamento histórico mais

(DARPA), o projeto tinha como objetivo impedir a tomada ou destruição do sistema norte-americano de comunicação pelos soviéticos, em caso de uma guerra nuclear, o que gerou uma arquitetura de rede que não pode ser controlada a partir de nenhum centro e é composta por milhares de redes de computadores autônomos com inúmeras maneiras de conexão, contornando barreiras eletrônicas (CASTELLS, 1999).

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extenso que a China, contudo o isolamento tecnológico e a inovação endógena permitiram o prosseguimento das mudanças, principalmente com a Restauração Meiji37 que deu origem às condições políticas para uma decisiva modernização liderada pelo Estado. Assim, a tecnologia japonesa avançou consideravelmente em diferentes áreas como, por exemplo, a engenharia elétrica e das aplicações da comunicação. Em 1879, dez anos depois da primeira linha telegráfica estabelecida, o Japão estava conectado com o mundo inteiro através de uma rede transcontinental de informação, dirigida conjuntamente por engenheiros ocidentais e japoneses, com transmissão em inglês e japonês.

Dessa maneira, Castells quer chamar a atenção para o fato de que “a tecnologia expressa a habilidade de uma sociedade para impulsionar seu domínio tecnológico por intermédio das instituições sociais, inclusive o Estado” (CASTELLS, 1999, p.31). Baseados nas experiências que marcaram a interrupção do desenvolvimento tecnológico, o autor cita dois ensinamentos:

De um lado, o Estado pode ser e sempre foi ao longo da história, na China e em outros países, a principal força de inovação tecnológica; de outro, exatamente por isso, quando o Estado afasta totalmente seus interesses do desenvolvimento tecnológico ou se torna incapaz de promovê-lo sob novas condições, um modelo estatista de inovação leva à estagnação por causa da esterilização da energia inovadora autônoma da sociedade para criar e aplicar tecnologia (CASTELLS, 1999, p. 29).

Nesse contexto, então, percebe-se que as características da tecnologia, bem como a sua ligação com as relações sociais, são marcadas pelo contexto histórico. Já no tocante à revolução tecnológica que vivenciamos atualmente, Castells (Ibid.) fala sobre a sua relação com a reestruturação do capitalismo a partir da década de 1980, que deu origem ao que hoje é caracterizado como capitalismo informacional. O autor salienta que a tecnologia da informação foi uma ferramenta básica para a implementação desse processo, do mesmo modo que destaca esse fato histórico como o “mais decisivo para a aceleração, encaminhamento e formação do paradigma da tecnologia da informação e para a indução de suas consequentes formas sociais” (CASTELLS, 1999, p. 36).

37 Uma das mais radicais mudanças sociais e políticas da história do Japão, ocorrida a partir de 1868, colocando-o na situação de primeira potência econômica e militar não ocidental e também a primeira nação fora do eixo Europa-EUA a derrotar um exército ocidental, no caso o russo, em 1905, na Guerra Russo-Japonesa. As principais medidas consideradas fundamentais para essa revolução foram: fim da separação da sociedade em castas (samurais e daimios); liberdade religiosa; educação para toda a sociedade e uma combinação equilibrada entre capitalismo e penetração das ideias de industrialização ocidentais. Adaptado de: <http://www.educacional.com.br/reportagens/japaodarevolucaomeijiaoseculoXXI/>. Acesso em 16 mar 2013.

Podemos, então, dizer que vivemos hoje cercados pela cibercultura, o que Lévy (2010, p. 17) define como sendo um “conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamentos e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço”. Ainda na visão de Lévy (2010; 1996), a universalização da cibercultura complementa a tendência da virtualização, que, segundo ele, é uma das formas da realidade.

As transformações provocadas pela tecnologia, sob as quais está condicionada a nossa sociedade, ocorre num ritmo tão veloz que podemos nos dar conta de uma determinada técnica exatamente quando outra já está surgindo com o objetivo de substituí-la38. E isso pode ser considerado como um dos maiores desafios que o homem do século XX tem enfrentado. Consoante Castells (1999), a propagação das novas tecnologias pelo mundo ocorreu entre as décadas de 1970 e 90 no ritmo da velocidade da luz, baseada numa lógica que, segundo ele, “é a característica dessa revolução tecnológica: a aplicação imediata no próprio desenvolvimento da tecnologia gerada, conectando o mundo através da tecnologia da informação” (Ibid., p.52).

Está claro que a velocidade é uma marca constante na cibercultura e esse fato pode ser percebido como algo ameaçador por aqueles que estão “distantes” desse mundo tecnológico ou que possuem métodos de trabalho que podem ser alterados pelas novas técnicas. Já os que estão “antenados” nessa nova realidade podem ser graduados em diferentes níveis de conhecimento e, até mesmo, ultrapassados pelas mudanças, afinal não teriam como fazer parte ativamente das transformações nem segui-las de perto (LÉVY, 2010).

Castells (Ibid.) defende ainda que a velocidade em que as novas tecnologias se propagam pode ser vista como seletiva, tanto social como funcionalmente. Boa parte da população ainda está “desconectada” desse novo mundo tecnológico enquanto que os grupos sociais dominantes estão conectados já faz um tempo. Infelizmente, conforme Pretto e Assis (2008), o modelo de pirâmide social, em que a base excluída sustenta os privilegiados que estão no topo, também se repete na sociedade da cibercultura, apesar de todas as iniciativas do poder público em implantar telecentros, infocentros e programas de introdução de computadores nas unidades de ensino39.

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A Lei de Moore estabelece que o desempenho dos microprocessadores seria dobrado a cada dezoito meses (CASTELLS, 1999; LÉVY, 2010).

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Algumas ações do Ministério da Educação no Brasil que têm como objetivo proporcionar o acesso às novas tecnologias: o Banco Internacional de Objetos Educacionais, a Universidade Aberta do Brasil, o Portal da CAPES, a biblioteca virtual do Domínio Público e o ProInfo (PAIVA, 2010). Em 1999, foi elaborado um documento com a participação de profissionais de várias áreas do conhecimento e vários setores e instituições: o

Dessa maneira, pode-se afirmar que tecnologia está diretamente ligada às questões de poder. Segundo Kenski (2010, p.18),

o mundo desenvolvido e rico é o espaço em que predominam as mais novas tecnologias e seus desdobramentos na economia, na cultura, na sociedade. Os que não têm a ‘senha de acesso’ para ingresso nessa nova realidade são os excluídos, os “subdesenvolvidos”.

Nesse contexto de rápidas mudanças técnicas, Lévy (2010) destaca um dos principais impulsores da cibercultura: a inteligência coletiva. É observável que o desenvolvimento desta inteligência permite a empoderamento do indivíduo e, consequentemente, do grupo do qual faz parte. O ciberespaço funciona como um espaço propício à interação e à comunicação entre as pessoas, principalmente entre profissionais de diferentes áreas, possibilitando o intercâmbio de ideias e experiências, formando uma rede de colaboração que pode ser acessada e composta por colaboradores de diferentes partes do planeta. Aprendemos, ensinamos e opinamos sobre os mais variados temas, ao mesmo tempo em que compartilhamos e expressamos nossas verdades. E tudo isso de maneira cada vez mais veloz.

Vale ressaltar que “a computação social aumenta as possibilidades da inteligência coletiva e, por sua vez, a potência do ‘povo’” (LEMOS; LÉVY, 2010, p.14). Segundo Gorz (2005), quanto mais o conhecimento se propaga, mais útil ele é à sociedade. Seu valor mercantil, ao contrário, diminui com a sua difusão e tende chegar a zero: o conhecimento torna-se um bem comum acessível a todos. Para Lévy (2010, p.29),

quanto mais os processos de inteligência coletiva se desenvolvem – que pressupõe, obviamente o questionamento de diversos poderes -, melhor é a apropriação, por indivíduos e por grupos, das alterações técnicas, e menores são os efeitos de exclusão ou de destruição humana resultantes da aceleração do movimento tecnossocial.

Consoante Pretto e Assis (2008, p.78),

Produzir informação e conhecimento passa a ser, portanto, a condição para transformar a atual ordem social. Produzir de forma descentralizada e de maneira não-formatada ou preconcebida. Produzir e ocupar os espaços, todos os espaços, através das redes. Nesse contexto, a apropriação da cultura digital passa a ser fundamental, uma vez que ela já indica intrinsecamente um processo crescente de reorganização das relações sociais mediadas pelas

Livro verde da sociedade da informação no Brasil, que apresenta as bases para a discussão de um novo projeto

tecnologias digitais, afetando em maior ou menor escala todos os aspectos da ação humana. Isso inclui reorganizações da língua escrita e falada, as ideias, crenças, costumes, códigos, instituições, ferramentas, métodos de trabalho, arte, religião, ciência, enfim, todas as esferas da atividade humana.

A maneira como esses estudiosos veem a inteligência coletiva faz parte de um projeto humanístico (LÉVY, 2010). Para esse autor, “a finalidade da inteligência coletiva é colocar os recursos de grandes coletividades a serviço das pessoas e dos pequenos grupos – e não o contrário” (p. 206).

Segundo o mesmo Lévy (2010), geralmente as pessoas o consideram otimista diante deste tema e ele concorda. Em sua visão, seu otimismo baseia-se no reconhecimento de dois fatos: 1) o crescimento do ciberespaço é fruto de um movimento planetário de jovens ansiosos para experimentar as novas formas de comunicação, não de forma individual, mas coletivamente; e 2) as potencialidades mais positivas desse novo espaço de comunicação devem ser exploradas nos planos econômico, político, cultural e humano. O ciberespaço caracteriza-se, então, como um ambiente de intercâmbio e compartilhamento de conhecimentos onde pesquisadores e estudantes de todas as partes do planeta estão a “navegar”. Contudo, o seu crescimento não quer dizer que ocorrerá como consequência o desenvolvimento da inteligência coletiva, mas, sim, garante um ambiente favorável para tal.

Todavia, é fundamental que tenhamos ciência de que o que acontece e é fruto da internet nem sempre é positivo. Lévy (2010, p.30) nos apresenta alguns efeitos negativos dessa nova era digital como, por exemplo, novas formas...

- de isolamento e de sobrecarga cognitiva (estresse pela comunicação e pelo trabalho diante da tela);

- de dependência (vício na navegação ou em jogos em mundos virtuais); - de dominação (reforço dos centros de decisão e de controle, domínio quase monopolista de algumas potências econômicas sobre funções importantes da rede etc.);

- e mesmo de bobagem coletiva (rumores, conformismo em rede ou em comunidades virtuais, acúmulo de dados sem qualquer informação, “televisão interativa”).

Apesar disso, Lévy (1993, p.57) sonha “com um ambiente operacional desejável, aberto às explorações, às conexões com o exterior e às singularidades”. Por isso, chama a atenção para a necessidade de permanecermos “abertos, benevolentes, receptivos em relação à

novidade” (LÉVY, 2010, p. 12). Na visão do autor, não podemos crer na neutralidade da técnica, ela também não seria boa ou má40, por isso afirma ser conveniente

que tentemos compreendê-la, pois a verdadeira questão não é ser contra ou a favor, mas sim reconhecer as mudanças qualitativas na ecologia dos signos, o ambiente inédito que resulta da extensão das novas redes de comunicação para a vida social e cultural. Apenas dessa forma seremos capazes de desenvolver estas novas tecnologias dentro de uma perspectiva humanista (Ibid., p. 12).

Entretanto, nem todas as visões sobre as novas tecnologias e seus efeitos são tão otimistas. Para Comasseto (2005, p. 29), o fato de que “a internet impõe-se como um espaço livre de comunicação interativa e um instrumento em favor da inteligência coletiva” não quer dizer que isso seja concretizado na prática, o que revelaria uma “ilusão democrática”. Segundo ele, a visão de Lévy não se trata de uma visão equivocada ou verdadeira, contudo baseia-se em concepções que veem a técnica como uma atividade do homem e um meio para determinado fim, o que, segundo ele, é condenado por Martin Heidegger, filósofo alemão pensador da técnica.

Comasseto (2005) defende que a comunicação através do ciberespaço não é diferente da que é realizada através do rádio, TV ou jornal, em que a difusão parte de um centro para as massas, sempre controlada por uma minoria. Em seu ver, “a nova mídia eletrônica desenvolve modos de dominação ainda maiores, na medida em que favorece a ação dos conglomerados articulados na rede e das ricas e poderosas nações habilitadas para o uso desta tecnologia até seus limites” (Ibid., p. 32). As iniciativas de formação de atores na rede, geralmente, resumem-se a contatos individuais ou a grupos restritos dando a ilusão de inclusão e

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