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Cheguei à escola antes de aula começar, após o sinal junto da professora acompanhei os alunos até a sala de aula, os mesmos largaram suas mochilas e ficaram atentos as combinações da professora. A professora explicou o que seria trabalhado na aula e como funcionariam as atividades. Os alunos estavam aprendendo as diferentes danças e brincadeiras regionais ao longo do semestre, para isto a professora elaborou uma atividade voltada a região nordeste, onde no pri meiro momento iria ensinar uma dança e logo após seriam realizadas atividades de dança (ritmos) referentes a essa região. Logo após as orientações os alunos desceram em duas filas de meninos e meninas e esperam a professora para os devidos comandos.

Professora: Bom turma, hoje iremos aprender e conhecer a brincadeira

da região nordeste. No primeiro momento da aula vamos conhecer a dança da região e no segundo momento iremos realizar brincadeiras dessa região.

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Alunos (nas): Uhul, que legal... Super legal... Que dança vamos

aprender Sora?

Professora: Vamos dançar hoje Forró, formem as duplas que eu vou

ensinar a vocês.

E imediatamente ouvia-se alunos (as): Ah não Professora, eu não vou dançar com ela... Ah não Professora eu não quero dançar com ele. Por favor, fui que nojo. Eu não quero participar...

Professora: Vamos lá pessoal, formem as duplas. Vou contar até 3: 1

2,3!!!

Isabela (aluna): Professora dá para mim dançar com a Paula10? Só vou

dançar se for com ela, eu não vou dar a mão para ele, não vou dar mesmo... Por favor, professora?

Paulo (aluno): É Professora, deixa nós escolher a dupla... Eu que não

vou dançar com ela, só danço se der para escolher.

Diário de campo, agosto de 2014.

Logo após todo o alvoroço ocorrido, a professora ficou só a observar os alunos e analisando seu comportamento, logo decidiu deixar os alunos escolherem suas próprias duplas. Só após essa decisão os alunos acalmaram-se e ficaram dispostos a aprender o que está sendo proposto a eles. Após isto, os alunos realizaram a dança, onde demonstravam-se dispostos e repetiram inúmeras vezes a coreografia que lhes foram ensinada. A imagem abaixo mostra um dos momentos da aula, em que os alunos realizam a coreografia da dança que lhes foi desafiada.

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Essa cena é coerente para uma análise reflexiva perante o comportamento de ambos os gêneros na aula de Educação Física escolar. Em alguns casos como esse descrito anteriormente, se percebe que as práticas corporais encontram-se generificadas, separadas como masculinos e femininos. É relevante destacar o ato da contrariedade dos alunos, pois a expectativa da professora era realizar a atividade dentro dos padrões considerados adequados para cada gênero na aula de Educação Física escolar. Esta reflexão faz analisar as formas de controle disciplinar de meninas e meninos correlacionados ao controle do corpo e das demarcações das fronteiras entre o feminino e o masculino, reforçando as características físicas e comportamentos tradicionalmente esperados para casa gênero nos pequenos gestos e maneiras, nas práticas rotineiras da Educação Física escolar.

Essa cena é recorrente com crianças numa faixa etária de 8 e 9 anos de idade. Meninos e meninas não encontram-se sempre juntos, aparece muitas distinção ou grupinhos diferenciados pelo gênero: brincam com posições diferenciadas. Nesta idade existe atitude, marcada na roupa, na estética (passar batom) nas preferencias de brincar, com quem brincar e quais são os tipos de brinquedos de menina ou menino. Aqui, não vale mais a oportunidade de experimentação, as crianças não experimentam o sexo oposto. Vivem, com mais pudor, parece que se relacionam com menos naturalidade com se coloca com força o pensamento das diferenças entre os gêneros e assim identificamos um sentimento de recusa por parte de ambos os grupos.

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Dentro da cena observada, é possível perceber o silencio da professora quando se depara com um quadro de resistência perante os alunos (nas). Pode a professora ou a escola propor um "acordo do silêncio"? Ou ainda mais, cabe a professora aceitar esses “pequenos” enfrentamentos e tentar soluciona-los de um modo a explicar este contexto cultural aos alunos? Por um lado, a primeira coisa a se fazer é reconhecer que há um problema em questão e que deveriam ser discutido primeiramente com a direção da escola e posteriormente tentar resolver junto dos alunos (nas). Nesse sentido, os estudos de gênero, através dos conceitos e dos significados produzidos, “fornecem um meio de decodificar o significado e de compreender as complexas conexões entre várias formas de interação humana” (Scott, 1995, p. 89). Compreende-se que a escola através de ações didáticas pedagógicas participa da construção da identidade de gênero, e essas construções inicia-se desde as primeiras relações da criança no ambiente coletivo dos Anos Iniciais.

Ainda é possível compreender que a definição de gênero pode ser resumida a partir de Scott (1995, p. 14) como sendo “a relação fundamental entre duas proposições: o gênero é um elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos e o gênero é o primeiro modo de dar significado às relações de poder”. Poder este que está visivelmente intitulado nas aulas de Educação Física escolar, onde os meninos demonstram que apenas eles podem jogar futebol, e ainda ditam que só quem joga futebol é menino. Meninas realizam brincadeiras de forma isolada em pequenos ou grandes grupos. Pulam corda, realizam movimentos de ginastica, participam de rodas de voleibol. A escola no seu cotidiano, “produz e reproduz ações que separam e demarcam o que é considerado socialmente como pertencente ao mundo feminino e ao mundo masculino”, Vianna e Ridenti (1998, p.102). Nesse caso, não é de acordo com a escola ser transmissora de vícios, sendo que sua missão maior é de questionar, opinar, buscar os porquês em questão, procurar caminhos e modos para superar tais conflitos, interpretando assim as relações de forma diferente com conduta e coerência.

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