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Remplacement et entretien de la lame de la tondeuse à gazon

7.2 Maintenance et entretien

7.2.2 Remplacement et entretien de la lame de la tondeuse à gazon

O ramalhete ou flores escolhidas no jardim da imaginação, produzido na primeira metade do século XIX, compreende dezoito textos de aparência fragmentada, reunindo poemas, crônicas e contos que podem ser examinados como valores literários de cunho social e político. A estética de Ana de Barandas atravessa emoções, propiciadas por eus que cantam o amor e por um pensamento engajado num debate feminino que insiste em escolhas próprias e distantes da sujeição masculina. A obra, respaldada em alegorias e metáforas, nasce de inquietações no cotidiano familiar como flores escolhidas. A expressão metafórica traduz o sentido de uma escrita de tendência feminina, aplicando ao imaginário as agonias da separação e sugestões à lei do divórcio. No romance, a autora não comenta diretamente o código, mas traz para a literatura os resultados de opressões que provocam reações femininas, as quais podem oferecer pistas acerca do tema citado.

Na metade do século XIX, a Igreja Católica é inflexível na manutenção do dogma do casamento indissolúvel, consagrado pelo Ser Supremo que tem o poder de guiar o destino da família. Ana Eurídice Eufrosina de Barandas não é indiferente a essa realidade, e suas protagonistas atravessam das doces emoções do amor para as torturas de “lágrimas de sangue”. Na instituição conjugal predominava “um sentido, uma direção”32 em colocar a mulher em uma posição desigual em relação ao homem e “como quase todo mundo na história humana [...] via as mulheres como dependentes, um estado definido pelo seu status familiar (HUNT, 2009, p. 67). Sem desfazer-se da virtude do romantismo, a escritora assume, no jardim da imaginação, um alerta às privações femininas. A ligação de exclusão da mulher, na vida privada do lar, acontecia desde a troca de alianças e o noivado já indicava a manifestação da superioridade masculina.

No contexto pessoal, Ana de Barandas e o marido oficializaram o divórcio dois anos antes da publicação de O ramalhete. No período, pelas observações de Hilda Flores (1990), a esposa dependia do consentimento do marido para trabalhar, publicar, sendo que o estado de divorciada conferiu a Ana de Barandas a independência para editar a sua única produção literária.

32 Disponível em: <tede2.pucrs.br/tede2/bitstream/tede/2423/1/387366.pdf>.

Segundo a pesquisadora Hilda Agnes Hübner Flores (1990), Ana de Barandas viveu no Rio de Janeiro entre 1836-40 e, talvez, posteriormente a 1850. Em 1841, a escritora retorna para Porto Alegre e, até 1843, ano em que a escritora e o esposo se divorciaram, assume o cargo de professora das sobrinhas Clarinda e Aurora Horeau. Os dados indicam que, na capital gaúcha, ela e o marido oficializaram o divórcio a 8 de agosto de 1843. O casal declara-se “mutuamente e perpetuamente divorciado”, formalizando a ação judicial pela “separação de corpos e de bens”, sem autorizar, contudo, novo casamento aos cônjuges (FLORES, 1990, p. 31-33).

Na pesquisa de Hilda Flores, ao estudar O ramalhete, ela faz referência à “traição conjugal” (FLORES, 1990, p. 43) como responsabilidade do divórcio entre a escritora Ana de Barandas e o esposo, José Joaquim Pena Penalta, cuja causa reside “na infidelidade do marido” (FLORES, 1990, p. 43). O momento da realidade do casal, aludido pela pesquisadora, pode ilustrar a interferência autoral no lamento do eu poético em “Soneto”, o qual remete à desordem matrimonial da escritora:

Já vejo navegando em altos mares... Sulcar as ondas minha alma já divisa

O meu Jacínio!... Oh céus!... para outros lares! (p. 95)33.

Na ficção, Ana de Barandas se aproxima do quadro em que a mulher “vegetava tristemente sequestrada do mundo e arrastando pesadamente o fardo da vida, enquanto aos homens a sociedade consentia o direito a uma vida dupla”, podendo, segundo Francisca Clotilde, casar-se civilmente com outra (CLOTILDE, 2013, p. 71). Francisca Clotilde, de uma época posterior, sentiu os prováveis preconceitos do catolicismo que podem ter impedido Ana de Barandas de posicionar-se a favor do direito a novas núpcias. No entanto, as autoras não desconsideram as divergências conjugais, situações por elas experimentadas, transferindo para a prosa e verso os impasses amorosos.

A supressão da palavra divórcio, em O ramalhete, ainda remete às palavras de Julia Lopes de Almeida, no Livro das noivas. Na

33 As citações ao livro O ramalhete referem-se à reedição de 1990 e, nesta

seção, serão indicadas pelo número da página entre parênteses. As demais citações seguem a forma disposta em norma técnica.

passagem do século XIX para o XX, Júlia explana que “os pais antigos proibiam a leitura às filhas, afirmando que os livros eram os piores inimigos da alma” (ALMEIDA, 1905, p. 35). Para a escritora, tal veto desperta “a curiosidade excitada pela proibição” (1905, p. 35). Quiçá Ana de Barandas tenha articulado comentários aos direitos legais a uma dose de discrição numa “literatura [...] feminina, bastante intimidada ainda naquela época para alçar-se a voos maiores”34. Ao preservar a ausência do termo, ela mantém a boa reputação com o mundo externo sem ferir os preceitos familiares e do clero, em um período de “homens [...] injustos, [em que a] presença de uma mulher sábia ofende excessivamente o seu orgulho” (p. 102).

Com indicativos sobre o amor preso a imprecisões, Ana de Barandas abre o enredo mesclado por suposições e inseguranças de jovens apaixonados, no capítulo intitulado “Eugênia ou a filósofa apaixonada”. Nele, a protagonista expressa o desejo de assegurar “a essência de anjo”, daquele que a fizesse “experimentar um quase arremedo das bem-aventuranças celestes” (p. 85).

No livro, as impressões amorosas atravessam a tragédia que envolve os personagens, como acontece no capítulo I, intitulado “Eugênia ou a filósofa apaixonada”. O enredo pontua o amor trágico entre os amantes Eugênia e Dolival, sendo finalizado aos moldes do Romantismo, com a morte dos personagens. A palavra “amante”, na obra, pode representar personagens que amam; namorados, cujos encontros são realizados nos jardins e salões, onde “suspiravam e, apertando-se nos braços, pareciam dizer-se mutuamente: Tudo será impotente para separar-nos” (p. 57).

Embora a narrativa enfrente a tradição predominante da sedução do amor, desvendando os logros do matrimônio indissolúvel, os quais desestabilizam o casal protagonista, ela não advoga o avanço legal do divórcio. June E. Hahner diz que, apesar de escritoras dos oitocentos lutarem pelos direitos das mulheres, “se abstinham de discutir em público a questão do divórcio, embora muitas fossem pessoalmente favoráveis a uma legislação que permitisse o divórcio legal no Brasil. Buscavam evitar conflitos com a igreja (HAHNER, 2003, p. 323).

34Disponível

em:<www.revistagenero.uff.br/index.php/revistagenero/article/download/156/9 9>. Acesso em: 22 nov. 2014.

Atitude compreensível, pois a condição de uma mulher habilitada a ser independente do “orgulhoso império” do homem não acontecia tão facilmente (p. 70), razão para Ana de Barandas sugerir, sobretudo, a abordagem indicada. Até porque o casamento ocupava “um lugar estratégico e fundamental, na estrutura da família e da sociedade, tornando o matrimônio um dos agentes no mecanismo de mobilidade social” (SAMARA, 1989, p. 87, apud SILVA, 2011, p. 3).

Voltando à “filósofa apaixonada”, em síntese, a trama do capítulo decide-se pelo cenário fúnebre, onde se encerravam os restos mortais dos protagonistas Eugênia e Dolival. A morte trágica dos ex-namorados é provocada pelo desespero de Dolival, que casado com outra, Melinda, ficou desorientado pela impossibilidade de retomar a união com Eugênia, sua ex-noiva. Na trama, a perda da felicidade é ligada à sorte dolorosa, que Deus preparou como a situação “de expulsar o que se ama!” da vida dos enamorados (p. 67). No terrível fantasma criado pela imaginação da personagem Eugênia, ela prevê o fim do seu namoro, cena que trazem, ao enredo, as contradições formadas por resignações e ressentimentos envolvendo o sacrifício divino imposto ao casal deslumbrado pelo amor.

Ana de Barandas não fala sobre a questão do divórcio; entretanto apresenta uma crítica sutil, na voz da protagonista Eugênia, aludindo ao “dia venturoso”, em que estará ligada para sempre ao destino do noivo (p. 70). A perspectiva é da sina de amoldamento do casamento. Na trama que envolve a noiva, há indicação do vínculo da mulher ao homem na relação matrimonial, configurado pelos “laços indissolúveis”, instituídos por uma ordem divina, pois a moça “agradecia ao Supremo” por conceder o direito a uma união estável (p. 70). No entanto, a perspectiva para o enlace matrimonial entre os protagonistas é sujeita à impressão lírica da “medonha tempestade que se arma para o lado poente” (p. 70), panorama romantizado que alude à separação do casal, provocada pelos intrincados sentimentos, dos quais nascem uma personagem insegura. O desencanto resulta na separação dos amantes Eugênia e Dolival. O rapaz realiza uma missão conjugal com outra – por “condições vantajosíssimas” que motivam uma promessa do jovem ao pai, de casar-se com a personagem Melinda, para salvar a família da miséria (p. 59).

A aliança de Dolival com Melinda mostra que a obra não desintegra a hierarquia familiar, a qual é seguida pela ordem de poderes e, nesse sentido, a fraqueza de Dolival legitima a supremacia da instituição familiar, favorecendo a iniciativa do pai na escolha da noiva, que deve permanecer junto a ele para o resto da vida. Ana de Barandas

traz para a literatura a discussão do casamento arranjado dos personagens como uma das causas a entusiasmar mudanças relativas ao casamento, despertando a possível ação de divórcio.

O ramalhete, com a união ficcional de Dolival e Melinda, sugere pensar na dissolubilidade do casamento, ao falar dos sentimentos de personagens “cheios de melancolia”, pela falta do amor recíproco (p. 57). A escritora não usa o vocábulo divórcio; há somente indícios da construção histórica do código em sua arte, na traição de Dolival, por continuar amando Eugênia. À época, a lei era fator de desagregação conjugal e familiar, e a continuação do amor do jovem pela ex-amante é vista como “pequena infidelidade” (p. 64). A expressão, atenuando o fato, descaracteriza o adultério, uma das principais causas do divórcio. Embora o adultério do marido fosse passível de punição judicial, na prática isso não ocorria com frequência. Na maior parte dos casos, para evitar o “escândalo público”, os maridos preferiam enviar a mulher para um recolhimento, o que significava que “ela nem se podia defender” (apud GUIMARÃES, 1966, p. 559).

Ao cuidar para afastar Eugênia e Dolival do adultério, Ana de Barandas entra na estratégia da moral familiar do século XIX e concorre para a preservação da ordem social, poupando a discussão da vulnerabilidade do casamento ao conter os limites do encontro amoroso. De certo modo, ela rompe com as emoções/ilusões dos sentimentos amorosos e, paralelamente, em sua escritura, predominam a mulher e o homem virtuosos, com o dever de viver o casamento, apesar do mau funcionamento das relações conjugais, que resulta “em um estado tal de desordem que já lhe era impossível ocultar” (p. 76).

Com elementos poéticos, marcados pelo cenário de “flores escolhidas”, Ana de Barandas dissolve a imagem única do amor, pois ora é “generoso [...] nos faz romper dificuldades e encarar os perigos mais eminentes [ou] nos oculta com fantásticas flores os seus precipícios, e nos ilude covardemente para triunfar de nós” (p. 122). Ao mostrar as duas faces do sentimento, a narrativa, mesmo que não questione o processo do divórcio, debate a instabilidade entre pares, o que pode aludir à posição de um cotidiano favorável a outro caminho, diferentemente do da sujeição humana dentro de uma relação estável.

De modo geral, O ramalhete desintegra a ilusão de um amor ideal, razão por que a fraqueza de Dolival, as dúvidas e ciúmes de Eugênia determinam o final da união amorosa entre eles. O desencanto propiciado pelo amor acompanha a narrativa de O ramalhete, como ocorre no conto “A queda de Safo ou O Cinco de Maio – Alegoria”. Ana de Barandas cria o texto alegórico relacionando a imagem de Safo à

ilusão diante do Amor. A focalização é a de uma narradora onisciente que prevê o iminente perigo que envolve Safo frente ao fascínio da paixão.

“A queda de Safo”, como aparece no artigo de Hilda Agnes Flores35, é inspirado na mitologia grega, e lembra as nocivas “consequências do amor obcecado, que levou Safo, a personagem lendária da ilha de Lesbos, à perda da razão e do coração”. No conto, Safo encontra-se com o Amor no “dia natalício do seu protegido Guelmínio [...] – cinco de maio” (p.119), colocando-se respeitosamente diante dele. Inicialmente sem ver o perigo, mas, logo, percebe a fatalidade imposta pelo Amor, o qual a leva idolatrar, na imagem mortal de Guelmínio, o poder dos desejos e das paixões. Vítima da entidade mitológica, “a infeliz” (p. 121) é salva pela amizade de Tiresias que trata de socorrer a moça da crueldade do Amor. Nesse sentido, o texto reserva o tom moralista sob o ponto de vista do personagem Tiresias, o qual aconselha à amiga a não ser demasiadamente curiosa “pelo íman” do amor, cujo caminho de ilusões exige sacrifício.

Ana de Barandas, numa referência mitológica à personagem Safo, cultiva a alegoria evocando o poder masculino e as sensações imprecisas do amor: ora “meigo e afagador”, dele “reluz a malignidade”, como também, dos seus lábios vem “o riso mais encantador” (p. 120). Por esse movimento, a história intensifica a figura poética da personagem feminina, que procura livrar-se do caráter manipulador de Guelmínio, o qual se protege pela ventura dos deuses e do encanto de “tudo que há de mais horrível na vida!”(p. 124).

Em contextos diferentes, Ana de Barandas protagoniza os “destruidores efeitos” do amor (p. 121). Eugênia é vítima de uma mão homicida e Safo percorre o “chão de espinhos” em busca da integridade pessoal. Por sua vez, a personagem lendária conseguiu, na proteção do fiel Tiresias, libertar-se do ciúme fatal, “tirando do seio o retrato de Guelmínio, o lança indignada para longe de si” (p. 124). No século passado, os valores sociais ressaltavam “o casamento como única meta existencial feminina”36 e O ramalhete simboliza essa etapa de sonhos

35 Disponível

em:<https://periodicos.ufsc.br/index.php/travessia/article/viewFile/17099/15645

>. Acesso em: 22 nov. 2014.

36 Disponível

em:<https://periodicos.ufsc.br/index.php/travessia/article/viewFile/17099/15645

juvenis, que, na maioria das vezes, desaguavam no amargo desencanto da traição e do abandono do homem.

Com uma escrita, sem negar a poeticidade visível no corpo do livro e no título da obra, Ana de Barandas entrecruza a cena ficcional sujeita “às vossas fantasias” a uma escrita politizada, encontrada na história de mulheres e suas lutas. A mudança de um conteúdo para outro e o modo de narrar da autora são aspectos que completam uma escrita de autoria feminina que transcende o entretenimento por ter algo mais amplo a dizer sobre a participação política entre os sexos. Isso com o propósito de que as mulheres possam emitir opinião e participar da vida pública.

Ana Eurídice Eufrosina de Barandas abre, nesta análise, o diálogo, entre outras escritoras, com a posição da mulher no casamento. Questionadora, a escritora expõe, na crônica intitulada “Diálogos”, o comentário de que as mulheres têm os mesmos atributos e, igualmente, uma alma espiritual equivalente a do homem. Por que, segundo ela, não fazer “uso desse admirável presente que recebemos da mão do Criador?” (p. 109-110).

Com um modo peculiar de apreciar a relação feminina da metade do século XIX com o social, Ana de Barandas, em “Diálogos”, localiza a mulher nas discussões políticas, contrapondo-se ao pensamento de que “uma Sra não deve adotar partido algum” (p. 99). No texto, a escritora oportuniza um espaço em que a personagem Mariana confronta opiniões com dois outros interlocutores. Na cena, a romancista procura dar autenticidade ao debate ficcional, passando a responsabilidade do ponto de vista para a protagonista que se posiciona contra o conceito de “feminismo doméstico”. Um pouco distante dos desconfortos amorosos do romantismo, a autora insere uma postura feminina voltada à cidadania, considerando que à mulher interessa uma participação intelectual e a tudo que diz respeito ao marido. E Mariana solicita mudanças políticas, como a de trabalhar ao lado do “esposo querido”, estabelecendo também um projeto de atuação que não a distancie da rotina matrimonial.

“Diálogos”, de 1837, incluído no livro O ramalhete ou flores escolhidas no jardim da imaginação, editado em 1845, é “o texto mais importante dessa época”, nas considerações de Pedro Maia Soares (1980, p. 127). Nele, a escritora gaúcha defende o direito de as mulheres discutirem política, com particular interesse em combater a “vítima do amor e do receio” (p. 105). A escritora exige igualdade de direitos para as mulheres, apresentando, para a época, uma voz intensa “de uma

consciência em formação” (GOTLIB, 1990, p. 69) ao ajuizar os direitos da mulher enquanto cidadã, sem distinção social.

No capítulo, a conversação entre Mariana, o primo Alfredo, o qual se deixa convencer pela protagonista, e o pai, Huberto, que arrogantemente prevê a continuidade do suposto “bom tempo!” (p. 110), é sinalizada pelo olhar feminino de uma autora que fala por outras mulheres: “Somos independentes: a nós nada nos pode incomodar, logo nada temos a temer” (p. 103). No texto, surge uma crítica à exclusão da mulher na cena política, assunto dialogado pela protagonista Mariana e demais interlocutores citados. Resulta da percepção de Ana de Barandas o desenvolvimento do tema relativo à emancipação da mulher, enquanto reação à imposição do silêncio de mulheres nas questões políticas.

Presa à doutrina do casamento religioso, a escritora gaúcha reproduz o ambiente privado da mulher brasileira oitocentista. Ana de Barandas e outras escritoras assinalam esse cotidiano social em proveito de uma literatura de autoria feminina que pede o bom senso para que sejam superadas as extremas desigualdades políticas entre sexos. No Brasil dos séculos XVIII e XIX, o feminino reproduzia uma imagem fundada pelos valores patriarcais de uma sociedade que se formatava por uma visão política e cultural eminentemente masculina: ao homem vinculavam-se assuntos que remetiam ao ambiente público, à descoberta e ao desbravamento; à mulher, destinavam-se o lugar familiar e a vida comedida. Estigmas conduzidos, sobretudo, por preceitos religiosos que controlavam a moral da mulher, vista como indivíduo responsável pela educação dos filhos. Valores implantados dentro da família, que levaram a mulher a dedicar-se às tarefas domésticas e aos cuidados da prole e do marido. “Apesar de o equilíbrio domiciliar basear-se na figura da mãe, é através da autoridade paterna que certas regras familiares deverão ser cumpridas” (FIGUEIREDO, 2006, p. 89).

Para romper com normas que dificultam a integração social feminina, Ana de Barandas combate esses sinais e busca quebrar a hierarquia de gênero no lugar sagrado do casamento. Ela discute a maneira privilegiada que o homem se encontra, “de forma que desafie os binarismos” (COSTA, 2013, p. 933), uma das vertentes da história do gênero. O resultado dessa ação pode ser verificado na seguinte interpretação:

Enquanto ao homem é repassado um conceito de envergadura, de ser ativo no processo de mudança do mundo, à mulher é oferecida uma instrução devidamente recatada, pautada em valores que

não ultrapassam o objetivo de estabelecer o bem- estar do outro, em um contexto fechado da vida familiar. Esta verdade inserir-se-á no inconsciente coletivo da sociedade brasileira colonial, delimitando e dividindo ainda mais os campos de ação de cada sexo: o homem trabalha em prol de si mesmo e de suas causas; a mulher tem por função a oferta de recursos para o sucesso das gerações vindouras.37

Mesmo com restrições sociais, Ana de Barandas revê o imaginário patriarcal vinculado à mulher, auxilia na construção de uma nova concepção matrimonial como fonte primordial de manifestações de liberdade feminina. Ao reivindicar o direito às mulheres de pensar o casamento e suas escolhas, ela e várias escritoras estabelecem o direito de as mulheres futuras participarem da vida familiar em comum acordo com seus pares. Por tal caminho, estabelecem políticas, cuja tendência se presta à revisão do tema desta análise, no que diz respeito à indissolubilidade do matrimônio.

Com relatos inspirados na experiência da vida e nas leituras clássicas, a escritora impulsiona soluções aos desmandos do ambiente social familiar, assumindo, por meio de controvérsias, lutas femininas que se estendem ao século XXI. Ana de Barandas tenta resistir aos “direitos inalienáveis da mulher”, consagrados pela superioridade masculina, inibidores de lutas como a do divórcio. Em síntese, ela e outras escritoras “escreveram quando a teorização era incipiente, mostrando um descontentamento com o papel que deviam seguir” (FUNCK, 2012/2013, videoaulas). Inquietas com as suas vidas e extremamente angustiadas “com o que deviam fazer” (FUNCK, 2012/2013, videoaulas), conseguem ponderar os relatos da vida