Os termos e definições atribuídos à pesquisa-ação reportam-se aos diferentes modos de conceber a relação pesquisador e participante, a colaboração, a compreensão e a transformação da realidade. Essas nomenclaturas e significados dados à pesquisa-ação sustentam-se em diferentes pressupostos teórico- epistemológicos. Neste item, discutimos com alguns dos autores-pesquisadores que se preocuparam em sustentar a perspectiva da pesquisa-ação a partir do diálogo com referenciais teóricos assumidos em seus estudos.
Uma das pesquisadoras argumenta que a ação praticada pelos profissionais da educação durante processos de Investigação-Ação Educacional Emancipatória (IAEE) possui as seguintes características:
a) uma base materialista histórica (porque concebe o sujeito situado no espaço-tempo histórico, com o qual mantém relação produtiva de mutualidade); b) base fenomenológica (porque interessa-se pelo contexto imediato dos agentes enquanto está acontecendo nas interrelações instaladas e alimentadas desde sua ação em relação com as ações dos outros envolvidos).88
A autora, ao assumir a base materialista histórica e fenomenológica, arrisca-se no diálogo entre abordagens de matrizes diferentes. Esse risco permite-lhe conceber um sujeito que é situado no tempo histórico e que também se interessa pelo contexto imediato das inter-relações estabelecidas com os outros.
A perspectiva histórico-dialética é defendida também por outra autora89, ao destacar
que o percurso investigativo intencionado em sua pesquisa está relacionado à ideia da mediação, fertilizada nos estudos de Vigotski e de seus colaboradores. O conceito de mediação é assumido no estudo como forma de apropriação do conhecimento. Admite-se, assim, que aluno, professor e pesquisador aprendem juntos por meio da mediação.
Temos como fundamentos os pressupostos da pesquisa-ação para participar das mediações, das intervenções e das interações no campo de estudo com todos os integrantes da pesquisa. Dencker (1998), na pesquisa-ação pesquisador e pesquisado agem em parceria na produção e apropriação do conhecimento: os pesquisadores e participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.90
Para a autora-pesquisadora e os autores por ela citados, essa aprendizagem é propiciada pela pesquisa-ação, que possibilita a parceria entre os envolvidos. Por exemplo, para Vigotski, a aprendizagem ocorre a partir da mediação com o outro, no
contexto social e cultural. A autora91 traz uma importante contribuição em sua tese,
ao fundamentar a pesquisa-ação no conceito de mediação da aprendizagem
88 ANDRADE, 2000. 89 GONÇALVES, 2008. 90 GONÇALVES, 2008. 91 GONÇALVES, 2008.
vigostkiano, pois sustenta o princípio formativo da pesquisa-ação em termos teórico- epistemológicos.
O envolvimento com o outro na resolução de um problema concreto é visto como meio que permite a aprendizagem pela mediação. Logo, temos uma outra perspectiva na relação sujeito-objeto, na qual sujeitos constroem colaborativamente o conhecimento. Estamos falando de uma outra racionalidade? Na perspectiva teórico-filosófica que defendemos, a racionalidade comunicativa, os sujeitos interagem em processos de entendimento mútuo, que lhes permitem relacionar-se com o objeto e construir conhecimentos a partir do agir comunicativo.
O aprendizado com o outro pela mediação que sinaliza para a perspectiva habermasiana de construção de conhecimentos com base nas de interações entre os sujeitos, permitiu-nos considerar a relevância do processo em detrimento do
resultado final. Uma das autoras92 enfatiza que compreender a pesquisa-ação
remete à noção de processo. De acordo com Barbier (2002, p. 111), a pesquisa- ação consiste em “[...] uma rede simbólica e dinâmica, apresentando ao mesmo tempo um componente funcional e imaginário, construído pelo pesquisador a partir de elementos interativos da realidade, aberta à mudança e necessariamente inscrita no tempo e no espaço”. Outra autora afirma que não se trata de uma “[...] pesquisa- a-ser-seguida por-ação, ou pesquisa-em-ação, mas pesquisa como-ação”
(COOKE).93
Vemos, assim, três conceitos atribuídos à pesquisa-ação por um número expressivo de autores: a colaboração, a crítica e a emancipação.
Mais que opções metodológicas, esses conceitos, para alguns autores, dizem de suas decisões políticas e éticas. “Para essa pesquisa-intervenção ser realizada como ação ético-política, valores como a cooperação e a solidariedade não poderiam ser entendidos como idealistas, tampouco mecanicistas, mas passíveis de serem gestados no cotidiano escolar”.94
Em sua dissertação, outra pesquisadora
92
CAETANO, 2007.
93
TRIPP, 2005, apud DEVENS, 2007.
94
afirma: “Apoiamo-nos, metodologicamente, na pesquisa-ação por esta constituir-se um ato político que se dá no coletivo [...]”.95
Na perspectiva assumida por esses autores, a pesquisa-ação é sustentada pelo compromisso social e político. A crítica é base do modo de concebê-la. De acordo com Carr e Kemmis (1988), a pesquisa científica só tem sentido quando compreende uma temática de investigação que consista num tema da prática social, práticas concretas que surgem dos interesses naturais e sociais vividos pelos homens: “Em nosso caso, a inclusão dos alunos com necessidades especiais na escola regular e como forma de aperfeiçoamento na formação continuada dos
professores no contexto da própria escola”.96
Sendo a educação escolar um fazer histórico, num tempo e espaço determinados, ela requer a construção de conhecimento sobre este tempo e espaço no qual se insere, revalidando, confirmando ou criticando e superando o conhecimento elaborado. A atitude de pesquisa e de participação, o conhecimento e a ação, permitirão às escolas, a cada unidade escolar, o movimento interno para adequar- se às demandas sócio-educacionais de seu tempo. Pois, como nos alertava Cantoni [...], se a mudança vier apenas de fora da escola, ela será superficial ou traumática.97
Pela crítica e pela colaboração, a pesquisa-ação pode possibilitar-nos processos que levem a mudanças que vão se constituindo no diálogo entre teoria e prática. Concordamos com Sobrinho quando diz: “Em uma palavra, a investigação-ação é um processo deliberado, tendente a emancipar os participantes das limitações colocadas pela dinâmica das preconcepções, dos hábitos, da coerção e da ideologia”.98
E só podemos provocar transformações nos modos de fazer educação, se mudarmos concepções e hábitos hegemônicos que nos impedem de edificar uma sociedade democrática e uma educação para todos.
Nesse sentido, para os autores-pesquisadores, produzir conhecimentos que respondam aos interesses escolares, marcados pela diferença negligenciada, requer outros modos de fazer pesquisa. Eles apontam a pesquisa-ação como uma forma investigativa que constrói o conhecimento com o outro, uma relação sujeito-sujeito- objeto. Acreditam que a pesquisa-ação possa “[...] servir de instrumento de mudança
95 DEVENS, 2007. 96 ALMEIDA, 2004. 97 HUET, 2000. 98 SOBRINHO, 2004.
social” (BARBIER, 2002, p. 53). Ter como finalidade a mudança social requer compreender a pesquisa-ação não somente como “[...] uma pesquisa sobre a ação
ou para a ação, mas de uma pesquisa em ação.”99
Os argumentos aqui discutidos permitem-nos chegar a um entendimento mútuo de que a ação na pesquisa-ação engendra o processo investigativo numa dialética constante entre compreensão e transformação da realidade, uma ação construída com o outro, possibilitando, assim, a construção de conhecimento com o outro e não uma construção solitária e monológica.
Nesse contexto, uma questão é retomada em nossas discussões. Essas ações estariam subsidiadas por quais abordagens filosóficas ou paradigmas científicos?