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Remarques particulières à propos de quelques leçons

Conforme indicado, sobretudo no tratamento dispensado ao desenvolvimento histórico social do psiquismo, no intercâmbio ativo entre o homem e a natureza radica a gênese da constituição e transformações qualitativas do psiquismo. Na relação sujeito–objeto reside, portanto, o aspecto fundante da formação da imagem subjetiva da realidade objetiva e, para tanto, a captação sensorial do mundo desponta como requisito primário. Não obstante a interpenetração existente entre sensação e percepção, haja vista a unidade funcional que entre elas se estabelece, ambas não se identificam, dotando-se de propriedades que lhes são próprias e diferenciais.

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Optamos pela adoção da denominação “processos funcionais” em atendimento à duas prescrições vigotskianas: entendê-los como processos e não como produtos quer de ordem biológica ou social; afirmá- los como formações que se objetivam funcionalmente na atividade que vincula o ser à natureza.

Segundo Smirnov et al. (1960, p. 95), a sensação reflete as qualidades isoladas dos objetos e fenômenos do mundo material que atuam diretamente sobre os órgãos dos sentidos. Como requisito primário no tratamento dispensado pelo organismo aos estímulos do meio, o processo sensorial assenta-se, do ponto de partida (isto é, de sua gênese), em bases essencialmente naturais, representadas fundamentalmente pelos analisadores.

São eles que, na qualidade de substratos fisiológicos, operam de modo decisivo na responsividade do organismo à estimulação da matéria, resultando em diferentes tipos de sensação. Os analisadores são constituídos por: receptores, responsáveis pela captação do estímulo; nervos aferentes (óticos, acústicos, olfativos, táteis e gustativos), que conduzem a excitação aos centros nervosos e pelas zonas cerebrais (corticais e sub-corticais) de elaboração do impulso e correspondente resposta.

Os analisadores possuem importância essencial na organização sensorial, orientando suas diferentes formas de expressão, do que resulta que as sensações sejam classificadas segundo o analisador que as realiza e pelos estímulos que refletem. A classificação mais usualmente difundida assenta-se no princípio da modalidade sensorial produzida pela ação dos receptores externos, compreendendo os sentidos da audição, visão, tato, olfato e paladar. Todavia, Luria (1991a, p. 8-9) alerta para a maior abrangência e complexidade desses processos indicando, para sua classificação, além do princípio da modalidade, também o princípio da complexidade, ou seja, do nível originário de sua construção. É à luz desse segundo princípio que as categoriza em três grandes grupos, quais sejam, como sensações interoceptivas, proprioceptivas e exteroceptivas, incluindo nesse terceiro grupo outras duas modalidades sensoriais, representadas pelas sensações intermodais e pelos tipos não específicos de sensação.

As sensações interoceptivas têm seus receptores nos tecidos e órgãos internos, fazendo chegar às zonas corticais de elaboração as excitações provenientes das paredes dos intestinos, do estômago e demais órgãos viscerais, do coração e do sistema sanguíneo. Incluindo-se dentre as sensações mais elementares e primitivas, as zonas de elaboração interoceptivas abarcam formações sub-corticais do tálamo bem como formações do sistema límbico. Por isso, ainda segundo Luria (1991a), tais sensações estão entre as formas menos conscientes e mais difusas, mantendo estreita relação com os estados emocionais. Nas palavras do autor:

A importância objetiva das sensações interoceptivas é muito grande: elas são fundamentais na regulação da balança dos processos internos de metabolismo ou daquilo a que se chama homeostase dos processos de troca no organismo. Os sinais que surgem por via interoceptiva provocam um

comportamento voltado para a satisfação de inclinações ou para a eliminação dos estados de tensão (“stress”) que podem manifestar-se em decorrência de fatores que perturbam o funcionamento equilibrado dos órgãos internos. Por isso a consideração das sensações interoceptivas desempenha papel decisivo na parte da medicina denominada “psicossomática”,que estuda a correlação dos processos somáticos e viscerais e dos estados psíquicos (LURIA, 1991a, p.11, grifo do autor).

O segundo grupo compreende as sensações proprioceptivas, das quais resultam as informações acerca da posição do corpo no espaço e, sobretudo, dos movimentos requeridos à execução das ações, tornando-se indispensáveis à regulação dos mesmos. Seus receptores localizam-se nos músculos, tendões e ligamentos, promovendo o que também se denomina como “sensibilidade profunda”. A consciência sensorial do “esquema corporal” resulta, essencialmente, do desenvolvimento da acuidade sensorial proprioceptiva, na qual se inclui a sensação de equilíbrio ou “sensação estática”.

Os receptores dessas sensações situam-se nos ligamentos dos canais semicirculares do ouvido interno, e conduzem às elaborações correspondentes nas regiões têmporo-parietais do córtex cerebral e cerebelo. Os substratos neurológicos da sensibilidade vestibular estão diretamente relacionados à visão, daí que a orientação no espaço se construa como unidade proprioceptiva e exteroceptiva. Portanto, excitações visuais bruscas e aceleradas, bem como rápidas mudanças do corpo no espaço frequentemente resultam em sensações de desconforto, perda do equilíbrio e tendência do organismo à rejeição desse tipo de estimulação.

As sensações exteroceptivas representam o maior grupo sensorial, sendo responsáveis por fazer chegar ao organismo as informações procedentes do meio exterior e desempenhando um importante papel nos domínios que conquista sobre ele. Embora, de modo geral, abarque as sensações advindas dos cinco sentidos, que podem ser organizadas em dois subgrupos: as “sensações de contato” e as “sensações de distância”, dentre as sensações exteroceptivas se encontram, ainda, as intermodais e as não específicas (LURIA, 1991a, p. 13).

As sensações de contato correspondem àquelas que dependem da ação direta do estímulo sobre o corpo ou mesmo sobre o órgão receptor, a exemplo do tato e do paladar. Diferentemente, as sensações de distância compreendem aquelas que respondem a dados estímulos na dependência da distância em que se encontra deles, incluindo o olfato, a audição e, especialmente, a visão. A qualidade de suas impressões se mostra diretamente proporcional à distância ótima entre os órgãos receptores e a estimulação.

As sensações intermodais compreendem, grosso modo, as “sensações mistas”, ou seja, resultantes dos limiares entre distintas modalidades. Embora Luria adote a expressão “mista”,

observa que as sensações intermodais não advêm das influências recíprocas que certamente existem entre sensações, mas da superação de seus alcances específicos. São exemplos desse tipo de sensação a percepção do som pelos surdos por meio da sensibilidade vibrátil (captada pelos ossos do crânio e membros), a percepção de cheiros agudos por sensações agudas de sabor, de sons altamente intensos por reações táteis etc.

Já as sensações “não específicas”, como a própria designação indica, são aquelas sobre as quais os conhecimentos disponíveis ainda não estão suficientemente elaborados e, entre elas, o autor destacou a “fotossensibilidade da pele”, que envolve a capacidade de captação sensorial de matizes de cor pela pele da mão ou pontas dos dedos, bem como o “sentido de distância” encontrado em cegos, que lhes permite identificar a distância e os obstáculos que se interpõem em seu caminho. Ao conferir destaque a esse tipo de sensação, Luria alerta para a incompletude ainda existente no âmbito da sensorialidade humana e suas inúmeras possibilidades.

Em relação ao aspecto interativo das sensações, acima referido, Luria (1991a, p.15) afirmou duas possibilidades: influência mútua e ação combinada. Quando ocorre apenas influência mútua dado órgão dos sentidos estimula ou reprime o funcionamento de outro órgão. A exemplo da influência do aroma ou organização visual do alimento em relação à sensação de fome. Porém, existem outras formas de interação entre as sensações, as “mais profundas” como caracterizou o autor, quando o produto depende do trabalho conjunto dos órgãos e, a essa nova modalidade denomina-se sinestesia. Luria (1991a, p. 17) esclarece:

[...] ao percebermos os objetos do mundo exterior, nós os vemos com os olhos, sentimos pelo contato, às vezes lhes percebemos o cheiro e o som etc. É natural que isso exige a interação dos órgãos dos sentidos (ou analisadores) e é determinado pelo trabalho sintético deles. Esse trabalho sintético dos órgãos dos sentidos ocorre com a participação imediata do córtex cerebral [...]. essas “zonas de cobertura” são as que asseguram as formas mais complexas de funcionamento conjunto dos analisadores, as quais servem de base à percepção dos objetos.

Tecidas estas considerações sobre a classificação das sensações, fica evidente o alto grau de condicionabilidade delas aos mecanismos neurofisiológicos que lhe dão suporte. Essa constatação, por sua vez, pode induzir equivocadamente a uma interpretação de subserviência absoluta entre as sensações e seu aporte natural, orgânico, culminando em uma apreensão naturalizante do processo sensorial. Daí que, para Vygotsky e Luria (1996, p. 156), a sensorialidade, não obstante todo seu substrato orgânico, não possa ser compreendida a parte de sua natureza, fundamentalmente, ativa. Nessa direção, afirmam que o próprio substrato

orgânico, não sendo um receptor passivo de estímulos, constitui-se de maneira reflexa a partir daquilo ao qual responde.

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