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1.4 Remarques methodologiques

Atualmente, existe um grande interesse nas relações entre dieta e saúde, não apenas no contexto das carências nutricionais específicas e desnutrição, mas também para muitas doenças crônicas não transmissíveis, pois possibilita o conhecimento do padrão de consumo alimentar do indivíduo e sua associação com o risco de morbi-mortalidade (SCAGLIUSI ; LANCHA JUNIOR, 2003).

No tratamento da obesidade, a avaliação dietética é de fundamental importância por fornecer informações quantitativas e qualitativas do padrão alimentar habitual de um indivíduo, possibilitando a identificação de comportamentos e hábitos alimentares errôneos que serão alvo para a intervenção nutricional e, posteriormente, poderá ser utilizado como monitoramento de resultados obtidos (O’NEIL, 2001).

Segundo Cintra et al. (1997) e Fisberg et al. (2005) existem diferentes técnicas para estimar a ingestão dietética, incluindo métodos quantitativos do consumo diário (registros e recordatórios) e os qualitativos (história dietética e o questionário de freqüência alimentar), sendo que a combinação entre ambos também pode ser utilizada. A mensuração quantitativa tem como objetivo determinar a adequação de energia e nutrientes, enquanto que a qualitativa permite analisar outras características da dieta, como a freqüência de consumo e o tipo de preparo das refeições.

A decisão sobre o método ou métodos a serem utilizados deverá levar em consideração o objetivo do estudo (dieta total, alimentos ou grupos de alimentos, padrões e

características da dieta, tipo de nutriente), a população em estudo, o grau de precisão do método, os recursos disponíveis e os aspectos custo-efetividade.

Fisberg et al. (2005) e O’Neil (2001) referem que não existe um método de avaliação do consumo alimentar que seja considerado ideal. Os erros inerentes a cada método podem influenciar a acuidade das estimativas. O conhecimento da descrição básica do método, de suas vantagens e desvantagens e dos cuidados na coleta das informações auxilia na utilização dos mesmos.

O estudo sobre a freqüência alimentar tem como objetivo avaliar o consumo de certo alimento ou grupos de alimentos durante um determinado período de tempo, ou seja, obter dados sobre o consumo habitual. O número e o tipo de alimentos presentes na lista variam de acordo com o propósito da avaliação. Este questionário fornece dados qualitativos, porém, muitos instrumentos têm incorporado questões sobre o tamanho das porções. Com esta modificação, o método passa a ser denominado de questionário de freqüência alimentar semiquantitativo (CINTRA et al., 1997 ; VITOLINS et al., 2000).

O registro alimentar ou diário alimentar consiste na anotação em formulário próprio de todos os alimentos consumidos ao longo do dia pelo indivíduo avaliado. Baseia-se em uma descrição detalhada sobre os tipos e as quantidades de alimentos e bebidas consumidos durante um determinado período que varia de um a sete dias. Costuma-se utilizar o registro de três dias, incluindo um dia de final de semana. As quantidades ingeridas são estimadas em medidas caseiras pelo indivíduo e depois convertidas em gramas pelo avaliador.

Algumas vantagens têm sido relacionadas a este método de avaliação dietética, tais como, não depender da memória e mais precisão quantitativa dos alimentos e preparações. No entanto, além de exigir que o indivíduo seja alfabetizado e tenha elevado grau de motivação, o ato de registrar pode modificar o padrão dietético. Dessa forma, são freqüentemente utilizados como método pedagógico com fins terapêuticos que visam à modificação do comportamento

alimentar, buscando o automonitoramento (CINTRA et al., 1997 ; FISBERG et al., 2005 ; O’NEIL, 2001 ; VITOLINS et al., 2000).

Os métodos de avaliação da ingestão alimentar que dependem do relato individual podem apresentar vieses de mensuração do consumo, produzindo resultados inconsistentes (SCAGLIUSI ; LANCHA JUNIOR, 2003). Por meio de estudos que utilizaram marcadores biológicos, constatou-se que, freqüentemente, a ingestão energética relatada era bem inferior e, em sua maioria, correspondia a uma distorção no auto-relato da ingestão alimentar. Este fenômeno foi denominado de sub-relato da ingestão energética (HEITMANN ; LISSNER, 1995 ; LICHTMAN et al., 1992 ; SCHOELLER, 1990).

O sub-relato é um processo complexo que inclui componentes perceptivos, emocionais e cognitivos. Este pode originar-se de um sub-registro e/ou sub-consumo. O sub-registro é o não relato de alimentos de fato consumidos, enquanto que o sub-consumo é definido como diminuição do consumo alimentar causada pelo próprio instrumento utilizado (SCAGLIUSI ; LANCHA JUNIOR, 2003).

Dentre todas as características estudadas, considera-se a obesidade como o maior indicador de sub-relato. Indivíduos com maior preocupação com a perda de peso e/ou dieta, os quais já seguiram diferentes tipos de tratamento com dietas hipoenergéticas e possuem diversas informações sobre alimentação são mais suscetíveis a produzir vieses no relato do consumo alimentar (JOHNSON et al., 2005)

Scagliusi e Lancha Junior (2003) sugerem outra característica importante: as mulheres sub-relatam o seu consumo energético mais do que homens. A pressão social exercida sobre as mulheres para que possuam a imagem corporal ideal parece contribuir com esse fenômeno. As mulheres de menor nível educacional definem uma dieta saudável com base nos conceitos tradicionais e populares de sensação de saciedade, enquanto que as de maior nível consideram ideal a dieta com baixo teor de lipídeo e com elevado teor de frutas e hortaliças.

Um aspecto psicossocial envolvido no sub-relato é a tendência do indivíduo em fornecer a resposta mais aceitável e desejável socialmente, independentemente de ser verdadeira ou não. Segundo Kearney e Mcelhone (1999), os indivíduos não são capazes de avaliar o seu padrão alimentar habitual por uma percepção errônea em relação ao que realmente praticam.

Outros aspectos relacionados ao sub-relato seriam os possíveis lapsos de memória, a inabilidade em determinar com precisão as porções de alimentos, e a influência do tipo de instrumento utilizado para a avaliação do consumo energético. Em um levantamento realizado por Black et al.(1991), 88% dos estudos realizados, utilizando o recordatório de 24hs, 64% daqueles baseados em diários alimentares e 25% dos que utilizaram a história alimentar apresentaram estimativas médias de ingestão energética inferiores às necessidades mínimas de cada população. Em nível individual, são necessárias mais observações do que no foco coletivo (JOHNSON et al., 2005).

Apesar das limitações dos métodos, os inquéritos alimentares ainda continuam sendo utilizados e valorizados, pois as informações obtidas sobre a ingestão dietética são fundamentais para a ciência e a prática da nutrição. Porém, para que o pesquisador possa controlar melhor as variáveis e alcançar resultados mais precisos, Schoeller (1990) reconhece a necessidade de se conhecerem os erros associados à avaliação do consumo alimentar, ter o conhecimento sobre tendência e tipos de vieses, avaliar os dados como uma estimativa da ingestão habitual e realizar uma interpretação cautelosa dos resultados.