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39Reliques et charmes

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A revista é uma das principais inovações editoriais do século XIX. Um fenômeno que cresceu de maneira exponencial, sobretudo na França. A Terceira República (1870-1940) não foi apenas a idade de ouro para jornais cotidianos, mas também um momento de expansão sem precedentes do número de revistas e periódicos especializados. Tratam-se de revistas dos mais variados tipos: de associações sindicais, literárias, culturais, religiosas, políticas e acadêmicas. Nesse período assistiu-se a um grande crescimento da variedade e quantidade de títulos. Em 1897 havia nada menos que 5787 revistas sendo publicadas na França.1 Embora, é preciso ressaltar, as tiragens da maior parte dos títulos não fossem tão expressivas. A proeminência desse meio de circulação de textos e imagens é tal que alguns autores denominam esse contexto de “belle époque das revistas”.2 Elas podem ser vistas como um mecanismo editorial que foi capaz de se adaptar e atender bem a uma necessidade crescente de troca de informações. As correspondências e as gazetas já não cumpriam plenamente essa função, enquanto a revista possuía dois principais atributos a explicar sua força, a regularidade e a rapidez na circulação.3 Constituindo-se como espaço de sociabilidade, a revista reunia indivíduos com interesses comuns e projetos coletivos. Mas, sobretudo, firmava-se como um lugar de produção intelectual, de diversos tipos, e de manifestação na cena pública.

1 CHARLE, C. Revues et jounaux specialisés : 1880-1914. Le siècle de la presse (1830-1939).

Paris: Seuil, 2004, p. 169.

2 LEYMARIE, M. Introduction. La belle époque des revue? In: PLUET-DESPATIN, J;

LEYMARIE, M; MOLLIER, J. (orgs.) La belle époque des revues. 1880-1914. Paris: Éditions de l’IMEC, 2002. p. 7-28.

3 TESNIÈRE, V. Histoire et actualité de la revue. Revue de synthèse, Paris, v. 135, 6ème série, n° 2-

Esse novo formato de periódico estabeleceu-se sob três designações principais: journaux, revue e annales. Journaux representa o gênero mais antigo, ancorado no Antigo Regime, e que será emprestado a uma variedade de títulos.

Annales se vincula aos periódicos mais devotados à ciência. Revue também

constitui um corpus bastante diverso, mas será adotado particularmente em fins do século XIX.4 Apenas entre 1872 e 1894, na França, foram registrados 569 periódicos com a palavra revue em seu título.5

A crescente utilização de revue parecia associar-se a um desejo de comunicação com um público mais amplo, superando a tendência de pequenos grupos transmitida por bulletin, outro termo também corrente em periódicos. O termo revue teria sido importado da Grã-Bretanha, a partir do review, e a primeira ocorrência na França data de 1804, com a Revue philosophique. Enquanto isso, outro termo muito comum na Inglaterra, magazine, não encontrou larga proliferação em seu correspondente francês, magasin.6

A Academia Francesa inseriu o verbete revue em seu dicionário oficial apenas em 1834. Em 1863, o verbete revue trazia a seguinte descrição: “Título de certos periódicos. As revistas aparecem em intervalos mais ou menos distantes”. 7 Definição bastante simples e que pouco a distingue, por exemplo, do jornal. Mas a prática editorial, tanto da revista para o jornal, quanto da revista para o livro, era de fato percebida como distinta pelos contemporâneos da Terceira República. Para diversos autores a diferenciação envolvia uma hierarquia, que dizia respeito à transitoriedade e à densidade do conteúdo entre jornal, revista e livro. Georges Sorel, em 1907, afirmava: “Os jornais fazem jornalismo; as revistas fazem cultura;

4 TESNIÈRE, V.; BOUQUIN, C. Une morphologie des savoirs. La revue depuis 1800. Revue de

synthèse, Paris, v. 135, 6ème série, n° 2-3, p.175-202, 2014.

5 LEYMARIE, M. Introduction. La belle époque des revues? In: PLUET-DESPATIN, J;

LEYMARIE, M; MOLLIER, J. (orgs.) La belle époque des revues. 1880-1914. Paris: Éditions de l’IMEC, 2002. p. 9.

6 Apenas no âmbito das revistas de história, em um levantamento que cobre o período de 1800 a

2012, com seleção dos periódicos que tiveram mais de 10 anos de existência, Valérie Tesnière e Courine Bouquin encontraram 105 periódicos franceses. Desses, maioria expressiva, 92, comportam o termo “revue” em seu título. TESNIÈRE, V.; BOUQUIN, C. Une morphologie des savoirs. La revue depuis 1800. Revue de synthèse, Paris, v. 135, 6ème série, n° 2-3, p.175-202, 2014.

7 Tradução da autora. No original: “Titre de certains périodiques. Les revues paraissent à des

intervales plus ou moins enloignées”. In: LEYMARIE, M. Introduction. La belle époque des revues? In: PLUET-DESPATIN, J; LEYMARIE, M; MOLLIER, J. (orgs.) La belle époque des revues.

é necessário não confundir os papéis”.8 Léom Blum, em 1894, marcava o lugar da revista entre o livro e o jornal de forma clarividente:

As Revistas não são livros. Não seria justo criticar em um artigo de revista sua pouca densidade. Ele não é marcado pela eternidade. Não se trata do pensamento em sua forma definitiva. Mas também não é a crônica de jornal, que se lê enquanto bebe- se chocolate [...].9

Neste universo, algumas se destacaram, ficando conhecidas como “grandes

revues”. Tratam-se de revistas de cultura geral, com pauta preferencialmente

literária e política. A Revue des Deux Mondes talvez seja a mais amplamente conhecida, por ter ocupado papel central no debate público e por ser publicada ainda hoje. Fundada em 1829, era marcadamente conservadora, ligada ao catolicismo liberal e, no fim do século, se colocará entre os anti-dreyfusards.10 Seu conteúdo era bastante vasto, abarcando uma diversidade de assuntos, inclusive a historiografia, não se restringindo à produção francesa.11 A Revue des Deux Mondes também funcionou como locus privilegiado para diversas polêmicas, com publicações que geravam debates sobre política ou mesmo sobre religião e ciência.

Les Annales politiques et littéraires foi também uma grande revue relevante

neste momento de efervescência. 12 Diferente do perfil conservador da Revue des

Deux Mondes, a revista tinha perfil francamente favorável ao republicanismo.

Marcada pelo ecletismo na escolha de seus autores colaboradores, seu conteúdo foi

8 Tradução da autora. No original: “Les journaux font du journalisme ; les revues font de la culture

; il ne faut pas se laisser aller à confondre les rôles.” In: LEYMARIE, M. Introduction. La belle époque des revues? In: PLUET-DESPATIN, J; LEYMARIE, M; MOLLIER, J. (orgs.) La belle

époque des revues. 1880-1914. Paris: Éditions de l’IMEC, 2002, p. 11.

9 Tradução da autora. No original: “Les Revues ne sont pas de livres. Il ne serait pas juste de

reprocher à un article de revue sa facture trop légère. Il n’y a pas de caractère d’éternité. Ce n’est pas la pensée sous sa forme définitive. Mais ce n’est pas non plus la chronique de journal qu’on lit en buvant son chocolat [...]”. In: LEYMARIE, M. Introduction. La belle époque des revues ? In: PLUET-DESPATIN, J; LEYMARIE, M; MOLLIER, J. (orgs.) La belle époque des revues. 1880-

1914. Paris: Éditions de l’IMEC, 2002, p. 11-12.

10 Affaire Dreyfus foi um movimento em defesa de um soldado do exército francês, judeu, falsamente

acusado de traição. A ocasião suscitou grande debate intelectual, que se tornou um combate político efetivamente, dividindo a classe de universitários entre dreyfusards e antidreyfusards, principalmente entre 1894 e 1906. Cf. CHARLE, C. Nouvelles représentations et nouveuaux combats. In:_____. CHARLE, C. Les intellectuels en Europe au XIX siècle. Essai d’histoire comparée. Paris: Seuil, 2001, p. 285-361.

11 Exemplo interessante é um uma seção sobre “historiadores modernos da Alemanha”, em que se

publicou, por exemplo, um perfil bastante elogioso de Leopold von Ranke. Cf. TAILLANDIER, S.R. Historiens modernes de l’Allemagne. Leopold Ranke. Revue des deux mondes. Paris, v. 6, avril-juin, 1854.

12 Na Annales politique et littéraires foram publicadas resenhas de livros de Lucien Febvre e Marc

bastante ecumênico. Fundada em 1883, a revista foi uma das que atingiu maior número de assinantes no período, alcançando 70.000 em 1907, e tiragem em torno de 100.000 exemplares.13 Esse público da Annales politiques et littéraires era formado majoritariamente pela pequena burguesia, sobretudo funcionários públicos e profissionais liberais, não apenas parisienses, como característico de outras revistas, mas com grande penetração nas províncias francesas.14

Outra também importante foi a Revue Bleu, que fundada em 1871 e editada até 1933, tinha um caráter mais universitário. A Nouvelle Revue, fundada em 1879, manteve-se até 1940, e expressava pautas republicanas e nacionalistas. A Revue de

Paris, fundada em 1894, com perfil ideológico de esquerda, teve entre seus

diretores o historiador Ernest Lavisse, e publicava desde literatos russos como Tolstói até acadêmicos como o filólogo, filósofo e historiador Ernest Renan e o sociólogo Celestin Bouglé; foi editada até 1970.15

Interessante observar que esse processo de crescimento das revistas, na França, foi muito característico das décadas 1870 a 1910, quando se criou entre 100 e 150 revistas novas por década. A década de 1911 a 1920, período da Guerra, representa uma baixa muito expressiva, com a criação de apenas 63 títulos. Note- se, portanto, que as revistas foram extremamente afetadas pela situação política e de crise econômica, que colocou os custos de edição e organização em novos patamares. A década de 1920 a 1930 representou uma pequena retomada, com a criação de 112 revistas. Entretanto, a partir de 1931 e ao longo de todo o século XX, a média de criação de revistas por década será inferior a 50. Uma redução expressiva que poderia ser explicada por uma certa “saturação” do mercado editorial e, particularmente no caso das revistas científicas, pela crescente internacionalização, com maior presença das revistas estrangeiras. 16

13 MOLLIER, J. La revue dans le système editorial. In: PLUET-DESPATIN, J; LEYMARIE, M;

MOLLIER, J. (orgs.) La belle époque des revues. 1880-1914. Paris: Éditions de l’IMEC, 2002, p. 43.

14 MARTIN, M. La revue et son lectorat. L’exemple des Annales Politiques et Littéraires. In:

PLUET-DESPATIN, J; LEYMARIE, M; MOLLIER, J. (orgs.) La belle époque des revues. 1880-

1914. Paris: Éditions de l’IMEC, 2002, p. 75-79.

15 CHARLE, C. Revues et jounaux specialisés 1880-1914. In: _____. Le siècle de la presse (1830-

1939). Paris, Seuil, 2004, p. 169-200.

16 Cf. TESNIÈRE, V.; BOUQUIN, C. Une morphologie des savoirs. La revue depuis 1800. Revue

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