Partimos para a aplicação do estudo em uma narrativa oral. Serão analisados dois exemplos díspares, mas que são relevantes do ponto de vista da apropriação da narrativa como determinação da realidade e a aplicação projetiva da mesma. No primeiro caso, aponta-se o exemplo de visões espirituais, num caso jurídico de demarcação de terras pela Funai, na reportagem de 30 de setembro de 2012, com o título ―Antropóloga bebe chá em ritual xamânico e tem 'visão' para laudo‖:
Uma antropóloga contratada pela Fundação Nacional do Índio (Funai) é acusada de elaborar um laudo para demarcação de uma terra indígena depois de ter participado de um ritual de xamanismo com o pajés da comunidade. A denúncia é dos membros da Comissão em Defesa da Propriedade, que reúne produtores rurais e pequenos empresários dos municípios de Getúlio Vargas, Erebango e Erechim, no norte do Rio Grande do Sul. ―Sabemos que o Brasil tem uma enorme dívida com os povos indígenas, mas o governo não pode corrigir uma injustiça cometendo outra. Vão tirar 300 famílias de trabalhadores para dar a 15 índios‖, argumenta Roberto Rota, integrante da Comissão. Segundo eles, a antropóloga Patrícia Melo elaborou toda a documentação depois de ter tido uma visão de que a área da reserva Mato Preto, de 4 mil hectares, pertencia a antepassados dos indígenas. ―Os antropólogos que atuam com questões indígenas costumam fazer juramentos de fidelidade a estes povos e participam até de rituais com eles. Foi o que aconteceu neste caso, em que a terra foi demarcada a partir de uma visão que a antropóloga teve‖, acrescenta Rota. O decreto criando a reserva foi publicado no Diário Oficial da União pelo Ministério da Justiça na última sexta-feira (28.9). O deputado federal Jerônimo Goegen (PP-RS) vai apresentar um decreto legislativo para suspender os efeitos da decisão, que afeta diretamente 300 famílias de pequenos agricultores.12
Esse relato que mais parece uma anedota (no sentido que ocorre à margem de narrativas mais importantes), mostra como é possível vincular a visão com aspectos existênciais, no caso da antropóloga – não identificada na reportagem – definiu o resultado de uma ação judicial. A decisão por sua vez tem um impacto importante para os indígenas, visto que é positiva a seu favor, por outro lado, abre um conflito com os agricultores que querem a propriedade das terras.
Não se tem acesso à visão em si, somente que se trata dos ancestrais daquele povo e, nesse sentido, categoriza-se como uma visão espiritual e ou sobrenatural, pois para as culturas indígenas a ancestralidade é sempre de cunho espiritual. Porém, pode-se dizer que, do ponto de vista do ―homem branco‖, se trata de uma visão cultural, partindo do princípio que a
12 http://www.olhardireto.com.br/noticias/exibir.asp?id=283082
antropóloga estava envolvida na pesquisa para a escrita do laudo, e dessa forma, teria se dando conta da ancestralidade da terra durante o ritual mencionado, propondo uma saída à lá
consciência histórica (RICOEUR, 2010). Nesse contexto, pode-se demonstrar que a visão tem
um olhar duplo e pode ser validada de mais de uma forma.
Outro exemplo, mais emblemático, é a visão do Padrinho Sebastião. Sebastião Mota de Melo, mais conhecido como Padrinho Sebastião, é um líder religioso brasileiro fundador da entidade religiosa CEFLURIS. Visão relatada por Alex Polari no livro O evangelho
segundo Sebastião Mota:
Tomei o Daime e fui para o meu cantinho. Era uma Concentração. Estava todo mundo concentrado e eu como besta, de vez em quando dava uma olhada. Via tudo quieto, aí eu me aquietava também ... Não sentia nada ... Olhava os outros, tudo quieto. Com um pouco começou uma fervilhança de um lado do corpo, passou pro outro, eu pensei: "o tal negócio tá chegando." Eu fui criando medo e me deu uma desimpaciência, comecei reparar nos outros. Eu quis sair do lugar onde estava, andei na pontinha do pé, mas quando chego bem perto de onde a gente tomava o Daime ele me deu um assopro. Eu achei tão fedorento! Ai voltei para trás. Quando eu vou chegando no banco para me sentar de novo, uma voz falou: "o homem perguntou se você era homem e você só fez é gemer!" Foi aí que o negócio aconteceu. O mundo acabou-se! O corpo velho foi abaixo. O corpo no chão, e eu, já fora do corpo, fiquei olhando para ele. E me sentia alegre, não tinha nada de doença só quem sofria era o corpo que estava lá estirado. Nesse momento se apresentaram dois homens que eram as duas coisas mais lindas que eu já vi na minha vida! Brilhavam como o Sol! Mesmo que fossem feitos apenas de fogo não era nada, porque o ser era muito mais bonito ainda! Traziam uma aparelhagem que parecia muito pesada. Quando eles chegaram, pegaram meu esqueleto todinho na mão. Puxaram meus ossos por inteiro, que nem uma espinha de peixe. Olhavam e reviravam aquela ossada, separando a costela do espinhaço, depois danaram-se a tirar tudo. Viravam e limpavam tudo. Me mostravam tudo. De repente os ossos sumiram, quando dei conta já estavam no corpo. Ai, viraram a carcaça que sobrou e partiram em pedaços, pendurando tudo nuns ganchos. Puxaram para fora o intestino e ficaram com ele todo na mão. Depois pegaram o fígado, cortaram, abriram, e me mostraram. Tinham três bichos do tamanho de um besouro. Eram eles que andavam para cima e para baixo, provocando todo aquele mal. Um dos homens veio bem pertinho de mim, que a tudo observava fora do corpo, e disse: "Estão aqui, quem estavam lhe matando eram esses três bichos, mas não tenha medo que desses você não morre mais." Ai eles meteram os órgãos e o esqueleto dentro do corpo e fui acordar já dentro dele. Não sabia mais pra onde tinham ido os doutores, nem por onde tinha estado, levantei e bati a poeira. Foi assim que fiquei bom e você ainda hoje não vê remendo dessa operação que recebi. Graças a Deus fiquei bonzinho, igual um menino. Já no dia seguinte era como se eu nunca tivesse tido nada e estou aqui ate hoje (POLARI, 1998, 59-60).
No relato exemplificado, observa-se um misto de experiências espirituais, em que seres de fogo, que brilhavam como sol, realizaram uma cirurgia no corpo de Sebastião que foi
despedaçado e reunido novamente, como ocorre nas visões tradicionais dos xamãs siberianos (ELIADE, 2002) que têm seus corpos costurados e seus esqueletos cozidos em grandes caldeirões etc. Constata-se o quadro geral da visão.
A experiência de cura aqui é fundamental, pois Sebastião tinha uma enfermidade da qual buscava tratar no trabalho espiritual. Durante a visão, ele pôde ver seu corpo sendo curado da tal doença e afirma que o ocorrido se efetivou na realidade material. Sebastião seguiu como membro da religião. Como constatado nos quadros de Amaringo, seres sobrenaturais realizam as curas durante as sessões com poderes fora desta realidade ordinária, que vêm e vão deste mundo como passe de mágica.
Essa narrativa é bem figurativa e demonstra o impacto que causa sobre a consciência, as imagens são vivas e pertencem a um território imagético próprio do narrado, que por sua vez se torna lembrança e flerta com a imaginação. Mas não se trata de uma visão inventada, e sim uma visão que precisa ser contada para que outros tenham acesso à experiência de uma temporalidade distendida da consciência ordinária.
O sentido amplo da narrativa é imagético, por mais que exista em algum momento o diálogo entre os seres de fogo e Sebastião, a visão é totalmente material, são exemplos do imaginário, mas que se intercalam com imagens não conhecidas do sujeito, produções imagéticas típicas de jornadas xamânicas, principalmente com uso de plantas enteógenas.
Apesar de tratar-se de um relato oral, e posteriormente escrito, permite-se traçar uma análise fenomenológica partindo do relato e voltando para a experiência de temporalidade do padrinho durante a visualização. Pode-se citar que o mesmo se viu tomado por uma grande ansiedade, a temporalidade está totalmente tomada pela relação de intersubjetividade com o grupo, como se comportam e como reagem a seus movimentos. Sebastião se vê tomado por uma compressão da espacialidade, que pede certa lentidão de movimentos (uma concentração) e certo cuidado com o silêncio no local, sem movimentos extravagantes. Um maneirismo toma conta do padrinho, que se vê envolto a um grupo desconhecido e têm reações diversas de espanto com situações adversas (ser defumado).
Esse ambiente de ansiedade é rapidamente tomado por um ambiente de extrema tranquilidade, momento em que Sebastião se vê desmaiando e sua alma saindo do corpo, e passa a observar seu corpo doente. Sua consciência, por sua vez, se mantém tranquila, em paz, com a sensação de que se libertou do corpo moribundo. Experiência maior é a chegada dos seres de fogo. Sebastião observa de forma muito tranquila enquanto seu corpo é despedaçado e reconstruído, sem nenhuma perturbação, na verdade, com certa curiosidade.
Quando se da conta, já está no próprio corpo e nesse processo não se passaram nem minutos, porém, uma cirurgia complexa acaba de ser executada. Não há neste sentido nenhuma crítica sobre a duração da narrativa, pois do ponto de vista visionário a temporalidade é fora do nosso escopo de evidência natural. Ou ainda, que a narrativa visionária inaugura outro campo de evidência sobrenatural, que demanda temporalidades diversas da ordinária, e que compreenda aspectos não coerentes com a realidade cotidiana.
Todos esses elementos ocorrem enquanto Sebastião está deitado, e toda a temporalidade se sobrepõe, entre mundo vivido, vivenciado e visão espiritual. Nesse campo de composição narrativa, a consciência que figura a temporalização vai e vem de tempos míticos ao ordinário numa passagem poética para a narratividade da experiência. A visão é sobreposta à realidade e vice-versa, transportando sentidos que participam de ambos os planos, e movimentos de categorias naturais e espirituais de um quadro a outro num presente contínuo.
Aponta-se aqui uma aplicação da metáfora como mecanismo de observação do fenômeno narrado, onde o diagrama esquemático da experiência é disposto como duração à consciência de forma poética, em que a intersecção de discursos ordinário/extraordinário e a tripartite doação da temporalidade é comprimida num eterno agora, que se enraíza como protensão no horizonte de sentido. Esse desenho é a metáfora, como capacidade de constituição e elo de transposição entre as abas temporais. A duração permite que se institua a consciência como memória de fluxo de vividos. Porém esses vividos são um sentido maior, de ordenação da temporalidade. Dessa forma, a narrativa tem função fundadora e não secundária na constituição da consciência humana.
Tal fenômeno, observado em um estado xamânico de consciência, tem elementos totalmente diversos do ponto de vista ordinário, e é elemento de uma composição temporal específica, que deve ser estudada sobre novas bases fenomenológicas, cujo movimento só é possível com a introdução de uma perspectiva hermenêutica.