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REGULATION DE LA DISTRIBUTION D’EAU CHAUDE : Distribution d’eau chaude :

168 dirigia a mim, “você está preocupado com questões sociais que são importantes, mas esteticamente essa música é ruim”. Quase como se dissesse assim, a gente não deveria estar alimentando nenhuma discussão em torno dessa música, e eu retrucava falando, como não? Essa música já existe há pelo menos trinta anos, ela movimenta milhares de pessoas no Rio de Janeiro; os bailes, lá no Rio, onde essa música surgiu e faz a festa das pessoas, são inúmeros, são dezenas de bailes acontecendo semanalmente, bailes que chegam a reunir mais de duas mil pessoas por noite, são inúmeros artistas, enfim. Até como curiosidade etnomusicológica, eu acho que o fenômeno seria interessante de ser investigado, seria interessante tentar entender que “música ruim” é esta que faz a alegria de tanta gente. Enfim, eu estou dando alguns exemplos...

Benedito: não generalize esse “música ruim”. O chato de você falar comigo – eu

reconheço – é que eu sou três pessoas. Neste sentido, quer dizer, eu tenho de apertar os parafusos de acordo...

[...] como eu disse, eu próprio sou tripartido – o que eu não gosto. [...] eu não gosto de ser, quer dizer, de ter um critério para lidar com essa escola, que esta lá no topo sem olhar pra baixo; [de] ter um [critério] etnomusicológico, que não faz juízo de valor de tipo nenhum; e ter a atitude que eu tenho de usar quando se trata de minha própria

cultura [...] aí eu não posso ser neutro, Eduardo.

Quer dizer, tratando de minha própria cultura, eu tenho de utilizar, dentro da crítica,

num sentido não neutro, entende? Ou seja, se eu acho que minha música não está boa, eu tenho a obrigação de ver se ela melhora. Mas, se eu estou lidando com a música do outro, que eu não sei, e nem do que se trata, eu não posso tecer valores. Pelo contrário, eu tenho de aprender com ela, o que é que é, o que significa, não é? Por outro lado, a

gente tem uma herança musical que precisa ser preservada. Quer dizer, eu não estou tonto, para jogar tudo no lixo, ou simplesmente descartar isso. Claro que isso pode ser até reduzido, ou pode ser... sei lá. Bem, é uma questão de juízo, né?, quer dizer, a questão da crítica está aí o tempo todo. [grifos meus]

Aqui, em nossa entrevista recente, eu o exortava a reconsiderar o qualificativo “ruim” que ele havia aplicado, em nossos debates anteriores, a um dos meus tropos favoritos daquela época – a “egüinha pocotó”, sucesso do Mc Serginho de 2003, e que eu utilizava como pretexto para problematizar nossas crenças sobre estética e valor em arte e em música, e com vistas a discutir as implicações educacionais de tudo isto.

O trecho citado abaixo, novamente colhido de um dos e-mails enviados por Benedito à mailing list, naquele mesmo período, ajuda-nos a compreender melhor sua posição acerca das questões educacionais implicadas numa necessária e inescapável atitude de crítica-valorativa:

... Finalmente, Luedy, não houve nenhum recado para que você não apareça no Seminário, mesmo que você nos force a reconhecer uma detestável relevância cultural e social na egüinha. Mas faço um apelo, desde quando você é músico e educador. Temos de conjugar os aspectos

artísticos com os sociais. Benedito 1 e 2 são uma ficção, partes de uma mesma pessoa. Toda a teoria à parte, nada adianta se não chegamos a

um julgamento de valor e a um melhor padrão de qualidade. Você não pode ser tão neutro que não reconheça nível ruim, a não ser que sua neutralidade seja indiferença, o que não é absolutamente seu caso, e mesmo que você tenha de partir daí para melhorar as coisas. Educadores

têm de ter uma memória muito clara. Não devem se esquecer dos monumentos artísticos grandiosos que as culturas do mundo produziram. Minha preocupação é que estejamos nos esquecendo disto nesse navio, sem rumo definido, que é a Escola que amamos. [grifos meus]

É interessante perceber como o Benedito “tripartido” já era abordado no segmento citado acima para evocar uma necessária atitude crítica, não-neutra, em relação às músicas que seriam, em última análise, “ruins” – quer do ponto de vista estético, quer do ponto de vista moral. O Benedito 1 e o Benedito 2 se encontrariam amalgamados num terceiro, nem exclusivamente “erudito-canônico”, nem somente “etnomusicólogo- relativista”, mas a soma dos dois, o que lhe permitiria ser critico de sua própria cultura.

Digno de nota também é a menção aos “monumentos”, em seu apelo à relevância da preservação de uma herança cultural, cuja memória deve ser cultivada pelos educadores. Porém, estaria aqui a monumentalidade dos bens culturais e artísticos despida de considerações acerca das condições sociais, políticas e históricas pelas quais certas tradições seletivas determinam o que deve ser preservado e cultuado?

Ao articular sua preocupação com os juízos de valor que devemos fazer, a partir de nossa própria cultura, com o papel dos educadores na preservação das obras admiráveis, Benedito, a despeito de seu relativismo cultural informado pelos aportes teóricos da etnomusicologia, termina por estabelecer uma agenda educacional cujas implicações culturais e políticas podem vir a ser, em última análise, surpreendentemente, conservadoras. A questão que se coloca aqui é: o que fazer com a diversidade cultural quando esta se dá no interior de uma mesma cultura? Ou, numa outra formulação, quais serão os referenciais culturais válidos que poderão divisar os limites do que temos como “a minha própria cultura”? Quem se encontrará autorizado para apontá-los?

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Formalismo intra-estético: o ponto de vista “estritamente”

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