Como vimos no tópico 2 desta pesquisa, os índices de proficiência em leitura ainda estão distantes do ideal, porém se percebe, a cada ano, um avanço promissor no desenvolvimento da proficiência de leitura dos alunos da rede pública de ensino. Isso certamente se deve aos muitos projetos de leitura que estão sendo desenvolvidos atualmente no estado do Ceará.
Podemos citar alguns deles, como o “Agentes da Leitura”, financiado pela Secretaria de Cultura (Secult); o “Dia de ler. Todo dia!”, que é desenvolvido em Acopiara e em Caucaia; o “Eu sou cidadão”, coordenado pela Associação para o Desenvolvimento dos Municípios do Estado do Ceará (APDMCE) em parceria com a Fundação Demócrito Rocha; o “Vidança leitura”, que são oficinas e cortejos que levam a contação de história para as ruas da Barra do Ceará, um bairro de Fortaleza; a “Feira do livro”, em Crateús; o projeto “O aluno é o autor”, realizado na Cidade dos Milagres; o programa “Círculos de leitura”, que contempla todos estados do Brasil; e o projeto “Amigos da Leitura”, que acontece em Assaré. A título de informação e divulgação desses projetos, às vezes poucos conhecidos pelos professores, explicitarei alguns deles, porém com a consciência de que ainda devem existir muitos outros interessantes projetos Brasil afora que não são explorados como deveriam.
O projeto “Agentes de leitura” do Ceará foi o pioneiro no Brasil, sendo uma iniciativa da Secretaria de Cultura do Estado/SECULT juntamente com o Fundo Estadual de Combate à pobreza/FECOP, que, a partir de 2006, viabilizou a democratização do acesso ao livro e à leitura através de muitas atividades baseadas em acervos bibliográficos que, a
posteriori, foram acrescentados ao acervo das bibliotecas públicas (municipais ou comunitárias). Nesse projeto, cada Agente acompanha o processo de leitura de 25 famílias que são cadastradas por ele. Dentre as famílias cadastradas pelos agentes participantes, são escolhidas, pelas secretarias municipais de Educação, de 41 municípios e em 188 localidades de grande vulnerabilidade social no interior do Ceará, (determinados pelo FECOP, com base nos critérios técnicos e no Índice de Focalização dos Agentes de Leitura/FAL, elaborados pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará/IPECE), apenas algumas famílias para participar do projeto.
O segundo projeto mencionado é o “Dia de ler. Todo dia!”, que é uma iniciativa de abrangência nacional para o incentivo à leitura cuja culminância está marcada para o dia primeiro de outubro de 2016. A ação tem como objetivo mobilizar milhares de pessoas em todo o Brasil em atividades individuais ou coletivas de leitura. Este projeto foi iniciado em Barueri, São Paulo, mas quem quiser participar deve postar mensagens, fotos e vídeos utilizando as redes sociais relacionadas à leitura e usando a hashtag #diadelertododia.4
O terceiro projeto em destaque é o “Eu sou cidadão”, que é coordenado pela Associação para o Desenvolvimento dos Municípios do Estado do Ceará (APDMCE) juntamente com a Fundação Demócrito Rocha. O objetivo desse projeto é aumentar o acesso à leitura pelas crianças e pelos adolescentes cearenses e promover o protagonismo juvenil por meio da leitura. As atividades do “Eu sou cidadão” giram em torno da publicação de livros temáticos e acontece da seguinte forma: o coordenador de cada um dos municípios que participam recebe capacitação e 50 livros para serem distribuídos entre as crianças, que ganham, aproximadamente, três exemplares. Dessa forma, cada criança empresta o livro para que outras leiam, sendo ela mesma propagadora da leitura, ou seja, a intenção é que o maior número de pessoas tenha acesso à obra. Com isso, as crianças que participam do projeto realizam, de acordo com as temáticas dos livros, atividades culturais, como programas de rádio, peças de teatro e contação de histórias.
O quarto projeto é intitulado “Vidança Leitura”, é desenvolvido há quinze anos na comunidade Vila Velha, na Barra do Ceará, Fortaleza-Ce, e, em 2015, ganhou o prêmio “Por um Brasil de Leitores” do Ministério da Cultura. Esse projeto é realizado quinzenalmente há quinze anos pela Associação Vidança e acontece da seguinte maneira: um carrinho, com pufes e tapetes recheados de livros e crianças, chama a comunidade para
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Até o momento desta pesquisa, apenas os municípios de Acopiara e de Caucaia tinham feito a adesão ao projeto
participar das aventuras trazidas pela leitura. São oficinas e cortejos que levam a contação de histórias para as ruas. Com isso, alunos e comunidade têm ciência de que a leitura é muito mais do que obrigação de escola, de que a leitura pode trazer também prazer e se relacionar à realidade de cada um. O projeto atende aproximadamente 250 crianças e adolescentes, que são alunos da ONG no bairro, além da população beneficiada nas ruas. Enfim, o projeto incentiva que a biblioteca, com cerca de três mil livros, circule pela comunidade.
O quinto projeto, a “Feira do livro” de Crateús, é um evento que acontece mensalmente e que incentiva o hábito da leitura da população local. O slogan do projeto é: “Leve o seu livro para conhecer outros leitores”. Por meio de recursos de edital e de ajuda de doadores, livros são vendidos na feira a preços módicos. A feira é realizada através da parceria da Sociedade dos Amigos da Biblioteca Norberto Ferreira Filho (ONG promotora da feira), por meio do Edital de Incentivo às Artes (da Secretaria da Cultura/ SECULT), e pelos doadores de livros. Fazem parte dessa feira rodas de poesia, brincadeiras de criança, lançamentos de livros, palestras, depoimentos e shows culturais.
No projeto “O aluno é o autor”, que é realizado na cidade de Milagres, a 400km de Fortaleza, os alunos aprendem sobre cultura e tradições nordestinas, coletam mitos e lendas em suas comunidades e narram contos e crônicas para a criação de um livro. Para participar desse projeto, são escolhidos alunos da zona rural, matriculados no primeiro ano do Ensino Médio, que apresentam autoestima baixa e dificuldades na leitura e na escrita. Além desses alunos, foram inclusos no grupo alunos com nível adequado de proficiência em Língua Portuguesa para que servissem de apoio aos outros. Durante o projeto, são realizadas oficinas de criação literária em que são desenvolvidos estudos sobre tipologia e gêneros textuais, tipos de linguagem, além de figuras e funções da linguagem. Dessa forma, os alunos apresentam um satisfatório rendimento escolar, principalmente em Língua Portuguesa, e nas disciplinas que envolvem leitura e interpretação de textos. Além do rendimento nas disciplinas da escola, é notório também o desenvolvimento da autoestima e da confiança para superar os desafios do cotidiano.
O sétimo projeto é o “Círculos de Leitura”. Trata-se de um site5, idealizado pelo Instituto Braudel, patrocinado por grupos, como Avianca, IDES (Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Baixo Sul da Bahia), Instituto Votorantim, ProacSP (Incentivo à cultura do estado de São Paulo), Fundação Itaú social, Secretaria de Educação do
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Esse projeto, “Círculos da Leitura”, está disponível para qualquer estudante ou professor que se interesse em
Estado do Ceará, Unilever e Worldfund. Esse projeto visa apoiar o jovem estudante no desenvolvimento de sua identidade, da sua cidadania e no seu relacionamento com a comunidade. O site viabiliza a leitura e o debate em grupo, criando, assim, um espaço para que o adolescente compartilhe suas experiências e amplie o conhecimento por meio das palavras e do vínculo com o outro. Os objetivos desse projeto são:
• Reforçar a formação do caráter de alunos de escolas públicas a partir da identificação com os clássicos da literatura mundial, preparando tais jovens para o convívio em sociedade pautado por valores éticos e morais;
• Formar jovens lideranças capazes de multiplicar seu conhecimento e capacidade de reflexão junto aos colegas e à comunidade;
• Promover o hábito da leitura e desenvolver o gosto pela literatura clássica não apenas como atividade intelectual, mas também como produção cultural e artística;
• Desenvolver competências cognitivas, tais como análise, interpretação e associação, capacidades indispensáveis à formação de leitores críticos;
• Ampliar o acesso do jovem de baixa renda a recursos culturais dentro e fora de seu bairro, expandindo o seu repertório;
• Sistematizar e difundir novas estratégias e recursos educacionais para o aprendizado;
• Apoiar a formação de jovens e adultos que promovam a prática da leitura, reflexão e debate em suas comunidades;
• Apoiar a formação de jovens e adultos que promovam a construção, o acesso e o uso comunitário da biblioteca escolar. (Retirado do site www.circulosdeleitura.org.br)
Por último, e ainda podendo certamente citar outros, existe o projeto “Amigos da leitura” que é realizado, por exemplo, em Assaré e em Meruoca, no Ceará. Esse é um projeto que faz parte de outro maior, o “Eu sou cidadão”, idealizado pela APDMCE e a Fundação Demócrito Rocha, como já explicitado anteriormente. Na serra de Meruoca, por exemplo, foram desenvolvidas atividades, como: encontros semanais para socializar leituras; rodas de leitura interna; rodas de leitura nas escolas; planejamento das atividades mensais envolvendo leitura; elaboração do calendário anual de atividades; visitas às instituições públicas; atividades pedagógicas na biblioteca; apresentação de relatórios individuais; participação nos eventos municipais; viagem à cidade de Sobral para participar do Congresso “Manhã Literária”; participação de oficinas (rádio, teatro, contação de histórias e modelagem em
gesso); depoimentos orais sobre livros lidos; visita ao caminhão de memórias do Patativa do Assaré.
De fato, grande é o esforço da Secretaria de Educação do estado, dos coordenadores desses projetos e dos professores de Língua Portuguesa em aumentar os índices de proficiência de leitura dos alunos e, assim, melhorar a competência comunicativa deles. Esse esforço já está trazendo bons resultados, inclusive dentro das escolas, pois percebemos que os alunos estão, de certa forma, lendo mais, no entanto devem surgir cada vez mais iniciativas como essas para que possamos atingir o nível realmente almejado. Além disso, deve haver, também, políticas que incentivem cada vez mais a capacitação do professor para que as aulas de leitura ultrapassem de fato as barreiras da sala de aula e façam o cidadão em formação interagirem criticamente em sociedade. A aula de leitura não é, como já dito anteriormente, uma mera decifração de códigos, mas sim uma aula em que o professor incentive em seu aluno um olhar questionador e crítico sobres ações sociais.