A agropecuária sempre ocupou uma posição de destaque na história argentina. Os rumos políticos e econômicos, bem como a organização social do país, possuem estreitas relações com o campo desde o período pós-independência. Dali saíram presidentes e ministros que ditaram os rumos da nação. O país recebeu estrangeiros no maior processo de migração do homem na história do mundo contemporâneo, entre finais do século XIX e início do XX, majoritariamente europeus que viam no imenso hinterland argentino a oportunidade de recomeço no continente americano. Seus filhos e herdeiros ocupariam as fábricas das grandes cidades, formando uma nova classe, urbana e industrial, mas que ainda conservaria consigo os traços do campo e as relações construídas ao longo de gerações.
Fruto da ordem desencadeada pela Revolução Francesa e pelas Guerras Napoleônicas, o processo de independência argentina iniciou-se já nos anos de 1810. Apesar do início precoce, o jovem país foi gozar de relativa estabilidade política em meados do mesmo século, após décadas de conflito entre unitários, que advogavam o centralismo de Buenos Aires, e federalistas, que defendiam maior descentralização e autonomia para as províncias. Havia a necessidade de se conhecer e desbravar as possibilidades do país em tempos de paz. Caravanas de cientistas estrangeiros chegavam à Argentina atraídos pela criação de jardins de aclimatação, museus, institutos e cátedras, a partir da necessidade de se conhecer e explorar os recursos naturais existentes e do início de estudos botânicos e zoológicos (GUTIÉRREZ, 1991, p. 672). A región pampeana, área geográfica que também contempla partes do estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, e o território do Uruguai, é a área que concentra as terras mais férteis e cuja posição foi o epicentro da ocupação desde a invasão europeia, no século XVI, sendo ainda a região mais populosa e desenvolvida. Contempla uma imensa parte do território argentino, compreendendo a quase totalidade da província de Buenos Aires e partes das províncias de Córdoba, Entre Rios, La Pampa e Santa Fé, estendendo-se por 52.299.700 hectares7, dos quais 98,4% são aptos à agricultura. O clima predominantemente temperado e o relevo plano favorecem o plantio de itens como o trigo, o milho e a produção pecuária. (GOMEZ et ali, 1991, p. 77-78).
Figura 2.1. – Mapa da Região Pampeana
Fonte: Elaboração própria
Desde fins do século XIX, a produção rural da região pampeana encontrava-se organizada em uma estrutura que combinava agricultura e pecuária com a pretensão de transitar entre um e outro em momentos de crise e atenuar eventuais riscos. Esse modelo combinava três elementos distintos: a estancia ganadera, a chacra agrícola e a mão de obra temporária e assalariada. Contou, para a consolidação desse arranjo, o clima favorável à pecuária extensiva e ao cultivo de grãos na região, uma forte concentração de terras (fruto da organização política e econômica do país após a independência) e a disponibilidade de mão de obra temporária fora da região e disposta a migrar em épocas de colheita (SÁBATO, 1980, p. 71).
A estancia ganadera, latifúndio dedicado à invernada do gado e cuja posse era limitada a um pequeno grupo que formava a elite política e econômica argentina, era o ponto de partida de toda a estrutura produtiva8. Dela derivava a chacra agrícola, proveniente da divisão das terras da estancia que não estivessem dedicadas à pecuária em lotes que iam de 100 a 250 hectares, os quais eram cedidos por arrendamento, em contratos que geralmente duravam três anos. A família arrendatária dedicava-se principalmente à produção de grãos e contava com o auxílio de mão de obra volante na época de colheita. Após o término do contrato, deveriam deixar a terra semeada com alfafa para a posterior ocupação pelo gado do estanciero e procurar um outro lote para arrendamento, reiniciando o ciclo9. Segundo Jorge Sábato, a flexibilidade desse modelo, variando agricultura e pecuária de acordo com as condições apresentadas, permitiu o êxito da expansão agrícola argentina que se verificou entre 1880 até fins da década de 1930. A própria estrutura socioeconômica da pampa oferecia uma opção simples e imediata frente a eventuais crises e à necessidade de transformar a forma de produzir, transitando da agricultura, uma atividade com maior demanda de mão de obra, para a pecuária, menos exigente nesse aspecto (SÁBATO, 1980, p. 71; LATTUADA, 1986, p. 21).
Parte importante na conformação da realidade política e econômica da Argentina no período devia-se aos latifundiários e às suas associações classistas, existentes desde o início do século XIX. A primeira delas foi a Sociedad de Laboradores y Hacendados, fundada em 1819 e que reunia boa parte dos grandes proprietários, apoiadores e principais beneficiados com o fim do jugo espanhol. A sua existência se estendeu até 1857 e seu último presidente, José Martinez de Hoz – membro de uma família de estancieros e cujo um dos herdeiros ocuparia o cargo de ministro da Fazenda durante a ditadura militar iniciada em 1976 – foi um dos fundadores e o primeiro mandatário da Sociedad Rural Argentina (SRA), entidade formada pela elite pampeana, majoritariamente pecuarista. A SRA defendia a agricultura e a pecuária como os principais caminhos para o desenvolvimento da nação, adotando premissas liberais que, no entanto, restringiam-se à economia. No aspecto político, defendia a ideia de que os rumos do país deveriam ser traçados de acordo com os interesses dessa elite econômica, que conduziria o restante da população. Pertencer aos seus quadros representava compor o establishment
8 Segundo Jorge Sábato, uma estancia se estendia, em média, de uma a três léguas, podendo chegar a dez ou
mesmo vinte léguas. Uma légua corresponde a aproximadamente 2.500 hectares (SÁBATO, 1980, p. 71).
9 Como se vê, os arrendatários constituem-se como a parte mais debilitada dessa relação e o acesso dessa categoria
à posse da terra era praticamente impossível. A alta rentabilidade da terra e o desinteresse da elite política, proprietária de terras, na realização de políticas de colonização dificultavam ainda mais a situação dos chacareros. Leis que estabeleciam prazos maiores de arrendamento, de 4 e 5 anos, foram assinadas respectivamente em 1921 e 1932, visando contornar a insatisfação dos arrendatários e apresentar soluções para tempos de crise (LATTUADA, 1986, p. 21).
político que controlava o Estado e suas ações, caracterizado pelo fato de muitos presidentes e ministros pertencerem a SRA (MANZETTI, 1992, p. 590-591).
A chegada de Domingos Faustino Sarmiento à presidência em 1868 representou um marco decisivo na consolidação do perfil agrário-exportador e na expansão dos estudos em agricultura naquele país. Influenciado pelas transformações ocorridas nos EUA – onde o Congresso cedeu terras públicas aos estados para a criação de colégios agrícolas (land grant
colleges) e havia há pouco criado o seu Departamento de Agricultura –, o governo criou, em
1871, o Departamiento Nacional de Agricultura, visando a realização de experimentos agrícolas e a sua difusão entre os agricultores. O Instituto Agricola de Santa Catalina, cujas atividades se iniciaram durante essa presidência, seria uma das encarregadas dessa tarefa (GUTIÉRREZ, 1991, p. 672-673).
Em 1898, durante o mandato de Julio Argentino Roca, a estrutura do Departamiento foi elevada à categoria de Ministerio de Agricultura, contando para isso com a participação decisiva da SRA10 (MANZETTI, 1992, p. 593). Os anos seguintes caracterizaram-se pela
criação de estações experimentais, muitas delas por iniciativa de governos provinciais, como a
Estación Experimental de Tucumán, em 1909. A organização dessa estação inspirou a ação da Dirección General de Enseñanza y Investigación Agrícola, repartição vinculada ao governo
federal, que organizou as estações experimentais de Concordia, Alto de la Sierra, Güemes,
Pergamino, Rio Negro e Quatrachi, além de unidades de demonstração e subestações de trigo
espalhadas pelo país. Ademais, a partir de 1904, o Ministério passou a contar com uma divisão de Minas, Geologia e Hidrologia dedicada a exames topográficos e que, posteriormente, se empenhou em estudos sobre o petróleo (GUTIÉRREZ, 1991, p. 673; MYERS, 1992, p. 104).
A esta altura também se destaca a gênese dos estudos em genética, iniciados em fins do século XIX no Instituto de Santa Catalina por Alfredo Barabén, Angel Gallardo e Miguel Fernandez. W. Blackhouse, da Universidade de Cambridge, foi contratado para desenvolver estudos em melhoramento do trigo, enquanto Thomas Bregger iniciou, em 1923, estudos para a hibridação de milho na estação de Pergamino. Todavia, os primeiros exemplares de milho híbrido serão obtidos somente duas décadas depois, quando o Instituto de Investigación
Agrícola y Ganadera Angel Gallardo, da província de Santa Fé, desenvolveu as sementes Santa Fé nº2 e Santa Fé nº3. Em 1949, a Universidad de Buenos Aires (UBA) criou o seu primeiro
10 De acordo com Luigi Manzetti, a Sociedad Rural Argentina manteve o controle absoluto na estrutura do
Ministério até 1930. Entre 1910 e 1943, nada menos que doze dos catorze ministros que chefiaram a pasta eram oriundos de seus quadros. Mesmo durante o governo de Perón, marcado por conflitos com os grandes produtores, dos três ministros da Agricultura que estiveram à frente da pasta, dois eram da SRA e o terceiro fora indicado por eles (MANZETTI, 1992, p. 593).
exemplar de híbrido, já a estação experimental de Pergamino, onde as pesquisas iniciaram-se nos anos de 1920, vai lograr o seu intento somente em 1951, década na qual se inicia efetivamente a comercialização e se dá a popularização dos híbridos de milho entre os produtores11. Mesmo parecendo ser um momento de intensa atividade científica, a valorização da ciência no período se deu como reflexo da influência estrangeira e fruto da iniciativa de particulares. As medidas empreendidas se caracterizaram menos por uma política pública estrutural em ciência e tecnologia para a agricultura do que a ação mediante a formação de projetos de curto prazo e pela descontinuidade de recursos. Ademais, a cobrança por resultados imediatos e a incompreensão de que os resultados de instituições dessa natureza são observados principalmente em longo prazo levaram ao desestímulo da ação realizada pelas mesmas (OBSCHATKO, 1988, p. 78-79; GUTIÉRREZ, 1991, p. 674-676).
A década de 1930 marca um período de reordenação para a agricultura argentina. A partir de então, o Estado passou a desempenhar um papel crescente no processo de acumulação de capital através de sua presença na produção de bens e serviços, na gestão monetária, fiscal e no mercado de trabalho, por meio da criação de uma legislação trabalhista. Ademais, assiste-se a uma tendência mais favorável à indústria e ao surgimento de instituições destinadas a regular o desenvolvimento econômico. O ordenamento político foi interrompido com a destituição de Hipólito Yrigoyen e a ascensão do general José Felix Uriburu, que permaneceu no poder até 1932. A partir daí a aristocracia rural volta ao poder através de um governo de coalizão, período que ficou conhecido por Concordancia (LOPEZ, 2000, p. 148, 155).
No aspecto econômico, havia a urgência em propor estratégias que pudessem atenuar os efeitos da Crise de 1929, principalmente no setor agropecuário, além da necessidade de auxiliar o setor que era a principal fonte de divisas do país. Frente a isso, os grandes proprietários, outrora liberais, contaram com o decisivo auxílio do Estado para a salvaguarda de seus interesses, por meio de uma política cambial e tributária favorável aos seus anseios. A assinatura do Tratado Roca-Runciman com o Reino Unido – que garantiu o acesso à economia deste país por meio dos produtos argentinos em troca de tarifas alfandegárias preferenciais – foi benéfica
11 Edith Obschatko afirma que, paralelamente à ação do Estado, a iniciativa privada passou a atuar na produção de
sementes no final dos anos de 1940, valendo-se da formação dos cientistas e das linhas híbridas desenvolvidas pelos institutos públicos. Em 1959, foi aprovada uma lei que definia dois tipos de sementes, de pedigree aberto e fechado, em que a sequência genética do primeiro era de livre acesso e a do segundo era protegida e de acesso restrito aos laboratórios detentores. Essa legislação permitiu a apropriação definitiva das sequências de pedigree
aberto, criadas nas instituições estatais pelas empresas privadas, que as utilizavam na criação de seus próprios
híbridos e depois os classificavam como de pedigree fechado. No início dos anos de 1960, as maiores empresas do setor na Argentina eram estadunidenses, como a Cargill e Continental. Em fins da década seguinte, somente 3% dos híbridos de milho eram de pedigree aberto, com três firmas estrangeiras de posse de 75% do mercado (OBSCHATKO, 1988, p. 48-49).
principalmente para os britânicos e contou com o aval dos proprietários reunidos em torno da SRA. Ademais, em 1933, foi criada uma comissão reguladora de preços com a finalidade de proteger o campo argentino frente às oscilações no mercando internacional, medida que também agradou os pequenos e médios produtores (MANZETTI, 1992, p. 597).
A garantia do mercado britânico era de grande importância para a Argentina, visto tratar- se de seu mais significativo parceiro econômico. Os níveis econômicos e sociais que a colocavam como a principal potência latino-americana no período12 eram em muito devido às relações econômicas construídas desde o século XIX com o Reino Unido, caracterizadas por, segundo Carlos Escudé, uma “interdependência assimétrica” (ESCUDÉ, 1988, p. 12). A força dessa relação econômica fica ainda mais clara ao constatarmos que somente em quatro anos, no período entre 1912 e 1940, a Argentina não esteve entre os cinco principais mercados consumidores de produtos ingleses. De 1912 a 1939, o país sul-americano esteve entre os cinco maiores fornecedores britânicos, sendo que em oito anos a Argentina ficou atrás somente dos EUA. Essa situação se manteve até os anos de 1950, quando a hegemonia britânica foi substituída pela estadunidense. Desde a década de 1930, os laços entre EUA e Argentina se estreitavam, postura incentivada pelos norte-americanos, por entenderem que a aliança com os britânicos ameaçava a sua hegemonia no “mundo ocidental” após a Segunda Guerra Mundial (ESCUDÉ, 1988, p. 12-14).
Observamos também, a partir dos anos de 1930, um lento e contínuo processo de estagnação econômica comparada a mercados concorrentes. Até os anos de 1970, o produto interno bruto per capta sofre significativa queda quando comparado com países que haviam estado em situação de paridade, como Noruega, Suécia e Japão, o que em parte se explica pelo declínio de sua produção agrícola13. Nesse momento, iniciam-se transformações na estrutura produtiva agrícola mundial, ocorridas pela inserção de novos equipamentos, fertilizantes, disseminação do uso de sementes híbridas, plantas de alto rendimento e resistentes a pragas e pelo aperfeiçoamento de técnicas de produção, o que contribuiu decisivamente para a melhoria substancial da produtividade. A partir daí, nota-se o surgimento de uma lacuna entre a Argentina e países como EUA, Canadá e Austrália, no que diz respeito ao uso de tecnologia no campo, caracterizada principalmente pela ausência na adoção de medidas de longo prazo para a
12 Em 1937, a Argentina possuía um produto interno bruto per capta muito semelhante ao da França, duas vezes
maior que o da Itália e quase três vezes maior que o do Japão. A expectativa de vida e a taxa de alfabetização superavam às dos países do sul e leste europeu (ESCUDÉ, 1988, p. 7).
13 A escolha por uma política econômica baseada na industrialização também pode ser elencada como um dos
motivos para o declínio da agricultura. A título de ilustração, a participação do setor secundário no PIB argentino passou de 18,6%, em 1930, para 23,4%, em 1950, enquanto o setor agropecuário e silvícola diminuiu de 22,6% para 15,7% (LOPEZ, 2000, p. 156-157).
conformação de uma política de ciência e tecnologia, pela lenta melhora no sistema de transportes e pela debilidade da indústria de maquinaria agrícola, totalmente dependente de insumos estrangeiros (LOPEZ, 2000, p. 150, p. 152-153).
Além disso, cabe ressaltar uma condicionante importante para a definição desse cenário, o boicote dos EUA contra a Argentina entre os anos de 1942 e 1949, fator que abalou profundamente a economia argentina e atingiu em cheio o setor agrário-exportador. Vincula-se essa decisão à tendência pró-Eixo e à resistência argentina em compor o quadro latino- americano de apoio aos Aliados no conflito mundial. Contudo, devemos também salientar a rivalidade existente entre os países americanos, a passagem da hegemonia britânica (histórico parceiro comercial e diplomático dos argentinos) para os Estados Unidos da América, e o choque de correntes nacionalistas em auge no país. Une-se a isso o sugestivo fato representado pelo apoio dado ao boicote por figurões da política norte-americana, como Cornell Hull, secretário de Estado e ligado ao Farm Block (coalizão de latifundiários estadunidenses), e Henry Wallace, ministro da Agricultura e futuro vice-presidente, responsável por uma das medidas mais radicais então empregadas, o congelamento de fundos argentinos existentes nos EUA, na tentativa de enfraquecer um concorrente direto no abastecimento dos mercados europeus no pós-guerra (BARSKI; GELMAN, 2005, p. 301).
O objetivo era o de privar o país sul-americano de elementos vitais para a sua economia, muitos dos quais eram provisionados exclusivamente pelos estadunidenses durante o conflito. O boicote influenciou decisivamente no declínio da produção e na participação argentina no mercado mundial agrícola, ao limitar a entrada de insumos como combustíveis, ferro, aço e borracha, visto que as deliberações do bloqueio se estendiam aos aliados dos Estados Unidos. Além disso, foram negadas licenças para exportação de máquinas, peças de reposição e material para as linhas férreas, produtos químicos, equipamentos para a extração de petróleo, ferro e carvão para a Argentina, buscando, com isso, aumentar a já vulnerável situação do país. Os EUA ainda coagiram os demais países latino-americanos para que limitassem as trocas comerciais e pressionaram o Reino Unido, até então o principal parceiro econômico, a refrear consideravelmente suas exportações ao país, cogitando, inclusive, um embargo total na relação entre ambos. Todavia, essa medida foi negada pelos britânicos, temendo uma interferência no abastecimento de carnes. Mesmo assim, logrou-se limitar os contratos de longo prazo entre os britânicos e argentinos (ESCUDÉ, 1988, p. 27).