A rede social tem capacidade de promover os atores sociais/virtuais em conexão, por outro lado, ela pode ser um mecanismo ideal de humilhações e insultos, principalmente quando se refere à questão da ―moral‖ feminina, como foi demonstrado na etnografia online de ―feminismo sem demagogia – original‖ e as consequências trágicas do Revange Porn. Pelas próprias análises que essa dissertação desenvolveu sobre a ciborgue coquete e as comunidades femininas do Facebook, nos capítulos anteriores, compreende-se que para sociedade, a mulher carrega a necessidade de uma moral, que atenda aos preceitos patriarcais da comunidade imaginada, conforme demonstrado no segundo capítulo, quando mencionado os estudos de Tönnies (1982) fundamentando o papel materno e paterno na família da comunidade tradicional.
Como essa condição, pretende se explicar, a partir do conceito do ―panóptico‖ desdobrado na vida reacional do universo virtual, esse capítulo inicia-se explicando a dimensão desse conceito em sua essência, apresentado por Foucault (1999) em ―Vigiar e Punir‖. O autor inicia seu trabalho, explicando o tal conceito por sua função arquitetônica, desenvolvida por Bentham5, como princípio de controle pela visibilidade:
O Panóptico de Bentham é a figura arquitetural dessa composição. O princípio é conhecido: na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre; esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um escolar. (...) Tantas jaulas,
5 Panóptico é um termo utilizado para designar um centro penitenciário ideal desenhado pelo filósofo
Jeremy Bentham em 1785. O conceito do desenho permite a um vigilante observar todos os prisioneiros sem que estes possam saber se estão ou não sendo observados. De acordo com o design de Bentham, esse seria um design mais barato que o das prisões de sua época, já que requer menos empregados. O nome aplica-se também a uma torre de observação localizada no pátio central de uma prisão, manicômio, escola, hospital ou fábrica. Aquele que estivesse sobre esta torre poderia observar todos os presos da cadeia (ou os funcionários, loucos, estudantes, etc.), tendo-os sob seu controle. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Pan-óptico. Acesso em 3.10.2014, às 20h58.
tantos pequenos teatros, em que cada ator está sozinho, perfeitamente individualizado e constantemente visível. O dispositivo panóptico organiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente. (...) A visibilidade é uma armadilha. (FOUCAULT, 1999, p. 223-224)
Compreendendo as palavras de Foucault no contexto virtual, quando se refere à ―visibilidade como uma armadilha‖, fica evidente a vulnerabilidade feminina em rede social, pois o controle em relação à imagem e a moral feminina é constante e, como apresentado no início desse capítulo, o Facebook e as recentes mídias são capaz de promover e denegrir a imagem da atriz social/virtual.
Sob a interface de borda azul, existem tantos ―pequenos teatros, em que cada ator pode estar sozinho ou acompanhado, mas perfeitamente individualizado e constantemente visível‖, no entanto, conectados. E na ilusão da conexão, cria-se um elo que, como disse Bauman (2001), remete ao conforto da palavra: ―comunidade‖ no virtual. Por outro lado, esse conforto pode ser traiçoeiro; como estão todos encenando suas ―teatralidades pessoais‖ e conectados entre si, não se dão conta da prisão que pode exercer essas janelas, tampouco da armadilha que pode representar a super exposição em conexão, como um mecanismo de controle e ameaças interagindo com as recentes mídias:
Nessa publicação, percebe-se que o panóptico contemporâneo age por diversas esferas; primeiro, as ameaças pelo What’s app6, um aplicativo de mensagens que, quando programado, acusa quem está online, e se viu as mensagens, mas não respondeu. No caso dessa postagem, pareceu ser o
6 WhatsApp Messenger é uma aplicação multiplataforma de mensagens instantâneas para smartphones.
Além de mensagens de texto, os usuários podem enviar imagens, vídeos e mensagens de áudio de mídia. O software cliente está disponível para Android, BlackBerry OS, iOS, Symbian, Windows Phone, e Nokia.1 A empresa com o mesmo nome foi fundada em 2009 por Brian Acton e Jan Koum, ambos veteranos do Yahoo! e está sediada em Santa Clara, Califórnia. Competindo com uma série de serviços com base na Ásia, WhatsApp cresceu de 2 bilhões de mensagens por dia em abril de 2012 para 10 bilhões em agosto do mesmo ano. De acordo com o Financial Times , WhatsApp "tem feito para SMS em celulares o que o Skype fez para chamadas internacionais em telefones fixos ". Em Junho de 2013, o aplicativo alcançou a marca dos 250 milhões de usuários ativos e 25 bilhões de mensagens enviadas e recebidas diariamente. No dia 19 de fevereiro de 2014, o Facebook adquiriu a empresa pelo montante de 16 bilhões de dólares, sendo 4 bilhões em dinheiro e 12 bilhões em ações do Facebook, além de 3 bilhões de ações no prazo de quatro anos caso permaneçam na companhia. Seus fundadores serão
incorporados no conselho administrativo do Facebook. Disponível em
estopim para a ira e o controle. Os insultos dispensados por esse mecanismo de mensagens podem atingir toda a rede de conexão do ameaçador, caso ele queira dispensar o conteúdo íntimo e inapropriado à exposição. Outra ameaça veio pela foto do ex-namorado. Como descrito no capítulo anterior, os recursos de mídias móveis e a magia da tela digital, registrando e divulgando a intimidade compartilhada, tira a consciência da ideia que Foucault (1997) já alertava, onde a ―visibilidade pode ser uma armadilha‖. O acesso à foto íntima pode ser compartilhada com o parceiro e, a partir daí, passível de ser compartilhada com toda a rede de conexão da conexão do mesmo. Por último, a ameaça de morte e estupro sob a ameaça de divulgar as imagens no
Facebook na tentativa de coagir uma ―saída‖ com menina, faz alertar que a visibilidade feminina é vulnerável a todas as recentes mídias num exercício além da vigia e do controle, ou seja, elas podem ser usadas ameaçando a vida e a integridade física, pela coação perversa armada do poder da rede conexão.
Estendendo a análise da citação de Foucault, quando em cada cela está ―um louco, um doente, um condenado, um operário ou um escolar‖, entende-se que o autor coloca o controle desempenhado pelos seguintes poderes: a psiquiatria e medicina; o sistema judiciário, o mercado de trabalho e a educação como mecanismos de disciplina e controle.
Esses sistemas chamados por Foucault como ―disciplinadores‖, alastram-se e desdobram-se sempre de maneira conservadora no universo feminino e se evidenciam ao observar a matriz tradicional contornando as expressões ciberfemininas. Mesmo a citação se tratando de uma estrutura física com uma arquitetura apropriada para vigia, ela permite criar certas analogias partindo dessa mesma essência interiorizada, presentes em expressões na rede social ou na experiência cotidiana da vida.
Na rotina contemporânea, a medicina e a psiquiatria entram na esfera feminina com a solução adequada para remediar o que pelo senso comum é chamado de ―loucura‖ emocional da ―tensão pré-menstrual‖; a medicina ainda desenvolve os métodos clínicos de contracepção, em sua maioria, desenvolvidos para mulheres, impondo a responsabilidade da gravidez primeiramente a elas; o sistema educacional e de trabalho exigem das
responsabilidades femininas sem distinção de gênero, controlando-as sem levar em conta, a jornada doméstica e materna do trabalho da mulher.
Para suportar toda demanda que é exigida ao perfil feminino contemporâneo, a mulher urbana explora, vigia e disciplina, às suas necessidades, o trabalho de outra mulher, exercendo o desdobramento de outra relação de poder de raiz patriarcal, normalizado e pouco questionado.
Mediante a todas as funções atribuídas socialmente às mulheres, a prática do ócio é como um grande pecado. Foucault atribuiu ao desempenho em atividades em sucessivas, o funcionamento do poder totalizador do tempo e do trabalho, no qual o indivíduo passa a se considerar ―utilizável‖, como capacidade primordial da existência.
Recolhe-se a dispersão temporal para lucrar com isso e conserva-se o domínio de uma duração que escapa. O poder se articula diretamente sobre o tempo; realiza o controle dele e garante sua utilização. (FOUCAULT, 1999, p. 243)
Por essa citação e a observação das expressões femininas online, pode se constatar que esse poder exercido sobre a atividade no monopólio do tempo feminino é consequência da inserção, agora socialmente defendida da mulher no mercado de trabalho e sua responsabilidade tradicional com a família e o casamento. Esses poderes reagem na própria identidade feminina, quando a própria mulher normaliza arcar com as sobrecargas, e se conforma que este é seu papel.
A publicação, a seguir, da comunidade virtual ―mulheres perfeitas‖ pode exemplificar esse exercício de utilização total do tempo e trabalho que a mulher incorpora, de acordo com que o autor coloca acima, quando o intuito dessa publicação é justificar o tempo dispensado no Facebook:
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Analisando essa postagem, percebe-se que a condição de vigilância e controle permanente que a era das mídias móveis e sociais proporcionam é aproveitada pelas instituições jurídicas, familiares e relativas ao trabalho, pelo monitoramento como viabilidade da tecnologia. Essas instituições observam e controlam os movimentos dos atores em rede, pois o acesso a ela é visível pelos ―amigos‖, ou contatos em conexão, principalmente quando a caixa de ―bate papo‖ online está aberta.
Assim, a justificativa da postagem apresentada encontra-se como resposta ao âmbito das instituições e das sociabilidades que vigiam virtualmente. Percebe-se, então, que a incorporação e a reprodução das relações de poder seguem totalizando o tempo e o trabalho feminino, de maneira que essa dissertação considera análoga ao que Foucault chamou ―docilidade-utilidade‖, consequente dos poderes disciplinadores, anteriormente descritos.
A modalidade enfim: implica numa coerção ininterrupta, constante, que vela sobre os processos da atividade mais que
sobre seu resultado e se exerce de acordo com uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço, os movimentos. Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as ―disciplinas‖. (FOUCAULT, 1999, p. 225)
Quando a obra ―Vigiar e Punir‖ aborda a docilidade dos corpos, ela se refere ao soldado como consequência do estado e em sua conduta de disciplinaridade reagindo fisicamente nos corpos e, nos espíritos. Mas pode ser deslocada para pensar as expressões ciberfemininas refletindo a condição da mulher contemporânea. Isso ocorre porque, desde as matrizes tradicionais com base no casamento e família aos ditados midiáticos com suas infinitas mensagens sobre o que a mulher necessita consumir para ser mulher, fazem do ideal feminino um instrumento manipulado em torno dos poderes imperativos da cultura patriarcal e de mercado.
Esses referenciais inspiradores do feminino baseados na vaidade e beleza; no trabalho, no consumismo, na família e nos casamentos tradicionais são totalizadores do tempo e do ideal de feminino, assim como essa dissertação apresentou, são totalitários na cultura feminina ocidental.
O poder que estimula a identidade da mulher de acordo com a feminilidade tradicional consumista age em conjunto ao poder que explora seu trabalho para reduzi-la a uma ―bela‖ mãe trabalhadora e consumidora. A totalidade e o totalitarismo utilitarista desse fato deixam poucas brechas ou, muitas vezes, nenhuma para um posicionamento do pensamento feminino questionador e reflexivo.
Esse contexto cria uma cultura feminina que, em seu senso comum, não aceita o que a ela não se espelha, pois como a etnografia da comunidade ―mulheres perfeitas‖ e a imagem a seguir, coletada dessa respectiva comunidade do Facebook podem demostrar, é um ideal imposto desde os primeiros passos:
Portando, a ―docilidade-utilidade‖ está ativa e incentivada logo na primeira infância, quando o ideal de mulher segue inspirando ―docilidade‖, na absorção dos valores de consumo para construção de sua identidade, e ―utilidade‖ porque a outra face disso é se transformar num objeto de estímulo de prazer, na exacerbação da sensualidade como valor agregado.
O estudo de Foucault demostra que a força dos poderes disciplinares está evidente nos corpos, e a análise das expressões das ciborgues coquetes pode demostrar como a força desses poderes molda a atriz social/virtual de si. Enquanto em ―Vigiar e Punir‖ a docilidade dos corpos é consequência do estado exercendo a força da disciplina; nas ciborgues coquetes, fica evidente a força dos preceitos de ―beleza‖ fabricada pelas mídias e seus negócios multinacionais, conforme as referências de Naomi Wolf (1997), as quais estão presentes no primeiro capítulo dessa dissertação, exercendo o poder sobre a disciplina de seus corpos e assim orgulhar-se de si e acumular elogios tanto na esfera social como na virtual.
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A ciborgue coquete que alcança o desenho do corpo estipulado como ―belo‖ pela cultura de contemporânea de mercado, normalmente exibi como sua ―beleza‖ a consequência do seu esforço e disciplina, divulgando-os pelos atuais autorretratos chamados selfie, publicados em rede. Tal fato é um desdobramento do que Foucault já havia observado, muito antes de tal fenômeno:
Não é a primeira vez, certamente, que o corpo é objeto de investimentos tão imperiosos e urgentes; em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes muito apertados, que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações. Muitas coisas, entretanto são novas nessas técnicas. A escala, em primeiro lugar, do controle: não se trata de cuidar do corpo, em massa, grosso modo, como se fosse uma unidade indissociável mas de trabalhá-lo detalhadamente; de exercer sobre ele uma coerção sem folga, de mantê-lo ao nível mesmo da mecânica — movimentos, gestos atitude, rapidez: poder infinitesimal sobre o corpo ativo. O objeto, em seguida, do controle: não, ou não mais, os elementos significativos do comportamento ou a linguagem do corpo, mas a economia, a eficácia dos movimentos, sua organização interna; a coação se faz mais sobre as forças que sobre os sinais (…). (FOUCAULT, 1999, p. 245)
8 Disponível em http://www.feedbox.com/do-you-know-who-was-in-the-first-selfie. Acesso em 03.11.2014,
A convergência entre as análises do ciberfeminino e o culto à imagem do corpo, baseado nas diretrizes midiáticas, com as palavras de Foucault, emerge-se quanto ao fato de qualquer sociedade aplicar ao corpo uma prisão ideológica restritiva e cheia de obrigações, sob os poderes coercivos incorporados e reproduzidos em valores sociais. Em ambos os casos, o cuidado com o corpo ultrapassa esta noção do ―cuidar‖, se ativando em sua performance física e em sua ―organização interna”. É aí onde o poder atua no nível da ―mecânica‖ interior reproduzindo sua força e seu controle.
O estudo etnográfico nas comunidades virtuais do Facebook, selecionadas como fonte de dados para esse trabalho explicar o ciberfeminino e a condição da mulher contemporânea, constata que o ―poder disciplinar‖ faz parte de uma identidade feminina que o absorve inquestionavelmente este poder e ainda se enaltece por absorve-lo. Tal fato pode ser ilustrado pela comunidade ―mulheres que oram‖ e suas orações e preces, aparentemente inocentes, mas carregando intrinsicamente a obrigação da maternidade, do casamento hétero normativo, das obrigações do lar e a submissão ao patriarcado; como um mesmo vetor do modelo disciplinador controlador baseado nas estruturas patriarcais de séculos passado.
(...) O poder disciplinar é com efeito um poder que, em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior ―adestrar‖; ou sem dúvida adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. Ele não amarra as forças para reduzi-las; procura ligá- las para multiplicá-las e utilizá-las num todo (....). (FOUCAULT, 1999, p. 195)
Essa dissertação também apresenta a força do poder controlador e disciplinador pela apresentação da ―docilidade-utilidade‖, como consequência da feminilidade ditada pela comunidade ―mulheres perfeitas‖, quando o feminino se compõe primordialmente pelo consumismo para garantia de um produto total de si mesma. O resultado da construção da personagem de si interage na esfera da sociabilidade feminina baseada na concorrência; ou num ―mercado‖ feminino, que se pauta no ideal do casamento monogâmico, cultivado de modo socialmente homogênico, o ideal de esposa pela
exclusividade e singularidade por meio da ―beleza‖ e da sensualidade da mulher. Para isso, a disciplina é direcionada para a manutenção do corpo ―jovem‖ e ―belo‖, de acordo com os referenciais ―estrelares‖ das velhas e novas mídias. Dessa maneira, são pensados nesse capítulo, sob a inspiração de Foucault, o poder dissolvido em diversas células reprodutivas, oriundas da vigia, do monitoramento e do controle, pelas estruturas dos poderes tradicionalmente coercitivos, como que seguissem alastrando-se socialmente e virtualmente, com o objetivo de ―adestrar‖:
―Adestrar‖ as multidões confusas, móveis, inúteis de corpos e forças para uma multiplicidade de elementos individuais — pequenas células separadas, autonomias orgânicas, identidades e continuidades genéticas, segmentos combinatórios. A disciplina ―fabrica‖ indivíduos; ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício. Não é um poder triunfante que, a partir de seu próprio excesso, pode-se fiar em seu super poderio; é um poder modesto, desconfiado, que funciona a modo de uma economia calculada, mas permanente. (FOUCAULT, 1999, p. 195)
Essa citação aponta o fato que a o poder coercitivo das instituições disciplinares (midiáticas e tradicionais) ―fabricando‖ o que esse estudo mapeia como ciberfeminino, em que as atrizes ciborgues coquetes, ao mesmo tempo em que são objetos, são também instrumentos do exercício de poder.
(...) As disciplinas estabelecem uma ―infra-penalidade‖; quadriculam um espaço deixado vazio pelas leis; qualificam e reprimem um conjunto de comportamentos que escapava aos grandes sistemas de castigo por sua relativa indiferença (...). (FOUCAULT, 1999, p. 202)
Foucault coloca os valores disciplinares em forma de leis que qualificam, julgam e reprimem o comportamento A cultura contemporânea de mercado, pelo desenvolvimento dessa pesquisa, mostrou-se estruturada pelos pilares tradicionais dos valores femininos e junto a isso, essa cultura elabora um olhar controlador e sustentador da construção do feminino, para que sua função não vá além de ―embelezar‖ e agregar valor moral pela maternidade e
devoção à família, sempre no papel de coadjuvante, na cena social e virtual, pois tem sua função instrumentalizada na essência da matriz patriarcal.
Sofrer o controle social e vestir a culpa, quando não corresponde aos seus preceitos, são fatos que puderam ser diagnosticados como parte da condição feminina, bastante persistentes na contemporaneidade, e visíveis tomando-se por base a etnografia desenvolvida por essa pesquisa, nas comunidades do Facebook: ―mulheres que oram‖, ―mulheres perfeitas‖ e ―Feminismo sem demagogia‖, . Isso porque, todos aqueles dados mostraram a sociedade, ativa no exercício panóptico do olhar que vigia e julga e responsabiliza a mulher por seu corpo, por suas roupas, seus cuidados estéticos, sua família, seu trabalho doméstico, seu trabalho externo, seus excessos e suas angústias.
Foucault traz a base do conceito do panóptico, aqui desdobrado na viabilidade desse exercício conceitual na recente tecnologia comunicacional. A tecnologia atual, portanto, é encarada nessa análise, como um fator imperativo na cultura de mercado que não abala as forças das estruturas dos valores femininos tradicionais.
Como apresentado no capítulo anterior, a sociedade da cultura contemporânea se encanta com o protagonismo das ―estrelas‖ das novas e velhas mídias, mas tais valores, intrinsecamente, moldam o perfil feminino para compor uma atuação feminina que permaneça restrita ao papel de coadjuvante na cena patriarcal. Tais valores são instrumentalizados e socialmente controlados para direcionar o papel feminino sujeita a um script socialmente defendido. Trabalhar fora de casa, é reconhecido como emancipação, mas também é exigido socialmente, principalmente para que a mulher contemporânea tenha condição de cumprir seu papel de grande consumidora e não ―explorar‖ o marido com o acesso a todas as novidades e tendências de moda, que a cada semestre se renovam e se descartam. Essa condição da mulher, observada pelas expressões femininas em rede social, converge com a reflexão que releva a lógica econômica como grande manipulador do poder, instaurado nos mecanismos internos dos atores sociais/virtuais. Tal fato também converge com as análises construídas por Foucault (1999) quando, no
parágrafo a seguir, esclarece o sucesso da economia ocidental, a partir dos