Assim como tantos outros elementos que compõem o elenco das ferramentas utilizadas para a comunicação social (textos, imagens, suportes etc.), a tipografia ganha evidência por ser aquela que tem a responsabilidade de compor visualmente os caracteres (letras, numerais, sinais e ornamentos) que levam à construção da mensagem escrita. É a partir da comunicação visual que a expressão tipográfica se apresenta e junta-se aos demais elementos que são necessários para que a mensagem chegue até o receptor.
A seguir temos a mensagem visual do poema “Dizes-me” de Augusto Caieiro (heterônimo de Fernando Pessoa), onde encontramos o uso tipográfico com tamanhos, condensações, expansões, cores e posições (horizontal e vertical) unidos num conjunto que tem por objetivo não somente apresentar o texto, mas também dar a ele uma carga de dramaticidade para evocar os sentidos e a sensibilidade de quem o lê. Antes, porém, apresentamos o texto em si - sem nenhum tipo de intervenção gráfica a não ser um texto como texto corrente, sequência deste mesmo texto que se lê no momento, sem realces (itálicos, negritos, fontes diferentes, nem mesmo borda ou fundo de outra cor) para que não haja interferências. Convidamos o leitor a primeiro ler o texto e depois a figura que segue, assim, poderá perceber com maior clareza a diferença de sensações que o texto expresso com o uso tipográfico e demais elementos da comunicação visual podem provocar.
DIZES-ME31
Dizes-me: tu és mais alguma coisa Que uma pedra ou uma planta. Dizes-me: sentes, pensas e sabes Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?
Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas: Só me obriga a ser consciente.
Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei. Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
Ter consciência é mais que ter cor? Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.
31 Fernando Pessoa - Obras Completas de Alberto Caieiro, p. 94. Disponível em: https://www.luso- livros.net/wp-content/uploads/2013/06/Poemas-de-Alberto-Caeiro.pdf. Acesso em 26 jan. 2017.
Sei que a pedra é a real, e que a planta existe. Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram. Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta. Não sei mais nada.
Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos. Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas. Mas é que as pedras não são poetas, são pedras; E as plantas são plantas só, e não pensadores. Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, “é uma pedra”, Digo da planta, “é uma planta”,
Digo de mim, “sou eu”.
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?
Então agora segue, conforme citamos antes, o poema de Alberto Caieiro com o acréscimo do apelo vindo essencialmente do uso tipográfico dentro de uma criação em
design gráfico, que encontramos aleatoriamente na internet para ilustrar o que a utilização
da tipografia pode oferecer como resultado em determinadas situações onde o impacto da mensagem requer maior ênfase em seu receptor.
FIGURA 17 - A tipografia como forma de expressão - Poema.
Fonte: blog Design e Comunicação Visual, 201132.
O homem, ao escrever, tem a necessidade de ver o que pensa. A letra manuscrita é particularmente o estilo tipográfico de um indivíduo se quiséssemos vê-lo como um
32 Disponível em: http://guigirardi.blogspot.com.br/2011/05/proposta-2-tipografia.html. Acesso em 26 jan. 2017.
instrumento produtor de uma letra única, personalizada, exclusiva, feita por meio de um processo industrializado, mecânico, mas, seria esta letra legível? Entendida por todos além de seu criador? Livre para ser utilizada com ou sem licença de direitos autorais? Sabemos que o conjunto de tipos que se colocam à disposição do público são desenvolvidos para que haja entendimento universal - o que não seria possível a partir de uma única pessoa por várias questões como, por exemplo, a legibilidade de seu traço ou o tamanho que costuma escrever - ou seja, busca-se que o outro possa compartilhar visualmente a mensagem e entenda, perceba, interaja com o que está ali apresentado em um conjunto de caracteres voltados à formação dos conteúdos que compõe a parte reservada ao texto nos projetos de comunicação visual. É interessante quando passamos a introduzir tão fortemente os computadores em nosso cotidiano e, mesmo sem perceber, começamos a ter um outro tipo de relação com os aspectos visuais das mensagens escritas por meio da informática, onde a palavra fonte passou a fazer parte do vocabulário comum dos usuários, conforme comenta Garfield (2012) quando trata do uso das fontes nos aparelhos da Apple:
Era o início de algo importante - um abalo sísmico em nossa relação cotidiana com as letras e os tipos. Uma inovação que, em uma ou duas décadas, introduziria a palavra fonte - antes, um componente da linguagem técnica limitado ao design e ao ofício gráfico - no vocabulário de todos os usuários de computador (GARFIELD, 2012, p. 10).
A tipografia pode vir a ser dominante em relação aos demais elementos da composição visual de uma página; outrora ela pode ser apenas coadjuvante numa página de revista, ou num jornal, ou num folheto. Independente do contexto, a tipografia fica disponível para ser utilizada de acordo com as necessidades do designer. Porém, muitas vezes, a tipografia não é dominante mas pode ganhar destaque por escolhas que são feitas para a maneira como será apresentada: o seu tamanho - que pode vir a ser maior ou menor; uma determinada cor - que venha chamar mais a atenção do leitor, outras cores menos; a localização em que o texto se encontra na composição da página etc. Então, vemos que nem sempre a tipografia precisa estar num título ou então em letras enormes que tomem o maior espaço da página; ela, sim, está presente sempre de acordo com as necessidades do designer para ajudar a equilibrar visualmente a página, cumprindo o papel de manter a eficácia da comunicação visual.
Vale também elucidar que a tipografia está presente na construção de sentido para as mensagens. Haja vista que foram sendo e ainda são desenvolvidas novas famílias de fontes
tipográficas para que possam ser utilizadas de acordo com o sentido que as mensagens propõem-se. Para que haja essa construção de forma satisfatória o conhecimento técnico do
designer o ajudará no sentido de saber qual a fonte que poderia funcionar melhor para
impactar o receptor da mensagem, sendo pelas suas características mais tradicionais ou modernas ou que seja uma fonte tão inusitada, diferente, que chamará a atenção do leitor, fazendo com que ele seja absorvido pela mensagem.
Outro fator importante é que a tipografia é um elemento que ajuda na recepção das mensagens. Um texto que possui uma letra que facilite a leitura, trazendo conforto visual e facilidade de entendimento, ajuda a construir uma recepção de sucesso para aquela mensagem. Vemos que a tipografia tem um papel fundamental na comunicação visual pelo teor que ela traz em si enquanto responsável por conduzir o discurso da mensagem, contribuindo para dar-lhe as características desejadas, assim como também as imagens podem fazê-lo, mas não se pode deixar de aproveitar a condição de que no documento escrito, por meio do texto, pode-se promover a troca de informações sem causar nenhum tipo de equívoco, basta que o responsável pela elaboração da mensagem esteja atento para conjugar os elementos da forma ideal para que o projeto gráfico atenda ao público específico ao qual é direcionada.