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Quatro são as comunidades do interior da Reserva, e treze são as da zona circundante. A população residente, tanto no interior, como na zona circundante da Reserva é predominantemente feminina. Esta descrição está apresentada na seção 3.3.1.1, Tabela 3.1.

No mapa que a seguir se apresenta podem-se observar as comunidades que se

encontram no interior da Reserva e as que se encontram na zona circundante da mesma (Figura 4.7).

Legenda: Comunidades do interior da Reserva Comunidades da zona circundante da Reserva

Figura 4.7- Mapa das comunidades do interior e da zona circundante da Reserva

4.3.3. Caraterização socioeconómica da Reserva

Nesta seção, serão referidas particularidades da cultura e tradições das comunidades da REM, obtidas através do método de observação, durante a investigação, algumas das quais já referidas ao longo desta dissertação. A primeira nota tem a ver com a noção de comunidade que, em Moçambique, é muito diferente dos padrões europeus. Entende-se por comunidadeum grupo de pessoas que vive, muitas vezes, na mesma área geográfica e que se identifica como pertecente ao mesmo grupo (Ioro & Wall, 2012). É uma realidade simbólica e, como tal, é uma construção, é um ponto de referência principalmente para a recriação de identidades (Ballestores & Ramírez, 2007). Nas comunidades moçambicanas (em particular nas estudadas), as famílias estão dispersas por largas áreas que podem atingir cerca de 2 km, o que não impede que se sintam comunidade. Esta dispersão não só se verifica em termos de habitação, como também em termos de infraestruturas como as de saúde e educação, o que implica deslocações de longa distância à procura destes serviços. Estas deslocações obrigam a cuidados especiais de segurança pois, pelo facto das habitações se situarem no interior da Reserva, onde habitam animais selvagens como elefantes e hipopótamos que podem atacar não só as pessoas, como também as habitações, os residentes estão em perigo constante devido ao conflito homem-animal que caracteriza esta zona. Para evitar os ataques dos animais, e principalmente dos elefantes, os residentes, que conseguem percecionar à distância estes ataques, relatam que recorrem a fogueiras como forma de se protegerem, pois os animais selvagens são avessos ao fogo. Os hipopótamos, de noite saem das lagoas à procura de alimentos, destruindo as culturas. A falta de eletricidade limita as deslocações noturnas e torna-as mais perigosas, face a estes animais selvagens (na Reserva ainda não existem leões nem tigres), associando-se a estes, as razões culturais.

Apesar da dispersão, as famílias estabelecem relações sociais, têm noção de pertencer à mesma comunidade e a noção de distância é-lhes relativa. Nestas comunidades, o papel do líder continua a ser muito importante, pois para além do reconhecimento institucional, as populações atribuem-lhe poderes de orientação, de decisão e de aconselhamento. Nas relações com as comunidades, o respeito pela cultura e tradições é

fundamental para conseguir uma aproximação favorável. Refere-se o facto concreto de, para obter respostas aos inquéritos dos residentes, da forma mais desejada, e graças aos conselhos de um investigador na área de estudos etnosociolinguísticos, ter que colocar um lenço na cabeça a tapar os cabelos, amarrar a capulana (um pano que envolve o corpo da cintura para baixo) e tomar assento no meio do grupo, no chão (esteira) ou nos bancos feitos de troncos de árvores, sem o que a receção não teria sido tão afável (Figura 4.8). A esteira é um símbolo muito especial para a mulher moçambicana, pois constitui o centro de sua vida, onde recebe os seus familiares e amigos e coloca os seus pertences mais íntimos e valiosos. Sem a empatia assim estabelecida, a investigação não teria decorrido tão cordialmente. Importante foi também o apoio dos líderes que, para além do reconhecimento administrativo, são o elo de ligação entre as autoridades civis e as comunidades, pelas quais são reconhecidos e aceites e a quem recorrem para obter informações, ensinamentos e resolução de conflitos. A sua audição e autorização prévia foram fundamentais para a aceitação da investigação junto das famílias. As populações destas comunidades são, em grande escala, analfabetas, facto que as leva a sentirem-se excluídas da vida moderna. No entanto, quando os investigadores estabelecem a comunicação na sua língua local, as populaçãoes sentem-se gratificadas, mais reconhecidas pela sociedade e melhor colaboram. Uma lição que se pode tirar deste trabalho com a comunidade é que, o conhecimento ou uso da língua local, o Xirhonga, é determinante para o sucesso na implementação de qualquer trabalho vindo de fora da comunidade.

A principal atividade é a agricultura de subsistência, que constitui a principal fonte de sobrevivência, sendo as principais culturas o milho, o amendoim, a mandioca e a batata- doce. Esta atividade é praticada por homens, mulheres e crianças. Praticam também o comércio informal. Quanto às relações familiares e à divisão de tarefas e de papéis, a menoridade da mulher ainda é uma realidade. O homem procura trabalho para o sustento da família e a mulher trata dos filhos, da casa e do cultivo da horta para a própria subsistência e da busca de água e lenha, muitas vezes a longas distâncias. As comunidades dedicam-se ainda à colheita de produtos florestais, às atividades piscatória e à caça (Figura 4.9). A sua alimentação é feita à base do peixe seco e da pecuária.

Traço fundamental da cultura africana é a tradição oral e a sua ligação à terra, que leva os residentes a não aceitarem sair da sua comunidade para outro lugar qualquer.

Figura 4.8- Exemplos da relação estabelecida com as populações e com o líder da comunidade de Muvukuza. Evidenciam-se a esteira e os bancos

Fonte: Elaboração própria (2012)

Figura 4.9- Agricultura e caça

Figura 4.10- Formação dos residentes locais Fonte: Reserva Especial de Maputo (2011)

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