PARTIE II : L’hégémonie de la responsabilité délictuelle à
Section 2 : La réticence afférente à l’intégration des tiers dans la
2) Le recul des actions directes dans les chaînes de contrats
A pesquisa em Lingüística Aplicada ganhou novas cores desde seu surgimento.
O que começou como uma aplicação de conceitos da Lingüística teórica sobre o ensino-aprendizagem de línguas, inicialmente estrangeiras e, em seguida, materna, aos poucos foi se transformando em campo de estudos preocupado com questões de linguagem, não apenas de língua, em uso nos diversos contextos sociais, e não apenas na escola. Mesmo que mantendo-se inicialmente nos limites dos estudos com a linguagem verbal, aos poucos esse campo de estudos avança em suas fronteiras disciplinares e passa a produzir conhecimentos subsidiados por áreas de conhecimento que compartilham interesses em relação à emergência e à constituição da linguagem nos diversos contextos da vida social. Configura-se,
assim, a natureza interdisciplinar da Lingüística Aplicada, característica que a acompanha até hoje (OLIVEIRA, 2006).
Na contemporaneidade, os discursos sobre o modo de operar da Lingüística Aplicada remetem para um campo, sem dúvida, autônomo (CELANI,1992; 1998), transdisciplinar (CELANI, 1998; MOITA LOPES, 1998; SIGNORINI, 1998), político (RAJAGOPALAN, 2003; 2006) e, sobretudo ético (MOITA LOPES, 2006; CAVALCANTI, 2006). Alguns desses atributos já são conquistas; outros, acreditamos, ainda estão se concretizando nas pesquisas que alimentam a produção do conhecimento desse campo de estudos, tanto no âmbito teórico quanto no prático.
Há uma voz que ganha força nos discursos que tratam dos modos de produzir conhecimento em Lingüística Aplicada, nos tempos atuais, segundo a qual fazer pesquisa não se separa de fazer política nem tampouco da assunção de um posicionamento ético. Essa voz ecoa tanto na esfera internacional (PENNYCOOK, 2006; RAMPTON, 2006; KUMARAVADIVELU, 2006) quanto na esfera nacional (MOITA LOPES, 2006; RAJAGOPALAN, 2006; CAVALCANTI, 2006), anunciando a necessidade de implicar pesquisa e pesquisador no conhecimento que se produz. A pesquisa no campo da linguagem produzida pela Lingüística Aplicada deve ajudar a compreender a linguagem que constrói a realidade, e não apenas desejar mostrar aquilo que a primeira é capaz de representar da segunda.
A pesquisa, ainda segundo essa perspectiva, é a produção de um conhecimento imerso na vida e na natureza humana do sujeito, que dá voz às subjetividades em quaisquer contextos onde essas vozes possam se fazer ouvir. Essa perspectiva, é claro, é política na medida em que vai requisitar de seus autores um posicionamento, no mínimo, questionador, das verdades e estruturas estabelecidas no campo da ciência. E essa perspectiva é ética porque, nos posicionamentos assumidos, revela-se a responsabilidade da pesquisa e do autor para consigo e para com os outros, para com seu objeto de estudo e para com a comunidade a quem ele responde com seu trabalho.
Sob essa perspectiva de atuação, procuramos, por meio das pesquisas selecionadas neste capítulo, exemplificar a produção do conhecimento recente do campo da Lingüística Aplicada, no Brasil, com o objetivo de avaliar até que ponto as pesquisas de campo retratam a postura teórica que o caracteriza. Ou seja, um campo de estudos que se queira autônomo, transdisciplinar, ou mesmo indisciplinar
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(MOITA LOPES, 2006) - no sentido de caracterizar uma prática problematizadora, um posicionamento crítico cujo objetivo seja o de desestabilizar conceitos teóricos ou metodológicos cristalizados e avançar por interfaces interdisciplinares. Um campo de estudos, igualmente, político e ético deve fazer valer esses valores, na pesquisa que ele produz.
Percebemos, no decorrer das análises, que dizer e fazer não estão no mesmo compasso, o que, para nós, é até natural, uma vez que entendemos ser necessário, em todas as transformações, um tempo de maturação cognitiva das idéias e um tempo de concretização das realizações (no caso da pesquisa, por exemplo, há de se contar o tempo de sua execução, bem como o tempo de redação e publicação do texto para a comunidade).
O primeiro indício dessa constatação nos vem das datas de publicação dos trabalhos, que, muitas vezes, são apresentados nos congressos em primeira versão e, posteriormente, reestruturados e revisados para publicação. Observa-se, nesse procedimento, o primeiro descompasso.
O segundo descompasso nos parece ser da ordem da maturação das idéias e dos conceitos orientadores da prática científica em relação ao desenvolvimento do campo de estudos. Nos primeiros três CBLAs, parece ficar marcada a tendência a descrever o campo de estudos da Lingüística Aplicada como um campo que procura desvincular-se da relação umbilical com a Lingüística, deixando para trás, definitivamente, a visão aplicacionista que o caracterizava em suas origens. Começam a surgir as primeiras discussões sobre inter- e transdisciplinaridade, e, no campo do ensino, as pesquisas, até então bastante centradas no ensino da leitura, das práticas textuais, da gramática e da competência comunicativa, ampliam-se com a temática da interação, que vai trazer para a cena o discurso da sala de aula, entre professor-aluno, levantando questões de relação de poder (BORTONI, 1988; MOITA LOPES, 2001a; KLEIMAN, 1993), de formação identitária (MOITA LOPES, 1998b) e de estratégias discursivas dos sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem (TERZI, 1990), em diversos contextos (ROJO, 1995; MENDES, 1995; CAVALLIERI, 1995).
A partir do IV CBLA, com a explosão da discussão sobre a transdisciplinaridade da Lingüística Aplicada e o conseqüente avanço na posição de um campo de estudos autônomo, a pesquisa no campo do ensino avança na busca de compreensão dos diversos usos sociais que se fazem da língua, dando
visibilidade a uma concepção de linguagem como prática social (VI CBLA) ou apostando na diversificação das vertentes investigativas do campo de estudos na contemporaneidade (VII CBLA).
Pesquisas abordando as políticas lingüísticas no ensino (BOHN, 1988b), a relação tecnologia e ensino (MENEZES, 1988; COLLINS, 2004), a constituição da identidade individual e coletiva na escola (CORACINI, 1998; MAGALHÃES, 1988; SERRANI-INFANTE, 1998) e a ideologia que perpassa o contexto do ensino (BARCELOS, 2004; GRIGOLETTO, 2005) são exemplos dos caminhos por onde a Lingüística amplia sua trajetória.
Revendo esse levantamento, o descompasso entre a produção do conhecimento da Lingüística Aplicada e o discurso orientador do campo de estudos, levantado anteriormente, não nos parece um elemento negativo. Pelo contrário, o campo de estudos sinaliza para uma determinada prática, e aqueles que aderem a esta transformam a sua própria prática (a posteriori, é claro), redescobrem seu fazer, reinterpretam seu modo de teorizar, reinventam a vida.
Acreditamos que uma determinada vertente da Lingüística Aplicada tem procurado reinventar-se e, nesse sentido, entendemos que a busca por um campo de estudos com aquelas características citadas anteriormente, autônomo, transdisciplinar, político e ético, tem, na medida do possível, encontrado seu lugar. Pesquisadores (MOITA LOPES, 2007; CAVALCANTI, 2007) estão aplicando as novas lentes com as quais vêem o campo da Lingüística Aplicada sobre suas pesquisas anteriores, no sentido de reinterpretá-las à luz de um contexto social que se transformou, que transformou os objetos de estudo e para os quais cabe uma nova compreensão.
O projeto de futuro que antevemos para a Lingüística Aplicada passa, conforme diz Moita Lopes (2006, p. 104), por “reinventar a vida social, assim como a LA como forma de compreendê-la, de modo a poder imaginar novas ações políticas”, e, acrescentaríamos, de modo a constituir-se, verdadeiramente, como campo ético.