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Surveillance conjointe du traitement de deux maladies

5. Recueil des données

Ao longo da história da humanidade, a enfermagem foi grandemente influenciada pelo modelo médico, com uma visão dualista e cartesiana do alvo de cuidados. O cliente era interpretado como um conjunto de orgãos que podiam adoecer, prevalecendo, em consequência, uma acção isolada com vista à respectiva cura. Já no século XX, na década de sessenta, surge na enfermagem um novo paradigma, o do holismo. Desde então, o adjectivo holístico passou a intervir de forma mais intensa nas vidas pessoais, sociais e profissionais de cada pessoa. Importa salientar que a palavra holismo deriva da palavra grega holos que significa o todo. Tem, portanto, conotações fortemente

positivas para se refutar à realidade quotidiana que encaminha os indivíduos para posições fragmentadas e impessoais (Griffin, 1994).

Assim sendo, o Homem deixou de ser visto como um mero conjunto de partes, pretendendo-se assim sedimentar a perspectiva de um estudo global e completo do ser humano, de forma indivisível e com necessidades individuais. Consequentemente, indexado ao sentido, permite-se a abertura a realidades teóricas decorrentes das ciências sociais e humanas, promovendo-se a investigação no campo da enfermagem, de modo a realçar a riqueza dos saberes inerentes à prática dos cuidados. O termo holismo tem, portanto, sido utilizado na enfermagem como uma abordagem reflectida das realidades complexas do ser humano, envolvendo a ciência de enfermagem na esfera da constituição interactiva do ser humano que contempla o sentido do viver num plano bio-psico-socio-cultural e espiritual. No pressuposto, deve então o enfermeiro estar preparado para ajudar o cliente de forma individual, bem como, os seus familiares e pessoas significativas a lidarem com a doença e o sofrimento do familiar. Neste espaço da enfermagem, o holismo, pelos denominadores que o sustentam, assume um papel reconhecido ao considerar cada pessoa como um todo e não apenas uma parte com um caso de alteração do estado de saúde ou do funcionamento de um orgão. Assim, cada indivíduo possui força e determinação únicas conjuntamente com necessidades específicas de saúde que permitam uma constante adaptação às exigentes mudanças pessoais das dimensões sociais e mentais.

Deste modo, a preservação dos cuidados ao cliente em fase terminal, de forma global, manifesta uma preocupação frequente e complexa no panorama actual de saúde. É o processo de cuidado humano que facilita à pessoa ser vista e ver-se, a si própria, como um fim, inserida num sistema, e não como um meio para um determinado objectivo científico (Frias, 2003). Contudo, a enfermagem, ao longo dos anos, tem acompanhado a visão do mundo mais especificamente no que concerne à abordagem holística. Compreende-se, assim, a inter-relação da dimensão bio-psico-socio-cultural e da dimensão espiritual que compõem o individuo e, ao mesmo tempo, reconhece-se que o todo é maior que a soma das duas partes, integrando e interagindo no mundo, procurando harmonia entre as partes que o constituem.

Atendendo à perspectiva, o atendimento de enfermagem, centrado na pessoa com doença terminal, pretende dos enfermeiros, não só um conhecimento profundo e imprescindível de aspectos relacionados com a situação clínica actual, mas também os conhecimentos relacionados com todos os aspectos humanos e éticos. Proporcionar cuidados a uma pessoa na fase terminal do seu ciclo de vida, implica

proporcionar-lhe uma assistência humana com base na compreensão, certificando a sua qualidade de vida e ajudando-a a viver melhor até que o seu percurso existencial chegue ao fim. Ao abordar a ciência do cuidar, no que se refere à pessoa em situação terminal, julgamos realmente importante referir Jean Watson pela abordagem que desenvolve sobre o cuidar. Os enfermeiros adquirem uma consciência da acção, numa primeira perspectiva, por meio das actividades que mantêm a vida como um processo completo de envolvimento relacional, assente em factores cognitivos, morais e emocionais e, por outra, pela possibilidade de detectar, sentir e responder à condição do cliente na própria relação. Deste modo, pela complementaridade verificada na acção dos enfermeiros, o cliente torna-se mais capacitado, e até disponível, para transmitir pensamentos e sentimentos que, em momento de confiança, deseja manifestar (Watson, 2002). Contudo, o processo de cuidar, que ultrapassa o simples tratar, permite ao enfermeiro delinear, com o cliente cuidado, um horizonte de rumos, permitindo por vezes, chegar à morte serena. No desenvolvimento da teoria do cuidado humano (Human Care), Watson refere, ainda, que a enfermagem desenvolve um processo inter-subjectivo por transacções interpessoais que permitem a vontade, o compromisso individual, pessoal, social, moral e espiritual, revelando-se, profundamente, essencial ou central. Watson apresenta a proposta de uma relação transpessoal que influi e influencia o enfermeiro (Pinto & Silva, 2008), consistindo na inter-subjectividade da relação de humano para humano.

Cuidar de uma pessoa em fase terminal reflecte-se não só nas atitudes físicas, manifestas pelo alívio da dor física, mas também por nunca esquecer a dor psicológica que, muitas vezes, influi no cliente mais do que qualquer sintoma físico. Assim, é fundamental a abordagem holística, única e individualizada do cliente, o que permite aos cuidados de enfermagem, não apenas o desenvolvimento de técnicas sofisticadas, mas também, muitas vezes, a presença física e a disponibilidade do enfermeiro. O profissional reconhece, portanto, no cliente, a sua identidade cultural, social, física, psicológica, económica, entre outras, de forma a respeitar e procurar assegurar as suas perspectivas e convicções. Apesar das presentes considerações e atitudes da enfermagem, revela-se, também importante, na relação aos cuidados de enfermagem direccionados para os clientes em fase terminal, as orientações sublinhadas por Green (1988, in Berenthal, 1994), nomeadamente, ao considerar as atitudes de se manter a dignidade do cliente, o alívio da dor e a sintomatologia, a permissão de ausência individual perante as preocupações financeiras e a capacidade de facilitação de um ambiente agradável física e emocionalmente.

O papel da enfermagem, para além de se sustentar nos aspectos referidos, permite também contextualizar dimensões complementares, pois a garantia da promoção

relativa ao conforto físico e psicológico do cliente, à independência individual, à prevenção da solidão e isolamento, bem como, à promoção do conforto espiritual, são alicerces centrais à missão profissional da visão acerca do enfermeiro. É importante, portanto, compreender que o cliente não procura respostas ou soluções para os seus problemas, apenas quer ser ouvido, quer aliviar a tensão e o conflito, quer expressar os medos e as fantasias. A dor, nestes casos, trespassa o plano meramente físico, pois, para além da dor física, controlada ou eliminada, o cliente em fase terminal sente uma dor espiritual muito mais difícil de “olhar”. Quando surge, ou simplesmente é transmitida ou sentida, em muitas das circunstâncias, revela-se perante o enfermeiro que está presente e, em situações vivenciadas, deve o respectivo enfermeiro proporcionar que sejam expressas como forma do próprio cliente aceitar o processo de morrer (Frias, Valentim & Moniz, 1997).

Nesta circunstância, vivendo o cliente a aproximação da morte, acontecimento dos mais marcantes da existência finita, recai sobre o enfermeiro o dever de lhe atribuir um significado especial, atendendo, caso a manifestação seja livre e objectiva, à satisfação das necessidades espirituais. O enfermeiro e família podem, sem dúvida, promover o conforto através do carinho utilizado nas competências de comunicação terapêutica, expressando, deste modo, empatia, rezando com o cliente ou, simplesmente, marcando presença efectiva e afectiva (Loureiro, 2001). A satisfação das necessidades espirituais, que podem ser contempladas de forma distinta das necessidades religiosas, inserem-se, como verificamos, em prática de cuidados de enfermagem holísticos, pois,

“(…) to those who argue that nurse has no role in spiritual care and should leave this obligation to hospital chaplains and other trained representatives, they are reminded that if nursing is to be truly holistic, nurses must embrace the spiritual dimension of care” (Govier, 2000, p. 36)12.

A enfermagem possui requisitos que a distinguem e caracterizam como uma profissão de entreajuda. Enquanto profissionais, os enfermeiros devem investir, cada vez mais, na reflexão e acção, fundamentando o seu desenvolvimento numa ligação terapêutica entre o cliente, a família e a equipa de saúde. A maior riqueza que a profissão de enfermagem pode oferecer reside nas experiências inquietantes com clientes que vivenciam a sua finitude, pois as inquietações demonstram que algo não morre, que

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Para aqueles que argumentam que a enfermagem não tem um papel diferenciado nos cuidados espirituais e deverá delegar a função aos capelães do hospital e a outros especialistas, referimos que para a enfermagem assumir uma dimensão verdadeiramente holística tem de adoptar a dimensão espiritual nos cuidados a prestar (Tradução da Autora).

existe um alerta de vida e que se compreende, porquanto, que a vida é esse somatório de dor, amor, tristeza e uma ininterrupta renovação.

Contudo, o cuidar revela-se sempre presente, quando o enfermeiro acredita nas capacidades do cliente e determina-se pela disponibilidade, de forma a poder ajudar a aliviar a sua dor e o seu sofrimento, conferindo-lhe dignidade em todos os momentos. Segundo Frias, à medida que a morte se aproxima, a presença física do enfermeiro proporciona ao cliente uma sensação de tranquilidade, pois, o cliente subentende que “estamos com ele e que o ajudaremos a ir, progressivamente, desprendendo-se da vida” (2003, p. 127). Só numa atitude configurada neste modelo, pode o enfermeiro garantir a dignidade do cliente em fase terminal, contemplando-o como uma pessoa que precisa de se sentir viva e que merece a atenção da equipa de enfermagem, ou de um enfermeiro em particular. Assim, acompanhar as pessoas em fim de vida prevê- se sempre como um desafio rico em aprendizagens, pois, a intervenção do enfermeiro junto daqueles que pouco tempo tem para partilhar, permite reflectir sobre alguns aspectos importantes que visam um desempenho de qualidade. Para que a eminência dos cuidados seja atingida é importante reconhecer também os aspectos espirituais e as implicações na situação actual da doença terminal. Os profissionais de saúde são, por vezes, reducionistas, ao ponto de considerarem a dimensão espiritual dos clientes assente apenas na sua manifestação religiosa e/ou crença no sobrenatural, mas, compreender a espiritualidade é vencer as limitações impostas pelas dimensões do conceito subjacente à visão redutora da manifestação religiosa. Pois, a espiritualidade revela-se pela assumpção individual do Além, reverência e respeito, mesmo por aqueles que não acreditam em Deus (Atkinson, 1989). A visão espiritual da vida prolonga-se em considerações e fundamentações sobre o amor, o mistério, o sofrimento, a angústia e abrange a oração, a meditação e, por vezes, o recurso a outras estratégias, de forma a encontrar uma finalidade e um significado à vida, bem como, um reconhecimento às alegrias do quotidiano. Daí que percepcionemos uma dimensão espiritual da pessoa que transcende a dimensão física e psico-social, sustentada no sentido da vida, abrangente e inerente a todo o Homem. Assim, a competência, os conhecimentos, bem como, a partilha de valores e a consideração pela pessoa humana devem ser prioritários, no nosso entender, pela reunião de muitos esforços, de modo a garantir ao cliente com doença terminal e à respectiva família o melhor bem-estar possível naquele que é o percurso… afinal o seu percurso.