Morris (2006) concluiu, em seu estudo focado apenas na indústria eletrônica americana, que não houve evidência que apoiasse a sua primeira hipótese de que as empresas certificadas pela ISO 9000 teriam desempenho financeiro melhor se comparadas a outras que não fossem certificadas. Concluiu haver relação apenas que empresas que possuem ativos mais flexíveis ou que investem em pesquisa e desenvolvimento e que podem interagir com a certificação ISO 9000, podem conquistar melhor desempenho financeiro.
Algumas razões poderiam ser apontadas, todas relacionadas com a metodologia empregada, como o próprio pesquisador apresenta (MORRIS, 2006). Entre elas, o foco em apenas uma indústria, com tamanhos distintos e que atuam em diferentes mercados com muitos produtos. Em segundo lugar, o pequeno número de anos empregado para coleta dos dados e seu uso de dados em séries temporais com corte transversal não parece ter sido apropriado. A medida de receita antes de depreciação pode não ter sido a mais indicada para
ser a variável dependente a ser testada e, por último, a assunção de que os benefícios da certificação ISO 9000 sejam imediatos.
Pelas conclusões de Morris (ibid.), talvez a ISO 9000 não concorra para um melhor desempenho financeiro ou, nem mesmo, para a aquisição de uma vantagem competitiva, mesmo que provisória. Poder-se-ia ponderar que as empresas buscam a certificação ISO 9000 com outros objetivos, como exportar seus produtos, pressões de mercado ou, ainda, por conta de maiores requisitos por parte dos clientes.
Já os pesquisadores Dimara et al. (2004) buscaram correlacionar a orientação estratégica de uma empresa com a adoção da ISO 9000. Ao analisarem um conjunto de 94 empresas que adotaram a ISO 9000 no período de 1989 a 1993, concluíram que não existe uma diferença significativa nos indicadores de desempenho financeiro após um período de seis anos seguintes à certificação.
Entretanto, se as empresas forem examinadas separadamente de acordo com a sua orientação estratégica, as conclusões são distintas: primeiro, empresas que perseguem uma estratégia de liderança em custo apresentavam crescimento estatisticamente significativo nos indicadores de lucratividade; segundo, aquelas que seguem uma estratégia de diferenciação apresentavam crescimento estatisticamente significativo de suas vendas e de seu patrimônio líqüido (DIMARA et al., 2004).
Cabe lembrar que, no período pesquisado, a norma válida era a ISO 9000:1994, em sua segunda versão, ainda sem as características atuais de gestão por processos. Sabe-se que a versão 2000 da norma inclui algumas dimensões da Qualidade Total (MARTINEZ- LORENTE; MARTINEZ-COSTA, 2004), não incluídas na versão anterior como, por exemplo, gestão da força de trabalho, foco no cliente e medição e monitoramento. Os mesmos autores (op. cit.) declaram não haver encontrado correlação entre a implantação da ISO 9000:1994 e a melhoria dos resultados das empresas.
Martinez-Lorente e Martinez-Costa (2004) afirmam também que os gerentes que perseguirem a certificação ISO 9000 devem fazê-lo somente se forçados a isso pelos seus clientes; argumentam ainda que, ao se exigir a certificação ISO 9000 de seus fornecedores, deveriam refletir que isso não melhora as suas taxas de defeitos ou reduz seus custos, o que é um objetivo da norma ISO 9000. Talvez exatamente pelo fato da norma ISO 9000 em sua versão 1994 ser frágil em termos de gestão por processos, medição e monitoramento e foco no cliente é que os autores Martínez-Lorente e Martínez-Costa (2004) não tenham conseguido encontrar correlação positiva em sua pesquisa.
Por outro lado, existem também evidências que comprovam haver relação entre a certificação ISO 9000 e o melhor desempenho financeiro das empresas, isso independentemente do tamanho: podem ser grandes ou pequenas empresas; podem ser nacionais ou multinacionais e, até mesmo, locais ou regionais; podem ser de um mesmo setor da indústria ou não.
Pesquisadores de diversas nacionalidades (ANDERSON; DALY; JOHNSON, 1999; TERLAAK; KING, 2006; CORBETT; MONTES-SANCHO; KIRSCH, 2005) estudaram, utilizando-se de diferentes métodos quantitativos, diversas possibilidades de relacionar certificação com desempenho, tendo encontrado resultados positivos que apóiam as hipóteses de haver correlação entre essas variáveis.
Pesquisar pouco sobre qualidade ou sobre suas práticas de gestão parece ser – ou foi – uma marca da academia internacional. Wacker (1989) apresenta uma explicação para isso, o fato de ser difícil medir os benefícios acumulados e de longo prazo da gestão da qualidade e sua relação com custos incorridos por ela no curto prazo.
Percebe-se, no Brasil, a ausência de estudos a respeito dessa temática, que tenham se utilizado de dados secundários públicos, focados em empresas privadas de capital aberto e que tenham se utilizado de modelos econométricos robustos que permitissem uma conclusão acertada à realidade nacional. Lima et al. (2000) afirmam haver um “gap” na literatura empírica sobre certificação da qualidade. Apesar de estudos e pesquisas freqüentes em torno da Qualidade Total (EASTON; JARRELL, 1998; HENDRICKS; SINGHAL, 1996, 1997, 2001; DOUGLAS; JUDGE, 2001), fica claro que, em função de um número muito menor de empresas que, comprovadamente, praticam a Qualidade Total, as constatações a respeito merecem um contraponto importante: a análise da certificação ISO 9000 também como causa de melhor desempenho empresarial.
O Brasil ocupa hoje a 19ª. posição no mundo entre os países com maior número de certificações, com 8.533 certificados emitidos para empresas no Brasil (ISO, 2007), na data- base de 31/12/2005. A ISO 9000 é o padrão normativo mais usado em todo o país e o que é mais conhecido empresarialmente.
O ritmo anual de certificações no Brasil ainda está crescendo, tendo registrado aumento de 52,5% e 39,4%, entre os anos de 2004 sobre 2003 e de 2005 sobre 2004, respectivamente (ISO, 2007). Não parece haver ainda exaustão do modelo, talvez pelo fato da instituição ISO estar periodicamente atualizando seu padrão normativo para sistemas integrados de gestão por processos e por estar agregando o estado da arte em gestão da qualidade.
A ISO 9000 demonstrou ser longeva o bastante para suportar as mudanças permanentes por que passam o mercado e as empresas. Vários têm sido os benefícios qualitativos constatados com a certificação, seja na motivação das pessoas, na melhoria dos processos internos ou na satisfação dos clientes.
Entretanto, as pesquisas quantitativas são poucas e, no Brasil, praticamente inexistentes. É preciso inferir se a certificação ISO 9000 tem um efeito causal sobre o desempenho financeiro das empresas. Juran (1999, p. 30) afirma:
Há uma lacuna de pesquisa que pode ofuscar se empresas que são certificadas de acordo com a ISO 9000 realmente produzem melhores produtos do que as empresas que não são certificadas [...] nós realmente não sabemos quais os benefícios advindos desse processo custoso de certificação ISO 9000. Devemos estabelecer as pesquisas necessárias para descobrir isso.
O tema escolhido, de relacionar a certificação da qualidade pela ISO 9000 com o desempenho financeiro, é pouco explorado academicamente. Portanto, o problema de pesquisa é: a certificação ISO 9000 permite às companhias abertas no Brasil obterem um desempenho financeiro superior?