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III. Recueil des données :

A primeira reportagem incide sobre um evento, uma noite de fados organizada pela Rádio Alfa (http://radioalfa986.net/ ), sendo esta a segunda edição e por isso apresentada como “a segunda grande noite de fados de Paris” (voz-off)19 que tinha já sido descrita no resumo do programa como “o

fado português de Paris” (voz-off). O evento decorre na sala Vasco da Gama, uma sala situada num edifício dos arredores da capital francesa onde estão instaladas a Rádio Alfa, a Luso Press (http://www.lusopress.tv/) e outras empresas e instituições portuguesas20. A noite de fados é organizada pelo

programa de rádio “Só Fado” (Rádio Alfa) e são os seus animadores que a apresentam e dirigem, num espectáculo que é transmitido em simultâneo na antena da rádio, aliás como o programa radiofónico que o inspira que é habitualmente emitido em directo.

A reportagem intercala uma narrativa em off com imagens do espectáculo e entrevistas aos participantes. A retórica dominante passa pelas questões da autenticidade e legitimidade, visível em frases como:

 - À data de escrita deste artigo (Janeiro 2014), o website da respectiva rádio anuncia a terceira noite de fados para 14 de Fevereiro de 2014.

0 - Esta informação não vem no programa, porque a indicação do nome da sala é pensada como suficiente por esta ser bastante conhecida como local onde decorrem eventos para os portugueses.

“o fado de Paris não fica a dever nada ao fado de Lisboa” (voz- off)

“cá em Paris canta-se fado como se canta em Lisboa”; “há muito bons fadistas” (apresentador do espectáculo/programa de rádio)

“acho que canto o fado como o sinto e acho que é o mesmo fado que os outros todos cantam. Sou portuguesa e só depois é que sou francesa” (fadista)

A visibilidade é igualmente um enunciado central, tanto a que se dirige para o público migrante - “é maneira importante de valorizar também os artistas que estão cá a viver que trazem imenso, muitas coisas mesmo para o povo imigrante e acho que sim que merecem esta grande noite de fado” (apresentadora do espectáculo/programa de rádio) – como a que procura chegar a uma audiência exógena – “este evento, com 400 pessoas, é uma forma de levar esta música para além das fronteiras da comunidade portuguesa através dos portugueses que trazem consigo amigos franceses” (director da estação de rádio).

É ainda importante referir que a questão geracional é igualmente visada. A narrativa em voz-off na introdução a uma fadista de 16 anos refere: “no palco como em antena quiseram dar espaço a novas vozes” (voz-off) apresentando mais à frente um fadista que é descrito como veterano por cantar fado há 50 anos, dos quais 25 em Paris.

Por último é necessário mencionar que o órgão de comunicação social que organiza o evento é descrito na reportagem como a “rádio dos portugueses de Paris” (voz-off), definindo-se e circunscrevendo-se identitariamente a instituição que foi já mais do que uma vez conteúdo do “Magazine Contacto”. Assim sucedeu tanto directa - por exemplo na edição de 21 de Outubro de 2012, para assinalar os seus 25 anos de existência - , como indirectamente, com entrevistas a colaboradores ou funcionários.

A quarta reportagem inicia-se com os dados biográficos do entrevistado (data de nascimento, local de origem, data de chegada a Paris, locais onde estudou e clube de futebol de adopção), incidindo depois na sua vida profissional em Paris, principalmente enquanto conselheiro da Câmara Municipal. Com o desenrolar de imagens da cidade e do local de trabalho o entrevistado é caracterizado como: “chegou à política através das actividades que desenvolveu na associação de jovens que criou, a Cap Magellan e foi

“Magazine Contacto”: Media e Performance na Construção da Identidade Nacional

 

eleito na Câmara de Paris pelo Partido Socialista como independente em 2008” (voz-off). Ficando definido o cargo, o percurso e a filiação política, resume-se: “é um rosto conhecido dentro da comunidade e fora dela” (voz-off).

O entrevistado descreve em seguida as suas funções enquanto conselheiro municipal, centrando-se a questão na sua relação e no seu posicionamento com o “ser português”:

“para Hermano ser um eleito português transformou-se quase num emprego a tempo inteiro” (voz-off).

“o trabalho principal é Paris e os parisienses e depois há sempre aquele espaço ligado à parte mais portuguesa porque, e isso é importante, sou o primeiro eleito de origem portuguesa aqui neste conselho e portanto também acho que tenho essa missão, essa responsabilidade de fazer com que a presença portuguesa aqui não seja apenas através de uma pessoa que como um bocado anedótico é de origem portuguesa ou é português mas sim porque também sou capaz de dizer assim: “atenção, dentro de todas as nossa realidades, essa realidade portuguesa tem de ser mais trabalhada”.” (entrevistado) Entre as suas preocupações e atribuições profissionais de carácter geral, como as que desenvolve nos diversos pelouros que lhe são atribuídos por inerência do cargo de conselheiro municipal (relações internacionais; ex- combatentes; administrar o Pavilhão Paris-Bercy (parte da entrevista é realizada neste local), etc), são destacadas as actividades que se prendem com os portugueses residentes em Paris e com o estabelecer de relações institucionais entre os dois países:

“é isso que tem tentado fazer através por exemplo da associação Activa, o grupo de amizade França-Portugal a que preside e que reúne autarcas, uns portugueses ou luso-descendentes e outros franceses com interesse em estreitar os laços entre os dois países na língua, na cultura, na educação e até em questões sociais” (voz-off).

A esta narração sucedem-se imagens de uma reunião sobre a campanha promovida pela Associação a que preside, Activa, campanha através da qual o entrevistado pretende incentivar à participação nas eleições europeias de 2014. Na reunião refere-se que estiveram presentes “quase duas dezenas de

estruturas da comunidade” (voz-off) descritas como meios de comunicação social, representantes de associações, a embaixada, o consulado e instituições privadas que participarão na campanha de sensibilização. Conclui-se que “não é a primeira vez que a comunidade se organiza para apelar ao recenseamento eleitoral” (voz-off) embora se destaque a singularidade desta campanha pelas diferentes e heterogéneas entidades que conseguiu reunir.

Um olhar transversal às várias reportagens analisadas permite constatar que um número relativamente coeso de questões é levantado, podemos enumerá-las como: 1) legitimidade; 2) autenticidade; 3) visibilidade endógena; 4) visibilidade exógena; 5) reprodução e mudança/renovação geracional; 6) integração e comunitarismo. Algumas destas questões posicionam-se numaAlgumas destas questões posicionam-se numa perspectiva essencialista da cultura e identidade nacional - “essentalist regime” (Sapeira, 2010) - que podem ser identificados em temas como: 1) continuidade – “this theme seeks to establish a past history and background to identity that marks it as different to, and often better than, other identities” (Sapiera, 2010: 150); 2) pertença – “the prototypical characteristics that one must have in order to be a group member” (Idem: 151); 3) autenticidade e autoridade – “asserting the right to speak on behalf of the community and by claiming to represent it as a whole” (Ibidem).

Como refere ainda a autora, uma questão crucial do que denomina como “regime essencialista” passa pela visibilidade atribuída à identidade na sua ligação a uma comunidade específica:

“(...) authenticity only works if those who claim it are visibly part of the community. A second and related strategy is to insist that your identity as a community member is the true or real identity because of its association with established cultural practices, and therefore you have the right to represent and speak on behalf of the community as a whole, while at the same time criticizing and rejecting any “inauthentic” community members. Authenticity claims, therefore, are not only based on evident group membership, but also on the prototypical character of such membership. (Sapiera, 2010: 153)(Sapiera, 2010: 153)

Por outro lado, entendendo-se o termo diáspora no sentido de Gilroy (1993), ou seja, numa perspectiva diacrónica e dinâmica, no âmbito da intersecção entre grupos, práticas, discursos e vivências, podemos ver como nos conteúdos descritos, sendo a identidade ou cultura portuguesa que assume uma suposta centralidade, é maioritariamente apresentada

Antropologia e performance

a partir da sua relação com o que é considerado como cultura francesa: o reconhecimento do trabalho da artista portuguesa, da primeira reportagem, em França; o concurso de misses denominado Miss Portugal-França; a casa associativa doada pela municipalidade francesa em Nantes; o dono português de um bar/restaurante fã do Johnny Hallyday; a exaltação do fado cantado em território francês; e um conselheiro municipal da Câmara de Paris nascido em Portugal. Centrado supostamente na cultura e identidade portuguesa, o que encontramos no programa são identidades em processo e indivíduos que são bricoleurs num palco dinâmico não só de construção (Hall, 1990) mas também de exibição da sua identidade.

É igualmente importante reter que, dos conteúdos visuais e narrativos, não só são o repórter, o operador de câmara e o editor individualmente responsáveis pelos conteúdos captados e editados, como a selecção final dos mesmos revela uma opção colectiva. Nos casos observados no terreno, a decisão é tomada entre repórter/editor21, operador de câmara/editor

e o produtor, que tem a palavra final. Igualmente, o discurso produzido, enquanto criação colectiva, constitui uma narrativa pensada, construída e exibida enquanto performance onde surgem actores (o pivot, a voz-off, os entrevistados), mensagens gráfica (logótipo, separadores de conteúdos, legendas, imagens publicitárias), um universo sonoro (voz-off, música, ambientes sonoros) e um palco multi-situado (locais das reportagens) e desterritorializado (difusão por satélite).

Difusão

O canal que transmite o programa, canal difundido por satélite e pago por assinantes, incorpora em si uma imagem particular associada à portugalidade, não só pelo facto de ser o canal estatal português internacional mas por ser frequentemente incorporado em pacotes de conteúdos portugueses pelos distribuidores de media dos diferentes países que recebem o sinal de satélite. Nestes pacotes podem estar outros canais generalistas internacionais produzidos em Portugal, como por exemplo a SIC Internacional, e canais de desporto que permitem o visionamento dos campeonatos nacionais de futebol. Os canais de difusão e exibição conferem por isso sentido, que lhes pode ser atribuído de fora mas que estes também reivindicam, encontrando- se assim associados a uma prática comunicacional e constituindo por inteiro uma componente da performance mediática.

 - Nas reportagens presenciadas é frequentemente o repórter que edita os materiais ou que orienta o editor (que era neste caso o operador de câmara).

Uma outra questão que importa discutir neste âmbito passa pela operacionalização do conceito de communitas (Turner, 1974). Podemos entender o programa analisado como uma manifestação da communitas? Por parte da RTPI, enquanto canal de difusão, mas também dos agentes e das “comunidades” envolvidas?

Segundor Turner: “na perspectiva daqueles aos quais incumbe a manutenção da “estrutura”, todas as manifestações continuadas da communitas devem aparecer como perigosas e anárquicas e precisam de ser rodeadas de proibições, prescrições e condições” (Turner, 1974: 133). Em muitos países os designados media em língua estrangeira, comunitários, étnicos, etc, são alvo de legislação específica e condicionamentos particulares22. Estes podem visar o controlo de conteúdos, através de

práticas de carácter interditivo mas igualmente serem apoiados em políticas de discriminação positiva. Em todos os casos estamos perante prescrições e condições definidas pelo sistema estatal e pela normatividade hegemónica.

Turner dá como exemplo as nações estruturalmente pequenas e politicamente insignificantes dentro do sistema de nações, como aquelas nas quais se podem identificar communitas na relação desigual estabelecida no sistema-mundo capitalista. Nesta perspectiva pode ser interessante pensar a RTPI como uma manifestação com essas características, já que esta se encontra fortemente associada à ideia de protecção da identidade e da cultura nacional. Na actualidade, devido ao menor envolvimento das segundas e terceiras gerações nos consumos mediáticos comunitários, muitos dos media étnicos, incluindo a produção do país de origem, não são pensados como agentes que activamente procuram formar “portugueses”, num processo de socialização que visa a adopção de uma “identidade nacional”. Frequentemente, como refere Dayan, são vistos enquanto instituições que previnem a “morte das identidades nacionais ainda existentes” (Dayan, 1999: 30) fora do território nacional, numa tentativa de resgate e reforço dos traços de portugalidade ainda existentes na diáspora, apostando mais na reprodução do que na mudança, mas não deixando de ocupar um lugar complexo na teia da construção identitária diaspórica. Pressões económicas, políticas e ideológicas afectam estas produções, tanto a nível local como a partir do país de origem representado. No caso do programa “Magazine Contacto”, o sistema de produção multi-situada amplifica estas questões.

 - Ver para o exemplo do Canadá (Silvano et al, 2013).

“Magazine Contacto”: Media e Performance na Construção da Identidade Nacional

 

Conclusão

A estação televisiva (RTPI) “met en scéne un discours sur la portugalité” e como “chaîne de souveraineté culturelle n’est pas anodin” (Cunha, 2009, pp. 17, 20). Posicionando-se enquanto “televisão pública portuguesaPosicionando-se enquanto “televisão pública portuguesa internacional”, produz necessariamente um recorte identitário pela selecção de conteúdos e agentes produtores.

A discussão sobre o papel dos media enquanto agentes que reproduzem ou, por outro lado, ajudam a re-configurar o estado nação e as identidades nacionais é extensa e permeia as discussões mais latas sobre nacionalismo e identidade nacional, como, entre outros, em Smith (1998), Gellner (1983), Hobsbawm (1990), ou Anderson (1983), sendo este último dos primeiros autores a enfatizar o papel dos media enquanto construtores do estado- nação. Mais tarde, numa conferência na Universidade de Amesterdão (1992) e também noutras intervenções, Anderson discutirá igualmente a importância dos media globais (televisão por satélite e internet) no panorama da pós-modernidade e no desenvolvimento de um nacionalismo à distância (Sapiera, 2010: 24). Estes media produzem ainda audiências transnacionais ou diaspóricas – “a different and larger category that exists beyond borders” (Sapiera, 2010: 105) – que se constroem geralmente pelo consumo de media produzido a partir do país de “origem” e que Sapiera (Ibidem) considera não se preocuparem com questões ou experiências localizadas no país de “acolhimento”, caracterizando-se por serem uma audiência generalista transversal a fronteiras nacionais que partilha uma moldura cultural.

O “Magazine Contacto” integra um canal televisivo que produz audiências que poderão ser caracterizadas a partir desta proposta, mas que ao ser produzido a partir das “comunidades” visadas leva ao enfatizar das questões locais, como se pode constatar na análise da sua produção e do seu conteúdos. Nesse sentido, ele é um produto diaspórico e híbrido, uma performance mediática que viaja entre diferentes escalas na sua exibição de uma “identidade nacional à distância”

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